terça-feira, 20 de outubro de 2020

O SER DAS MONTANHAS

As montanhas de Plateau de Beille, nos Pirineus, são lugares aprazíveís para atividades diversas como lazer e prática de esportes, sobretudo para quem aprecia o tour de France. Desde tempos remotos, elas são refúgios daqueles que buscam paz de espírito, respostas às suas questões internas e, hodiernamente, escapar das vicissitudes do mundo capital, do frenesi das cidades com suas luzes sedutoras, com o barulho dos carros, ofuscando as vozes pela vida agitada.  

Philipe Condorcet, sempre que pode, apruma seu equipamento de ciclismo e sobe as montanhas, não apenas para se preparar para o tour de France, bem como para respirar novos ares e alcançar o objetivo de um dia subir ao ponto mais alto da mais alta montanha de Plateau de Beille. Subir as montanhas constitui um desafio constante, um objetivo e uma meta. A cada pedalada era como se as horas rodassem para trás, sorvendo o tempo, roubando um pouco dele e se transpondo a uma atmosfera em que a medição dos minutos não fazia muito sentido.  

Depois de tirar uns dias de folga, rumou ao Plateau. Retirou sua bicicleta do carro estacionado na estação de esqui, lançou mão da jaqueta para temperatura mais amena, afinal, estava no meio do outono, quando as folhas secas caem com suas cores acinzentadas, seus tons pastéis, revolvendo-se no chão, levadas pelos ventos da estação, se transformando em solo, adubo, aptas a se transformar em lama, e serem revolvidas.    

Quando contornou uma curva, andando, solitariamente, e apreciando a paisagem, avistou ao longe um carro tombado. Dois rapazes com força hercúlea, solenemente, tentaram desvirá-lo. Philipe Condorcet de soslaio até tentou ignorar a cena como se tudo se resolvesse sem sua ajuda, em vão. A consciência salvacionista o acusara de desumanidade, ao passo que seu ego sobressaia, gritando por fazer algo que o redimisse de sua vida comezinha e autorreferenciada. Estacionou a bicicleta e saiu correndo a prestar socorro. Aproximou-se e perguntou se precisavam de ajuda. Os jovens ignoraram-no completamente, como se lá não estivesse. Ainda assim, somou suas forças a dos rapazes e, com muito ímpeto, conseguiram desvirar o veículo. Depois do feito, perceberam que os vidros dianteiros estavam quebrados. O silêncio reinou, só entrecortado pelo uivo dos ventos. Não falavam nada. Após tal façanha, Philipe Condorcet sentou-se de tão cansado e só então percebeu que estava despido da cintura para baixo, somente com uma jaqueta a cobrir suas espáduas. A seminudez, além de não ser notada, não era motivo de constrangimento aos rapazes, pois eles continuavam a ignorar não a sua presença

Como se recostou próximo dos pneus traseiros, ouviu um sussurro, uma espécie de frêmito muito baixo. Era uma mulher ferida com duas crianças de colo, também parcialmente feridas. Conseguiram retirá-las, mas achou estranha a falta de preocupação dos rapazes com os possíveis ferimentos da mulher e das crianças, bem como a ausência de pedido de socorro médico. Mesmo despido, insistiu que alguém procurasse ajuda, mas ninguém se importava. Diante da insistência para que um dos rapazes as levassem ao hospital da região, um deles o agrediu com palavras ríspidas, perguntando afinal o que queria e o que fazia ali. Foi embora, mas percebeu que um deles o acompanhava, à medida em que se aproximava de sua bicicleta, como se quisesse se certificar de que não voltaria, ou, se de fato seria essa mesma a atitude a deixar a mulher e as crianças naquelas condições. Incomodado com a situação, virou-se, no intuito de agredi-lo. A reação foi a mesma do observador indômito. Quando, enfim, se encontraram frente a frente,  esbravejou que seu único desejo era ajudar aquela senhora e suas filhas. Então, o mais nervoso, gesticulando como quem galharda, pediu para que parasse de falar e fizesse alguma coisa.

Quando ambos voltaram ao local do acidente, a mulher e as crianças estavam já recuperadas, mesmo diante de tamanho trauma. Havia se formado uma pequena aglomeração e todos que lá estavam, alegremente, comentavam que tanto Philipe Condorcet quanto o mais indômito dos rapazes havia, enfim, feito as pazes, como se já se conhecessem.

Foi, então, que Philipe percebeu, na pequena aglomeração, uma mulher a lhe observar candidamente. Com passos lentos, tentava perceber sua silhueta, os traços do seu rosto, em meio aos braços e pernas das pessoas a turvarem sua visão, completamente obnubilada. Como um déjà vu, sentia que conhecia aquele rosto de algum lugar, mesmo sem identificar de quem se tratava. Somente quando não havia ninguém entre eles, percebeu que se tratava de sua mãe, já falecida. Seu rosto resplandecia, seu sorriso era cândido, como quem, pós-morte, apascentara seu espírito atormentado por uma vida de angústia. Transmitia paz. Olhou para os lados e se deu conta de que somente ele a via, mais ninguém. Absolutamente, ninguém percebera sua presença, como se ali não estivesse. Coçou seus olhos, sua boca seca aumentava a glote à procura de água, seu coração disparou, suas mãos ficaram gélidas e pensou estar louco. Ela continuava a olhá-lo com mais ternura à medida em que se aproximava. Quando, enfim, estavam frente a frente, ela lhe disse: - Filho, a minha preocupação não é o que falam de ti, mas o que pensas de ti mesmo! Condorcet abaixou a cabeça, como quem reconhecia internamente o sentido da mensagem. Quando levantou o rosto, sua mãe não estava mais lá.

