quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Viva a vitória dos indios Guarani-Kaiowa

Publiquei no dia 27 de outubro o litigio que marcou a disputa de terra envolvendo fazendeiros do Estado do Mato Grosso e os índios Guarani-Kaiowa. 

Ontem, o ministro da Justiça José Eduardo Cardoso assinou uma petição a favor dos índios, ou seja, o governo federal entrou no processo litigioso a favor da questão indígena.

Essa é uma demonstração da força da mobilização nacional, da força das redes sociais. Sem pressão a sociedade não avança. 

Usemos a questão dos índios Guarani-Kaiowa, exitosa, ainda que caiba recurso, para avançarmos sobre os grandes debates e problemas nacionais. 

A sociedade ampliada, conceito gramsciano, é pensada a partir da lógica da sociedade civil mais o Estado,  o substrato que se relaciona como o conjunto entre o aparato burocrático do poder estatal pensada como consórcio, extensão da sociedade civil. 

Mas a luta não pode parar. Todos os dias precisamos fazer dos instrumentos que possuímos uma arma para avanços sociais. Não podemos esperar que o estado comande o processo de mudanças sociais.


abaixo, dois videos emocionados que marcaram o processo de luta :

 www.youtube.com/watch?v=h8HBMhNNHaw

www.youtube.com/watch?v=pu7VNsbdhPY
          

terça-feira, 30 de outubro de 2012

A necessidade de ampliação da educação formal no Brasil

Uma das características que diferenciaram a colonização espanhola na América da portuguesa, foi a implementação do ensino superior nos seus Vices-Reinos; as Universidades do México e de Lima foram fundadas em 1551.

Essa estratégia era uma forma de dominação pela cidade letrada de formação de quadros coloniais na administração do imenso território americano, no dizer do critico literário uruguaio, Angel Rama, em A cidade das letras.

Os portugueses não fizeram isso no Brasil. As primeiras faculdades brasileiras são do século XIX, já pós-emancipação politica. As faculdades de Direito do Recife e de São Paulo foram criadas em 1827. Os portugueses impediam até mesmo a formação da imprensa na colônia e controlavam a remessa de livros da Europa para o Brasil. 

A primeira Universidade propriamente dita no Brasil é de 1922, a Universidade do Brasil, atual UFRJ. Se a situação foi assim no ensino superior, quiçá no ensino fundamental. 

Até hoje, em pleno século XXI, ainda existem crianças fora da escola, não há creches suficientes para todas elas, professores são mal-remunerados, escolas caem aos pedaços, alunos agridem professores. Tudo isso é resultado da secular falta de investimento do estado na educação formal.

A educação formal no Brasil sequer conseguiu fazer o que a literatura fez com a Inglaterra na era vitoriana. Com a falência da religião, a literatura inglesa cumpriu um papel ideológico de apascentar os espíritos,  provocar um sentimento de orgulho nacional por conta da língua, levar o sujeito à introspecção, criar um  sentimento de elevação e legar a literatura à condição de status civilizatório, elemento de distinção social, segundo Terry Eagleton em Teoria Literária: uma introdução.

No Brasil, nos séculos XIX e XX poucas pessoas sabiam ler, a literatura era restrita a setores médios, a educação nunca foi elemento de ascensão social, muito pelo contrário, de descrença, afinal, estudar para que se não se enriquece nesse país pela via dos estudos? Além do mais, para a classe trabalhadora ver seus filhos irem para a escola era perder mão-de-obra para os afazeres domésticos. 

Sabem qual é o resultado de tudo isso? Somos um povo ignorante; jogamos lixo nas ruas; poluímos nossas praias; fraudamos nossas provas fazendo colas porque não estudamos; usamos de influência para conseguir o que queremos; não respeitamos os sinais de trânsito; aceitamos subornos e compra de votos; achamos bonito políticos roubarem e assaltarem cofres públicos; não temos consciência social politizada; nos deixamos levar por qualquer discurso redentor; pouco vamos às ruas para manifestações a favor de avanços sociais; nos distraímos com futebol; fazemos festa para tudo; sempre encontramos um "jeitinho" para conseguir o que queremos.

Ao olhar agora o resultado das eleições nas cidades brasileiras, embora tenha ocorrido um avanço de partidos de centro-esquerda em todo o país, ainda existe e resiste a perpetuação de filhos de oligarcas, políticos ligados à corrupção e outros a setores tradicionais, constata-se que ainda falta muito a fazer. Vou fazer minha parte como professor, vou continuar exercendo meu papel. Não desisto nunca da mudança.              

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Um balanço das eleições municipais no Brasil

O resultado das eleições municipais para os cargos executivos de prefeitos de cidades brasileiras, sinalizam um cenário de crescimento do PT (Partido dos Trabalhadores), não mais o PT ideológico, e sim, um extremamente pragmático, além do declínio acentuado do PSDB (Partido Social Democrata Brasileiro).

A derrota de José Serra (PSDB) na maior cidade e colégio eleitoral do país, São Paulo, e a consequente vitória de Fernando Haddad (PT), ex-ministro da Educação, conhecido nacionalmente pelo fracasso do ENEM (Exame Nacional do Ensino Médio - forma de ingresso nas Universidades), possivelmente inviabiliza a carreira politica de José Serra para as próximas eleições presidenciais, para o senado - a próxima legislatura terá apenas um senador -, bem como ao governo do Estado de São Paulo, a não ser que queira acirrar ainda mais o racha dentro do partido.

A vitória de Fernando Haddad em São Paulo, terceira economia do país, ficando atrás somente da arrecadação do governo federal, do governo estadual de São Paulo, mostra a força da liderança do ex-presidente Luis Inácio Lula da Silva, afinal, foi imposição dele dentro da estrutura partidária. 

No entanto, apesar do crescimento expressivo do PT em todo o pais existe uma região onde ocorreu o declínio deste partido: a região nordeste, exatamente aquela que elegeu Dilma Roussef na última eleição presidencial.

No Nordeste uma terceira força emerge, o PSB (Partido Socialista Brasileiro), elegendo o maior número de prefeitos nas capitais brasileiras, aparecendo como um partido de centro-esquerda, alternativa ao PT. Com esse partido surge uma liderança nacional, o Governador de Pernambuco, Eduardo Campos, ex-aliado de Lula e lançando uma chapa presidencial ao lado de Aécio Neves, do estado de Minas Gerais, do PSDB, possivelmente adversários ou de Lula ou de Dilma em 2014. 

