sábado, 29 de junho de 2013

História ....Reflexões


Por Marcos Rogério Feitosa de Araújo


Registrar o passado. Eis aqui, talvez, o maior gênio humano desenvolvido e aprimorado desde os primórdios. Mas o que seria esse registro? Como seria produzido, por que e pra quê? Seria o homem, antes de um contemplador da natureza, um contemplador de si mesmo?  Seus registros seriam um aceno ao futuro ou seria a necessidade de saber de si a razão de ir à busca do passado? Tais indagações são pertinentes para que possamos fazer aqui uma breve discussão acerca da História, seus objetos e suas interpretações. Entretanto, começarmos pelos primeiros registros do homem, ainda nas cavernas, ou também com as primeiras produções, tidas como verdadeiramente históricas com Heródoto e Tucídides, a nosso ver seria um tanto precipitado para o escopo e para a natureza desse texto. Portanto vamos aqui nos ater, não de forma cronologicamente sequenciada, a algumas produções teóricas desde os iluministas até os historiadores da “Nova História Cultural”. 

E desde esses primeiros, o estudo da História vem tomando cada vez maior importância, talvez para a busca da compreensão de si mesma enquanto produção epistemológica, sua relação com seu objeto e seu compromisso com a sociedade. Porém, todavia, é no final do século XX que essa importância toma a sua maior proporção, haja vista a quantidade de produções históricas patrocinadas tanto pelas instituições públicas quanto pelas privadas. Mas tal constatação vem seguida de desafios concernentes à reconfiguração da forma de escrevê-la, ao crescimento expressante da noção de registro histórico, seus compromissos éticos e sociais enquanto ciência ou enquanto conhecimento que se relaciona com a ciência

“O programa do iluminismo era livrar o mundo do feitiço” (Adorno e Horkheimer), propondo uma nova interpretação do mundo. É razoável entender que essa nova hermenêutica seja a pretensão científica e racional, procedendo de forma inteligível e com plausibilidade lógica para formulação de hipóteses, voltada para a explicação do passado como ideia única rumo ao futuro promissor, ou ainda rumo à sociedade sem classe. E, ainda, “... deram um sentido novo a coisas que não tinham sentido. Na realidade, eles mudaram a natureza do signo e modificaram a maneira pela qual o signo em geral podia ser interpretado” (Foucault). Esses novos signos podem se entender como relações de poder. 

Em oposição a estes, a História, a partir de Lucien Febvre e Marc Bloch, começa apontar para outras preocupações relacionadas às idéias e a realidade social através de categorias e não influenciadas pelo determinismo. Também é possível notar que ao longo do século XX começa haver uma relação entre História e Literatura, isto porque se vê a primeira apoiada nas interpretações de textos que o passado deixa como vestígios no presente. Portanto, nessa perspectiva, não se pode haver uma verdade histórica absoluta, pois a demonstração cabal do passado será sempre mediada pela subjetividade de quem a produzir. 

Então, a História seria apenas uma fabricação? Estaria ela descompromissada com as práticas sociais? Acreditamos que não. Ao contrário, a História, em investigar o passado para encontrar respostas às novas exigências sociais, fez com que seus princípios epistemológicos se atualizassem se aproximando dos sujeitos sociais através de suas práticas e “representações” (Chartier). Daí as variadas orientações das Ciências Sociais (dois exemplos: Durkheim e Webber) e da Antropologia que foram incorporadas pelos estudos históricos de formas diferenciadas conforme as exigências teóricas e metodológicas de cada abordagem englobando desde as tendências da sociologia quantitativa, as abordagens econômicas e estruturalistas da Escola dos Annales até as novas teorias marxistas.

As diferentes abordagens teóricas da História ao longo do século XX têm como um dos pontos centrais saber qual é seu objeto e qual seria sua área de pesquisa diante da multiplicidade de sentidos dos vocábulos que constitui os objetos e, como estabelecer limites para o campo histórico de investigação, haja vista a “intradisciplinaridade e interdisciplinaridade” (Chartier) se multiplicarem no segmento da Teoria da História. Tomemos como ponto de partida a assertiva: “A história é uma narrativa de eventos: todo resto resulta disso” (Veyne). Os “eventos” aqui mencionados podem, perfeitamente, ser entendido como o próprio kaos, aquilo que se traduz em um caráter ilimitado da matéria no tempo e no espaço (entendamos matéria como a própria extensão do objeto histórico). 

Notemos que o evento não se destaca aos olhos do historiador por apenas ser fenomenológico, mas por ser produzido paradoxalmente por particularidades múltiplas, porque é a narrativa de alguém (por várias formas: documentos, crônicas, arte em geral e etc.) de um dado presente e que no instante da pesquisa já é passado podendo ser ou não complexo e corriqueiro. Então, o evento é o fenômeno das relações humanas transformado em fato histórico quando elencado pelo historiador para atender a seu discurso e logo sempre vai ser diferente, porque é o discurso que o individualiza e que o torna especial.

A fonte escrita é, sobretudo, um discurso. Por ser um discurso, é plurifacetal nas interpretações que lhe cabem. Ao ser produzido, o texto visa, obviamente, um alvo, seja ele individual ou coletivo. É claro que a carga de conteúdo varia conforme o público a que ele se destina. Uma carta pessoal não contém a mesma construção textual de um código de leis. Ambas, porém, têm seu valor, na medida em que respondem a perguntas diferentes do historiador. Mas o texto, sobretudo, revela nas entrelinhas o juízo e o valor que o autor fez a respeito do objeto que trata. É, antes de tudo, uma leitura que traduz uma visão particular sobre o tema abordado. E por isso seleciona, ao longo do tempo e de um determinado espaço o que lhe é de mais interessante, daí “o historiador nunca faz revelações tonitruantes, capazes de transformar nossa visão de mundo; a banalidade do passado é feita de pequenas particularidades insignificantes que, ao se multiplicarem, acabam por compor um quadro bem inesperado.” (ibdem). 

Portant, o é desse criativo construto que se estabelece o enredo da história, aquilo que se consubstancializa no discurso competente, aquilo que é apreendido pelos leitores e tomado como verdade. Há de se considerar também que as interpretações feitas a respeito dos documentos são tão incrustadas de caráter discursivo como os próprios documentos. Sendo assim, o profissional, como obra-prima das influências de seu tempo, deverá embutir idéias e preceitos quase organicamente alojados em sua formação intelectual e fazê-las reproduzir em sua própria interpretação. Infere-se, dessa forma, que cada obra guarde uma ‘marca metodológica’ do tempo em que ela foi produzida. Logo, na medida em que, por exemplo, a historiografia sobre um tema aleatório possa revelar o pensamento do historiador sobre o objeto de estudo, pode também trazer à luz elementos teóricos comuns à época daquele autor. Em suma, a historiografia também faz parte do estudo da História, portanto o documento quanto o que se escreveu sobre ele goza de juízos específicos, já que é produto do seu tempo.

Diante do exposto, podemos ainda acrescentar a esta abordagem o seguinte aspecto congruente que é tratar da palavra invenção dentro desse contexto e, possivelmente, podemos está convencido da sua inter-relação com a empiria no fazer histórico, porque mesmo que se tenham inúmeros entendimentos da palavra invenção acerca de toda a produção do conhecimento humano, percebe-se o quanto se correlacionam o objeto e o sujeito para constituição do conhecimento histórico por aquele que por meio exclusivo de sua subjetividade faz erguer-se como se fosse um conhecimento novo daquilo que é pesquisado. Logo a compreensão dessa invenção pode está ligada a ideia de ruptura, contrapondo-se a qualquer modelo que fez da História produto de um sistema que tem suas leis próprias, e que implicaria permanência e continuidade, evolução e desenvolvimento dos eventos e que tem significados constituídos, apenas por aqueles que o vivenciaram ou foram seus contemporâneos, os agentes dos eventos históricos, aqueles que deixaram seus vestígios. É como se o acontecer histórico fosse regido por uma essência, logo uma substância ou coisa que transcende as experiências sensíveis e que não houvesse nenhuma interferência do sujeito e sua subjetividade. Ao contrário, o fato histórico pode ser um conjunto de dados ou de eventos apreendido através da experiência, por intermédio das faculdades sensitivas (e não por meio de qualquer necessidade lógica ou racional).