Lentamente, caminhou em direção à bicicleta. Já estava vestido da cintura para baixo. Começou a pedalar, refletindo sobre o sentido disso tudo e, até mesmo, se estava alucinado, se havia sofrido algum acidente e batido a cabeça e não se lembrara. Pedalou por horas, quando avistou a montanha mais alta do Plateau de Beille, exatamente, aquela que sempre desejara subir, desde a mais tenra infância. Saiu da estrada e rumou por um caminho de terra até o sopé da montanha. Não tinha equipamento adequado para a subida, sobretudo, roupa para o frio. Olhou a estrada ao longe, avistou o cume da montanha, fechou os olhos, respirou fundo e começou a subida. À medida em que subia, as dores nas pernas, o cansaço, os detritos de pedra que ofuscavam sua vista e a distância a ser percorrida lhe pesavam como quem carregasse o mundo nas costas. Tudo compelia para sua desistência. Recobrava seu fôlego e continuava sua escalada. Suas mãos sangravam de tanto esforço fixando-se nas frestas das pedras, mas nada o fazia parar. Depois de horas de tal escalada, avistou um plateau bem próximo do ponto mais alto e lá havia uma pessoa em posição de lotus, de costas para onde se encontrava, avistando uma outra parte da cadeia montanhosa. Ele se perguntou como alguém poderia estar ali e o que fazia. Quando enfim alcançou o plateau, caminhou lentamente até a pessoa. Era um homem. Seus passos lentos, sobre os detritos do solo arenoso eram abafados pelo uivo dos ventos. O silencio só era interrompido pela onomatopeia das montanhas ao usarem os uivos como palavras para se comunicarem. Deu-se conta de que as montanhas conversavam e guardavam os segredos e toda a história do que se passara naquele lugar, como velhos guardiões do tempo. O tempo era aliado delas e se sentava à mesa para falar da visão finita, sobretudo, das pessoas. Ao chegar bem próximo do homem, tocou em seus ombros e, lentamente, virou-se para olhar quem o tocara, era ele próprio.          

sexta-feira, 2 de outubro de 2020

DESEJO E CRIAÇÃO III

 


A latência das imagens se inicia com o nascimento, ainda que não haja clareza e nem conduta moral para inundar o que serão as lembranças puras. Tudo, no entanto, começa a ser registrado. O corpo absorve as imagens, matéria da vida. As lembranças puras sofrem inflexões das lembranças-imagens até se formarem percepções, propriamente ditas, já transformadas em representações, sentidos, como diria Bergson. O que permanece são as percepções, não mais as imagens puras. O corpo capta as imagens, mas o cérebro as processa. Tudo a passa a ser fremido pela relação presença-ausência. A cada afecção que interpretamos como ausência, é iniciado um processo inconsciente de busca por algo que supostamente possa preencher o vazio, ainda que inominável, ainda que não prefigurado. As dores, construções nomotéticas das memórias já elaboradas, editadas pela percepção, passam a se relacionar com o tempo distinguindo o ontem, passado; hoje, presente; e o amanhã, futuro, ainda que só exista o agora. É a dor da ausência que transforma o passado numa porta sem saída, pois só será passado, deixando de ser presente, exatamente quando a porta estiver aberta e deixar de ser presentificado tal passado. Basta uma imagem captada pelo corpo, ainda pura, depois transformada em lembrança por um ato simbolizado pelos sentidos enquanto referencial, para se constituir uma memória monumental. A vida, então, passa a ser o sentido da reatualização daquela lembrança ou do desejo de reificá-la. Se o presente não for prenhe de seu sentido, então, a porta do passado continuará fechada, isso constitui o que chamamos de morte: a certeza de que aquilo vivido e interpretado enquanto referencial não se repete, ou pelo menos da mesma forma. Começam a luta e as construções das idealizações, sempre à procura da repetição daquilo que o corpo, depois a percepção, nominou como referência. As outras possibilidades soam como estanques, estranhas, alhures. Embora a vida seja um mosaico, prenhe de quaisquer significados que possam ser atribuídos a ela, é a vocalização, a direção do olhar, obnubilados pelos sentidos e as percepções que tangenciam e direcionam como a vida deve ou deveria ser sorvida. É a percepção que, conotada pelos sentidos que assumem o lugar da existência, passa a ser compreendida enquanto tal. Damos vida a tudo que atribuímos peso, importância, força e sentido. Nada é arbitrário, tudo é construído, tudo é referenciado. A mudança de percepção altera as significações. Somos os deuses de nós mesmos. Somos os guias de nossas próprias vidas. Somos os autores do que cognominamos de vida. A morte não é antitética à vida, é a sensação de que aquilo que referenciamos enquanto primordial não pode ser repetido. A nossa luta contra a morte se torna menos hercúlea ou mais hercúlea se fazemos da vida um cabedal chamado de obra. A obra, então, é a monumentalização, a lembrança-imagem congelada, o instante fugaz em que o sentido do que fizemos se imortaliza. O balanço mnemônico da existência é colocado na balança de Anubis. A existência não se interpõe nesse julgamento, e sim, a percepção de que a matéria da vida, apoiada na memória, na hora da morte, pendeu de forma menos heroica Não há ninguém lá fora nos julgando a não ser nós mesmos. E todo esse julgamento nasce no processo de composição das imagens puras e depois imagens-lembranças ou lembranças-imagens, depois percepção.

O corpo, o primeiro a captar as imagens, passa a sofrer com as percepções dos sentidos. Os órgãos internos somatizam o que a matéria-memória edita. A mente intensifica o que ela mesma projetou.  