O cenário para 2014 já está montado. Duvido muito que os caciques do PSDB, controlado a partir de São Paulo, permitam essa auto-promoção de Aécio Neves e, se não houver uma composição interna, o partido irá possivelmente para seu desfalecimento. O PSDB não tem novas lideranças para 2014, terá que reinventar-se. 

O PT, por outro lado, mostra sua força pragmática de renovação tentando desvencilhar-se do escândalo do Mensalão. Por hora conseguiu: fez sua perfumaria e sai sem grandes arranhões do maior escândalo de corrupção da história do país.

Em São Luis a vitória ficou por conta de Edivaldo Holanda Júnior (PTC - Partido Trabalhista Cristão) derrotando o ex-governador biônico e atual prefeito, João Castelo, do PSDB. Sua vitória está ligada a três fatores: a péssima administração de João Castelo, os votos dos evangélicos (escala crescente no Brasil) e o apoio da nova liderança politica do Estado, Flávio Dino (PC do B - Partido Comunista do Brasil).

Com a vitória de Edivaldo Holanda, Flávio Dino se credencia para ser candidato ao governo do estado em 2014, mostra a decadência da oligarquia Sarney - o candidato da governadora Roseana Sarney, Washington, curiosamente do PT, ficou em quarto lugar ainda no primeiro turno -, e o grupo que governa o estado há 40 anos perdeu nos principais colégios eleitorais do Maranhão.  

As peças do tabuleiro do jogo politico brasileiro começam a se mexer desde agora. O cenário político brasileiro é interessante.  

Para vocês que não são brasileiros, não se enganem quanto às legendas partidárias e o significado delas; Social Democracia; Trabalhadores; Socialista; Comunista, etc, aqui, do lado de baixo do Equador, as siglas não correspondem exatamente aos seus enunciados.                   

sábado, 27 de outubro de 2012

Não se enganem com o Brasil

Arrumo as malas para mais um circulo de conferências na Europa e gostaria de desembarcar no velho mundo levando boas noticias sobre as circunstâncias sociopolíticas brasileira. Não levo tantas boas noticias assim.

O mundo afora acompanha com entusiasmo o avanço econômico brasileiro, no entanto, tal avanço não traz consigo grandes modificações no panorama sociopolítico. Se por um lado retiramos 25 milhões de brasileiros da condição de pobreza extrema, aumentamos o número de mulheres em cargos de chefia e nos quadros burocráticos, aumentamos a entrada de brasileiros no ensino superior, por outro, possuímos ainda uma alta taxa de iletrados, os números da violência são altíssimos, a questão da saúde pública é caso de policia, a educação formal é uma das piores do mundo, há corrupção generalizada, uma verdadeira endemia.

Mas o pior é a constatação de que crescimento econômico não é sinônimo de amadurecimento politico. O clima de euforia que tomou conta do país trouxe consigo o abandono de velhas bandeiras ideológicas, o massacre de movimentos sociais, ou o silenciamento, o avanço do agro-business destruindo práticas comunais e  esvaziando demograficamente regiões inteiras do país, a judicialização de questões campesinas, o avanço do capital aumentando a percepção de que o pragmatismo politico é mais importante do que algumas bandeiras sociais.

Desmata-se grandes extensões de árvores neste país todos os dias, mata-se índios,  assassina-se negros nas periferias das capitais, compra-se voto a luz do dia em plena véspera de eleição. Aliás, isso merece um comentário à parte.

Às vésperas do segundo turno das eleições municipais em 50 municípios brasileiros, neste exato momento, bandeiraços e apitaços agitam as ruas, sobretudo das capitais. Militância politica? Quase nada, em geral, manifestantes pagos a R$ 200,00 por pessoa para vestirem camisas dos seus candidatos, plotarem seus carros e encherem os tanques de combustível na maior cara dura, sem nenhuma bandeira ideológica. É o jogo do toma lá da cá; faz-se campanha para quem pagar mais. Foi-se o tempo que a militância espontaneamente tentava convencer os indecisos a mudarem de opinião.

Esses são apenas alguns dos prejuízos de um crescimento econômico não vir acompanhado de um avanço consciente da cidadania. Os brasileiros ascenderam à condição de cidadãos pelo consumo, não pela construção de uma sociedade mais justa e equânime.

Não se enganem, aqui nem tudo são flores. Estamos muito longe de um verdadeiro desenvolvimento social.  

Salvemos os indios Guarani-Kaiowa

A luta não pode parar.

No século XIX, em pleno processo de invenção da nação brasileira pelo romantismo, os intelectuais filiados à essa corrente, foram buscar como inspiração e a aspiração à condição de brasileiro, um índio idealizado do século XVI, um Aimoré, resistente aos portugueses. Isso porque o índio do século XIX estava sendo dizimado Brasil afora no processo de expansão colonizadora - as chamadas colonias de ocupação e povoamento. 

O processo de expropriação dos índios brasileiros ocorreu desde a chegada dos portugueses no século XVI e nunca parou de acontecer, nunca. 

Quer sejam em confrontos com grileiros, posseiros, fazendeiros, garimpeiros, quer seja no processo de ocupação e construção de cidades, os índios brasileiros, apesar da proteção da FUNAI, historicamente vêm lutando pela permanência em suas terras.

Ai, me veem comentários cretinos do tipo: _ "Índios não merecem nada, afinal, traficam, vendem madeiras, ouro, e são civilizados como qualquer homem branco". Alto lá com a dor!! Uma coisa é dizer que não são mais ingênuos como no período colonial, a outra, é que sua lógica de inserção cultural é igual aos brancos devastadores da terra.

A questão é que o avanço do capital encontrou suas áreas de proteção, logo, eles aprenderam a lidar com as redes e relações de consumo, no entanto, isto não implica em dizer que suas áreas de proteção, suas ambiências, não devam ser respeitadas. Isso é o mesmo que dizer que todos deveriam ser "aculturados", "civilizados".

Agora mais um genocídio no Brasil avança e com o silêncio da imprensa nacional. A matança indiscriminada  dos índios Guarani-Kaiowa, no Estado Brasileiro do Mato Grosso, região centro-oeste, e, de fundo, a velha questão da terra.

