terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Sobre a renúncia do Papa Bento XVI

Nós nunca saberemos de fato os reais motivos da renúncia do Papa Bento XVI. Tão logo soube da decisão do cardeal entrei em contato com meus amigos antropólogos italianos para me acercar das novidades, e na Itália corre abertamente os comentários de crise na alta cúpula do vaticano, qual Bento XVI não conseguiu contornar. Há vários grupos antagônicos no cúpula da Santa Sé e a renúncia na verdade foi uma estratégia para salvaguardar a Igreja e ao mesmo tempo uma forma de fazê-la mudar seus rumos.

Todos sabiam que substituir João Paulo II não seria fácil, o mais carismático dos papas, o mais conservador e diplomata do vaticano na sua fase contemporânea. João Paulo II assumiu em circunstâncias difíceis o pontificado, alta crise na igreja depois dos rumos das mortes de Paulo VI e João Paulo I. Assumiu a postura de chefe de estado, combateu o comunismo, decretou o "fim" da teologia da libertação, proibiu a igreja católica de se envolver com questões seculares. Esse foi o fim da Igreja.

Na América Latina a Igreja Católica sempre teve um papel importante, para bem e para o mal, quer se envolvendo com o estado oficial, apoiando setores ultraconservadores, quer apoiando milicias e grupos de esquerda que via em tal instituição uma ferramenta de mudança de mundo.

Nesta região o papel da igreja era tão mais importante quanto o do estado, aliás, estava em regiões que o estado não se fazia presente, por isso a presença dela era fundamental.

No caso do Brasil colonia, quando Igreja e estado estavam umbilicalmente ligadas, não havia ainda a laicização do estado, a santa igreja assumia a função da educação via jesuítas, depois teve que se fazer presente nos rincões do país via formação de padres leigos ampliando a relação entre cultura popular e catolicismo não-erudito, o que permitiu ao catolicismo no Brasil ser até hoje a maior religião do país.

O Padre era uma grande autoridade, servia de conselheiro espiritual e secular, se envolvia em todas as questões terrenas, por isso ocupava um espaço tão importante. Quando o Papa João II indicou a mudança de rumos da igreja católica do ponto de vista politico, na América Latina foi nítida a perda de sua importância enquanto instituição política-social perdendo fieis a olhos vistos para as igrejas evangélicas pentecostais que passaram a assumir a função outrora da santa igreja, embora de forma ainda mais conservadora.

Depois com a excomunhão de Leonardo Boff e a condenação da Teologia da Libertação estava decretada a morte e seu papel enquanto agente de transformação. O debate se acerca sobre qual a função da igreja: cuidar dos assuntos seculares/terrenos ou apenas de questões espirituais.

É um grande equivoco considerar que uma instituição milenar como a igreja não deva se envolver com questões politicas, pois ela sempre fez isso desde que se tornou "universal". Era o minimo que poderia fazer ao tentar mudar seus rumos e corrigir seus erros históricos; desde os grandes cismas; do período medieval quando matava soldados adversários; passando pela Inquisição, perseguição de mulheres e cientistas,  condenando Galileu e Copérnico; apoiando a escravidão africana; escravizando índios; apoiando o neo-colonialismo; fazendo alianças politicas com Mussolini, Hitler; apoiando ditaduras militares; fazendo campanha contra o homoafetismo; contra o uso da pilula anticoncepcional; contra o uso da camisinha, sobretudo na África, continente grassado pela Aids. A Igreja Católica sempre esteve ao lado dos poderosos quando deveria ser seu dever apoiar os fracos, oprimidos e pobres.  

É uma instituição extremamente desgastada do ponto de vista social. Pululam escândalos de pedofilia de padres, escândalos de corrupção, além do poder que exerce na Itália. Neste país do velho mundo, além de possuir bancos, universidades privadas, ter ações em grandes empresas, praticamente não há separação entre politica italiana e vaticano. Em nenhum outro lugar do mundo a igreja católica tem tanto poder quanto lá.

A eleição de Joseph Alois Ratzinger, a direita conservadora de João Paulo II, indicava que a igreja católica iria endurecer o jogo da práticas religiosas, combater a chamada "permissividade" litúrgica e radicalizar quanto aquilo que considerava o perfil de um verdadeiro praticante do catolicismo. Perdeu a grande chance de eleger um papa negro, não-europeu, ou latino-americano, mas preferiu um de perfil ainda mais retrógrado, demonstrando que não está aberta ao mundo, opta por não se envolver com os desdobramentos das questões politicas e agora paga um preço muito alto.

Não tenho religião, não defendo nenhuma delas e ao mesmo tempo considero importante a liberdade de expressão de todas, a liberdade de culto e livre manifestação, no entanto, como historiador sei da força da igreja católica, inclusive enquanto elemento fomentador da cultura brasileira e sei inclusive que tem o poder de interferir e decidir sobre questões importantes na América Latina.

Na Venezuela a Igreja católica se posicionou contra Hugo Chavez, ridículo. Quer dizer, ela não se "envolve em politica" mas dá declarações apoiando a direita. No Brasil se posicionou contra a eleição de Dilma Roussef forçosamente mandando mensagens subliminares contra ela, indicando posição pró-Serra.

O problema é que a Igreja não é única, é multifacetada, mas prevalece as decisões da alta cúpula, a mesma que levaram Ratzinger a renunciar.

A igreja católica está perdida e não sabe para onde ir, perdeu o trem da história. Se quiser se aproximar de setores mais progressistas deveria eleger um papa africano, asiático ou latino-americano, caso contrário, continuará a apagar os incêndios de padres pedófilos, ao invés de falar da justiça daqueles que tem fome e sede de verdade.

Quais os rumos que a santa igreja irá tomar? Ainda não sabemos, mas a renuncia de Bento XVI foi uma atitude corajosa, ele é um intelectual orgânico da instituição, não um político, não teve forças para contornar os embates internos e agora obriga os grupos adversários a se comporem para o novo conclave, caso contrário, irão expor ao mundo as suas fendas. Bento XVI no fundo foi hábil, inteligente, astuto ao renunciar. Não foi medo ou falta de competência, foi visão estratégica.

Aguardemos o novo conclave e esperemos a fumaça cinzenta anunciar: habemos papa.    

                 
                  

Um comentário:

  1. Irremediavelmente política é a igreja na prática, porém o fato de existirem pessoas dentro dessa instituição que quer a desvinculação com a os assuntos seculares, já é tarde...

    é uma sinuca de bico....

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