quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Silvio Berlusconi e a politica italiana

O mundo assistiu o resultado das eleições na Itália. Silvio Berlusconi, ex-Premiere italiano, ressurge das cinzas. Mas como? O grande vencedor das eleições na Itália foi o comediante e blogueiro Beppe Grillo, líder do movimento 5 estrelas, paralisando as ações do congresso e colocando um impasse entre as intenções do centro-esquerda, e do centro-direita, liderada por Berlusconi. 

O resultado das eleições, para além da confuso e conturbado sistema eleitoral italiano, revelam a face da politica descreditada, crise de legitimidade - para usar uma expressão de Giorgio Agambem -, e da politica pragmática. 

A Itália como qualquer país possui suas idiossincrasias. Quando anunciado o retorno de Berlusconi vários setores no Brasil compararam-no com a eleição de Renan Calheiros para o senado brasileiro. A comparação merece exame, mas guarda muitas dessemelhanças: o retorno de Berlusconi é muito mais incoerente que a vitória de Renan Calheiros. Calheiros segue a longa tradição da política fisiologista brasileira, Berlusconi, a derrota da politização na Itália.

Não é fácil explicar o fenômeno Berlusconi, mas a história da Itália e o declínio do homem publico contemporâneo ajudam a compor o cenário.

A Itália viveu todo o período moderno mergulhado em repúblicas autônomas, foi a última nação européia a se unificar. Sempre viveu problemas com a noção de identidade, até que em meados do século XIX Garibaldi intenta o processo de unificação italiana, estendida até inicio do século XX com a terceira guerra de independência.

Se viu as voltas com o surgimento do fenômeno político Mussolini e o seu fascismo, também viu a aliança com a igreja católica e a criação do estado do vaticano, cravado no coração de Roma, cujo poder político se abre com grandes tentáculos por todo o país e tem muita influência.

É dividida culturalmente em várias regiões distintas que falam línguas distintas também e vive o eterno problema do separatismo entre o Norte e o Sul. O Norte, industrializado, rico, de influencia tedesca, é a sede da Liga Lombarda: movimento racialista, arianista, divulgadora do ódio racial, do ódio aos imigrantes e que considera a região Norte responsável por toda a riqueza do pais, bem parecido com que São Paulo acha do resto do Brasil ("carrega o Brasil nas costas"). O Sul, de influencia grega, macedônia e mediterrânica, é considerada pobre, miserável, sede da máfia e responsável pelo atraso do país.

A Itália gozou anos pós II Grande Guerra Mundial períodos longos de prosperidade econômica, cujas gerações seguintes viram sucessivamente os filhos serem mais ricos que os pais. A última geração antes da crise econômica e do fim da grande prosperidade é contemporânea ao surgimento do político Berlusconi. 

Berlusconi está associado ao sucesso, a imagem de homem bem-sucedido, do macho latino que tudo pode, milionário: dono do Milan, da Fininvest, de várias empresas, e, sobretudo, do pragmatismo na vida social e politica. 

A Itália vive um problema geracional: os casais se casam cada vez mais tarde e tem cada vez menos filhos - em média um por casal -, possui uma população extremamente idosa concentradora da riqueza do pais. Os filhos herdaram os patrimônios dos país, mas não possuem emprego e renda. 80% dos italianos possuem casa própria, quase todos possuem poupança, porém, com medo de investimentos arriscados. A geração que assistiu ao enriquecimento italiana é a geração de Berlusconi. O eleitor de Berlusconi é aquele que detém a riqueza do pais.

Ainda assim é vergonhoso vê-lo renascer das cinzas com tantos escândalos em sua trajetória política. Há explicações. O período Berlusconi no poder representou o declínio do homem publico italiano, a pedagogia da nova concepção de política na Itália, a ideia de que se dar bem é a norma, que os fins justificam os meios, que a politica é um toma lá da cá. 

A contradição fica por conta da imensa trajetória de debates políticos familiares, de um pais de grande efervescência politica; atravessou a fase das brigadas vermelhas; passou por governos mais para a esquerda; possui um grande legado cultural e educacional; uma sólida formação pedagógica; grandes intelectuais.  Berlusconi significou o período de crescimento econômico solapando a noção ideológica de coletividade, a tal vitória do pragmatismo.

Ao contrário do Brasil onde as famílias evitam discutir politica e religião, na Itália a política faz parte do cardápio - a sociabilidade da mesa -, ou seja, reunir a família para comer é um ingrediente da integração, da interação e da politização. Acrescido da sólida formação educacional, cultural e politica, o retorno de Berlusconi parece ainda mais bizarro, mas não é.

O retorno do ex-Premiere merece uma análise mais atenta quanto ao fato do que um período no poder com as características dele é capaz de fazer com a concepção de politica. Claro que Berlusconi não fez tudo sozinho, a mudança de percepção na politica, de atuação, oriunda do desencantamento do espaço publico, do esgarçamento das instituições democráticas, levou-os a uma "ataraxia política", uma inércia, um imobilismo, como se a estância do poder publico institucional não fizesse parte de nossa condição existencial.

Silvio Berlusconi é ao mesmo tempo protagonista e coadjuvante desse fenômeno, receptáculo e emissor de novos sentidos sociais e políticos. Seu retorno e a eleição de Beppe Grillo, um comediante -  nada contra os comediantes, muito pelo contrário -, porém, seu material de campanha, a forma como ele debochou dos políticos tradicionais são sintomas da falência dessa noção arcaica de fazer política.

O ex-Premiere representa a falência da noção de representatividade e legitimidade democrática. Do ponto de vista ético Berlusconi não possui legitimidade, mas possui representatividade de um setor do eleitorado italiano que desacredita na politica.

Quanto à comparação com Renan Calheiros, as questões de representatividade e legitimidade servem. Quem Renan Calheiros representa? Todos os brasileiros? Não, afinal, o abaixo-assinado eletrônico para sua retirada já passou de 800.000 assinaturas, corre o país inteiro e a pressão só aumenta. Da mesma forma na Itália houve protestos e resistências contra Berlusconi.