Você que defende a questão indígena, por favor, brasileiro ou não, assine a petição em favor dos índios e ajude a encaminhar o pedido para a presidenta Dilma Roussef.

O site é:  http://www.avaaz.org/po/petition/Salvemos_os_indios_GuaraniKaiowa_URGENTE/?cYwbDbb

abaixo, dois vídeos, um sobre a manifestação no Rio de Janeiro sobre a defesa dos índios, outro, um desabafo da india guarani

 www.youtube.com/watch?v=h8HBMhNNHaw

e um video da manifestação www.youtube.com/watch?v=pu7VNsbdhPY
        

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Resquício da ditadura militar no Brasil: tentativa de controle da imprensa brasileira.


Estou indignado, simplesmente indignado!!! Assisti ontem ao programa comandado por Paulo Henrique Amorim que entrevistou o jornalista paraense Lúcio Flávio, condenado pela justiça 4 vezes por denunciar crimes de grilagem no estado do Pará, norte do Brasil. Fiquei me questionando quais os avanços entre um Brasil pós-ditadura militar e os dias de hoje, já que considero a tentativa de controle da imprensa no Brasil resquício do período de exceção no país.

Se o ano de 1985 marca o processo de “reabertura democrática” e a volta dos militares ao quartel, o ano de 1964 por sua vez marca a ruptura com o populismo em virtude do golpe praticado pelos militares. O período caracteriza-se pela participação do Estado na Economia, gestão e produção do sistema financeiro aprofundando a dependência mútua entre as estancias política e econômicas.

A partir do ano de 1974, em virtude da conjuntura recessiva internacional, conjugada por um arrocho salarial da classe trabalhadora e um descontentamento popular, inicia-se a crise brasileira, que opta pela abertura política constituindo assim no dizer das autoras Sônia Regina de Mendonça e Virgínia Maria Fontes na obra História do Brasil recente: 1964-1992: “em moeda de troca da opção pela recessão”.

No plano local, as oligarquias estaduais contavam com o apoio da industrialização para manutenção da estrutura ou estatuto da terra intocada. Os conflitos entre os setores urbano-industrial e agro-exportador e a manutenção deste último como estímulo à industrialização, poderia denotar a ambigüidade deste tipo de padrão de acumulação. Mas inversamente, a importação de equipamentos do exterior garantiria a implementação de um parque industrial. Parque Industrial este que no período Vargas condicionou o processo de substituição das importações, favorecendo o setor de bens de consumo corrente cujo capital era de origem nacional.

Já no período Kubitschek (1956-1961), houve o impulsionamento da produção automobilística decorrente da entrada de capitais estrangeiro (Plano de Metas), além do crescimento da indústria de eletrodomésticos. O Estado passa a depender do capital estrangeiro, incorporando tecnologia cada vez mais avançada, restringindo o capital nacional, pois era de menor porte, facilitando a concentração de renda. Tal modelo não se alterou a partir de 1964.

Este modelo de acumulação levaria o Estado brasileiro a uma crise. Crise que para alguns era determinada pela situação financeira, para outros, razões sociais e políticas. Maria Moraes aponta a crise como condicionamento da Estrutura capitalista brasileira apoiada no Estado brasileiro e no capital estrangeiro.

Esta crise é coadjuvada por uma nova conjuntura Político-Partidária ocasionando um problema de representatividade. Tal representatividade estava comprometida desde 1945, onde a redefinição partidária  dificultou a criação de Partidos regionais favorecendo a formação de amplas frentes, gerando uma hipertrofia ou amorfismo político. A nova composição representativa estabelecia voto majoritário para os cargos executivos e o Senado e a proporcionalidade para a câmara dos Deputados e Legislativo Estadual.

Os principais partidos criados oram: PSD - Partidos Social Democrático; PTB - Partido Social Brasileiro; UDN - União Democrática Nacional e o PCB - Partido Comunista Brasileiro, vivendo na clandestinidade. O relativo equilíbrio entre os Partidos denotava as diferenças ideológicas entre os Parlamentares. As reformas de Base clarificavam as contradições da classe dominante. Além disso, o antagonismo entre o Executivo e Legislativo impediam a condução política no país. O principal embate era: as reformas de base e a luta antiimperialista.

E hoje, qual é a pauta da agenda politica brasileira? Vamos tocar na questão da judicialização de problemas como a grilagem, a tentativa de silenciar a imprensa, incluindo blogueiros? O julgamento do mensalão demarca uma nova etapa da transparência das questões do legislativo federal no país? Duvido muito, apesar dos avanços. No Brasil afora, o pau canta e feio.

Enquanto houver a dependência dos legislativos estaduais em relação aos governos estaduais e dos legislativos municipais em relação às prefeituras, compra de voto, barganha, pressão política, ameaça de demissão, serão práticas durante muito tempo vistas nesse país.

No Maranhão, prefeitos eleitos já anunciam demissões dos quadros administrativos sem levar em conta o critério da competência, apenas o fato de “ser do outro lado”. Todo período eleitoral é assim: o clima de terror se instala por essas bandas. Mas, não estamos numa democracia?  
           
Presto minha solidariedade ao jornalista Lúcio Flávio e gostaria que as pessoas nos 36 países que leem o meu blog divulgassem informações acerca da tentativa de silenciar pessoas que fazem denúncia no Brasil. Não se enganem, as coisas aqui ainda são terríveis.   



quinta-feira, 25 de outubro de 2012

História e Memória nº 2


Não se afobe, não
Que nada é pra já
O amor não tem pressa
Ele pode esperar em silêncio
No fundo do armário
Na posta-restante
Milênios, milênios no ar

E quem sabe então
O Rio será
Alguma cidade submersa
Os historiadores - escafandristas virão
Explorar sua casa
Seu quarto, suas coisas
Sua alma, desvãos
Sábios em vão
Tentarão decifrar
O eco de antigas palavras
Fragmentos de cartas, poemas
Mentiras, retratos
Vestígios de estranha civilização

Não se afobe não
Que nada é pra já
Amores serão sempre amáveis
Futuros amantes, quiçá
Se amarão sem saber
Com o amor que um dia
Deixei pra você.