A subjetividade é uma via de duas mãos entre o sujeito e objeto no fazer histórico e sua narrativa traz consigo uma carga semântica que é determinada pela cultura intrínseca de um e de outro, “Creio que cada cultura, quer dizer, cada forma cultural na civilização ocidental, teve seu sistema de interpretação, suas técnicas, seus métodos, suas maneiras próprias de supor que a linguagem quer dizer outra coisa do que ela diz, e de supor que há linguagem para além da própria linguagem.” (Foucault).

A partir dos anos 60 do século XX, o debate acerca de cultura tomou ainda maiores proporções. Esta afirmação é valida para a compreensão da contigüidade entre áreas de pesquisa e polissemia dentro da Teoria da História e a interdisciplinaridade entre a História, Ciências Sociais, Antropologia, Psicologia e Literatura. Mas para isso se faz imprescindível abordamos sobre a História Cultual e, portanto lancemos mão da, talvez, principal obra que aborda esse tema: “A história Cultural: entre práticas e representações”. De acordo com esta obra: “pode-se dizer que a proposta da História Cultural seria, pois, decifrar a realidade do passado por meio das suas representações, tentando chegar àquelas formas, discursivas e imagéticas, pelas quais os homens expressam a si próprio e o mundo” (Chartier). Ou seja, tudo que tem história, ou, antes, todos os laços simbólicos que convergem em um conjunto de códigos que podemos chamar de cultura é área de pesquisa da História Cultural, é o que constitui o seu campo de investigação. 

Todavia, o termo “cultura” é um tanto polissêmico a ponto de oferecer certa resistência à construção de um conceito menos teleológico e mais preciso para essa nova história. Entretanto, muito embora, tenhamos essa dificuldade léxica do termo, todavia nos parece um tanto quanto límpido à abordagem do seu objeto na prática, se não vejamos: “Em conseqüência, o objeto fundamental dessa história cujo projeto é reconhecer a maneira como os atores sociais investem de sentido suas práticas e seus discursos parece-me residir na tensão entre as capacidades inventivas dos indivíduos ou das comunidades e os constrangimentos, as normas, as convenções que limitam - mais ou menos fortemente, dependendo de sua posição nas relações de dominação - o que lhes é possível pensar, enunciar e fazer. 

A constatação vale para uma história das obras letradas e das produções estéticas, sempre inscritas no campo dos possíveis que as tornam pensáveis, comunicáveis e compreensíveis. ”(ibdem). Neste contexto, a História Cultural possibilitou o deslocamento epistemológico dos processos e estruturas sociais para estudar a cultura, na vivência do dia-a-dia. É por isso que verificamos a multiplicação de novos pontos de vista da sociedade e do homem, cujo escopo principal seria as produções de sentidos e das práticas culturais. Não se quer mais saber acerca da qual seria a razão de alguém viver sob determinadas condições sociais, mas saber de suas representações a partir de como se ver a si próprio e o mundo social na qual se encontra inserido. Destarte, o papel da linguagem vem ser mais um ponto central para essa discussão, porque através dela é que se revelam o objeto e o sujeito, pois quando se diz de outro se diz mais de si que do outro. Portanto, toda construção histórica acaba sendo também um falar de si. Nela está contida uma gama de valores, expressões que revelam: a origem natural, a origem social, a origem familiar, o segmento social, as relações de poder e micro poder, os amores, as utopias, as frustrações, a formação intelectual, os contentamentos de qualquer indivíduo (objeto e sujeito).

 Permitam-nos, a exposição de uma obra literária musicada para desfecho deste texto corroborando com o supracitado:

               “Não se afobe, não/Que nada é pra já/O amor não tem pressa /Ele pode esperar em silêncio/Num fundo de armário/Na posta-restante/Milênios, milênios/No ar/E quem sabe, então/O Rio será/Alguma cidade submersa/Os escafandristas virão/Explorar sua casa/Seu quarto, suas coisas/Sua alma, desvãos/Sábios em vão/Tentarão decifrar/O eco de antigas palavras/Fragmentos de cartas, poemas/Mentiras, retrato/Vestígios de estranha civilização/Não se afobe, não/Que nada é pra já/Amores serão sempre amáveis/Futuros amantes, quiçá/Se amarão sem saber/Com o amor que eu um dia/ Deixei pra você.”
                                                         (Futuros amantes, Chico Buarque de Holanda).
             
 É razoável perceber que nesta letra se encontra alguns dos problemas levantados, demonstrando, por meio de abstração, a relação entre o sujeito e o objeto, e as possibilidades de apreensão pelo leitor, dependendo da apreciação pelo mesmo e da construção de um discurso competente daquele que se propõe fazer do evento um fato histórico.


quinta-feira, 27 de junho de 2013

Sobre os rumos dos acontecimentos em São Luis


O movimento que tomou as ruas de outras capitais e também de São Luís entrou numa fase decisiva. Ganhou imenso espaço e avanços sociais, tais como: a redução da tarifa de ônibus em São Paulo, a “garantia” de não aumento das tarifas do pedágio para o estado de São Paulo, redução do preço das passagens em outras 10 capitais, derrubada da PEC 37, aceleração do processo de votação no congresso de pautas congeladas, uma nova forma de fazer politica - um claro recado aos partidos -, a convocação e ressureição de antigos movimentos sociais, uma capacidade de mobilização de jovens que nunca haviam participado de qualquer ato politico, a manifestação de indignação contra a corrupção, os gastos públicos desnecessários, o modelo de sistema representativo, dentre outras conquistas que ainda serão percebidas no decurso e ao longo dos tempos.

O processo está em curso, é difícil fazer análise ainda nos desdobramentos e no calor da luta, mas é necessário, sobretudo em relação à São Luís, cuja falta de unificação das passeatas trazem um aspecto positivo e outro emblemático ao movimento. Positivo porque despertou, tem despertado e mobilizado imensos segmentos sociais de várias regiões na cidade a demonstrarem suas indignações com o silenciamento em relação aos seus reclames. Trouxe para a ordem do dia cidadãos anônimos, ocultados pelo mascaramento de politicas públicas perversas (conceitualmente isto é um equivoco, pois se é perversa então não é politica publica, é desvirtuamento do sentido da politica), tem escancarado grandes feridas da exclusão social, fazendo ver as pessoas da cidade a imensa fissura existente numa das capitais mais excludentes e violentas do país.

O lado emblemático fica por conta exatamente da pulverização, foquismo das passeatas, ou seja, sua grande força contem também uma debilidade, haja visto que a cidade tem se transformado nas últimas duas semanas em palco de guerra entre nós, os manifestantes, e a policia militar, levando pessoas em vários segmentos a se questionarem o porque e qual o sentido dessa “pulverização”. Vamos lá.

