sábado, 2 de fevereiro de 2013

Curso Noturno: Uma Necessidade Social


Por Monica Piccolo 


Há mais de vinte anos entrei em uma sala de aula pela primeira vez. Apesar de todos os obstáculos, baixos salários, turmas lotadas, falta de infraestrutura, a relação de troca com os alunos me encantou. O objetivo inicial de me transformar em uma pesquisadora, foi sendo pouco a pouco deixado de lado pela paixão que a sala de aula me despertava. A necessidade material me fazia trabalhar em mais de um turno e a conviver com alunos adolescentes de classe média alta que chegavam cheirosos e bem arrumados às sete da manhã e com trabalhadores do curso noturno que encararam um dia inteiro de trabalho pesado e ainda assim, não se sabe bem o porquê, tinham disposição de estudar. Com o passar do tempo, foram exatamente esses alunos que mais me mostravam como havia sido certa minha escolha profissional. Muitos chegavam cansados, com fome, com sono. Aula de História em curso técnicos de edificações, mecânica, eletrônica, eletrotécnica.... Haja disposição. No entanto, quanto mais nos conhecíamos, maior crescia o encantamento deles pela possibilidade de entender as explicações históricas para a situação que viviam. A História se transformava em um poderoso instrumento de leitura de mundo.

Na Universidade, a experiência não foi diferente. Os alunos do curso noturno da UFRJ e da UERJ também trabalhavam o dia inteiro e na maioria dos casos em atividades que em nada se aproximavam com o curso de História. Mas, esse distanciamento era somente aparente. A Universidade não era somente uma forma de ascensão social. Era também um instrumento de (re)construção do entendimento do mundo. Quem pensa que a História está voltada somente para o passado, não entendeu ainda o seu real significado. O curso tinha que ser adaptado a realidade deles? Tinha sim. Eu tinha que buscar estratégias diferenciadas para conseguir envolvê-los nas aulas depois de um dia inteiro de trabalho? Tinha também. Mas, isso me tirava daquela confortável prática pedagógica. Me forçava a buscar novas e diferentes formas de atuação.

A universidade mudou a vida desses alunos? Talvez. Mas, com certeza, abriu a possibilidade de novas experiências. Oportunizou uma releitura do mundo. O que era discutido em sala no campo da teoria era imediatamente transferido para a trajetória pessoal de cada um. As relações de trabalho, as condições perversas de consolidação do capitalismo, a sociedade excludente, a exploração sobre a classe trabalhadora, não eram, para aqueles alunos, apenas conceitos analíticos.

Em um estado como o nosso, pobre, oligárquico, concentrador de renda, excludente, a Universidade assume um papel ainda maior. Não podemos nos furtar de compartilharmos com todos o que passamos a vida inteira estudando de forma encastelada.As perversas regras da CAPES não podem ser nosso único termômetro.  A Universidade está inserida na sociedade e tem o dever de contribuir para que suas discussões não fiquem restritas àqueles que economicamente podem frequentar um curso matutino. Muito mais do que o acesso ao saber acadêmico, o curso noturno possibilita a socialização do conhecimento. É, assim, uma necessidade social urgente. Para além do academicismo simples e puro. Aqui e alhures. 

Monica Piccolo
Departamento de História
Universidade Estadual do Maranhão



6 comentários:

  1. que saudades tenho da sua rigidez em sua aula, espero um dia poder te encotrar. abraços, Ribamar

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    1. Este comentário foi removido pelo autor.

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    2. gostaria de saber porque o comentario foi removido, pois a minha mensagen foi da grande consideração, tenho o maior respeito pelos professores que lecionaram para mim, espero que não tenho causado nenhum constragimento. PROFESSORA MONICA ADORARIA PODAER REVELA um grande abraço, ribamar.

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    3. Ribamar, eu retirei o comentário porque pensei que tivesse sido para mim e no fundo foi para a Mônica, eu, indevidamente respondi no lugar dela. só por isso. Não houve nenhum constrangimento não, muito pelo contrário, foi uma linda homenagem, mas não posso responder como se fosse ela, entendes?

      abraços meu querido

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    4. desculpas, Henrique vc não sabes o peso que o sai do meu coração. abraços. PS VC é uma pessoa com um profissionalismo de dá inveja

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    5. obrigado minha cara, meu caro. realmente não me sinto assim, mas enfim. kkkkk

      obrigado pelo carinho

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