Não adianta dizer que politico é tudo igual, que nada tem jeito, é uma forma velada de não-participação da consciência critica, de omissão do espaço público. Usemos as ferramentas que possuímos para a ereção de um novo homem público, cuja esperança se assenta em perfis bem diferentes de Renan's Calheiros e Silvio's Berlusconi's.                                

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

O suicida



Por Tonny Araújo e Luis Fernando Pinheiro

Eu ia explodir
Eu ia explodir, mas eles não vão ver.
Os meus pedaços por aí

Chamo-me Jonh Guilty Spencer, mas podem me chamar de Guilty, ou J.G, como meus companheiros. Peço licença e alguns minutos de suas vidas para que eu possa discorrer sobre a minha história de amor e sei muito bem que as mulheres adoram histórias assim. Aviso, porém que a paixão pode levar-nos a lugares inusitados, loucos e absurdos. Mas o que seria de nós sem o Absurdo, não é mesmo?Aviso-vos também, que prestem muita atenção no momento em que vossas mentes engendrarem sua própria noção de minha vida, que conscientemente se desvinculem das regras, que não se deixem seduzir pela inclinação religiosa que acomete a tantas mentes quando encontram uma parte de si mesmas.

Era 26 de fevereiro de 1991, um dia claro e quente como todos no Iraque, estava na Segunda Brigada de Ferro, em uma missão incumbida de conquistar a cidade iraquiana de Al Busayyah. A estratégia, a propósito era simples: limpar a cidade dos malfeitores iraquianos e tomar suas armas (principalmente tanques e carros blindados), tal manobra me agradava bastante, pois sempre achei que fui feito para a guerra; as explosões; os tiros e o elemento artístico mais excitante destas raras cenas, os corpos estraçalhados. Bastava todos estes elementos se juntarem para que eu me entorpecesse, sentisse a vida gritar, para que enchesse os pulmões como se fosse a ultima vez e regozijasse olhando para o céu em uma forma singela de agradecimento.

Havia algo, confesso que me angustiava,não ao ponto de me tirar o sono, porém sabia que era isso que mais queria nessa vida:tornar-me parte do pelotão da infantaria, curiosamente sempre recebi o treinamento para ser piloto de tanque.Antes que me esqueça, dirijo um modelo clássico de tanque, um M15A Gun Motor Carriage, modelo inglês criado na década de 40, munido com quatro canhões cromados, ligas metalicas para sustentar as engrenagens das rodas anti-derrapantes e uma blindagem especialmente adicionada, dando um toque de sofisticação e agressividade à máquina. É impressionante a engenharia por dentro de um tanque como este, melhor sensação não há de haver. Tudo sob medida.

Muita gente vê, de fato, as batalhas como algo horrível  impensado. A morte não deveria ser sentida como quando se perde os caninos, sabe?Acho pura bobagem tal vulnerabilidade. Pensar dessa maneira é o mesmo que ir contra a natureza do homem: da destruição para absorvição, do vício pelo castigo, da semente pela flor, não cabe a pessoas que pensam no tempo de forma linear, mesmo porque o tempo não pode ser visto igualmente. A visão cíclica do mundo é de absoluta pretensão, e a linear, pouco proveitosa.

Poucos sabem, mas em uma boa guerra a morte não é o mais terrível, o que torna uma batalha sem sentido é a falta de prazer em relação às próprias armas, a ausência de desejo pelas partes de ferro e de metal que envolve os projéteis feitos com tanta precisão a fim de seguir seu destino em uma rota de colisão.Por isso, não se deve abandonar o armamento de qualquer forma: são nada mais, nada menos que prolongamentos dos nossos corpos, e valem, hão de convir, bem mais que nossas vidas.

Cá estou nessa tarde seca de ar empueirado em um grande deserto, lembro-me de estar ansioso, estava louco para começar a pressionar o botão vermelhinho do manche do tanque. Ah! Esse botão realmente me dava prazer, sentia como se estivesse dentro de um jogo, com regras simples: apertar o botão nos locais e momentos certos. Era tão fácil, a princípio gostava muito,no entanto sabia que poderia fazer bem mais,afinal de contas pudera eu estar no meio do fogo cruzado, sentir o cheiro do suor e do medo, ver a lágrima cair e o sorriso brilhar como se fosse o primeiro e derradeiro dia.Não me importava se a minha mulher se chamava Any ou se minha filha estava tirando notas boas para ir para Yalle. Estava onde queria...

- Ei, JG? Não fique aí parado pensando na vida seu palerma. Vamos, me ajude a recolher estes corpos homem!
- Entendido cadete Monroe! Dê-me só mais alguns minutos.

E lá fui eu carregar um monte de corpos e o que lhes restou, muitos deles amigos e conhecidos meus, mesmo porque os defuntos do pilotão inimigo não eram problema nosso, ficavam ao chão seguindo o propósito nobre de adubar as plantas e alimentar os abutres.

Enquanto carregava o que sobrou do corpo de Steve Campbell, aproximadamente 23 anos, um braço a menos, olhos castanhos, pouco ou nenhum costume de utilizar desodorantes e uma mania estranha de cantar músicas pela metade, perturbava-me uma vontade ensandecida de perguntá-lo o que sentiu ao ter o coração vasado do corpo e um dos membros cortado. Muitos cientistas, escritores, filósofos se debruçaram e se perguntam como a vida pode ser mais bem vivida, daí tentam encontrar a cura para as doenças físicas, mentais e espirituais do homem, porém nenhum deles se perguntou se a vida merece ser vivida. Essa é a pergunta crucial, sem a qual nenhuma das demais faria sentido.