Um instante perceptivo se emoldura na memória. A busca pela reedição da matéria se constitui numa luta fremente de potência. A pulsão mobiliza. Os sentidos elaboram e reelaboram. A mente aprisiona ou liberta. O corpo deseja. O coração sente. O estômago distribui as sensações e comanda outros órgãos provocando ou uma eubiose ou desbiose, dependendo de como as três mentes: uma localizada no cérebro; outra, no coração e a outra; no estomago, as prefiguram. Corpo e mente formam um compósito amálgama de locução de percepções.

A memória é a edição da matéria. Os mesmos gestos são perseguidos, os mesmos ângulos, as mesmas sensações, as mesmas palavras, interpretações, tudo passa a ser uma condição obsequiosa de repetição. Por isso, as lembranças puras já não importam, e sim, as sensações que elas carregam. Tudo o que não lembre ou não se aproxime de uma situação-monumento passa a ter menos importância, muitas vezes sequer percebida. Assim, o enredo do vivido não é a totalidade da ação, é um filtro da ação.  

Do que é a lembrança? O que é a lembrança? Perguntou Paul Ricoeur.  O que constitui as lembranças? O que os sentidos ritualizam? Como diria Bergson, não se trata de entender como as sensações nascem, mas como são elaboradas. Como os sentidos são atribuídos e por quê?           

              

quarta-feira, 24 de junho de 2020

Desejo e criação: PARTE II


PARTE II

O desejo manifesto passa a compor a existência, sendo a existência a expressão do desejo. Não que existência e desejo sejam a mesma coisa, mas existência assume a forma do desejo. A vida passa a ser a forma como a desejamos.

Um ponto fixo. Um pensamento ganhando forma. Aos poucos, a vida se confunde com aquilo que pensamos e o que pensamos, vai se materializando. O ponto cresce e se torna feixe. O feixe se amplia criando outras conexões. As conexões criam nexos e os nexos sentidos. A vida se confunde e passa a ser medida pelos sentidos atribuídos a ela.

Um desses sentidos é a noção de ego, “equivocadamente”, interpretado como o eu. É um eu, mas não o eu mais profundo. Mas esse eu interpretado como sendo eu, é um sentido tão cheio de si, que se confunde com a própria noção de existência.

À medida que o tempo passa, esse Ego toma conta da vida. Atribui significados, conota sentimentos, atribui valores. Como cada existência é medida por esse Ego, a vida é um repertório de egos em disputa.

Às vezes, esse Ego se atrela tão profundamente a certezas, que qualquer outra interpretação sobre a vida se torna inexequível. Ou, outras vezes, tais certezas são a própria ideia de vida. Como qualquer outra mediação está obnubilada por tais certezas, todas as vezes que o Ego é contrariado, a vida é lida enquanto adversária. É a vida contra o Ego. Não é a vida ampliando as possibilidades do Ego, convidando-o a abrir mão de suas certezas, e sim, a lidima das vicissitudes, “massacrando” o eu.

É uma eterna batalha vencer o eu, que significa não encerrar a vida, mas um tipo de disputa, ampliando as possibilidades da vida e convidando o eu a aumentar a exponencia dos sentidos da vida. O Ego encara a batalha como a morte de si pleno, quando se trata de transmutação. Não admite “perder para si mesmo”, pois sua mudança implica abandonar os pontos fixos, os feixes, os nós que os trouxeram, até onde se encontra.

Como transmutar os nós e encarar a possibilidade de novos feixes ainda não vivenciados? Eis a questão!! Diante do insólito, do não vivido, do inesperado, as velhas batalhas. É mais fácil lidar com o trilhar desenhado, que galgar novos caminhos. A segurança, ainda que não segure mais nada, que não faça mais sentido, que não apresente mais nada, que só reforce os mesmos caminhos já trilhados, é incomensuravelmente mais confortável que o desconforto do não saber por onde caminhar.

O Ego teme a morte, não apenas a morte física, mas a morte de si. A morte é a única certeza da vida que se tem: a morte como recomeço, como princípio, como reinício, como vida. Tudo morre, para mais uma vez, viver. Tudo morre, para mais uma vez, renascer. Tudo esvanece, para mais vezes, florescer. O Ego não deveria temer a morte, pois a única real e verdadeira morte é o medo de viver. É quando a morte se antepõe, não enquanto continuidade da vida, mas sim, enquanto antivida. Morte e medo são silogismos.

São as mesmas faces da mesma moeda, mas não a morte como renovação, e sim, enquanto não renovação. O medo é libelo do antinovo, é a chave que não vira, o não bater de asas, é o voo não alçado, a lagarta que não vira borboleta por temer o voar, pois sempre rastejou.

É preciso morrer. É preciso deixar morrer os feixes, os pontos, os nós, os eus, dar passagem a novos feixes, pontos, novos eus. Assim, o ciclo viver-morrer se completa, se renova, para mais uma vez, viver-morrer.

Se os pensamentos não se desvanecem, outros pensamentos desses mesmos pensamentos não brotam. Outras possibilidades dessas mesmas possibilidades não se possibilitam. Nenhuma nova variação não varia. As palavras novas não surgem. Os significados continuam significando as mesmas coisas. Os Nós não desatam.

É preciso celebrar a morte, pois ela entende o que é vida, enquanto a vida, só se compreende enquanto não morre.     

  
 

terça-feira, 12 de maio de 2020

DESEJO E CRIAÇÃO: PARTE 1


Há uma estreita ligação entre a introspecção e a descoberta de mundos. As descobertas do que existe fora de nós, como se fosse possível existir o fora, ou como se o fora não fosse extensão do que há dentro enquanto projeção, enquanto vibração, ou ainda enquanto soma das coisas que somos nós, são reencontros. Não que sejamos a medida de todas as coisas, e sim que as coisas são mediadas, atravessadas para serem percebidas, ainda que existam independentes de nós. 