Uma das características desse movimento se constitui pela falta de liderança, pela nova forma de convocação e mobilização social, excelente, no entanto, essa modalidade começa a mostrar sua debilidade pelos elementos que alguns integrantes não estão levando em consideração, tais como:

a)   Existe uma conotação que liga os eventos nacionais aos de São Luís, no entanto, há que se levar em consideração uma pauta local, afinal, o movimento que aqui vou designar como nacional tem empurrado o legislativo a acelerar as reformas, pelo menos a presente Dilma discursivamente anunciou a convocação de um plebiscito e/ou referendo para a instalação de uma constituinte da reforma politica. Mas, e o movimento em São Luís? Do ponto de vista prático e efetivo, qual foi até agora a conquista, além dos citados acima?

b) Ficar bradando palavras de ordem contra a oligarquia Sarney é um bordão estrategicamente mobilizador da juventude, mas de pouca eficácia politica. A oligarquia Sarney não é responsável pela cultura oligárquica no Maranhão. A cultura oligárquica no Maranhão existe desde a década de 40 do século XIX quando começaram a se instituir os grupos políticos mandatários da província e do estado até os dias atuais. A oligarquia existe porque existe uma cultura oligárquica extremamente consolidada nas veias da sociedade maranhense espraiada em todos os ramos e segmentos.  Isso explica porque até o presente momento a governadora Roseana não recebeu manifestantes, não mudou sua agenda, pauta ou atendeu qualquer demanda do movimento. Em outras palavras, com exceção da forte repreensão policial, ao contrário de São Paulo e Rio de janeiro, cujos rumos da politica estão se alterando o tempo todo, para as bandas de cá, até o presente momento, nada de novo nos céus do velho Maranhão;

c)   É necessário conhecer os inimigos externos dos movimentos, suas táticas e estratégias de contragolpe. Até o presente momento a sociedade autoritária e conservadora maranhense tem tolerado as diversas manifestações diárias, mas isso vai mudar e logo. O comércio começa a sentir os efeitos dos prejuízos causados pelas mobilizações, o trânsito caótico da cidade está ainda mais caótico. A rotina da cidade foi alterada, pessoas não conseguem trabalhar, estudar e até mesmo serem atendidas em hospitais. A reação conservadora, que a nível nacional já começa a falar em referendo e não em plebiscito,  logo inverterá o apoio às manifestações e legitimará cada vez mais a ação policial, cobrando da governadora uma atitude mais enérgica. É impressionante como as pessoas acham que estamos numa onda revolucionária e se esquecem do reacionarismo das elites, da força da opinião pública, do autoritarismo da policia, da capacidade de atuação e mobilização do estado, que por enquanto tem “autorizado” e “tolerado” o caos instalado por uma razão de conveniência em decorrência da comoção nacional, mas não ficará inerte por muito tempo. Eles preparam uma reação, as elites, só esperam o aval da opinião pública. Isto não é uma onda revolucionária, é uma onda reformista;

d)      Falam em fim dos partidos como se o sistema representativo estivesse suprimido, tal como o jogo democrático. Crise da representatividade é uma coisa, fim do sistema partidário é outra. Quando essa onda arrefecer, será com os partidos que teremos que dialogar.  

e)      É necessário conhecer os inimigos internos do movimento, e são muitos. Da artilharia, fogo amiga a pessoas, instituições e movimentos que opinam discordantemente, passando pelos deboches e ironias no facebook, sem reflexão, aliás, não passa de reprodução circulante de ideias produzidas alhures por um instrumento que é pouco produtor de ideias novas, sendo muita das vezes a circulação de frases produzidas por outros meios de comunicação (característica do face), passando pela divisão do movimento em pelo menos quatro grupos: “Acorda Maranhão”, “Vem para as ruas”, “Vem para as ruas, mas não de qualquer jeito”, “Vem para as ruas/Itaqui –bacanga”, e mais recentemente a reunião dos movimentos sociais. Qual é o sentido dessa divisão? É uma característica do movimento a não caracterização de uma liderança, a pulverização? Ok, mas eu acho bom nos unirmos, vem chumbo grosso e a fragmentação não vai nos ajudar em nada;

f)       Ainda falando em divisão interna, quando enfim vamos unificar nossas pautas? É tão feio assim falar em união de reivindicações? Somos inimigos entre nós mesmos ou nossa adversária é a direita conservadora e retrógrada que trama golpe o tempo inteiro?

g)      Por que a intolerância com a divergência? Não é possível discordar de opiniões no campo das ideias e propor ações práticas, ao invés de desconsiderar o histórico de luta de quem passou a vida inteira nas ruas lutando cognominando-os de “adivinhos”, “conservadores”, “burgueses”, etc, etc?

h)      Por que cada vez mais pessoas se afastam do movimento? Não é exatamente por conta da intolerância em dialogar com os diversos campos distintos e propor ações objetivas?

Como exercício politico, fica a minha dica: uma reunião entre os movimentos “Acorda Maranhão”, “Vem para as Ruas”, “Vem para as Ruas, mas não de qualquer jeito”, “Vem para as ruas/Itaqui-bacanga”, “Bandeiras vermelhas”, "Movimento pelo Passe Livre", demais partidos, entidades estudantis, movimentos sociais para a unificação de propostas a serem encaminhadas para diversas entidades, tais como: prefeitura de São Luís, governo do Estado, OAB, Ministério Público, congêneres para tomada e deliberação de medidas urgentes e cabíveis.

Ou unificamos pautas e reivindicações, ou quando essa euforia passar, já está passando, vamos nos lamentar por termos perdido uma excelente oportunidade de mudar nossa história.



                     

O Pathos Brasileiro

O PATHOS BRASILEIRO
* Marcos Antônio Macêdo Muniz

A liberdade democrática é uma das conquistas mais excelentes da vida política. Ninguém, exceto os amantes da tirania, ousaria dizer que não gosta da livre expressão, da mobilidade, da vivência dos credos e do exercício crítico da cidadania como efetiva participação em seu país e no mundo.

Um povo pode até passar dificuldades, viver desigualdades e experimentar dores em suas entranhas; pode suportar muitas contingências e toda sorte de contradições, pode até mesmo sacrificar-se para salvar uma nação, quase tudo pode suportar, menos perder sua liberdade. Afinal, a liberdade é a dimensão que possibilita os homens, como seres históricos, a lutarem para superar suas menores e maiores necessidades. Sobre a liberdade, Kierkegaard, Sartre e outros pensadores, afirmaram em seus escritos, ser ela a possibilidade que nos permite escolher e escolher, entre várias alternativas.

Nos últimos dias, os jovens, em especial, mas também adultos e idosos movimentaram, de forma espetacular e emocionante, as ruas e praças do Brasil, de São Luís a São Paulo, para evidenciar as gangrenas brasileiras e, em tom brasileiro, de forma comovente, reivindicar soluções para estes problemas históricos.

A expressão em massa nos mais diversos pontos do país revelaram e revelam as mudanças que precisam ser efetivadas. Na pauta constavam e ainda constam tópicos como: contra corrupção, melhoria considerável do ensino público, contra PEC 37, melhoria nos transportes, na saúde, reforma política e outras bandeiras de lutas. A geração que estava recolhida dos movimentos sociais e da política, a geração que aparentava apatia e desinteresse causou uma surpresa dando um golpe na lógica da necessidade moderna. 

Contrariando as análises acadêmicas de cunho racionalista e cientificista, os jovens voltaram às ruas surpreendendo, não somente o governo, mas outros segmentos da sociedade. Num instante, aquele êxtase, como diz Kierkegaard, quando no horizonte das múltiplas possibilidades, “o tempo tange a eternidade e a eternidade visita o tempo num phatos social extraordinário”. Aconteceu e está acontecendo a maior expressão política, o maior clamor com efeito cascata que já aconteceu no Brasil. “Verás que um filho teu não foge à luta”, trecho do Hino Nacional Brasileiro pulsando no coração dos jovens.