Provavelmente ao voltar para meu país daqui a alguns meses esses cadáveres serão lembrados como heróis e os vivos procurarãooutro tipo de ocupação tediante para as suas vidas, agora perturbadas eternamente pelas imagens horrendas as quais presenciaram.
- Certo seus cães. Faremos uma pausa para o almoço, todos em fila já! Vamos! Vamos! Gritava pateticamente com um inglês engraçado o capitão Boby Faustine, descendente de franceses.
- Sim, senhor! Agora mesmo, senhor! Respondíamos como um coral desafinado, mas em um ritmo impressionante.

Confesso-vos amigos, que em circunstâncias tão desesperadas como tais nossas mentes começam a delirar, são momentos em que não há um caminho certo, ou errado, não se sabe nem mesmo se há uma linha na estrada a seguir. Onde estaria então a linha do caminho? O caminho não tem linha, não tem pigmento, nem som, tem apenas uma semente, que pode se estragar pela cicuta, ou pode se amar como uma puta.

Ah! Como eram sortudos aqueles malditos amigos que tinha. A sociedade, sobretudo as instituições religiosas sempre julgam mal os suicidas, enquanto os soldados, aqueles que vendem sua alma em troca da patética memória patriota e morrem como porcos no campo de batalha, a eles somente a glória e boatos positivos a seu respeito, todos esquecem suas atrocidades.

Depois da ração, tratei de voltar correndo para meu tanque, que estava do lado de um T-55, um verdadeiro dragão refrigerado, construído por geniais sanguinários soviéticos. Ah! E pensar que essa belezinha tem um poder de fogo capaz de explodir bairros e residências inteiros com poucos e certeiros disparos. É no mínimo, mágico observar as letras verdes no radar, o botão vermelho do disparo e as escotilhas que quando puxadas liberam quatro submetralhadoras. Feitas sob medida.

Pensando melhor, fui eu mesmo que escolhi naquele momento, ao entrar para as Forças Armadas me alistar e receber o treinamento nos tanques, eu cri que era o mais saudável e uma oportunidade única para pessoas com gostos artísticos tão exóticos quanto os meus. Sei bem que falando desta forma, a guerra parece apenas isso, uma atuação de quinta. Não para mim.

Vejam que engraçado meus amigos, mal havia acabado a União Soviética e eis os tanques dos vermelhos, agora pilotados por nós, yankees. A nação falida vendeu-nos os Tanques a um preço camarada, bem como para novos países envenenados de raiva como a Argélia e Angola, (pequenos países africanos que nascem para lutar e lutam para perder) é impressionante como povos tão pobres podem lutar tanto e principalmente perder tanto: nas batalhas e nas negociações de armas. Pobres demônios.

Depois de um tempo no exército a morte não significa muita coisa. Ainda há aquele medo da dor, e isso é inalterável. Felizmente inalterável. Sem o medo que espécie de emoção o fato de estar vivo teria? O ser humano necessita sentir as mais diversas sensações, o amor, o ódio, a esperança, o rancor e o medo para poder se conhecer e se reconhecer. Porém, fatos como a morte, nestes trâmites, apenas fazem parte do espetáculo. Não há comoção. Não há lágrimas. Não há saudade.

Essa é a descrição superficial do ambiente monótono que se constituía à minha frente: eu caminhava pisando os cadáveres, tão calmos, antes cheios de angústia, dívidas, frustrações, relacionamentos conturbados, nenhuma chance de fazer as coisas serem diferentes. Agora era diferente. Nada, ou ninguém poderia atormentá-los. Uma inveja diabólica e interessante me fazia cócegas. As pessoas na verdade correm para a morte com medo dela durante sua vida toda e quando alguém corre direto sem qualquer temor para o destino que o espera, simplesmente o acusam de covardia, levantam hipóteses sobre algum erro do suicida: insucesso pessoal, profissional ou familiar. Mas, não era conveniente pensarem isso de um maldito matador do Estado.

A morte está em tudo, assim como seu absurdo poder de construção. Quando se está em busca do conhecimento, quando se esgota as energias em algum objetivo frívolo, na pregação de domingo, no sexo selvagem com pitadas de amor sincero, na adrenalina imposta para um pequeno, mas não casual assalto, na procura pela solução de um cálculo, na composição de uma música que obtenha as próprias qualidades viscerais, numa infinidade de situações que se aplica certa quantidade de vida, ao mesmo tempo se paga o preço por estar acelerando a própria sentença. Sentença justa se pensarmos bem. Um veredito universal, porém uma prisão que somente quem sentiu tal experiência pode explicar. A morte é feita sob medida.

Para aqueles que procuram a morte através de consertos e reformas. Par você que acredita  através de uma base sólida poder erguer o mundo, destruir aviões ou ascender fogueiras. Para você experiente no campo de batalha, que tem a sensibilidade e visão sem medo de começar pela carne podre e de pagar para ver, ou até mesmo para vocês que copiam de um gênio suas sábias palavras e suas ideias pouco aproveitadas. Afinal de contas é como já dizia o sábio artista “artistas bons copiam, grandes artistas roubam”.Interrogações?!Pense um pouco sobre isso.

Lembro-me  muito bem duma história contada semana passada por um velho amigo  pertencente a esta mesma brigada, Arnold era seu nome, se não me engano.  Ele me contou enquanto comíamos a velha ração de lebre, que há um tempo  em muitas cidades da União Soviética, a fome era tão alucinante, que  todos pareciam zumbis desesperados, é que ao passarem dias sem comida,  perderam completamente a razão. Nesse estado, dizia-me ele, o estômago e  os músculos começam a entrar em um processo de autoflagelação, é o  último artificio do corpo, momento no qual se percebe que a morte dos  outros é mais bem vinda do que a sua, que comer o tutano do fêmur de  alguém é a ultima esperança do homem. 

Desta forma soviéticos saborearam uma fome tão avassaladora que seu comportamento se tornara similar a de malditos canibais: homens devorando crianças, gangs dividindo democraticamente quentinhas feitas de pernas e glúteos de infelizes desinformados.
Meus queridos nem os parentes eram poupados, Arnold me contou com um sorriso no canto da boca que uma mulher foi flagrada pelas autoridades comendo a carne do seu marido e dividindo com a sua cria.Perguntaram a ela, estupefatos:
- O que faz mulher? Está louca?
- Não sejam tolos! Estou comendo o meu marido com meus filhos. Ele é o nosso sangue e ninguém tem o direito de levá-lo de nós.Precisamos dele para nos alimentar.