Mediadas, aquilo que media, meio, existente por ser nem começo, nem fim, processo, instante eterno-fugidio, eterno-fugaz, eterno-volátil, presente-ausente. O que media, conecta. O que conecta, liga, o que liga, cria pontes, ilaça. As pontes tocam extremos, servem de passagem ao mesmo instante em que são em si passagens.

Somos pontes, somos meios, somos passagens e estamos de passagem. Somos eternos, mas nem sempre existimos. Como pode algo ser eterno mesmo sem nunca ter sempre existido? Talvez, pela razão de que algo, depois de criado, passando a existir, para sempre exista, ainda que pereça.

A ideia de mesmo nunca ter sempre existido para algo existir é em si paradoxal, preexiste enquanto força, ideia, potência, vontade, desejo. O existir é o desdobramento do que preexiste. O que preexiste antes do existir é, então, uma potência de si, necessitando de algo que, pelo desejo, o torne real. Desejo e potência do que preexiste, ainda que não sejam a mesma coisa, passam a ser, pois que, depois de efetivado, o que passa a existir é uma ação do desejo.

A introspeção cria mundos, ou os mundos se revelam pela introspecção. Se aquilo que é imaginado passa a existir, então somos cocriadores de mundos, ou os mundos se apresentam a nós pelos nossos desejos de (re) encontrá-los. Os desejos são as potências da criação e, ao mesmo tempo, as vontades manifestas dos mundos de continuarem a existir em nós, por nós e em nós.

Os nós são os laços que nos afetam e nos atam ao desejo de sentir o que é existir. Existir, então, passa a ser uma forma mais elaborada do preexistir, pois o existindo tem a necessidade de se expandir, criando coisas novas, preexistentes dentro de nós, a tal ponto de não sabermos mais o que é preexistente do existente.

A introspecção cria mundos ou é criada por eles? Se os mundos são criações das introspecções, então só existem dentro de nós, e, no entanto, existem em nós e além.

Por que introspectar? Porque talvez seja a melhor forma de encontrar outros mundos para além do que enxergamos, ou porque os mundos existem dentro de nós e só podem ser acessados olhando para dentro. Um grande enigma, talvez, repouse nisto: os mundos se escondem dentro de nós mesmos, sendo espacialmente infinitamente maior que nós. Como pode o macro caber no micro? Como pode aquilo que foi criado antes se esconder dentro de nós? Porque os nós atam dois mundos: o do desejo e o da ação, sendo os mundos ações dos desejos.

Pelos desejos criamos mundos e os mundos são as nossas moradias, dentro e “fora”. Por que precisamos de mundos para morarmos? Porque o desejo do preexistir necessita da forma manifesta para a efetivação de suas extensões, uma vez que a ação manifesta reverbera o desejo e porque uma vez dentro eles querem se expandir.  

quarta-feira, 22 de janeiro de 2020

MAGnífica

MAGnífica

Há um pote com amontoados de letras
que com o toque das mãos retraídas revolvem palavras inteligíveis.
Quanto mais se misturam, mais palavras inaudíveis.

As mãos não formam palavras concatenadas, 
porque a mão que toca, 
ainda que seja a que escreve, 
sempre obedece a um outro que tece.

As combinações de palavras são infinitas,
como infindo é o desejo de vê-las rodopiando.

O pote sempre estará ali à espera não apenas de mãos intencionadas,
mas da tessitura de letras à procura de novas palavras.

Palavras são desejos encarnados em grafias de sons, de símbolos, de outros desejos.

O pote ali, sempre ali, ecoa novas palavras. 
Outrora retraída, 
agora a mão revolve incessantemente à procura das que nunca foram ditas.

MAGnífica, 
enfim encontrada, 
forma agora sons audíveis. 

É a matriz da qual se formam poemas. 
Se o poema é o desenho da poesia,
MAGnífica é a encarnação da melhor palavra.      .      

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2019

Sincronicidades: da infância a Cabo Verde


Para Rômulo e Ramon, Tatiana Reis, Alberto Antero, Cláudio Ramos, Kaká Barbosa e Vera Duarte 


Em 19 de outubro de 2012 publiquei uma crônica sobre Cesária Évora (https://versura.blogspot.com/2012/10/cesaria-evora-doce-voz-de-cabo-verde.html).

 A crônica versa sobre como tomei contato a “doce voz de Cabo Verde”! Era criança, tinha entre 07 e 08 anos, quando, embalados pelas festas alvissareiras da minha casa, minha irmã Bete, a mais velha, sempre colocava na vitrola a música “Regresso”, cantada pela marrom Alcione, letra de Almicar Cabral, música de José Agostinho, depois regravada por Cesária.

Trinta e um (31) anos depois, já morando no Rio de Janeiro por conta do doutorado, ingressei num grupo de cultura popular por nome sugestivo de Mariocas: (maranhenses e cariocas), coordenado pelos gêmeos dançarinos Rômulo e Ramon, o mesmo que na minha adolescência assistira no Brasil Legal, programa de televisão comandado Regina Casé, sobre o reggae em São Luís.

Num dos preparativos de nossas apresentações, a companhia ensinava percussão para crianças do morro da Mangueira, no Centro Cultural Cartola, enquanto eu afinava o crivador no fogo, comecei a preparar a indumentária para dançar Jongo e tocar Tambor-de-Crioula. Ramon pediu que eu assistisse um documentário. Era exatamente sobre Cesária Évora. As lembranças me sobressaltaram.

Semanas depois fomos convidados a participar da celebração de convênios entre Cabo Verde e o Brasil na área de educação com a presença do presidente africano. O ano era 2005. O convênio estendia a integração entre os dois países e permitia mais entradas de estudantes do país-arquipélago no Brasil. Depois da celebração, houve uma grande festa da Universidade Santa Úrsula, na zona do sul do Rio, e tive a oportunidade de conversar com vários estudantes daquele país. 