Essa comoção política, essas atitudes transformadoras, mostram, como diz Marx, nosso caráter de “sujeitos da História”, agentes transformadores, cidadãos em efetivos exercícios políticos por uma sociedade emancipada. As ondas recolhem-se depois de espraiar nas margens das praias e espraiam novamente após dobrarem-se para novos avanços. Esse movimento existirá enquanto existir História.

Muito embora essas movimentações sociais reluzam os anseios justos dos brasileiros, muito embora o dinamismo das diversas expressões contra um conjunto de “velhacarias” venham com força desobstruir práticas viciadas e cretinas, é preciso estar vigilante contra as atividades vândalas e sociopatas que penetram no movimento colocando em perigo nossas liberdades e o desenvolvimento da consolidação democrática no país.          


VIVA O MOVIMENTO DE LUTA DOS BRASILEIROS; FORA AS MANOBRAS REACIONÁRIAS DA REDE GLOBO.

A Rede Globo não mostrou, não deu destaque, por exemplo, ao movimento grevista de mais de três meses de luta dos professores, alunos e técnicos administrativos ocorridos em todas as Universidades e Institutos Federais de Educação Tecnológicas em 2011/2012, respectivamente. Porquê? Fora este movimento de luta, outros tantos estiveram longe das telas sem destaque ou, quando muito, apenas lances tênues de filmagens sem maiores repercussões. Quando os holofotes da Globo miram insistentemente nas lutas sociais é preciso, no mínimo, desconfiar. Dificilmente será uma postura por sentimentos substancialmente democráticos ou por valorização das lutas dos trabalhadores contra situações anti-burguesas. Com a mesma vigilância, é preciso proceder em relação as diarreias ocorridas no grandioso movimento social. Grupos infiltrados, personagens mascaradas e outros agentes com rostos velados vão se aproveitando das marchas para gerarem desarranjos na contramão dos verdadeiros propósitos dos manifestantes pacíficos. 


Exatamente aí que moram as ameaças à democracia. Para fundamentar esta tesa exemplifica-se o fato das queimas de bandeiras de Partidos Políticos durante os cortejos. A democracia é feita por manifestações de toda ordem, desde às minorias às maiorias, dos estamentos às classes sociais, das categorias simples às mais complexas, dos gêneros, dos negros, das domésticas, enfim de todos os cidadãos. Incluir é uma das palavras de ordem ética e excluir é discriminatório e antiético. Exceder-se com este comportamento é cultuar, ainda que inconscientemente, o fascismo. 

Além de tudo, abrem-se as portas para essas forças antidemocráticas se instalarem e agirem, muitas vezes de forma vândala, para passar a imagem de que o caos impera no país. Como bem diz Platão, na República, “a tirania se instala quando a licença exagerada decompõe a democracia”, não é à-toa que nas redes sociais algumas pessoas emitem palavras de ordem pela instauração da ordem e outras vezes pelo retorno do Regime Militar. Diga-se de passagem, as ditaduras tem outros modos de se instalar no poder para conter os passos avançado do Gigante rumo a excelência mundial, reimplantando seu rotineiro entreguismo e nutrição de práticas degenerativas ou corruptas de alas burguesas decadentes.

Para ser mais sintético se faz necessário dizer que é fundamental avançar com a pauta nacional estabelecendo os canais para encaminhamento sem, contudo, renunciar às pressões, claro! Todavia, é importante armar uma barreira para que grupos fascistas e oportunistas não coloquem a democracia em risco.

VAMOS CONTINUAR A LUTA, VAMOS AVANÇAR!


* Profº Ms. de Filosofia Política da UFMA e IFMA.

segunda-feira, 24 de junho de 2013

A ascensão do movimento fascista no Brasil.

Depois de várias criticas alterei o titulo do post inicial. Não era uma defesa cega da Dilma, e sim, uma denúncia contra o movimento integralista brasileiro que se aliou aos skinheads, carecas de São Paulo, cujas ramificações estão no Rio, Belo Horizonte e Porto Alegre. 



A palavra fascismo vem de fascio, do italiano, e quer dizer feixe. A palavra por sua vez vem do francês “fasces”, e indica um machado cercado por hastes de madeira. A primeira vez que se pronunciou com mais veemência foi na Europa pós-Primeira Guerra Mundial, exatamente onde não se esperava, mas já tinha sido usada por Mussolini em 1919. Porque não se esperava logo na Europa? Tal continente já havia experimentado as experiências da Primavera dos Povos (Revoltas Liberais de 1848), da ascensão do movimento anarquista, da Internacional Socialista, da Revolução socialista Russa de 1917, gozava dos ventos buliçosos da Belle époque, que se encerrava exatamente por conta do primeiro grande conflito.

A experiência desastrosa da Guerra, a humilhação porque passara Alemanha e Itália (últimas nações a se unificarem) foi o mote para a emergência desta concepção ultra-conservadora, oposta ao comunismo, de orientação capitalista, defensora cega de princípios sem sustentação democrática e altamente autoritária.

No Brasil, a expressão desse sentimento estava expressa nos camisas verdes e em figuras como Plinio Salgado, uma versão tupiniquim de Mussolini. Aqui, defendiam os mesmos princípios, ainda que na América Latina as relações politicas e sociais estivessem distantes do velho continente, com exceção da expansão do capitalismo transnacional.

Todas às vezes que uma grande ameaça vermelha surge no horizonte, os velhos ideários fascistas aparecem, vide o caso da Marcha por Deus, pela Família e pela Propriedade, sustentáculo social da ditadura militar. A ausência de apoio social propiciadora de um golpe de estado pôde definitivamente se efetivar com esse segmento legitimando uma tomada de decisão por parte das forças armadas, corroborada e apoiada pelos Estados Unidos e por oligopólios capitalistas internacionais.

Vivemos longos e tenebrosos 21 anos de ditadura militar. Quando os filhos da classe média, apoiadores do golpe, começaram a sofrer perseguições, prisões, torturas, a sociedade brasileira descobriu o pesadelo que estava vivendo. Tarde demais. As mães que foram às ruas pedindo a eliminação das transformações sociais, choravam e lamentavam o desaparecimento de seus filhos.

Depois de 1985, fim da ditadura, e em 1989, eleição de Fernando Afonso Collor de Mello, amplificada pelo processo de impeachment, os brasileiros começavam a sentir o gozo quase pleno da experiência democrática. Os anos de chumbo ficaram para trás, sentia-se que nunca mais experimentaríamos a sensação de golpe e/ou o retorno do fascismo.

O historiador Fernand Braudel disse que de todas as estruturas existentes na sociedade, a que mais demora a se modificar é exatamente a mental, ou seja, mudam as correlações politicas, alteram-se sistemas econômicos, mas as mentalidades permanecem.

O movimento surgido semanas atrás em São Paulo, espraiando-se por quase todas as capitais brasileiras, é a responsável pelo despertar de um sentimento que estava subjacente, porém adormecido.

O conservadorismo brasileiro, responsável pela derrota de Luis Inácio Lula da Silva para Collor em 1989, arrefeceu após oito anos de mandato do até então antigo inimigo do capitalismo internacional. “Lulinha paz e amor”, em sua nova versão mudou a roupagem, o discurso, a campanha e a forma de conduzir o sistema político brasileiro. Fez muitas concessões: beneficiou o agro-business, enriqueceu os banqueiros (nunca na história do país os bancos tiveram tantos lucros), ampliou benefícios para universidades privadas, favoreceu o setor da construção civil, aliou-se a velhos inimigos políticos, enfim, tudo em nome da governabilidade.