Nesse instante, aquelas informações se apoderaram de minha mente, como uma bala perdida encontra o corpo de alguém perdido. Pude reafirmar a mim mesmo que o desejo de viver nasce na verdade dos sustos e do perigo.

Isso acontece o tempo inteiro, até mesmo com você leitor que se deleita nessa narrativa. Pergunte-se quanto tempo você já dedicou a essa história. No entanto, acho que você não dá a mínima, não é mesmo? “Quem se importa? Quem se importa com os tais revolucionários torturados e humilhados em cárceres, quem se importa com a fome do caipira do Arizona, ou com as vítimas de incêndios repentinos? Quem se importa com os políticos depravados?”

As pessoas assassinam umas as outras por pregarem que 'os maiores devem devorar os menores', ou mesmo para saber quem é mais, ou menos revolucionário. Daí, a razão pela qual se muda de uma vertente política como de religião: através da dor. Indiretamente, óbvio. Óbvio, porque a história já provou que os mais convictos politicamente, foram torturados, humilhados em cárceres física e espiritualmente até desfalecerem, enquanto que outros cederam a concepções opostas por causa da morte de entes queridos.

Arnold foi derrubado dias depois com duas balas na cabeça. Eu sei. Acham que estou com inveja, não é verdade? Felizmente tenho quatro balas sauvestres em minha espingarda e estou pronto para saber qual é a sensação da morte. Do frio cano duplo em minha garganta e das balas perfurando meu cérebro. Tentador. Porém, não estaria fazendo nada original. Muitos se matam dessa forma e pelos motivos mais clichês. Meus queridos a morte está em tudo: nas bombas, nas balas, nos contos e nas estórias de fadas, está em você também. Sim, você leitor. Mesmo sabendo que parte de sua vida estava em jogo ao ler minha história, prosseguiu e doou sua alma sem restrições, libertando o suicida que há dentro de você. Minhas mais sinceras congratulações. Temos todos, porém um só segundo de vida, o resto é licença poética, imaginação, desejo. Se você ainda está vivo... Viva como se já estivesse morto.
- Sentido, soldado!
- Sotaque engraçado, não é?.

FIM


                                                  

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Sobre as mentiras da blogueira cubana Yoani Sánchez

Acaba de ser publicado uma matéria no Militância Socialista desmentindo a blogueira cubana, Yoani Sánchez, vencedora de tantos prêmios, tais como: o prêmio de Jornalismo Ortega y Gasset (2008), o prêmio Bitacoras.com (2008), o prêmio The Bob’s (2008), o prêmio Maria Moors Cabot (2008) da prestigiada universidade norte-americana de Colúmbia. Do mesmo modo, a blogueira foi escolhida como uma das 100 personalidades mais influentes do mundo pela revista Time (2008), em companhia de George W.Bush, Hu Jintao e Dalai Lama. Foi desmascarada pelo jornalista francês Salim Lamranium. É estarrecedor a descoberta de tais mentiras por um lado, por outro, é apenas mais um episódio dessa Sociedade do Espetáculo, só para utilizar um termo de Guy Debord. 

Os instrumentos midiáticos se tornaram ferramentas cruciais e determinantes no jogo democrático ao longo do século XX e nesse inicio do XXI - em parte por aquilo que a Escola de Frankfurt intitulou de indústria cultural. A questão é saber se a indústria cultural é fomentadora ou consequência deste tipo de jogo midiático, ou, se trata de um processo amalgamado de ser consequência e causa ao mesmo tempo, se os agentes operadores da mídia na metade do século XX eram refratários, caudatários e proponentes de novas linguagens de comunicação à medida que percebiam o poder de comunicabilidade da imprensa, mídia em geral, vide o exemplar caso da propaganda hitlerista.

Caudatária, proponente ou as duas coisas juntas, o fato é que a mídia ganhou espaço por termos nos tornado seres midiáticos exatamente pela perda de reflexão, quer dizer, a sociedade ultramoderna cada vez se tornou dependente de um instrumento de informação, de quem processa as noticias, condensa matérias, elabora pontos de vista pela incapacidade das massas de tirarem suas próprias conclusões sobre o que se passa ao redor do mundo e também em seus próprios países. As informações via imprensa se tornaram um lugar autorizado, um capital simbólico, um instrumento quase autônomo de produção de formação de opinião.

O problema é que a noticia não se auto-reproduz, ou seja, as massas pouco se dão conta de quem se esconde atrás das noticias, quais interesses, disputas, correlações de forças, conchavos, tramas e negociações. A noticia não é a verdade, é o filtro de quem elabora a informação a partir de seus interesses. 

Um dos pilares da importância que a imprensa ganhou no século XX foi o discurso panegírico de que tal instrumento era basilar da sustentação democrática, sustentada nas teses de Tocqueville. A questão é Tocqueville não viveu suficientemente para entender a correlação entre principio politico da sustentação da ideia de liberdade de expressão e os princípios liberais "corrompendo" a mutualidade entre liberdade-interesses politico-liberalismo, quer dizer, a democracia foi se tornando cada vez mais a defesa de princípios liberais e não o jogo do somatório do bem comum, da coletividade, basta assistir ao brilhante filme de Orson Welles: Cidadão Kane. Isto implica dizer que existe sim uma democracia, democracia burguesia, distante do principio do bem comum, prevalecente da vontade da maioria.