Eu pensei que minhas relações com o país das dez ilhas no meio do Oceano Atlântico acabariam por aí. Ledo engano.

Treze anos (13) depois, pela insistência da amiga e colega de Departamento Tatiana Reis, comecei a me interessar pela literatura cabo-verdiana. Ela estudara o movimento intelectual conhecido por Claridosos, das décadas de 30 e 40 do século XX, que recebeu forte influência da literatura brasileira, notadamente da geração de 30 (José Lins do Rego, Graciliano Ramos, Jorge Amado, Carlos Drummond de Andrade, João Cabral de Melo Neto, dentre outros), determinante para a ereção de um sentimento de caboverdianidade na literatura, com repercussões na identidade nacional e conseguinte emancipação política de Portugal na década de 60.

Lembrei-me que, no meu doutorado, quando estudei Trajano Galvão, Francisco Dias Carneiro e Antonio Marques, em meados do século XIX, tais autores bradaram uma ideia de um romance “tipicamente maranhense” tendo por ilação as influências culturais africanas. Foi o mote que encontrei para retomar algo que não havia aprofundado no doutorado e que há muito me interessava e me incomodava por ter abandonado. Quando a FAPEMA lançou o edital IECT (Economia Criativa), formulei uma proposta de pesquisa sobre literatura brasileira (notadamente a maranhense), tendo como fulcro central Trajano Galvão, Francisco Dias Carneiro e Antonio Marques Rodrigues e os PALOPS (Países lusófonos africanos: Cabo Verde, Moçambique, Angola e São Tomé e Príncipe; deixei de fora Guiné Bissau por questões orçamentárias). O projeto se intitula Périplo Literário. Convidei Tatiana para compor a equipe de pesquisadores e demos início ao projeto.

Em julho de 2018 pedi a minha agente de viagens, Luzenir Farias, que comprasse minha passagem para Cabo Verde exatamente para esse mês por conta das minhas férias na Universidade, não queria que o projeto atrapalhasse as aulas. Passagens compradas, busquei um Airbnb no bairro Central de Praia, capital de Cabo Verde, Platêau, Centro histórico, coração da cidade. O proprietário da casa, Alberto.

Depois de três dias em Fortaleza esperando um voo em vão para Cabo Verde, a companhia aérea TACV me comunicou que não havia previsão de embarque e eu decidi retornar a São Luís completamente frustrado.

De volta a São Luís, retornei a Luzenir e solicitei a providencia de uma nova passagem antes de minha viagem para Moçambique, em janeiro de 2019, já que pelo projeto não poderia sobrepor o cronograma das viagens. Ela comprou para outubro de 2018. Assim foi feito.

Ao chegar em Praia, fui recebido no aeroporto por Alberto. No trajeto, me mostrou o apartamento que eu ficaria no Platêau, mas estava em reforma e, portanto, ficaria com ele em Achada de Santo Antônio. Alberto é irmão de Kaká Barbosa, um dos grandes escritores caboverdianos, membro da associação de escritores caboverdianos, ex-integrante da frente de libertação do país perante Portugal, correligionário do grande movimento dos PALOPS (países de língua portuguesa na África), liderado por Amilcar Cabral.

Por indicação de Tatiana, entrei em contato com Cláudio Ramos, funcionário do Patrimônio Histórico e Cultural, que tem seu escritório exatamente em Cidade Velha, antiga Ribeira Grande de Santiago. Cláudio me levou até Cidade Velha. Na chegada, fomos recebidos por uma grande baleia jubarte, bem em frente ao antigo porto do cais. Sentamos em um bar tendo por horizonte aquele imenso mar azul turquesa, as ondas quebrando nas pedras negras da praia, céu límpido, as vielas da antiga cidade por fundo, aquele cenário bucólico da cidade cinzeta, quase nunca chove, tombada como patrimônio histórico da humanidade, a visão de onde partiam os navios abarrotados de sujeitos escravizados além atlântico, tendo o Brasil como um dos destinos.

Peguei meu celular, coloquei no youtube a canção Regresso, cantada por Alcione. Estava ao lado de Claudio e quando chegou o trecho:

A chuva amiga mamãe velha
A chuva que há tanto tempo não batia assim
Ouvi dizer que a cidade velha
A ilha toda em poucos dias já virou jardim

Dizem que o campo se cobriu de verde
Da cor mais bela porque é a cor da esperança
Que a terra agora é mesmo o Cabo Verde
É tempestade que virou bonança


As lágrimas correram dos meus olhos. Ouviu-se um silêncio entre mim e Cláudio. A baleia seguiu sua viagem.

Depois disso, Cláudio começou a me mostrar a cidade, a antiga construção da vila feita pela Cia. do Comércio, que tinha como sucursais exatamente as Companhias de Comércio do Grão-Pará e Maranhão, no século XVII, e depois da segunda Cia. do século XVIII, já na administração de Marques de Pombal. Foi estranho ver as imbricações entre Maranhão e Cidade Velha naquelas ruínas. O passado estava ali presente.