(Futuros amantes, Chico Buarque. 1993. Paratodos)

Imaginem a seguinte situação: num futuro inexato a cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro foi inundada por uma razão desconhecida. Muito milênios depois mergulhadores de uma civilização que não teve contato com o Brasil, muito menos com o estilo de vida dos moradores do Rio de Janeiro ou de Niterói, exploram as profundezas no intuito de tentar entender o modo de vida dos moradores destas cidades. Como não há sobreviventes, precisam tentar recompor cenários a partir de fragmentos. Eles recolhem cartas, retratos, armários, posta-restante e se perguntam quem eram aqueles moradores, como pensavam, como se amavam, por que poetizam, como viviam, etc ?

Usei a música do cantor e compositor Chico Buarque como analogia para tratar de algo tão caro aos historiadores: a tentativa de resgate do passado. Assim como os sábios da canção em vão tentarão decifrar os ecos de antigas palavras, fragmentos de cartas, é o ofício do historiador que utiliza os documentos na tentativa de resgate de um modo de vida que se perdeu para sempre. Os que os historiadores fazem é a partir da composição de documentos, lançar perguntas ao passado, tentando recriar cenas e interpretar o estilo de vida de nossos antepassados. Às vezes é em vão. A falta de documentos, de esclarecimentos sobre o período, de compreensão sobre a época, mais nos afasta do que nos aproxima do passado. Portanto, aquilo que se diz sobre o passado não é a exatidão sobre ele, é uma aproximação, uma representação de como possivelmente viveram os nossos ancestrais. Aproximação e representação que pode ser refletida por todos aqueles que se debruçam sobre a difícil tarefa de vasculhar o passado de qualquer civilização, cultura, povo, grupo étnico, aglomeração humana, classe social, entre outros, distante ou próxima, ontem ou hoje.

Para Eric Hobsbawn, historiador social inglês, a história não pode resolver os problemas que a humanidade enfrentou no fim do milênio e enfrenta neste início. A história não faz previsões e nem sabemos para onde estamos indo. Só sabemos que a história nos trouxe até este ponto.

O tempo é elemento fundamental ao estudo da história. Norbert Elias afirma: o tempo não se deixa ver, tocar, ouvir, saborear, nem respirar como um odor. Mas, apesar de aparentemente abstrato, o tempo é uma vivência concreta e se apresenta como categoria central da dinâmica da história.

A história trabalha com a sucessão linear de fatos e simultaneidade social. O passado apresenta-se como vidro estilhaçado de um vitral antes composto por inúmeras cores e partes. Buscar recompô-lo em sua integridade é tarefa impossível. Buscar compreendê-lo através de análises dos fragmentos é desafio possível de ser enfrentado. É função da história e da memória tal tarefa.

Para Boaventura de Sousa Santos afirma que a função da história e da memória é evitar que o ser humano perca referências fundamentais à construção das identidades coletivas que ajudam o homem no auto-reconhecimento como sujeito de sua história.

Para o poeta Poulet, graças à memória, o tempo não está perdido, e se não está perdido, também o espaço não está.

Mas história e memória não são a mesma coisa.

Toda a consciência do passado está fundada na memória. Através das lembranças recuperamos consciência dos acontecimentos anteriores, distinguimos ontem e hoje e confirmamos que já vivemos um passado.
O ato de lembrar consiste em:
-     reacender e reviver sonhos e utopias;
-    reconstruir atmosferas de outros tempos;
-    relembrar hábitos, valores e práticas;
-    reacender emoções de diferentes naturezas individuais, sociais, políticas, culturais;
-    relembrar convivências mútuas;
-    representar e reativar correntes de pensamento;
-   reconstruir climas de religiosidade, de lazer, de companheirismo, de lutas.

Memória é evocação do passado, estabelecimento de nexos, afirmação de identidades, atualização do passado no presente, enquanto história é produção intelectual do saber, práxis interpretativa da realidade, reflexão sobre si mesma, área do conhecimento sujeito à verificação, espaço institucional do saber, produto social, conjunto organizado de produção de memória, narrativas que se contrapõe ao efêmero.

Para Pierre Nora o criticismo da história destrói a memória. No entanto, ambas são antídotos do esquecimento e também espaços de poder, ser portador de um tipo de memória é ser senhor da história, conforme Jacques Le Goff. A história tanto pode ser destruidora da memória quando reguladora desta, quando retira o caráter espontâneo e a transforma em história institucional, quando cientificiza a espontaneidade. Mas também a alimenta; quando enriquece as representações possíveis da memória; fornece símbolos e conceitos para que a sociedade pense sobre si mesma; recupera e difunde a memória; reativa as lembranças através da narrativa.

História e memória se nutrem, mutuamente, ou como diria Eric Hobsbawn: o ofício do historiador consiste em lembrar às pessoas aquilo que elas já esqueceram.                   

   

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

La Cencerrada e o 2º turno das eleições municipais em São Luís



Edward Paul Thompson, historiador inglês, na obra Costumbres en Común, precisamente o capítulo sobre a Cencerrada, envereda pela luta de classes em meio às tradições, ritos, buscando na Antropologia a observação do comportamento coletivo traduzidos na festa. A partir daí valoriza os aspectos culturais enfatizando a resistência social numa sociedade em transformação.

La Cencerrada era outra definição à forma inglesa do rough music, espécie de manifestação social através de ritos acompanhados de música, sons, encenação de um ritual de hostilidade a todos que, de uma forma ou outra, transgrediam normas sociais estabelecidas.

Tais manifestações se corporificavam em teatralizações jocosas usando palavras hostis, queima de símbolos locais, passeio de pessoas em mulas cuja moral estava em questão.  O casamento com fidelidade conjugal dubitável era um dos alvos preferidos desta manifestação, ou, alusão às pessoas de comportamento sexual “duvidoso”.

A mulher, sempre vítima deste processo vexatório, característica comum em sociedades de modelo patriarcal, tinham nos símbolos que lembravam sua figura o ápice de sua “infidelidade” (skimmington).

Thompson assinala que em Grã-Bretanha estas manifestações tornavam notório uma insatisfação popular mantendo dessa forma a circularidade, ora de contestação do status quo, ora assumindo posturas “conservadoras”. Isto sem dúvida era uma forma de auto-regulamentação social, provavelmente surgido a partir do declínio dos Tribunais Inquisitorias Eclesiásticos.