A maioria têm se tornado cada vez a voz de uma opinião pública acéfala, cuja capacidade de formar opinião critica tem se perdido pelo jogo espúrio de como setores da imprensa manipulam informações na certeza de que pouco serão combatidos, exatamente pelo fato de que setores da imprensa estão nas mãos de grandes grupos corporativistas capitalistas, quer por sua vez controlam o aparato burocrático do estado. Ora, se o aparato burocrático é controlado por setores privados, interesses privatistas, o acesso às informações fica prejudicado e a forma de contra-argumentar, ter direito de resposta é muito difícil, pois passa pelo controle do judiciário e, claro, pelos interesses do capital. 

O caso da blogueira cubana é sui genesis. De um lado existe o uso de uma ferramenta poderosa chamada internet, que a principio está fora do controle da grande imprensa, isto implica em dizer que é um espaço mais livre, mais democrático, mais revolucionário, e por um lado é mesmo, por outro, mesmo a internet não está livre de interesses dos mais diversos, sobretudo ideológicos, por isso existe um estudo de controle do uso desse instrumento e uma forma de atrelá-la ao formato tradicional da grande mídia.

A blogueira utilizou das formas de repressão do regime cubano para divulgação de práticas que ela considera inaceitáveis, um dos princípios da democracia e da livre expressão, isso demarca seu posicionamento ideológico, nada contra, cada um tem o direito de livre opinião. A questão é que quando ela usa tal instrumento pautado em mentiras, falsidade ideológica, ao mesmo tempo denota seu alinhamento politico contra o regime, portanto, seus interesses na queda do socialismo, demarcando posição, quanto tais mentiras fazem parte daquilo que Guy Debord chamou de sociedade do espetáculo, ou seja, ela queria publicidade, notoriedade, ser noticia, estar no hall da fama, embrenhar-se nessa atmosfera sedutora chamada holofote. 

O ser midiático é alguém que se expõe sem medo das consequências, é capaz de ligar para paparazzi anunciando seus passos para ser fotografado; alfineta todos para ser noticia, estar em evidência; comete atitude anti-ética sem culpa ou remorsos, o que importa é a exposição.

Ao divulgar informações mentirosas, falsas, contraditórias, Yoani Sánchez se tornou um elemento conspiratório da pior espécie, igual a grande mídia que usa métodos espúrios para divulgação de suas informações para fins privados em nome da suposta verdade da informação. Ela quebrou o principio ético da própria liberdade, ou seja, quando a liberdade se coloca acima de quaisquer vinculação ideológica.

Eu critico as atitudes de Hugo Chavez e Cristina Kirchner de tentarem fechar A Globovision e o grupo El Clarin, respectivamente da Venezuela e Argentina, por mais sórdidos que tais grupos de comunicação sejam. A Globovision matou uma pessoa e atribuiu a morte aos aliados de Chavez, mas todas as vezes que o líder venezuelano impõe pesadas multas a tal empresa, 40% da população opositora ao regime sai às ruas arrecadando dinheiro para pagamento de tais taxas.

A imprensa, mesmo golpista, é necessária nessa falácia cognominada de democrática burguesa. Tentar fechar um órgão da imprensa que sabota informações, falseia, é sim uma atitude autoritária e anti-democrática, afinal, é necessário órgãos de fiscalização e controle de qualquer regime ou sistema quando de seus abusos. No entanto, o outro lado também é correto, quer dizer, quando tais órgãos cometem atitudes anti-éticas, são passiveis de sanções jurídicas e administrativas, o tal controle da imprensa, mas a melhor forma de punir tais órgãos não é fechando-os, isso só atiça a ira da oposição, e sim, mostrando sua falta de credibilidade.

Exemplo disso são as fotos forjadas pelo órgão espanhol El Pais mostrando Hugo Chavez em coma. Desmascarado, tal órgão recebeu multa, foi obrigado a divulgar uma nota pedindo desculpas pela mentira e agora não tem credibilidade nenhuma ao divulgar quaisquer informações sobre a Venezuela.

O mesmo raciocínio se aplica a blogueira cubana. Ela perdeu toda credibilidade e foi desmascarada não por um órgão cubano, mas pela imprensa francesa, ou seja, internacional. Se o regime tentasse impedi-la de divulgar seu blog seria tratada internacionalmente como mártir da liberdade.

O melhor de episódios como esses da blogueira, do El País, do El Clarin, da Globovision, e de tantos outros, é que por mais incrível que pareça isso vai criando uma opinião pública global que passa a desconfiar dos mecanismos de imprensa, passa a entender os interesses por detrás das noticias e que cria uma massa critica desconfiada das informações.

A imprensa ainda é o quarto poder, ainda é extremamente forte e influente, no entanto, a internet oferece-lhe um contraponto, por isso existe um estudo de unificação das mídias, mas as pessoas passam cada vez mais a buscarem outras fontes de informações.

Os blogs são instrumentos de livre expressão, são autorais, portanto, a responsabilidade do que é vinculado é totalmente dos seus autores. A blogueira cubana perdeu uma excelente oportunidade de dizer somente a verdade, ou seja, de registar e se responsabilizar unica e exclusivamente por aquilo que viu e viveu, agora, terá que prestar contas por aquilo que não aconteceu, ou seja, perdeu aquilo que é mais caro num veículo de informação: credibilidade. E esta uma mesma perdida não se recupera mais, ela se enforcou na sua própria corda.

Se esqueceu ou não entendeu como funcionam os meandros das tramas da imprensa, quando um órgão em busca de noticia, matéria, furo, é capaz de qualquer coisa, independentemente se vai atingir A ou B, grupo aliado ou inimigo, regime comunista ou capitalista. A noticia é um estratagema mercadológica, uma mercadoria cara nesse jogo de disputa chamado furo de reportagem, basta assistir ao brilhante filme espanhol: La chispa de la vida.  

Vejam que curioso: a blogueira se transformou numa celebridade internacional contando mentiras sobre o regime cubano, agora as mentiras dela são noticias internacionais.

Eis a gangorra do jogo midiático.


