domingo, 23 de junho de 2013

Sobre os rumos do movimento Vem Pras Ruas

Foi assim. Bandeiras de mil cores turvando a paisagem que unia a terra e céu entre a descida da Praça Gonçalves Dias e a Avenida Beira-mar. Tal descida lembrava uma cascata colorida inesgotável de peixes pulando em busca de ar, liberdade, vida. Mas não eram peixes, eram pessoas bradando palavras de ordem, exercendo sua liberdade de expressão, demonstrando uma harmonia e sintonia quanto à necessidade de mudança social.

Era uma mancha de paz, uma multidão se banhando na água torrencial da chuva caindo intermitente e, ao invés de dispersar, renovava as esperanças de enfim sonhar com um Brasil menos desigual. Quanto mais a chuva caia, mais lavávamos a prisão do grito contido.

Havia segmentos de toda ordem: Acorda Maranhão, representantes sindicais, artistas, intelectuais, estudantes, professores universitários, movimentos sociais, militantes de partidos políticos numa atmosfera uníssona, num brado e coro unificado.

30.000 pessoas tomaram as dimensões entre a subida dos Palácios dos Leões e a Praça Gonçalves Dias. Estava tudo perfeito demais. Não havia violência, disputas, depredação de prédios, confusão com a policia, até chegarmos à Praça D. Pedro II.

Castro Alves disse que a praça é do povo, então seguimos poeticamente tal assertiva. Desta vez a passeata foi mais organizada, havia uma clara pauta de reivindicação, inclusive fizemos uma votação pelo que gostaríamos que mudássemos na sociedade: educação, saúde, moradia, transporte, fim da PEC-37.

Tudo ia bem, até que o primeiro carro de som decidiu descer a rampa em direção à ponte São Francisco dividindo o movimento. O sinal amarelo acendeu. Quando representantes de classe, de partidos, ainda que sem bandeira, sem pauta partidária começaram a fazer uso do microfone, um pequeno grupo numa violência desmedida, brutal e desumana partiu para o carro de som e para a briga bradando: “sem partido”. A confusão se generalizou.

Chamou-me à atenção a violência desse grupo. Aquilo não era normal. Todos concordaram e concordam pelo não aparelhamento e condução dos partidos políticos no movimento, mas aquela agressão gratuita contra falas de pessoas que há anos lutam por um estado melhor que sequer levavam bandeiras de seus partidos e falavam de questões pontuais dos problemas sociais de São Luís eram muito, muito estranho.

Tentei conter o mais exaltado. Era um rapaz muito forte e alto que simplesmente agrediu todos que pediam a ele calma, inclusive mulheres. Ao tentar conversar e segurá-lo senti o hálito fortíssimo de álcool. Estava bêbado. Perguntei a ele porque de tanta violência e porque o uso de sua força física para prevalecimento de suas opiniões, por que estava disposto ao confronto se aquele não era o objetivo do manifesto? Ele respondeu: “– tu ainda não viu nada, eu vou para guerra e vou usar as táticas militares, eu sou militar”. Comecei a entender o que se passava.

Havia nitidamente uma orquestração para desmobilizar o movimento. Atrás desse grupo que impedia as falas de movimentos sociais, outro pequeno grupo vestindo roupas pretas começou a colocar máscaras para não serem identificados. Por que usavam máscaras? Os dois grupos se uniram, começaram a fazer gestos obscenos gritando: _“nós não precisamos de vocês”. Saquearam uma caixa de isopor cheia de água de uma vendedora e começaram a jogar no carro de som que foi obrigado a sair em disparada. Pronto. Conseguiram o que eles queriam. Estava acabado um dos momentos mais importantes da história de São Luís nos últimos anos.

Depois, foi apenas consequência da divisão. Um carro seguiu em direção à ponte São Francisco, outro a Praça Maria Aragão. Militantes do PSTU, ainda que sem nenhuma identificação, tiveram que ser escoltados por parte da multidão porque os homens de preto ameaçaram espancá-los.

Ficamos exatamente em frente à ponte São Francisco tentando entender o que se passava, quando as máscaras dos supostamente sem partidos começaram a cair. Havia gente paga por partidos de direita para impedirem a fala de representantes de movimentos sociais. Outros foram identificados como integrantes da juventude do PSDB e PMDB. Tudo estava ficando claro naquele fim de tarde chuvoso em São Luís.

É bem verdade que o movimento nacional que tem levado milhões de brasileiros às ruas acerta ao não permitir o direcionamento e a condução das passeatas por parte dos partidos políticos, afinal, isso é uma clara demonstração pedagógica do que os partidos não estão fazendo, ou seja, representando a sociedade. Bingo! Daí a não permitir a fala é uma atitude não apenas alienada, como sectária, equivocada, e que permite a ascensão de discursos fascistas.

Partido quer dizer Parte, ou seja, uma representação segmentada da sociedade. É bem verdade que já algum tempo perderam a sintonia e a capacidade de mobilização social, exatamente por não entenderem determinadas dinâmicas, mas respeito quem há anos luta por um estado melhor, tem dado sua vida pelas transformações, coisas que muitos desses jovens apenas agora começam a tatear.