Tão emocionante quanto andar por aquelas vielas, foi conversar com os moradores, artesãos, agricultores, perceber nossas raízes, ser convidado para adentrar nas casas e tomar grogue, pinga, produzida da mesma forma desde o século XVII. Foi assim que meu amigo Cláudio me levou para a casa de seu amigo Francisco, o Chiquinho, um guia de turismo, estudioso da história de Cabo Verde e das relações transatlânticas, profundo conhecedor da região, e juntos tomamos uma garrafa inteira de grogue. À medida que conversávamos e bebíamos, nos sentíamos como grandes e velhos amigos e as conexões ficavam cada vez mais imbricadas. Falávamos como se estivéssemos matando saudades de um tempo que não nos lembramos, mas sabíamos que existiu. E quando nos despedimos, Chiquinho me abraçou e disse:

_ É muito bom te reencontrar, velho amigo!!! Antes de partir para o Brasil volte aqui, tem algo que eu preciso te mostrar e vais gostar de saber!!!!.... Cláudio olhou-me fixamente e não disse sequer uma palavra. Eu não voltei... Mas as palavras de Chiquinho engasgaram-me com o nó na garganta, como quem engole um guarda-chuva.        

No dia seguinte, fui à Tarrafal, outra ponta da ilha de Santiago, visitar o campo de concentração fascista onde entre as décadas de 30 e 60 foram presos cabo-verdianos, moçambicanos, guinenses e portugueses que lutaram contra o regime totalitário, notadamente os intelectuais, poetas, escritores. Naquela manhã insólita de domingo, eu era o único visitante naquele mausoléu de tortura, de paredes riscadas pelas mãos que, no passado, lutaram por liberdade, que sentiam o cheiro do mar tão próximo e exatamente pela localização de difícil acesso para lá foram levados. O mar que os trouxera era o mesmo que os afastara de tudo, do mundo, isolados naquela ilha. No lugar do passado de muitos sussurros, ais, gritos e mordaças, só o silêncio aturdia entre os muros altos cercados de arame farpado, de agora guaritas solitárias e vazias. As paredes desbotadas do tempo eram o painel das marcas das dores dos que por ali passaram e hoje são o suporte para os painéis informativos da história do lugar. Mas nenhum painel ilustrativo será capaz de narrar o espaço diminuto de uma solitária afastada da área central hoje tomada pela relva, cubículo claustrofóbico coberto com tela de zinco, chamado frigideira, cujo calor ultrapassava os 50 graus, destinados aos mais rebeldes.        

Ao voltar para Praia, Alberto já havia comprado minha passagem para Mindelo, capital da ilha de São Vicente, e reservado meu hotel para o prosseguimento da pesquisa. Quando o avião sobrevoou a ilha de São Vicente, me deparei com a mesma cena que vira quatro (04) anos antes durante meu processo terapêutico de cura interior e autodescoberta numa das sessões de hipnose (terapia de regressão). Numa delas, as últimas com o Drº Arquimedes, na clínica Eldorado, no bairro de mesmo nome em São Luís, vi-me sozinho no alto de uma montanha cinzenta avistando a cidade lá em baixo. As cenas são muito vívidas até hoje, sou capaz de descrever a grafofagia das montanhas, os traços, as marcas, a posição. Quando o avião riscou as montanhas da ilha de Santo Antão, vizinha a São Vicente, reconheci de imediato a montanha, a posição que me encontrara na hipnose de quatro (04) anos antes. Era o mesmo lugar.   

Ao chegar ao Café Royal, centro da cidade, ao lado do centro cultural Mindelo, vejo os retratos de cantores e cantoras cabo-verdianos que por lá passaram, havia sido um grande salão de festas, de apresentações culturais. Dentre as fotos, se destaca a de Cesária Évora.

Percorrendo as cenas citadinas, participando de rodas de capoeira – Mindelo é chamada de A Brasileirinha -, cheguei até o restaurante de Srº Luiz, antigo marinho mercante que rodara o mundo e adorava o Brasil. É um restaurante antigo, o mais antigo de Mindelo, com paredes salpicadas de fotografias, de reportagens e com assinaturas das pessoas que por lá passaram, de vários lugares do mundo, sem faltar a flâmula do Sporting Club de Lisboa, time do seu coração. Lá, conheci a roteirista de cinema Adriana Mattos, baiana, que estava em Mindelo, dentre outras coisas, pesquisando sobre Cesária Évora. Contou-me detalhes do que descobrira sobre Cesaria, sua história, tragédias pessoais, onde morara, suas disputas políticas. Era o período no Brasil entre os dois turnos das eleições presidenciais de 2018 e não faltou na nossa conversa a questão brasileira, nossas preocupações, acompanhado inclusive da análise de Srº Luiz.

No Centro Cultural Mindelo, depois de uma busca desesperada por todos os órgãos de cultura em Praia sobre a obra rara Hesperitanas, de José Lopes, datada de 1929, bem como Hespéridas, de Pedro Cardoso, de 1930, um funcionário foi em busca de alguém na cidade que a possuía e pediu-me que a fotografasse ali mesmo, pois precisava devolvê-la ao dono.

A obra retrata, dentre outras coisas, o imaginário caboverdiano sobre a lendária Atlântida, cidade retratada por Platão em Timeu e também em Critias, da qual os cabo-verdianos se dizem herdeiros. A mitologia cabo-verdiana atesta que as dez ilhas são exatamente um dos pontos de refúgio dos atlantes que sobreviveram a hecatombe, o afundamento, e que os gregos, milhares de anos depois, teriam transformado nos jardins das hespérides, a morada das ninfas, situado às margens do rio Oceano, guardado por uma serpente, que simboliza a transição entre a noite e o dia. Ao conversar com moradores de Tarrafal, e também com os de Mindelo, muitos conheciam o mito e comecei a me interessar pelo assunto. Passei a devorar a obra de Pedro Cardoso e José Lopes e escrever sobre o assunto. 