Segue abaixo a matéria desmascarando-a


http://militanciasocialista.org/noticias/jornalista-frances-desmascara-blogueira-cubana-yoani-sanchez-em-entrevista/

        

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Sobre a renúncia do Papa Bento XVI

Nós nunca saberemos de fato os reais motivos da renúncia do Papa Bento XVI. Tão logo soube da decisão do cardeal entrei em contato com meus amigos antropólogos italianos para me acercar das novidades, e na Itália corre abertamente os comentários de crise na alta cúpula do vaticano, qual Bento XVI não conseguiu contornar. Há vários grupos antagônicos no cúpula da Santa Sé e a renúncia na verdade foi uma estratégia para salvaguardar a Igreja e ao mesmo tempo uma forma de fazê-la mudar seus rumos.

Todos sabiam que substituir João Paulo II não seria fácil, o mais carismático dos papas, o mais conservador e diplomata do vaticano na sua fase contemporânea. João Paulo II assumiu em circunstâncias difíceis o pontificado, alta crise na igreja depois dos rumos das mortes de Paulo VI e João Paulo I. Assumiu a postura de chefe de estado, combateu o comunismo, decretou o "fim" da teologia da libertação, proibiu a igreja católica de se envolver com questões seculares. Esse foi o fim da Igreja.

Na América Latina a Igreja Católica sempre teve um papel importante, para bem e para o mal, quer se envolvendo com o estado oficial, apoiando setores ultraconservadores, quer apoiando milicias e grupos de esquerda que via em tal instituição uma ferramenta de mudança de mundo.

Nesta região o papel da igreja era tão mais importante quanto o do estado, aliás, estava em regiões que o estado não se fazia presente, por isso a presença dela era fundamental.

No caso do Brasil colonia, quando Igreja e estado estavam umbilicalmente ligadas, não havia ainda a laicização do estado, a santa igreja assumia a função da educação via jesuítas, depois teve que se fazer presente nos rincões do país via formação de padres leigos ampliando a relação entre cultura popular e catolicismo não-erudito, o que permitiu ao catolicismo no Brasil ser até hoje a maior religião do país.

O Padre era uma grande autoridade, servia de conselheiro espiritual e secular, se envolvia em todas as questões terrenas, por isso ocupava um espaço tão importante. Quando o Papa João II indicou a mudança de rumos da igreja católica do ponto de vista politico, na América Latina foi nítida a perda de sua importância enquanto instituição política-social perdendo fieis a olhos vistos para as igrejas evangélicas pentecostais que passaram a assumir a função outrora da santa igreja, embora de forma ainda mais conservadora.

Depois com a excomunhão de Leonardo Boff e a condenação da Teologia da Libertação estava decretada a morte e seu papel enquanto agente de transformação. O debate se acerca sobre qual a função da igreja: cuidar dos assuntos seculares/terrenos ou apenas de questões espirituais.

É um grande equivoco considerar que uma instituição milenar como a igreja não deva se envolver com questões politicas, pois ela sempre fez isso desde que se tornou "universal". Era o minimo que poderia fazer ao tentar mudar seus rumos e corrigir seus erros históricos; desde os grandes cismas; do período medieval quando matava soldados adversários; passando pela Inquisição, perseguição de mulheres e cientistas,  condenando Galileu e Copérnico; apoiando a escravidão africana; escravizando índios; apoiando o neo-colonialismo; fazendo alianças politicas com Mussolini, Hitler; apoiando ditaduras militares; fazendo campanha contra o homoafetismo; contra o uso da pilula anticoncepcional; contra o uso da camisinha, sobretudo na África, continente grassado pela Aids. A Igreja Católica sempre esteve ao lado dos poderosos quando deveria ser seu dever apoiar os fracos, oprimidos e pobres.  

É uma instituição extremamente desgastada do ponto de vista social. Pululam escândalos de pedofilia de padres, escândalos de corrupção, além do poder que exerce na Itália. Neste país do velho mundo, além de possuir bancos, universidades privadas, ter ações em grandes empresas, praticamente não há separação entre politica italiana e vaticano. Em nenhum outro lugar do mundo a igreja católica tem tanto poder quanto lá.

A eleição de Joseph Alois Ratzinger, a direita conservadora de João Paulo II, indicava que a igreja católica iria endurecer o jogo da práticas religiosas, combater a chamada "permissividade" litúrgica e radicalizar quanto aquilo que considerava o perfil de um verdadeiro praticante do catolicismo. Perdeu a grande chance de eleger um papa negro, não-europeu, ou latino-americano, mas preferiu um de perfil ainda mais retrógrado, demonstrando que não está aberta ao mundo, opta por não se envolver com os desdobramentos das questões politicas e agora paga um preço muito alto.

Não tenho religião, não defendo nenhuma delas e ao mesmo tempo considero importante a liberdade de expressão de todas, a liberdade de culto e livre manifestação, no entanto, como historiador sei da força da igreja católica, inclusive enquanto elemento fomentador da cultura brasileira e sei inclusive que tem o poder de interferir e decidir sobre questões importantes na América Latina.

Na Venezuela a Igreja católica se posicionou contra Hugo Chavez, ridículo. Quer dizer, ela não se "envolve em politica" mas dá declarações apoiando a direita. No Brasil se posicionou contra a eleição de Dilma Roussef forçosamente mandando mensagens subliminares contra ela, indicando posição pró-Serra.

O problema é que a Igreja não é única, é multifacetada, mas prevalece as decisões da alta cúpula, a mesma que levaram Ratzinger a renunciar.

A igreja católica está perdida e não sabe para onde ir, perdeu o trem da história. Se quiser se aproximar de setores mais progressistas deveria eleger um papa africano, asiático ou latino-americano, caso contrário, continuará a apagar os incêndios de padres pedófilos, ao invés de falar da justiça daqueles que tem fome e sede de verdade.

Quais os rumos que a santa igreja irá tomar? Ainda não sabemos, mas a renuncia de Bento XVI foi uma atitude corajosa, ele é um intelectual orgânico da instituição, não um político, não teve forças para contornar os embates internos e agora obriga os grupos adversários a se comporem para o novo conclave, caso contrário, irão expor ao mundo as suas fendas. Bento XVI no fundo foi hábil, inteligente, astuto ao renunciar. Não foi medo ou falta de competência, foi visão estratégica.