Também é verdade que a esquerda sempre foi desunida e isso é um erro que se acumula há décadas. Por falta de clareza, de leitura politica, por sectarismo e radicalismo, transformam divergências metodológicas quanto às mudanças em verdadeiras bandeiras ideológicas como se os que não concordassem com essa ou outra estratégia fossem os verdadeiros inimigos da sociedade.

Estamos perdendo um momento histórico de pontuar de fato as questões que nos oprimem. Esse é um momento de resignificarmos a politica, a forma de fazer politica, de representação.

Outra questão, em cada lugar as disputas internas visando às eleições para 2014 estão aflorando. O movimento é nacional, mas as contradições e os projetos de poder são locais. Existe sim no caso de São Luís uma estratégia clara não para minar a presidente Dilma, afinal, o que é Maranhão no cenário nacional, mas direcionar o fim do movimento temendo suas consequências quanto às demonstrações das mazelas estaduais.

Há uma questão muito maior e muitos desses jovens não tem leitura, maturidade, experiência e nem percepção sobre o que está acontecendo. Existe sim uma manobra politica operada por grupos e parte desses jovens estão simplesmente sendo manipulados.

Quanto ao movimento ACORDA MARANHÃO fica o meu alerta. Ou redefine estratégias de reivindicação, permite a fala, mas não a condução de partidos políticos, ou vão sofrer o terrível desgaste da desmobilização, o que já está acontecendo, e vão perder a excelente oportunidade de unificarem as propostas que incomodam a todos.

Outra coisa: caldo de galinha, humildade, serenidade, sabedoria, nunca fizeram mal a ninguém. Porque o Movimento Passe Livre em São Paulo se retirou das mobilizações? Inteligência estratégica. Perceberam que estavam sendo massa de manobra de interesses mil dentro do movimento e teriam que pagar a conta pelo vandalismo, caos e até pelo descrédito nacional.

Existe um golpe sim, não de estado, mas da direita que tenta ridicularizar o movimento, tornar tudo pasteurizado, como se não passasse de oba-oba, de modismo. Foi assim que governaram o país durante 500 anos. A direita é extremamente unida, sabe exatamente o que quer, já quanto à esquerda, é de chorar.  

É assim que se transforma uma cachoeira de 30.000 pessoas jorrando esperanças para todo lado num fim de tarde triste, melancólico, sem sol e num imobilismo acorrentador. A alegria se transformou em tristeza.   

     
     

                 

18 comentários:

  1. Bom dia Henrique!
    Gostei muito do seu texto!
    Parabéns!!!
    Abrs
    Ítalo

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  2. Só uma correção, o nome do movimento de ontem é Acorda MA.

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  3. O texto mais esclarecedor até agora.Obrigada.

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  4. Muito bom, Henrique. Palavras claras. O prazer de estar na multidão transformou-se na triste certeza de que nesta luta, nem todos estão em sintonia. Nem todos estão conscientes para unir forças contra o mesmo inimigo.

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    1. obrigado rose. também concordo e acho que as coisas pioraram.

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  5. ótimo texto! o nosso final de tarde está perfeitamente representado nas tuas palavras, triste, melancólico e sem sol.

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  6. Parabéns pelo texto! Tive uma teiste sensação de estar numa micareta ontem à tarde na ponte do São Francisco!
    Infeliz ideia de alguém que queria dispersar o movimento e q não tinha a menor noção do q estava fazendo!

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  7. Henrique, efetivamente a ideia de pauta é vaga porque para que uma pauta se defina e tome contornos definidos, é preciso que alguém tome a frente, que haja uma representação. A lista definidas a que vc se refere foi pensada por quem luta por melhorias há muito tempo, que sabe dos limites e possibilidades dessa mobilização. Ou seja, daqueles que estão envolvidos em algum grupo, logo aqueles a quem está sendo negado o direito de voz. Todos gritam por um Brasil melhor mas o que é esse melhor? A insatisfação é clara e temos muitos motivos para reclamar mas o que realmente mudar?
    O perigo de tudo o que vem acontecendo é a indefinição de um caminho e quando não se sabe para onde seguir qualquer caminho está certo.
    Bj

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    1. pois é, mas tomei porrada e fui chamado de conservador. vá entender.... beijos

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  8. Henrique, é o Roger...não vejo essas manifestações com o mesmo otimismo do meu amigo vei. Na minha opinião, em se tratando de Maranhão, não existe bandeiras, ideologias...é um bando sem rumo que se "ajuntou" para tomar cachaça, ouvir a pior música já produzida no Brasil e que, em sua grande maioria votou em Castelo e vai pela farra...vai acabar assim que os verdadeiros inconformados do sudeste entrarem em casa.

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  9. Muito boa leitura dos fatos. Como eu tenho dito: no meio à carência de tudo, é preciso organizar uma pauta do caos.
    Algo que me deixou triste foi a falta de pessoas mais velhas nas passeatas. A imensa maioria é composta por jovens que podem ser facilmente manipulados (não todos obviamente) e que possuem menos experiência em movimentos sociais. A participação deles é imprescindível, mas a efetiva participação dos mais experientes, das diversas camadas da sociedade civil, enriquece o movimento. E a infiltração da direita é previsível, inclusive através do aparato milico estatal. Bjos meu caro.. Vivian

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    1. beijos minha querida. se a assembléia popular fracassar, já era

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