A organização “informal” da Cencerrada, pautada às vezes na violência, motivada na regulamentação da sociedade, alimentava-se da informação da intimidade do outro, descoberta do outro; representado nas ações de adultério, anti-decoro comercial, maus tratos aos filhos, etc, chegando às vezes a vitima ao auto-exílio.

Enfocando a comunicação gestual como envio de bilhetes, cartas anônimas, cartazes como forma de intimidação, Thompson centra no medo da relação entre a Plebe e Aristocracia as lutas sociais.

Estas manifestações estão situadas na órbita da antecedência dos grandes movimentos políticos sociais, no “primitivismo pré-político”, por isso o declínio da Cencerrada esteja provavelmente conjugada com a diminuição do poder masculino em razão das transformações econômicas, alavancadas pela modernização das formas de produção agrícola e industrial e o paulatino crescimento da mão-de-obra feminina (talvez isto explique o desaparecimento de manifestação como a Cencerrada em sociedades atuais).

Usei Thompson e a Cencerrada como contraponto a baixaria que a campanha politica tomou em pleno século XXI. Ao ler as manchetes dos jornais ontem acerca do 2º turno das eleições municipais na cidade de São Luís, fiquei me perguntando se de fato já evoluímos politicamente e se questões pessoais já foram superadas, a tal ponto que não sejam necessários baixaria, tanto disse-me-disse para se ganhar uma eleição. O que os jornais mostraram ontem foi uma verdadeira Cencerrada em São Luís, a forma mais baixa e vil para se atingir um fim.

A divulgação de um vídeo sobre uma "suposta" formação de uma milicia militar em favor da campanha do candidato Edivaldo Holanda, PTC, líder na pesquisa, feita pelo seu adversário, atual prefeito da cidade, João Castelo, PSDB, coloca em xeque a razoabilidade, o decoro e até mesmo a lucidez. 

Esse tipo de estratégia só mostra o quanto ainda a democracia brasileira mais lembra uma arena sangrenta, um vale-tudo, onde até mesmo Anderson Silva, o grande spider, se recusaria a lutar, ele é ético, justo, e só vence por sua técnica, alguns políticos brasileiros sequer sabem o que é ética.   



terça-feira, 23 de outubro de 2012

Carta a Frederico


Frederico, meu filho.

A essa altura se estiveres lendo é porque teu tio Augusto cumpriu a promessa de fazer chegar essa carta em tuas mãos. Estás dentro de um ônibus “em busca de um sonho intranquilo”. A paisagem passa ao largo e as janelas parecem uma tela de cinema em que tua vida é o roteiro. Talvez imagens de infância, talvez do hoje, do ontem; a última trepada com Antonia; o quase filho com Juliana; as brigas com Raimundo; teu nome sujo na praça por causa de dívidas, culpa de Bernadete; a velha ribeira; os temores do agora e os do porvir.

Estás numa estrada que ao final não sabes onde vai dar, é para saber? Para que o controle da vida nas mãos? 

O giro do motor ronca, a velha cidade que te viu crescer vai ficando para trás. Anseio, medo e expectativas começam a dominar o teu horizonte. Como sei disso... Bem, fiz isso a vida inteira, e cada vez era para sempre. A terra toda era meu horizonte: a bagagem e uma vontade danada de abraçar o mundo. Mas cada vez era para sempre, sem saber que para sempre, sempre acaba, como diria Renato Russo.

A tua decisão é arriscada, ousada, perigosa, e o velho poetinha dizia que são demais os perigos dessa vida, mas mais arriscado e ousado é não ousar, não transgredir, nem romper as sendas e vendas que obnubilam nossa visão. Viver é cheio de viver, a vida... Dentro dela tem mais vida. E mais vida.

Eu não sei escrever como tu. Tenho por ti muita admiração. Gostaria de escrever em verso, mas só arrisco as prosas. Acho que isso tem a ver com a forma como vejo a vida; outrora como uma linha histórica em que quereria eu pontuar os marcos lancinantes de minha vida, agora, como um roteiro de cinema... Ah, cinema... Como sou frustrado por nunca ter escrito um roteiro. Ah! Também tenho a frustração de não ser literato. Tento fazer de minha escrita um tom de veleidade, mas quá... Não dá... Não é a mesma coisa.

Me levantei para pegar uma taça de vinho. É um vinho branco chileno, uva sauvignon. Não gosto de vinho branco, acho porque penso ser enófilo e enófilos como eu não gostam de vinhos brancos, consideram de menor qualidade e não tão tradicionais, mas tem um português branco chamado...  Me esqueci. Acho que não gosto também porque vinhos brancos me lembram o período de penúria em que eu e tua mãe passamos em Urubamba. Essa eu nunca te contei. Como eram mais baratos que cerveja, quando eu e ela queríamos encher a cara e esquecer a vida, comprávamos aqueles alemães liebrefraumeche (acho que a grafia está errada, que em alemão quer dizer o beijo da mulher amada). Já estudaste uma vez alemão e então deves saber que em alemão uma única palavra pode significar uma frase inteira. Nunca te contei das penúrias de vinho em Urubamba. Aliás, sobre muita coisa não conversamos.

E tu dentro desse ônibus pensando no que te espera. Vai meu filho, pois que a sanha de qualquer retirante é a estrada, e o que seria das estradas sem os retirantes. Nessas horas me lembro de Sêneca que dizia que pensava com os pés.

Viver é bom, mas sonhar é melhor. Sou feliz, a noção de felicidade é uma conotação que se dá para os sonhos que se idealizam e supostamente se realizam. Realizar é importante, mas só se realiza se se deseja. O desejo é impulso, a realização é morte. “Morre” em Maputo: ama, chora, bebe, lê, realiza, deseja, deseja de novo, faz, porque o que é para sempre nunca mais estará te esperando.

Quanto a futuro, o que te impede? Nada, a não ser tu mesmo. És maior que tu mesmo. Olha para a estrada, porque a próxima parada não precisa levar a nada.                                                     












segunda-feira, 22 de outubro de 2012

O delicado equilibrio politico da América Latina: golpes, populismos e reeleições

O cantor brasileiro Caetano Veloso na sua música Podres Poderes disparou:

Enquanto os homens exercem seus podres poderes/matar de fome de raiva e de sede/são tantas vezes gestos naturais...... será que nunca faremos senão confirmar a incompetência da América Católica/ que sempre precisará de ridículos tiranos?  