Aguardemos o novo conclave e esperemos a fumaça cinzenta anunciar: habemos papa.    

                 
                  

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Vida: um livro incompreendido



Por Ingrid Campelo




É medo? É dúvida? É saudade? É angústia?
Não sei.
Por trás de cada sorriso, existe uma tímida lágrima, que não se revela a qualquer mundo...
Cada ser humano carrega uma morte,
uma renúncia, um santuário.
Para viver é necessário transitarmos entre a dor e o prazer
sem escaparmos do que cada extremo irá permitir sentir.
Não existe uma alegria em que a tristeza não tenha lhe feito companhia,
não existe equilíbrio no universo se ambas as forças não contribuam equivalentemente na projeção dos dias.
Incompreensível?
Apenas busque enxergar, como diz Renato Russo, "o que ninguém consegue entender", estenda sua visão para o imaterial, para o invisível aos olhos, pois é ali que se encontrará o segredo da razão.
Acredite no mal mascarado, tal quanto afirme uma alegria encenada, pois o que nos cerca solidamente está preocupado com as respostas imediatas.
E tão somente vivermos do imediatismo nos possibilita o risco de apenas passarmos por essa vida sem vivermos o que ela tem de mais humilde... sendo isto o que nos conduz ao paraíso dos gigantes na Terra.
Tudo passa, tudo muda, tudo é fugaz...
Tudo se restabelece, tudo se encontra, tudo se refaz,
ainda que por trás de cada sorriso exista uma tímida lágrima que não se revela a qualquer mundo...
A vida é um livro, em que a capa todos conhecem,
entretanto as entrelinhas são teus segredos.
Por isso, não pense que há dores, ou alegrias maiores ou menores,elas são o que são.
O sentido que tu darás ao teu riso e ao teu choro, é o que irá causar diferença na conspiradora força do universo sobre ti.
Deus está a te observar, e vela o teu mundo particular...


quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Todo carnaval tem seu fim

Está encerrada mais uma festividade de Momo. Que pena!!! Carnaval vem do latim arcaico e quer dizer: festa da carne. Era um período em que os romanos se permitiam ainda mais aos prazeres e vícios que normalmente não poderiam realizar durante o restante do ano, uma espécie de válvula de escape dos controles sociais. Quase tudo era permitido. 

Quando da cristianização do império romano, ou seja, quando Roma sucumbiu ao cristianismo, no processo de sincretização cultural, a nova religião, a católica, em latim, universal, incorporou velhas práticas pagãs como culto às pessoas e o carnaval também. Quem estabelece a data do carnaval todos os anos é a igreja católica.

Durante muito tempo e até os dias de hoje tal manifestação sempre foi permeada de preconceitos e perseguições de toda ordem, sobretudo religiosa. Associada ao diabo o carnaval sempre foi visto como uma ameaça aos bons costumes - forma de expiação da culpa cristã. 

Talvez nenhuma outra festa existente no mundo esteja tão ligada à antítese da moralidade. O que as pessoas deveriam se perguntar é porque tanta gente espera essa festa para extravasar tantos sentimentos compungidos. Aliás, como diria Chico Buarque: "tô me guardando para quando o carnaval chegar".

Um dos tantos teóricos que se debruçaram sobre o caráter da festa foi Mikhail Bakhtin. Para ele, toda festa encerra pelo menos três princípios; o da conservação, vide que no carnaval, por exemplo, as representações de classe estão muito bem guardadas (no carnaval de São Luis ridiculamente fizeram um área VIP [camarote]- que quer dizer very important people na praça Deodoro para resguardar os "mais importantes da ralé"); o da contravenção: homens se vestem de mulher, mulher de homem; e o da conservação e transgressão, quando por exemplo numa festa há elementos de agregação e segregação ao mesmo tempo. 

Esse conceito se aplica muito bem ao carnaval. É de espantar o caráter da denúncia de questões políticas estampadas em fantasias, alegorias por pessoas que cotidianamente não se importam com politica, bem como ao mesmo tempo as mesmas questões politicas que tanto indignam são levadas em tom jocoso e de brincadeira perdendo seu caráter de indignação.

O Brasil é por excelência o país do carnaval. Me lembro do saudoso João Trinta ainda na Escola de Samba Beija-Flor com um carro alegórico para lá de polêmico, o Cristo Redentor coberto por um pano preto com uma faixa escrito: MESMO CENSURADO ROGAI POR NÓS.

Esse país é mesmo uma alegoria de carnaval. O Presidente do Senado é Renan Calheiros: envolto em uma série de denúncias por falta de decoro parlamentar. Corre uma lista (abaixo-assinado) para tirá-lo do cargo pela internet. 

Somente no Brasil veríamos tamanha contradição e falso moralismo. Homens e mulheres andam seminus em desfiles pelas ruas do pais, mas se uma mulher fizer topless é presa por atentado violento ao pudor. Eu nunca entendi bem isso!!!! Orgulhamos de nossa "suposta liberdade sexual", mas fomos um dos últimos países a conceder divórcio, até hoje casamento homoafetivo não está regulamentado, apenas a união estável, mulheres ganham menos que os homens, embora seja 51% da população arrimo de família. 

Eu preferiria que o carnaval durasse o ato inteiro, assim veríamos nossa genialidade estampada na passarela, aliás, o maior espetáculo da terra, todas as nossas tristezas e contradições desapareceriam, imperaria a felicidade, seriamos mais leves e livres e as contradições sociais não nos afetaria tanto. 

Talvez por isso só dure três dias. Aliás, bem disse o gênio da música Tom Jobim: "tristeza não tem fim, felicidade sim". Ninguém suporta tanta tristeza, por isso existe o carnaval, assim como ninguém suporta tanta alegria, por isso dura tão pouco tempo. 