Quando voltei à Praia, encontrei-me com Kaká Barbosa e o entrevistei sobre literatura Cabo-verdiana e, em seguida, com Vera Duarte, outra grande escritora, no café Nho Eugênio. Quando comecei a conversar com Vera sobre o que descobrira em Mindelo, ela abriu o sorriso e disse-me que o texto que enviaria para a coletânea qual eu e Tatiana estamos organizando e que ela é uma das convidadas é exatamente sobre a relação entre Cabo Verde e a Atlântida.

De volta ao apartamento, Alberto perguntou-me a minha impressão sobre Mindelo. Quando comecei a relatar as “coincidências”, sincronicidades com Cesária Évora ele abriu o sorriso, levou-me até o quarto onde eu estava hospedado e disse-me num sotaque caboverdiano:

_ “Meu caro amigo Henrique, este apartamento que ora estais é exatamente o mesmo que Cesária Évora ficava todas às vezes que vinha até a capital. Éramos grandes amigos, bem como ela de Kaká, meu irmão, e ela adorava ficar aqui hospedada". 

Quando, em Mindelo, Adriana Mattos me perguntou o que eu fazia ali e comecei a explicar da pesquisa, abri o celular e comecei a ler para ela a crônica: Cesária Évora: a doce voz de Cabo Verde. Perguntei que dia era aquele, Adriana respondeu: _ 19 de outubro.

Exatamente a mesma data em que, 06 anos antes, publiquei a crônica.          

quinta-feira, 17 de agosto de 2017

Uma questão de escala

O olhar. Um olhar. Olhares....

Goya, pintor espanhol dos séculos XVIII e XIX conseguiu enxergar nuances de uma tela ainda não executada que até os dias de hoje causam impressão súbita de espasmo. A variedade sobre a vida repousa nas diferenças, isto porque cada um impinge com suas retinas os matizes de um mundo ou multicolorido ou furta-cor.

Ao abrirmos os jornais hoje damos conta de um mundo em caos, e está mesmo, a questão é: porque e por quanto tempo? Além disso, pairam outras questões como se o caos fosse o horizonte a ser visto, o que ele esconde ou que subjaz em suas entranhas. O caos possui razão em si mesmo ou ele é o agente de transformação? É possível o nascimento de algo novo seu o componente de mutação? O caos não se trata de um aspecto da dualidade, afinal, no seio de um processo não existe outro em seu bojo? 

O que os jornais, mídia coorporativa de modo geral relatam soam como catastróficos em pleno século XXI: o ressurgimento de movimentos fascistas; o recrudescimento das democracias alhures; o aumento da concentração de renda planetária; a péssima distribuição de renda; o aumento da pobreza; a explosão da violência; aumento da poluição e devastação das florestas, serrados; a extinção de animais; a truculência de aparelhos repressores do estado; a inserção de golpes em democracias neófitas; ameaça de terceira guerra mundial; a explosão de ódio e raiva revertido em ações como a assunção da extrema direita; atentados terroristas; o controle da indústria farmo-quimica sobre a promoção e divulgação de resultados no combate às doenças; guerras localizadas gerando deslocamentos populacionais gigantescos com problemas como o da imigração, refugiados, dentre tantas outras coisas que a princípio, a primeira reação é de desânimo, de constatação de que a humanidade enquanto experiencia civilizacional fracassou. Correto? Errado.

Esses elementos, embora não sejam novos, são decorrentes de um longo processo de embates que a terra passa há milhares de anos, mas que recentemente se acirram pela luta em prol da libertação do planeta, cujas extensões estão cada vez mais evidentes. O que estes fatores acima indicam não é o fracasso da humanidade, e sim, uma disputa ferrenha entre grupos que sempre a controlaram, na verdade, nem sempre, e um número crescente de pessoas que passam a tomar conhecimento do que se esconde por detrás das lógicas de dominação e manipulação da informação. Além disso, a disputa entre "bem" e "mal" é maniqueísta, simplista, afinal, o processo dialético da superação envolve a simbiose entre as luzes e a suposta "trevas". Trevas não passam de ignorância, ou seja, desconhecimento. Só existe Luz.   

A mesma mídia que tem pressa em noticiar e alardear grandes catástrofes, crises, tensões e disputas sociais é pífia, risível quando se trata de divulgar ações como: a plantação de 1 bilhão de árvores pelo Paquistão em 2017, antecipando a meta em 04 meses; o fato de El Salvador ter proibido a extração de  metais de seu solo; Costa Rica recuperou sua floresta nativa; a mata Atlântica brasileira dando sinais de recuperação; avanços no campo cientifico aliando pesquisas neurológicas e espirituais, energéticas (imposição de mãos, aura, desdobramento astral, reiki); aumento do número de pessoas que se recusam a usar agrotóxicos; aumento do veganismo; vegetarianismo; de comunidades que aboliram o uso de dinheiro; aumento do voluntarismo; aumento da crítica ao consumismo; denúncia contra a manipulação da indústria farmacêutica; a ampliação da informação e da divulgação de informações importantes; aumento considerável de um contingente global contestando a ordem vigente e despertando para processos existenciais para além do materialismo; o anúncio eminente de um reset financeiro global, dentre tantas outras coisas. Como se vê: tudo é uma questão de perspectiva e de escala, de onde pretende-se olhar, o que consideramos importante e o direcionamento de determinadas informações.

É claro que o aumento do caos é real, no entanto, a forma como se aborda tal questão, o que se esconde e, sobretudo, os processos de mudanças oriundos do caos não são objetos de interesses dos controladores da informação. Mais uma vez, tudo é uma questão de perspectiva e de escala.

Uma das questões que não são anunciadas são as transformações astronômicas porque passa a terra, tais como: as atividades solares, a mudança de rotação do eixo terrestre, a entrada do planeta no centurião de fótons de Alcione, a aproximação com a andrômeda, a chegada do planeta Hercólubus e como essas questões afetam profundamente o estado de consciência coletiva global. Sim, pois que até mesmo a relação entre o cosmos e o estado de equilíbrio humano nos foi suprimido e até mesmo negado, legando-se à noção de cissiparidade, divisão, desarticulação entre tudo, como se nada tivesse interligação, como se não existisse o UM.