Também operou mudanças: retirou 25 milhões de brasileiros da condição de pobreza extrema, recuperou a indústria naval, a indústria ferro-carril, a indústria da construção civil, recuperou as Universidades Federais, totalmente sucateadas, quadriplicando seu número, o mesmo com os IF (Institutos Federais), reduziu consideravelmente a taxa de juros para apenas um digito, criou programas de recuperação econômica (PAC, minha casa, minha vida), institucionalizou o sistema de cotas, criou a secretária de direitos raciais, aliou-se a movimentos sociais, como o MST, projetou o Brasil como uma das maiores potencias econômicas do mundo.

Quer dizer, para a governabilidade, Lula operou a aliança entre os interesses do grande capital internacional e nacional e algumas exigências dos movimentos sociais. Enquanto o cenário econômico internacional era muito favorável tudo ia bem, agora, já no governo de Dilma, quando a economia internacional desacelera, levando inclusive a Europa a uma crise estruturante, o clima de paz, de euforia e entusiasmo com o Brasil cedem lugar e espaço para antigos emblemas de origem fascista. É sempre assim, todas as vezes que as condições econômicas não são favoráveis, eclodem sentimentos ultra-conservadores.

O paradoxo de tudo isso é que o governo Dilma antes das manifestações batia a casa dos 68% de aprovação, a economia não apresenta os mesmos números da época do seu antecessor, pelo menos não são catastróficos, o Brasil se tornou a 7º potência do mundo, vai sediar os dois maiores eventos esportivos no planeta, Copa do Mundo e Olimpíadas, era literalmente uma ilha de prosperidade ante o caos lá fora.

Então, porque as manifestações? São várias as razões, a análise não é tão simples assim. Uma delas tem haver exatamente com o grau de esclarecimento e escolaridade elevados durante os governos Lula e Dilma. Outra, diz respeito à ampliação e acesso às redes sociais e virtuais que se constituíram um contraponto aos editoriais da grande mídia ideologicamente controlados pelo grande capital, permitindo acesso e esclarecimento sobre o que se passa lá fora e aqui dentro. Há também a questão da redução do crescimento econômico, o que levou jovens a protestarem contra o aumento de R$ 0,20 da passagem urbana em São Paulo, embora o problema de fundo não seja esse, e sim, ampliação dos direitos de mobilidade. O desperdício de dinheiro público nas obras da Copa e das Olimpíadas sem controle público e sem transparências engrossam o caldo. Mas as duas grandes de fundo são: a necessidade de reforma politica e econômica. Vamos lá.

As manifestações apontam para a não participação de partidos políticos, ou seja, os manifestantes não se sentiam representados por essas estâncias, um exercício e recado para  eles. O sistema democrático dá sinais de seu esgotamento e legitimidade. A forma de representação politica está desgastada, há uma nítida separação entre os anseios populares e a forma de configuração politica nos três poderes: executivo, legislativo e judiciário. O capital controla o estado, logo, os interesses e a condução da politica não estão voltados para os interesses da sociedade, e sim, para as demandas capitalistas. O capitalismo opera sua lógica com aval do regime democrático representativo.

A questão do regime fechado de votação dos deputados federais cria um empecilho entre a ideia de representação social, legitimada pelo voto, e os interesses operantes dentro do congresso. A proposta de votação da PEC-37 que impede o Ministério Público de investigar os crimes cometidos por políticos é um assalto à própria democracia. A eleição de um pastor evangélico homofóbico para presidir a comissão dos direitos humanos leva desconfiança sobre a real necessidade dessas estâncias. Enfim, está claro que a falência do estado enquanto principio promotor do bem-estar social, coloca em xeque essa forma de fazer politica. A dinâmica social é muito maior que as transformações processadas nas estâncias politicas legitimadas e legais. A politica virou a certificação da barbárie.

Quanto à questão econômica a luta é contra o modelo econômico imposto ao Brasil e no restante do mundo. Sinais de esgotamento do sistema capitalista sempre surgiram, mas quando os yuppies e trabalhadores desempregados ocuparam Waltt Street o sinal vermelho acendeu. Depois, veio a crise imobiliária nos Estados Unidos, seguido da primavera árabe, que não foi apenas um reclame politico, como também econômico, até as manifestações no Brasil, curiosamente uma ilha de prosperidade ante a crise mundial.

A questão de fundo é: se somos a 7ª potencia do mundo, então porque possuímos ainda um dos piores índices de IDH? Isso vai de encontro ao exíguo reformismo dos governos Lula e Dilma. Fizeram muito, mas com a arrecadação pública nesses últimos anos poderiam ter feito muito mais. Ademais, se há tantos gastos com as obras da copa, por que não construir mais hospitais, escolas, universidades, etc?

O impostômetro colocado no centro de São Paulo mostra que anos após ano o governo federal arrecada cada vez e sempre 10 dias antes do que o ano anterior. Enquanto isso, os índices de violência só aumentam, os usuários de crack idem, falta infraestrutura em quase tudo nesse país.

Esses elementos, no entanto, não foram responsáveis pela emergência do sentimento fascista. Ao contrário, o fascismo estava submerso antes dos anos de governo Lula e Dilma e emergiu com a radicalidade dos movimentos nas ruas nas últimas semanas. O incomodo é com os avanços sociais, o debate e a ampliação da união estável do mesmo sexo, o apoio ao MST e as reformas de base: reforma agrária, habitação, saúde, reforma econômica e politica.

O que está acontecendo é o afloramento das grandes divergências ideológicas que sempre existiram no país, mas estavam escondidas, camufladas. Agora não, as coisas estão claras, as abertas, estamos num franco campo de disputas de ideias, de direcionamento de como o país deve ser conduzido.

Por Deus, pela Família, pela propriedade, pela Pátria, contra o comunismo, esse é o lema do movimento anunciado nas redes sociais convocando para uma grande marcha nas próximas semanas. 

Qual Deus? O cristão? Então ficam de fora as outras formas de transcendência, de manifestação e culto, desrespeitando inclusive a grande diversidade étnica no país?

Pela Família? Qual família? A patriarcal?  Ora, os dados do IBGE apontam que há mais de uma década as famílias brasileiras são mantidas por mulheres solteiras, quer dizer, aquela concepção nuclear de pai, mãe, filhos está em processo de retração, emergindo outras experiências, como as da união estável e da união estável entre pessoas do mesmo sexo.

Pela propriedade? Qual propriedade? A dos latifundiários, fazendo do Brasil o país de maior conflito agrário do planeta? Aqui, todos os dias mata-se um lavrador, um camponês. Qual propriedade? A que privilegia o agro-business, desestruturando famílias tradicionais que nasceram em solos dos seus ancestrais e agora são expulsas do campo para as cidades?

Pela pátria? Qual? Não existe uma única pátria, existem formas distintas de identicidade, formas compósitas de se pensar a relação entre grupos e nação. Os elementos dísticos nacionais se resumem a língua, ao território e a alguns elementos culturais.

Contra o comunismo. Isso sim. Ai está a verdadeira razão da emergência do pensamento fascista. O fascismo foi um projeto ideológico surgido na Itália e na Alemanha contra o comunismo. O que está por detrás de tudo isso é a consecução de um projeto higienista que não aceita o Brasil negro em postos de comando, não admite gays assumirem publicamente sua condição sexual, camponeses deliberando autonomamente suas possibilidades de existência, movimentos sociais contestando a forma como o estado conduz e direciona a vida das pessoas. E sabe por que o fascismo não aceita? Porque como um braço econômico e autoritário do capitalismo não permite a falta de regra e de controle dos movimentos e avanços sociais, não concebe como pessoas possam decidir sobre suas vidas longe da máquina panóptica do estado, sem a reverberação do consumismo desenfreado, sem a lógica da vida burguesa que não consegue lidar com contraposição de ideias, com a adversidade.