Há quem diga que o Brasil é país do carnaval porque aqui existem mais contradições do que qualquer outro lugar do mundo. Somos potencialmente riquíssimos, mas socialmente pobres, somos cordiais, abertos, e ao mesmo tempo altamente preconceituosos, somos liberais em tudo, mas não temos acesso a quase nada: justiça, imprensa, equidade social, educação de qualidade, saúde, habitação, transporte público decente, segurança pública. Por isso o carnaval tão bem calhou aqui e não apenas pela mistura das três raças: caucasoide, negroide e mongoloide (branco, negro e índio), e sim, porque usamos da abertura, da janela de oportunidades que o carnaval proporciona para mostrarmos nossas caras, dizermos quem somos, termos acesso a uma gota de alegria e felicidade, mostrar nossa indignação, debocharmos de tudo, rirmos da cara dos poderosos, sermos considerados elementos de integração da cultura nacional, visto que o restante do ano a porrada come e é frouxa. 

Há quem não entenda o carnaval e acho que nunca vai entender. Para entender o carnaval é necessário ser um carnavalesco da vida: ter em mente o samba-enredo da esperança quando a realidade é lancinante, se vestir como uma rainha durante três dias, pois o resto do ano as vezes só sobra aquele vestido de chita, ser aplaudido de pé na avenida porque quando as luzes se apagam muitos desses anônimos passam à condição de invisíveis. 

Se o carnaval é a festa do diabo então Deus a abençoou.           

sábado, 9 de fevereiro de 2013

Pós-modernos e Neo-marxistas: velhas questões, velhos debates

O termo pós-moderno não é o mais correto, afinal, pós-moderno implica supressão, ultrapassagem da modernidade, e isto acredito não ser o mais lógico, mas sim, ultramoderno, ou seja, uma etapa avançadíssima da modernidade. 

Debates acerca do conceito de pós-moderno – tal termo surgiu na década de 1930 dentro do campo da arquitetura para diferenciar etapas estilísticas dessa área – atravessou o século XX permeado de trincheiras ideológicas de quem os defendia e de quem os atacava. Ambos os lados estavam certos por caminhos diferentes. Considero que pós-modernos e neomarxistas criticavam a mesma coisa, só que de formas distintas.

A crítica dos pós-modernos recaía sobre o projeto moderno de civilização: razão, progresso, felicidade, a crítica dos marxistas e neomarxistas era sobre a falta de perspectiva de mudanças dos pós-modernos sobre a falência do modelo burguês de felicidade. Um dos equívocos dos pós-modernos foi desconsiderar que tudo que era derivado da modernidade: estado moderno, luta de classes moderna, razão moderna, havia desaparecido, consequentemente, o panegirico disso, a ideologia, também. 

Acalmadas as águas turvas das velhas trincheiras armadas de ambos os lados, os novos atores sociais, independentemente de suas posições dentro dos campos, se marxistas ou não, têm recolocado velhos debates pós-modernos de forma muito interessante, casos de Zizek, Lipovetsky, Boaventura de Sousa Santos, Marilena Chauí, dentre outros. 

Um dos debates ainda em voga diz respeito à questão da forma de representação da política na democracia, o velho lema do papel do estado, bem-estar social, o aparelhamento do judiciário, o papel da mídia, os sentimentos, os laços efetivos, e sobretudo, as identidades sociais e coletivas em tempos de superexposição midiática.

É claro que não há dissociação entre capital, mercadoria e seu referente presentificado nos sujeitos sociais redefinindo a questão da subjetividade, no entanto, os pós-modernos tratavam do nômeno, ou seja, da relação entre capital e subjetividade já em seu estado latente, reificado, quer dizer, como fenômeno, não estavam preocupados em discutir como derrubar o capital e constituir uma sociedade igualitária, e sim, o que o capital fez com as pessoas. Destarte, boa parte do construto teórico pós-moderno se voltava à crítica sobre os novos sujeitos sociais, o que nos tornamos, como chegamos até aqui.

Por seu turno, os marxistas e neomarxistas estavam voltados para a crítica ao capital e o que ele havia feito com questões como cidadania, estado, pátria e congêneres, mas ambos estavam criticando sim o que havia acontecido pós-triunfo do capital.

Os marxistas estavam corretos, a história não acabou e velhas questões foram retomadas: militarismo, república, democracia, a questão racial, a questão sexual, imperialismo, mercado de capitais, ou seja, algumas antigas bandeiras necessitam de novos olhares, novas estratégias de abordagem, afinal, o capital continua triunfante.

No entanto, há uma questão que une neomarxistas e pós-modernos: o problema do simulacro. O capital constituiu uma nova subjetividade redefinindo a relação entre sujeito, espaço, tempo, família, política, sexualidade, dentre outras questões. Os pós-modernos apontaram o prognóstico, mas descuidaram do diagnóstico, os neomarxistas, alguns, acertaram o diagnóstico, mas se esqueceram de aprofundar com tanta propriedade quanto os pós-modernos alguns sintomas da nova subjetividade, exceções de Marilena Chauí, Zizek e Lipovetsky, dentre alguns outros.

Um novo homem e uma nova mulher já surgiram deixando para trás velhos paradigmas modernos. Algumas condições ônticas e ontológicas dos sujeitos da forma como foram se reconfigurando na ultramodernidade necessitam de novas reflexões, novos olhares e a conjugação entre diagnóstico e prognóstico devem apontar uma nova perspectiva. A questão é: qual prisma vamos (re) colocar o debate sobre a condição humana? Penso que não outro que não o da dignidade, das condições de acesso, da democratização da informação e do consumo, portanto, da equidade e igualdade humana.

Se o capital foi capaz de redimensionar o paradigma da natureza humana, agora o desafio é traçar novas perspectivas desses novos homens e mulheres. A perspectiva de crítica ao capital deve unificar setores e campos adversários, deixando de lado rótulos de escolas, antagonizando teoremas que falam da mesma coisa, só que de formas diferentes.