Como muitas dessas questões nos foram obliteradas, negadas, suprimidas por sistemas religiosos castradores, por uma cultura competitiva e predatória, por uma educação limitante, por um sistema econômico que nos transformou em coisas, objetos de sua sanha acumuladora, a existência terrana se tornou por deveras difícil, quase insuportável. Digo quase porque se fosse insuportável a lógica da vida e, por conseguinte do amor não fariam o menor sentido, além de colocar em suspeição o plano divino da aprendizagem, da capacidade que nós temos de escolher as circunstâncias, lugares, pessoas e situações para o aquinhoamento da compreensão sobre a existência, daquilo que precisamos para o nosso aperfeiçoamento, melhoria, avanço, sabedoria e ajuda mútua. Mais uma vez o que está em questão é a perspectiva, a escala e a forma como escolhemos o que é viver para cada um a partir do princípio do livre-arbítrio.

Para os que acreditam que a vida não se encerra no plano da matéria, que existe vida pós-morte, que o cosmos possui um sentido, que o amor é a força mais esplêndida que existe e que por ele tudo foi feito e retorna, fazendo da terra um lugar de aprendizagem, embora um dos mais difíceis de todo o cosmo, enxergar a existência terrestre, até então imersa na densidade da tridimensionalidade como uma experiência insuportável, ou quase, é também uma questão de escala.

Por tridimensionalidade ou 3ª dimensão entende-se o jogo da divisão, da separação de tudo como se nada fizesse sentido, um lugar e ao mesmo tempo uma condição em que fonte e criatura seriam unidades distintas e não interligadas, bem como tudo o que existe, a percepção de que não somos merecedores de nada, não somos bons, somos maus, vis, a vida se encerra no plano material, as únicas coisas que fazem sentido são aquelas que podem ser provadas pelos cinco sentidos, só existe vida inteligente na terra, o presente repete o passado, não há nada de novo, tudo já está estabelecido, a ética é uma dimensão distinta da compaixão, do amor, da justiça, a vida foi benéfica e voluntariosa para uns, injusta para outros; enfim, um complexo relacional que nos trouxe até aqui, quer dizer, exatamente onde nos encontramos: a sensação de que a experiência humana fracassou.

Há além disso a sensação de que todo esse fardo foi é pesado demais para ser suportado, qual seja: o de viver na terra. Outro equívoco. Milhares de seres de várias orbes, lugares do cosmo gostariam de experienciar a existência terrana exatamente por saberem do seu grau de dificuldade, bem como dos benefícios que tais dificuldades lhes proporcionariam, a saber, um acúmulo existencial sem precedentes exatamente pelo véu da separação, a ilusão de maya, a densidade da matéria, a benção do esquecimento, o invólucro da matrix, que no plano da consciência e dos cinco sentidos nos impede de enxergarmos quem realmente somos: divinos, perfeitos, como aliás, tudo o que o criador fez e faz.

É exatamente pela existência deste véu que somos levados pelo ego a cognominar o criador e o plano de divino de injustos, afinal, qual é o sentido em viver num mundo caótico como esse? Qual é o sentido da vida? O esquecimento retroalimentado pelo ego chora a vida inteira pela dor do parto, pela perda da proteção e segurança do útero materno. Somos sabotados por nós mesmos e levados a desconsiderar a profunda existência encoberta pela consciência e pelo uso fragmentado entre mente e coração, guiando-nos inclusive a recalcitrar à justiça do universo, afinal, a vida na terra sempre foi penosa. Outro equívoco.

A vida na terra só adentrou na tridimensionalidade há 26.000 anos atrás após as quedas de Atlântida e Lemúria. Antes disso, vivíamos na 5ª dimensão, logo, em circunstâncias muito melhores que as de hoje. Sendo assim, o período de existência na tridimensionalidade, colocado em uma escala comparada com bilhões de anos, muitos inclusive antes mesmo da existência física da terra, se torna algo não irrelevante e muito menos trivial, muito pelo contrário, foram difíceis e quase insuportáveis, mas não fazem do cosmo uma consciência injusta. Quer dizer, além de termos escolhido vivermos na tridimensionalidade para o nosso aperfeiçoamento, o período vivido como dévicos, anjos, seres celestiais é muito superior se comparado ao do afastamento na densidade da ilusão da separação. Aliás, o criador só consentiu que vivêssemos na tridimensionalidade, primeiro pelo nosso próprio livre-arbítrio, segundo, por saber que o acúmulo vivencial de bilhões de anos como dévicos era suficiente enquanto suporte para a experiencia densa, trágica, pesada, penosa e custosa do caos. Numa escala proporcional se compararmos bilhões de anos na 5ª dimensão e alhures com 26.000 anos de tridimensionalidade, veremos que o instante errático da terra em sua imersão da noite escura, apesar de dolorosa, é apenas um ponto na imersão do cosmos infinito. E tal experiência na tridimensionalidade está definitivamente se encerrando. A terra está nesse exato momento no corredor do parto, pronta para renascer na sua condição de origem, abandonando um período de 26.000 anos de trevas. 

Quando chegarmos a essa condição vamos nos lembrar dos tempos difíceis como aprendizagem, oportunidade e gratidão. Mas tudo é uma questão de escala e perspectiva.                                                                     

   

O SER DAS MONTANHAS

As montanhas de Plateau de Beille, nos Pirineus, são lugares aprazíveís para atividades diversas como lazer e prática de esportes, sobretudo...