O fascismo foi denunciado por intelectuais como Hannah Arendt na Alemanha, Marc Bloch na França, a escola de Frankfurt também na Alemanha e tantos outros quem foram perseguidos, assassinados simplesmente porque sabiam do terrível medo, do pesadelo escondido por detrás de supostas boas intenções.

Agora o Brasil enfim mostra sua cara, a máscara caiu. Há um grande segmento que não é  hospitaleira, boa gente, gente pacifica, acolhedora coisa nenhuma. É autoritária, racista, preconceituosa, conservadora, moralista. O Brasil é imperialista, embora sempre tenha criticado os Estados Unidos, vide o que estamos fazendo com os outros países latino-americanos e com os africanos no plano econômico.

Sequer queremos ser latino-americanos, nos auto-intitulamos de sul-americanos, tudo para não nos identificarmos como nuestros hermanos do continente.  

É preciso lutar contra o fascismo. Já vimos o estrago que fez na Itália, Alemanha, Espanha e Portugal. Não precisamos repetir esses erros.


domingo, 23 de junho de 2013

Sobre os rumos do movimento Vem Pras Ruas

Foi assim. Bandeiras de mil cores turvando a paisagem que unia a terra e céu entre a descida da Praça Gonçalves Dias e a Avenida Beira-mar. Tal descida lembrava uma cascata colorida inesgotável de peixes pulando em busca de ar, liberdade, vida. Mas não eram peixes, eram pessoas bradando palavras de ordem, exercendo sua liberdade de expressão, demonstrando uma harmonia e sintonia quanto à necessidade de mudança social.

Era uma mancha de paz, uma multidão se banhando na água torrencial da chuva caindo intermitente e, ao invés de dispersar, renovava as esperanças de enfim sonhar com um Brasil menos desigual. Quanto mais a chuva caia, mais lavávamos a prisão do grito contido.

Havia segmentos de toda ordem: Acorda Maranhão, representantes sindicais, artistas, intelectuais, estudantes, professores universitários, movimentos sociais, militantes de partidos políticos numa atmosfera uníssona, num brado e coro unificado.

30.000 pessoas tomaram as dimensões entre a subida dos Palácios dos Leões e a Praça Gonçalves Dias. Estava tudo perfeito demais. Não havia violência, disputas, depredação de prédios, confusão com a policia, até chegarmos à Praça D. Pedro II.

Castro Alves disse que a praça é do povo, então seguimos poeticamente tal assertiva. Desta vez a passeata foi mais organizada, havia uma clara pauta de reivindicação, inclusive fizemos uma votação pelo que gostaríamos que mudássemos na sociedade: educação, saúde, moradia, transporte, fim da PEC-37.

Tudo ia bem, até que o primeiro carro de som decidiu descer a rampa em direção à ponte São Francisco dividindo o movimento. O sinal amarelo acendeu. Quando representantes de classe, de partidos, ainda que sem bandeira, sem pauta partidária começaram a fazer uso do microfone, um pequeno grupo numa violência desmedida, brutal e desumana partiu para o carro de som e para a briga bradando: “sem partido”. A confusão se generalizou.

Chamou-me à atenção a violência desse grupo. Aquilo não era normal. Todos concordaram e concordam pelo não aparelhamento e condução dos partidos políticos no movimento, mas aquela agressão gratuita contra falas de pessoas que há anos lutam por um estado melhor que sequer levavam bandeiras de seus partidos e falavam de questões pontuais dos problemas sociais de São Luís eram muito, muito estranho.

Tentei conter o mais exaltado. Era um rapaz muito forte e alto que simplesmente agrediu todos que pediam a ele calma, inclusive mulheres. Ao tentar conversar e segurá-lo senti o hálito fortíssimo de álcool. Estava bêbado. Perguntei a ele porque de tanta violência e porque o uso de sua força física para prevalecimento de suas opiniões, por que estava disposto ao confronto se aquele não era o objetivo do manifesto? Ele respondeu: “– tu ainda não viu nada, eu vou para guerra e vou usar as táticas militares, eu sou militar”. Comecei a entender o que se passava.

Havia nitidamente uma orquestração para desmobilizar o movimento. Atrás desse grupo que impedia as falas de movimentos sociais, outro pequeno grupo vestindo roupas pretas começou a colocar máscaras para não serem identificados. Por que usavam máscaras? Os dois grupos se uniram, começaram a fazer gestos obscenos gritando: _“nós não precisamos de vocês”. Saquearam uma caixa de isopor cheia de água de uma vendedora e começaram a jogar no carro de som que foi obrigado a sair em disparada. Pronto. Conseguiram o que eles queriam. Estava acabado um dos momentos mais importantes da história de São Luís nos últimos anos.

Depois, foi apenas consequência da divisão. Um carro seguiu em direção à ponte São Francisco, outro a Praça Maria Aragão. Militantes do PSTU, ainda que sem nenhuma identificação, tiveram que ser escoltados por parte da multidão porque os homens de preto ameaçaram espancá-los.

Ficamos exatamente em frente à ponte São Francisco tentando entender o que se passava, quando as máscaras dos supostamente sem partidos começaram a cair. Havia gente paga por partidos de direita para impedirem a fala de representantes de movimentos sociais. Outros foram identificados como integrantes da juventude do PSDB e PMDB. Tudo estava ficando claro naquele fim de tarde chuvoso em São Luís.

É bem verdade que o movimento nacional que tem levado milhões de brasileiros às ruas acerta ao não permitir o direcionamento e a condução das passeatas por parte dos partidos políticos, afinal, isso é uma clara demonstração pedagógica do que os partidos não estão fazendo, ou seja, representando a sociedade. Bingo! Daí a não permitir a fala é uma atitude não apenas alienada, como sectária, equivocada, e que permite a ascensão de discursos fascistas.

Partido quer dizer Parte, ou seja, uma representação segmentada da sociedade. É bem verdade que já algum tempo perderam a sintonia e a capacidade de mobilização social, exatamente por não entenderem determinadas dinâmicas, mas respeito quem há anos luta por um estado melhor, tem dado sua vida pelas transformações, coisas que muitos desses jovens apenas agora começam a tatear.

Também é verdade que a esquerda sempre foi desunida e isso é um erro que se acumula há décadas. Por falta de clareza, de leitura politica, por sectarismo e radicalismo, transformam divergências metodológicas quanto às mudanças em verdadeiras bandeiras ideológicas como se os que não concordassem com essa ou outra estratégia fossem os verdadeiros inimigos da sociedade.

Estamos perdendo um momento histórico de pontuar de fato as questões que nos oprimem. Esse é um momento de resignificarmos a politica, a forma de fazer politica, de representação.

Outra questão, em cada lugar as disputas internas visando às eleições para 2014 estão aflorando. O movimento é nacional, mas as contradições e os projetos de poder são locais. Existe sim no caso de São Luís uma estratégia clara não para minar a presidente Dilma, afinal, o que é Maranhão no cenário nacional, mas direcionar o fim do movimento temendo suas consequências quanto às demonstrações das mazelas estaduais.

Há uma questão muito maior e muitos desses jovens não tem leitura, maturidade, experiência e nem percepção sobre o que está acontecendo. Existe sim uma manobra politica operada por grupos e parte desses jovens estão simplesmente sendo manipulados.

Quanto ao movimento ACORDA MARANHÃO fica o meu alerta. Ou redefine estratégias de reivindicação, permite a fala, mas não a condução de partidos políticos, ou vão sofrer o terrível desgaste da desmobilização, o que já está acontecendo, e vão perder a excelente oportunidade de unificarem as propostas que incomodam a todos.