No artigo intitulado Ser latinoamericano (publicado em 26 de junho de 2012 neste blog) acerca do golpe de estado que retirou o presidente Fernando Lugo do poder no Paraguai, dissertei acerca do que considero os três conceitos definidores do que vem a ser a América Latina: o etno-histórico, o geo-político e o cultural.

O conceito etno-histórico deita lógica na origem ibérico-católica, ou seja, os países que foram colonizados por Portugal e Espanha, excetuando-se Caribe, Guiana Francesa, Inglesa e Holandesa. 

O conceito geo-politico assenta-se na definição de todos os países da América, excetuando-se os do Norte, México, Estados Unidos e Canadá.

E o conceito Cultural, que leva em conta os países das três Américas, excetuando-se Caribe e Brasil. 

A questão acerca da problemática definidora do que vem ser a América Latina encontra-se na sua origem, o projeto pan-americano desenvolvido por José Marti e Simon Bolivar. Não tardou para tal projeto não lograr êxito em virtude da fragmentação politica do continente pós-emancipação das ex-colônias, corroborado pela intervenção inglesa, dos Estados Unidos e a formação do império brasileiro, caso único no continente.

Com a fragmentação política, oriunda das lideranças crioullas, o autoritarismo passou a ser uma marca da região. O modelo brasileiro de projeto de nação assentado na escravidão garantiu a unidade territorial, mas dificultou a integração da região, vide o lastimoso e lamentável episódio da tríplice aliança (Brasil, Argentina e Uruguai) massacrando o vizinho Paraguai na famigerada Guerra (1864-1870). 

A origem do autoritarismo está no processo de independência dos países da região assentada nas lideranças crioullas não alterando a ordem vigente de antes da emancipação política. O liberalismo na América Latina, ao contrário dos E.U.A, foi extremamente conservador. As elites locais temiam as revoluções e para agravar o caso de fragmentação politica o império brasileiro anexou o vizinho Uruguai. 

Destarte, predominou a partir de então oligarquias locais e o caudilhismo usou a violência como estratagema de manutenção do poder. No Brasil, prevaleceu o poder dos coronéis, nosso caudilhismo. 

A ausência de poderes institucionalizados constitucionalmente foi agravado com a implementação de projetos pré-capitalistas na região sob a alegação da organização econômica. As elites econômicas começavam a fragmentar o poder das lideranças locais, muitas vezes aliando-se a elas.

Aparecem os enclaves da região: Buenos Aires, Rio de Janeiro, La Paz, Santiago, Montevidéu, etc, com a estratégia de alijamento de determinados setores sociais: índios, negros e mestiços.  

Aliando projeto econômico de determinados setores e passado de lideranças locais sem poderes institucionalizados, o século XX assistiu o nascimento de um novo fenômeno politico: o populismo, caso emblemáticos como os da Argentina: Juan Péron e Evita, e Brasil: João Goulart. 

Como se constituíram enquanto obstáculos a grandes projetos oligopolistas internacionais, o populismo foi derrotado por sucessivas ditaduras, a da Argentina começa em 1963, quando os militares recusam a reconhecer a vitória dos peronistas nas eleições municipais. A ditadura Argentina só terminaria em 1982 com Raul Alfonsim, quando os militares são derrotados na Guerra das Malvinas contra a Inglaterra.

A ditadura se espalha pela região: Brasil, Peru, Uruguai e a mais sangrenta, Chile, com Pinochet, assassinando no palácio de La Moneda Salvador Allende. Cuba é exceção na região com uma revolução socialista liderada por Fidel Castro. 

Assistimos recentemente problemas com Hugo Chavez na Venezuela, problemas diplomáticas entre a Colômbia e a Venezuela, problemas em Honduras, com Evo Morales na Bolívia, com Cristina Kischiner na  Argentina, e agora com o Paraguai.  

Infelizmente, apesar do famigerado conceito de democracia, equivocado e distorcido, a América Latina ainda não é uma região que se possa afirmar peremptoriamente que a democracia está consolidada. Existe um delicado equilíbrio politico onde vez por outra ventila-se golpes, ressurgimento de populismos e problemas diplomáticos. 

A América Latina não precisa de ridículos tiranos, e sim, de uma unidade cultural, uma consciência de que somos uma única região, com suas peculiaridades       

                   

domingo, 21 de outubro de 2012

Quais os projetos de poder no Brasil?

As eleições municipais no último dia 07 de outubro revela que o Brasil está mudando rapidamente no que diz respeito a perspectiva politica. O resultado extremamente conservador das urnas tanto nas capitais, quanto nos interiores, demonstra que o brasileiro mais do que nunca abandonou velhas trincheiras ideológicas e se pragmatizou. 

A polaridade entre PT e PSDB na disputa do cenário politico nacional por si só demonstra isso. Não há tanta diferença nos jeitos de governarem desses dois partidos, exceção quanto algumas agendas pontuais do PT, fruto de um partido que já defendeu uma bandeira de esquerda.

Aliás, esquerda e direita no Brasil mais do que nunca perdeu o sentido. Nem mesmo a eleição de Dilma pode indicar que tivemos uma guinada para a esquerda. Se por um lado eleger pela primeira vez uma mulher ligada às antigas militâncias comunistas demonstra um avanço quanto a perspectiva politica, por outro, sua eleição está vinculada ao carisma de Lula e a perpetuação de um projeto econômico que "deu" certo nos últimos 08 anos. Ou seja, simbolicamente Dilma representa uma mudança de paradigma politico eleitoral, por outro, um certo pragmatismo econômico.

Basta ver nossa agenda social. Os movimentos sociais perderam força, não por culpa de Dilma, mas pela força do capital, mais do que nunca pautando o chamado desenvolvimento nacional, vide o resultado das eleições municipais.

E nossa agenda ecológica? A aprovação do código florestal por si só conota o quanto o agrobusiness dá as cartas nesse país. E que fique claro que o problema do agrobusiness é que o ele faz com comunidades tradicionais, áreas históricas de preservação, práticas familiares e com paisagens, outrora dominadas por áreas verdes com a diversidade da flora brasileira.  

O Brasil cresceu e se desenvolveu sem ter passado por uma grande revolução social. Isso tem consequências. Prevaleceu no Brasil uma modernização conservadora, ou seja, a despeito de grandes e profundas alterações sociais, no horizonte venceu o projeto de poder das elites, as mais mesquinhas e estúpidas de todo o mundo, pois seus projetos de poder nunca levaram em consideração um retorno para a população, apenas para si mesmas.

O resultado das últimas eleições sinalizam o cenário eleitoral para 2014, ano da copa do mundo. De novo o que aponta no horizonte não é se teremos profundas alterações na distribuição de renda, no avanço de movimentos sociais com uma agenda positiva, e sim, quais os grupos políticos que terão a capacidade de melhor gerenciar a gastança de dinheiro público com grandes eventos como a Copa do Mundo e as Olimpíadas.                       

sábado, 20 de outubro de 2012

Alaridos nº 2

 Estampidos altíssonos irrompem sob a tenda,
a pesada atmosfera abafada rebate o calor que transpira
de todas as pernas,

ancas vestidas escorrem o suadouro vertiginoso pingando na passarela,
dos transeuntes que rugem e gritam por onde passam,

as descobertas de quem procura os mistérios,
que depois de revelados deixam de ser milagre e viram ciência,

a aglomeração aumenta a agonia da falta de ar
dos que disputam espaço em busca das invenções que estavam encobertas,

os alardes são como estampidos a retintar os passos dos que andam sem pressa
da falta de espaço,

o observador atento registra o pra cá e pra lá em busca da ciência,

nem o calor nauseante impede a busca constante por uma chance lanciante
que retira o não saber de sua condição ignorante,
jogando os passantes para a situação dos descobridores,

talvez de si, de ninguém,
do tudo, do nada, da ampulheta, da pepeta,
da parafuseta, da cabeça de quem inventou tudo o que está sob esta tenda,
provocando os estampidos altíssonos ensurdecedores...

aqui também Ele ainda não se reconhece
totalmente








sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Césaria Évora: a doce voz de Cabo Verde

Para Minha irmã Bete


Regresso

(Poema de Amilcar Cabral, música de José Agostinho)

Mama velha vem ouvir comigo

O bater da chuva lá no seu portão
É um bater de amigo
Que vibra dentro do meu coração

Venha mamãe velha vem ouvir comigo
Recobre as forças e chegue-se ao portão
Que a chuva amiga já falou mantenha
E bate dentro do meu coração

A chuva amiga mamãe velha
A chuva que há tanto tempo não batia assim
Ouvi dizer que a cidade velha
A ilha toda em poucos dias já virou jardim

Dizem que o campo se cobriu de verde
Da cor mais bela porque é a cor da esperança
Que a terra agora é mesmo o Cabo Verde
É tempestade que virou bonança

A música nos adentra e nas nossas lembranças faz morada. Tem algo de sinestésico nas canções; nos reporta a sensações e episódios já vividos, nos retira de nosso estado de espírito, nos arrebata e nos joga para uma outra dimensão. 

Eu cresci ouvindo “Regresso”, na voz de Alcione. Quem sempre cantarolava era minha irmã Bete, a mais velha. Não entendia bem a letra, mas gostava muito da sonoridade. 

Muitos anos depois, morando no Rio de Janeiro, aquecendo para uma apresentação de tambor-de-crioula da Companhia de danças Mariocas, os irmãos gêmeos Rômulo e Ramon colocaram um dvd sobre Cesária Évora. Automaticamente me lembrei de minha irmã, de Alcione e de minha infância. 

O que era ainda mais curioso é que a apresentação aconteceria na Faculdade Santa Úrsula  no Rio de Janeiro – que contem um contingente razoável de estudantes caboverdianos –, para o presidente daquele país. 

Após a apresentação, tive o deleite de conversar com os caboverdianos e aprender mais sobre sua cultura. Não faltou, claro, nas conversas a figura de Cesária Évora, minha porta de entrada sobre aquele país composto de 10 ilhas.  

A letra da música, poema do fantástico Amilcar Cabral e música de José Agostinho, foi uma das portas de entrada de Cesária Évora no Brasil, pela voz de uma também negra, na verdade marrom, Alcione. Essa música é uma das responsáveis pelo conhecimento da sonoridade da voz mais conhecida de Cabo Verde. 

Cesária faleceu em 17 de dezembro de 2011 em Mindelo, Cabo Verde, seu local também de nascimento, tendo seu corpo enterrado ali, onde a chuva após lavar a terra verde cobriu os caboverdianos de esperança, afinal, tal cor está no nome de seu país, e o túmulo de Cesária Évora virou um imenso jardim, vibrando os corações, leia-se, o centro das 10 ilhas caboverdianas.

















quinta-feira, 18 de outubro de 2012

A cura da Aids (SIDA)

Em 2006 correu mundo noticias acerca de estudos bastantes desenvolvidos sobre o tratamento e cura da AIDS (SIDA) na Nigéria, continente africano. 

O médico Jeremiah Abakala vem desenvolvendo estudos com plantas medicinais e ervas locais, e os resultados são animadores. 

A Nigéria possui a maior população de soros positivos do mundo, e exatamente lá não há patrocínio ou investimento no tratamento da doença, sequer a devida cobertura da imprensa internacional.

Se esse médico for um charlatão, divulgar suas pesquisas, mostrar seus métodos e resultados seria uma forma de desmascará-lo. Se forem verdadeiras suas alegações o mundo daria um grande passo na erradicação da doença.

Quem pressiona para a não divulgação do tratamento? Os grandes laboratórios internacionais? Os governos dos países que recebem recursos da ONU? Quais as reais motivações? 

Atualmente, o tratamento padrão contra HIV/Aids é feito com o coquetel de drogas. Essa combinação de medicamentos mantém as pessoas saudáveis porque impede a replicação do vírus no sangue, mas não cura em definitivo, porque o vírus HIV fica escondido dentro das células em estado latente.  

Entretanto, se o tratamento for suspenso, em menos de uma semana o vírus volta a se multiplicar, e se a imunidade do infectado estiver baixa, qualquer outro vírus ou bactéria oportunista pode fazer o maior estrago, muita das vezes pode até levar o individuo a óbito.

As ervas Nigerianas supostamente quebram a latência do vírus, que começa a se multiplicar e sai das células onde estava “escondido”.   