Outra coisa: caldo de galinha, humildade, serenidade, sabedoria, nunca fizeram mal a ninguém. Porque o Movimento Passe Livre em São Paulo se retirou das mobilizações? Inteligência estratégica. Perceberam que estavam sendo massa de manobra de interesses mil dentro do movimento e teriam que pagar a conta pelo vandalismo, caos e até pelo descrédito nacional.

Existe um golpe sim, não de estado, mas da direita que tenta ridicularizar o movimento, tornar tudo pasteurizado, como se não passasse de oba-oba, de modismo. Foi assim que governaram o país durante 500 anos. A direita é extremamente unida, sabe exatamente o que quer, já quanto à esquerda, é de chorar.  

É assim que se transforma uma cachoeira de 30.000 pessoas jorrando esperanças para todo lado num fim de tarde triste, melancólico, sem sol e num imobilismo acorrentador. A alegria se transformou em tristeza.   

     
     

                 

quinta-feira, 20 de junho de 2013

A primavera brasileira tá virando inverno tenebroso

Eu vou contar uma história que todo mundo já sabe. Na França pós-revolucionária, após a queda da Bastilha, os rumos que o movimento tomou foi chamado de Le Grand Peur (O grande medo), quando os próprios lideres revolucionários, acusados de traição, foram guilhotinados, gerando posteriormente a ascensão de Luis Bonaparte. Contradição, afinal, a revolução que pôs fim ao Antigo Regime permitiu a  chegada ao poder de um ditador. Revoluções são revoluções, inclusive com suas idiossincrasias!!!    

Há dias atrás publiquei um artigo intitulado: A primavera brasileira, por considerar que, após anos de letargia, enfim o povo brasileiro havia acordado. Pois bem, venho dizer que os rumos que os movimentos país afora tomaram cheiram ao clima favorável a um golpe de direita. Vamos aos fatos. 

Proudhon disse que toda propriedade é um roubo. Nesse aspecto, a ideia de usurpação do estado do que é público se torna um roubo à medida que os ocupantes da estrutura burocrática lançam mão do governo para se apropriarem do que é comum a todos, ou seja, o patrimônio público. Nesse caso, a depredação, ocupação, invasão de propriedade pública é legitima, afinal, como bem disse Rousseau: "quando os governantes usurpam a estrutura de poder em benefício próprio, a sociedade tem o direito de quebrar o pacto social, deslegitimando-os de seus cargos". 

Acontece que, afora a condição de usurpação do poder por parte dos governantes, o que de fato  acontece no Brasil, os casos de "vandalismo", depredação de patrimônio público, congêneres, tornam-se ilegítimos, pois todos os governantes foram eleitos democraticamente, logo, não chegaram à condição de governantes de forma ilegitima e nem ilegal, embora nem tudo que seja legal é legitimo.  

Sem falar que, pela vida democrática os representantes foram eleitos para ocuparem temporariamente os cargos e cuidarem do que é publico, logo, o patrimônio não lhes pertence, e sim à população, portanto, tudo  que passa pela condição supostamente legitima da vontade e soberania da sociedade é publico, incluindo o patrimônio, qualquer que seja ela, físico, cultural, espiritual, simbólico. 

Assim sendo, é necessário destituir quem usurpa o cargo, não destruir a representação simbólica da expressão da vontade popular eleita pela via democrática burguesa. É para destruir inclusive a representação simbólica expressa no patrimônio público? Então destruamos tudo o que nos representa simbolicamente, não apenas o patrimônio público material.      

O poder no Brasil é legal, muitas vezes não é legitimo, vide quando os representantes não governam para o bem comum. Portanto, uma vez eleitos para seus cargos e, quando pela própria via democrática não se estabelece as condições de controle, uso e exercício da estrutura de poder, deslegitimar um governo, governante pela via revolucionária, só faz sentido se for revolucionária, caso contrário, precisa ser pela via democrática. 

Sendo assim, faço alguns questionamentos. O que se quer ou se está se desenhando no Brasil é uma revolução ou uma reforma política? Se for revolução, então tudo bem, vamos rasgar a constituição, destituir o parlamento, desapropriar o que for privado, dentre outras coisas. Se é Reforma Politica então temos que ter foco. 

O Movimento Passe Livre já anunciou que vai se retirar das manifestações, a Globo apoia o movimento e foca nos vândalos - uma forma de deslegitimar o que está sendo reivindicado -, depredações e vandalismo tomam e desnorteiam as pautas de reivindicações, não há liderança, fala-se na proibição da participação de partidos políticos, surgem questionamentos sobre o que reivindicar se 11 capitais já reduziram as passagens, gente infiltrada picha prédio público, pedidos de impeachment da presidente Dilma, clamor pela volta dos militares, ascensão de grupos fascistas dentro das passeatas, segmentos da direita sendo pagos para bradar palavras de ordem pelo nacionalismo ufanista e exaltado, divisão entre os manifestantes contra e favor dos rumos do movimento, etc.

Sabe o que se está desenhando? A ideia de que não passa de modismo, de que não há clareza quanto aos objetivos, do que se quer. É claro que quando se ocupa ou se depreda um patrimônio a questão central é o signo, o simbolo que tal objeto representa, logo, ao atacar tais estâncias mira-se no seu significado social e politico, ou seja, o que ele traz consigo. Diante disso questiono: o que está em discussão é a democracia ou os meandros do jogo democrático no Brasil? Repito: se for a democracia enquanto condição e situação representativa de nossos desejos, vontades, aliterações, é necessário rever toda a estrutura que molda tal situação no pais, quer dizer, rever, resignificar todas as instituições. 

O que se quer é a denúncia da barbárie democrática? Do quanto de falacioso ela é? O quanto ilegitimo é a sua condição, ainda que aceita legalmente pela ampla maioria da sociedade brasileira? É bem certo que já algum tempo a falência do estado, a forma representativa eleitoral apontaram seus sinais de esgotamento, do quanto de desumano existe na condição politica montado por uma ideia de estado autorizado e legal. Só não sei se é isso que se está se reivindicando nas ruas. 

O que vejo são condições amorfas, de um lado um grupo bradando contra o aumento das passagens, pelo passe livre, melhoria da condição de transporte público, pela saúde, educação, etc, de outro, um pequeno bando destruindo tudo o que encontra pela frente. Que fique claro que o primeiro grupo quer reformas politicas dentro do jogo do capital e da democracia, logo, não quer revolução, e sim, transformação. Mas, e o segundo grupo? Quer o que? O fim do capital e da forma de representação democrática? Se for, então diga a que veio, porque até agora só aparecem cenas de quebra-quebra, sem carro de som, sem pauta, objetivos e intenções. 

Do outro lado se levantam vozes de pessoas, claro, formadas pela opinião pública operada pela grande mídia que começam a questionar os reais objetivos das manifestações. E ai mora o perigo. O conservadorismo da opinião pública começa a soar como clamor exigindo ações mais enérgicas da presidente, questionamentos sobre porque não realizar grandes eventos esportivos, quem está por detrás de tudo isso. 

Impeachment da Dilma? Para colocar quem? O Michel Temer? Convocar novas eleições? O presidente do Senado, Renan Calheiros? Um novo golpe militar? Essas são temerosidades de um movimento sem liderança, supostamente apartidário, sem pauta de reivindicação programática. 

É claro também que no bojo, no calor das manifestações aparecem segmentos de todos os lados e ordem: anarquistas, petistas, ultra-esquerdistas, direitistas, fascistas, etc. É um movimento compósito, fruto da grande e larga insatisfação social, mas o meu temor é o desenho de um golpe que se trama no seio das manifestações.

Há casos comprovados de que parte dos vândalos estão sendo pagos por partidos de direita, caso da manifestação em São Luis ontem. Ou seja, a mídia edita as imagens, não divulga toda a manifestação e foca apenas no ato de vandalismo e depredação. 