Eu tenho um amigo há 20 anos, infectado pelo HIV há 07 anos, que está fazendo o tratamento. Se ele negativar o virus, vou divulgar aqui nesse blog.    


Abaixo, segue três links que abordam a questão. Espero que organismos internacionais investiguem a fundo o caso. Não custa nada.     





http://news.bbc.co.uk/2/hi/world/africa/740523.stm

http://www.nairaland.net/mobile/thread.php?topic_id=686

http://www.word-power.co.uk/books/the-first-decade-of-safe-amp-effective-hiv-vaccines-I9781607411437/




quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Peru: herança pré-colombiana

Todos os lugares do mundo são inusitados, cada qual com sua peculiaridade. Em cada região uma semiologia do lugar a ser feita, gostos a serem provados, paisagens a serem observadas, impressões a serem marcadas. 

Nenhum lugar me marcou tanto quanto o Peru. É simplesmente divinal. A chegada de avião sobrevoando os Andes com partes cobertas de gelo, a parte cinzenta já próxima da capital, Lima - por sinal, um lugar excitante à parte -, menos que o restante do país, claro. 

Lima possui 19 milhões de habitantes, muito parecida com São Paulo, pero no mucho. Peru é incaico, logo, seus habitantes são descendentes do povo imperialista pré-colombiano que deixou marcas indeléveis naquela fantástica gente. 

Seus distritos são muito característicos. Muito me apraz o de Barranco, local onde viveu Chabuca Granda (autora de Fina Estampa) e onde Mario Vargas Llosa escreveu La cuidad e los Peros. Ao lado do distrito de Miraflores, Barranco fica em frente ao Pacifico, majestoso, imponente, gelado. 

Nesse distrito guardo uma história triste. Certa noite quando sai para jantar, após ter bebido pisco em alguns bares, me dirigi aos restaurantes em frente ao mar. Deparei-me com Antonio, empregado encarregado de levar turistas para os seus devidos estabelecimentos. Convidei-o para jantar comigo, assim o fez. Foi quando me contou de sua triste história. No terrível terremoto de 2006, quando morreram cerca de 200.000 peruanos, sua mulher e seus dois filhos foram suas vítimas na cidade de Arequipa. Viúvo e completamente desamparado, mudou-se para Lima onde tenta convencer turistas a comerem no restaurante que trabalha. Depois fui a uma boate onde conheci Rogélio, peruano da gema e conversamos sobre politica. 

Em Miraflores há um conjunto piramidal no meio do distrito, se chama Huaca Pucllana, conjunto arquitetônico pré-incaico, construído pela cultura Wari.

Há 40 km do centro de Lima fica a cidade dos reis, Pachacamac, um conjunto arquitetônico colossal onde cultuavam o deus-sol, Inti.

Mas, nada se compara ao interior do Peru, inigualável. Só conheci o vale sagrado, as cidades de Machu Pichu, Ollantaytambo, Urubamba, Maras, Morai, Chincheiro, e Cuzco, umbigo do mundo.

Em Chincheiro tentei participar de um culto xamanico, as campônias que organizam o culto disseram ao meu guia falando em Quéchua que eu especificamente e especialmente não deveria e não poderia participar. Tentei argumentar, em vão.  

Peru está num processo de transição entre uma modernização acelerada e os conflitos acerca da preservação das tradições. O conflito entre essas questões estão latentes. O Brasil por exemplo, que para o bem e para o mal ingressou nessa lógica da modernização conservadora, parece ser uma sociedade mais amorfa que a peruana. Só não sei ao certo como os peruanos irão conduzir esse processo, quais as sequelas, consequências, rupturas e permanências.

Enquanto isso, vale a pena sentir-se latinoamericano dentre um dos povos mais fascinantes da terra, esquecer por alguns momentos a lógica acelerada do capital e voltar no tempo, no tempo dos descendentes dos povos pré-colombianos.

Eu vou voltar ao Peru.              

terça-feira, 16 de outubro de 2012

Iberismos

Mundos cruzados. Interconexões. Iberismos. O livro Transversalidades: Territórios, diálogos e itinerários ibéricos é um primoroso registro de textos e fotografias sobre as transformações por que passa a sociedade ibérica. 

Pautada no registro mnemônico dos costumes, hábitos da vida campestre, a obra percorre vilas e lugarejos cuja paisagem durante muito tempo permaneceu quase a mesma. Algumas ainda permanecem. 

Algumas vilas portuguesas, as chamadas vilas históricas, por conta do declínio econômico da atividade agrícola, vêm perdendo significativamente vidas para a cidade, constituindo-se hoje quase regiões fantasmas, sobrevivendo do turismo e até mesmo da chegada de estrangeiros para a fixação de residências. Existe em Portugal um processo de êxodo rural, agravado ainda mais pela grave crise que atravessa o continente europeu.

Esse processo de esvaziamento demográfico coloca em risco antigas práticas comunais, velhos costumes do país, assim como na Espanha.

A obra capta a essência do lugar. Primorosamente fotografado em preto e branco, à medida que se lê fica a dúvida se o registro é uma espécie de salvaguarda dessa memória, tentando preservá-lo ou o prenúncio de que ela será, além das memórias individuais, uma das poucas lembranças desse passado cada vez mais distante.

Parece-nos que a velocidade transformando hábitos e paisagens atingiu vilas e localidades dessa região. A migração de brasileiros para Portugal nos últimos anos até que iniciou um processo de reversão do êxodo rural, já que estudos sobre o campo constataram que brasileiros num processo de aculturação são um dos responsáveis pela fixação de pessoas nessas vilas, adaptando-se às práticas locais, constituindo matrimônio com portuguesas, gerando durante algum tempo o nascimento de novas crianças. Não se sabe ao certo o que acontecerá daqui para a frente quando os dados demográficos apontam que os portugueses desta feita fazem o caminho inverso, cruzam o Atlântico em busca de empregos no Brasil. Mundos cruzados.

Se esse processo se agudizar, a curto prazo não há saída econômica, o mundo se transforma numa dinâmica cada vez mais veloz, não se sabe o que acontecerá com esses espaços ibéricos. Se esse processo for irreversível, a obra Transversalidades será cada vez mais um registro primoroso de como eram essas paisagens.