Outra preocupação: o MPL acaba de anunciar que aceita a participação de partidos políticos. Ora, como é democrático o movimento não compete a ninguém impedir ou não a participação de quem quer que seja. Ai está a outra questão: impediam a participação de partidos e não a ação dos vândalos? Muito estranho...Não é uma acusação contra o MPL, é uma critica a ingenuidade politica. Eles sabem exatamente os rumos e as proporções que isso está gerando? São eles os responsáveis? Claro que não, e sim, anos de exclusão social.  

Portanto, sugiro que os lideres da convocações, partidos políticos, organizações, sindicatos, representações politicas de toda ordem façam uma pauta e agendamento de reivindicações claras, convocando toda a sociedade para participar da mudança no Brasil, caso contrário, vamos deixar que as coisas sigam o seu fluxo, sobretudo revolucionário, e vamos ver no que vai dar.                       

quarta-feira, 19 de junho de 2013

Apesar de você, hoje cantaremos uma pequena serenata diurna

Hoje, 19 de junho, um dos maiores compositores da música popular brasileira faz 69 anos. Os olhos cor de ardósias, a voz pouca, o talento gigante, a versatilidade no teatro, cinema e literatura, e também no futebol, são atributos de um dos mais engajados artistas do Brasil, Chico Buarque de Holanda.  

Começo da carreira atribulada por conta de sua vinculação ao conservadorismo nacional, logo Chico se desvencilharia dessa imagem e se tornaria um ícone de um país no que tange às questões politicas. Suas músicas se tornaram hinos contra a repressão, embora no cômputo geral sejam uma parcela bem pequena de sua obra.

Nesses dias tumultuados, tensos, ainda nebulosos quanto ao futuro do Brasil, penso que o bom e velho Chico deve estar se quedando sobre os rumos da nação, afinal, ele fez parte de um documentário intitulado: O pais da delicadeza perdida. E agora? As manifestações retomam a delicadeza e os sonhos perdidos, ou a coisa desanda de vez?

Ainda que suas canções já de algum tempo tenham deixado de lado os problemas sociais, seu legado é inegável, sua imagem está para sempre associada aos movimentos que participou, como a Passeata dos 100 mil.

Nestes últimos dias no Brasil tempos passeatas de 100, 200, mil pessoas espalhadas pais afora. Muitos desse jovens nasceram num pais pós-ditadura, conhecem os excessos da recessão pela memória dos mais velhos, por canções entoadas até os dias de hoje, pelas permanecias que deixaram. 

Muitos desses jovens até conhecem a violência da Policia, pelos seu caráter truculento, herdeira da ditadura, mas não por terem vivido numa época em que até se manifestar era caso de prisão. Quantos mortos, desaparecidos, quantas torturas. 

Olha que curioso: a presidente Dilma é ex-militante da extrema esquerda, foi torturada, presa e humilhada. O que se passa na cabeça dela agora ao ver a violência policial e a radicalidade do movimento? Na sua época havia dois horizontes: o socialismo e o capitalismo. Hoje, existe o capitalismo e o socialismo ainda figura como ideal nas cabeças de cada vez menos pessoas. 

Manifestantes cantam a música de Chico Apesar de Você, direcionada à época ao presidente Médici, hoje contra o capital num momento em que o país é governado por uma ex-militante que cantava a mesma música na época contra a ditadura. A história é "cíclica".

Há brutais diferenças no entanto entre as épocas. Quando da ditadura os grupos de esquerda sonhavam com o socialismo imediato, às portas, prestes a chegar num pais de delicadeza perdida, cuja ingenuidade se esvaiava pelo sangue dos militantes jogados pela ralo da repressão. Hoje, o horizonte é a melhoria de vida das pessoas, a reforma do modelo econômico e politico ainda dentro da base e sistema capitalista. O que pouco mudou foi a virulência dos aparelhos repressores do estado. Antes, censura, DOI-CODI, prisões clandestinas, torturas, exílios. Hoje, censura velada sob os auspícios da democracia, o retorno de autoritarismo pela via judiciária a mando do capital, tortura midiática com editoriais asquerosos da imprensa, exílio dos brasileiros de sua condição de sonhar com um país mais equânime, mais justo e solidário.

Talvez seja isso que esse movimento compósito está fazendo. Não voltando ao passado, nem tampouco tentando reviver um clima ideológico de mudança radical do mundo, os tempos são outros, mas sonhando, ainda que por uns instante em construir um pais do qual nós sejamos co-participes, construtores e não caudatários. 

Porque ninguém arranca dos seres humanos a doce ilusão de sonhar? De novo vem essa "ira santa"? Porque antigas canções não saem de nossos lábios? Porque a guardamos no peito como uma roupa velha que teima ainda em servir, como se fosse um "vestido decotado, cheirando a guardado de tanto esperar"? Porque guardamos guardanapos escritos a mão "em posta-restantes milênios, milênios" sem serem em vão? 

Esse motor é o amor, mesmo irado. Mesmo jogando e queimando carros, bradando palavras de ordem, se indignando contra as injustiças, é por ele que sabemos que existe algo diferente de tudo o que está ai. É o amor que nos faz entender que a indiferença não nos serve, que a fome, a sede e a raiva de interromper a delicadeza "é coisa dos home". Não era para ser assim, por enquanto vamos lutando porque amanhã vai ser outro dia. 

Quando chegar o momento "vamos cobrar com juros, juramos. Todo amor reprimido, grito contido, o samba no escuro". E quando alegria enfim chegar nos lembraremos que a luta não foi em vão, que a canção contida se transformará em oração. Até lá, vamos sonhar e lutar marchando pelas ruas cantando uma pequeña serenata diurna...Como se fosse a primavera


Pequeña serenata diurna
(Silvio Rodrigues)
 Vivo en un país libre
cual solamente puede ser libre
en esta tierra, en este instante
yo soy feliz porque soy gigante.
Amo a una mujer clara
que amo y me ama
sin pedir nada
o casi nada,
que no es lo mismo
pero es igual

Y si esto fuera poco,
tengo mis cantos
que poco a poco
muelo y rehago
habitando el tiempo,
como le cuadra
a un hombre despierto.
Soy feliz,
soy un hombre feliz,
y quiero que me perdonen
por este día
los muertos de mi felicidad.

Como se fosse a primavera
(pablo milanes, nicolas guillen)
De que calada maneira 
Você chega assim sorrindo 
Como se fosse a primavera 
Eu morrendo 
E de que modo sutil 
Me derramou na camisa 
Todas as flores de abril 

Quem lhe disse que eu era 
Riso sempre e nunca pranto 
Como se fosse a primavera 
Não sou tanto 
No entanto, que espiritual 
Você me dar uma rosa 
De seu rosal principal 
De que calada maneira 
Você chega assim sorrindo 
Como se fosse a primavera 
Eu morrendo 
Eu morrendo 
De que callada manera 
Se me adentra usted sonriendo 
Como si fuera la primavera 
Yo muriendo 
Yo muriendo 

De que calada maneira 
Você chega assim sorrindo 
Como se fosse a primavera 
Eu morrendo 
E de que modo sutil 
Me derramou na camisa 
Todas as flores de abril 

Quem lhe disse que eu era 
Riso sempre e nunca pranto 
Como se fosse a primavera 
Não sou tanto 
No entanto, que espiritual 
Você me dar uma rosa 
De seu rosal principal 
De que calada maneira 
Você chega assim sorrindo 
Como se fosse a primavera 
Eu morrendo 
Eu morrendo 
De que callada manera 
Se me adentra usted sonriendo 
Como si fuera la primavera 
Yo muriendo 
Yo muriendo