quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

cabeça, coração e estômago

No processo de constituição do mundo ocidental, sobretudo a partir da idealização do mundo grego-romano, elemento de distinção social em relação a outras sociedades que lhe eram paralelas, a razão e seu elemento de comutação, o pensamento, paulatinamente começaram a substituir o sentimento, a intuição como formas de aprendizagem e compreensão da vida. 

Desta feita, o intelecto comutou a simbologia da predominância do saber em relação a qualquer outra possibilidade de apreensão sobre o mundo, e o referente, a cabeça, o guia e instrumento idealizador da busca do homem.

Durante o período moderno, à medida que a autópsia-dissecação dos corpos se constituía como instrumento de conhecimento do corpo humano, descobriu-se que as pessoas não possuíam apenas coração, pulmão e estômago, bem como os demais órgãos, ainda que não se soubesse de suas funções.

Na escatologia cristã, notadamente a católica, o coração passou a simbolizar o centro das emoções, iconização e preconização catalizador do centro da vida. Com o passar do tempo, os órgãos adquiriram funções dísticas enquanto funcionalidade biológica, bem como atribuições metafísicas. No fundo, o que estava em xeque era o processo de atomização do conhecimento transferido também para os órgãos humanos. 

Com o avançar do sistema capitalista e a predominância econômica e técnica da Europa sobre as demais regiões, construiu-se um aparato ideológico desta como superior às demais, acarretando na visibilidade do pensamento, leia-se, da mente sobre qualquer forma apriorística de saber, sobretudo, os sentimentos. 

A África, associada ideologicamente ao atraso em decorrência da invenção do racismo pela cor, via escravidão, cada vez mais estava atrelada a uma imagem de sentimentalismo que atrapalhava o desenvolvimento do progresso, ou seja, o coração africano era símbolo de um tipo de existência e sociabilidade incompatíveis com o desenvolvimento intelectual dos europeus.

Da mesma forma a Ásia não escapou do estereótipo de tirania, de governos teocráticos e atrasados e de região atrasada. O desconhecimento das ciências asiáticas, bem como do grau de desenvolvimento africano, abastardou a noção de holismo que estas duas regiões havia séculos vinham desenvolvendo.

Conquanto, os asiáticos já haviam desenvolvido uma compreensão de medicina holística, inclusive apregoando que o estômago era quem catalizava e canalizava todas as formas de sentimento e não o cérebro. Tratava-se de uma concepção ampliada de integração corpo-natureza que o desenvolvimento racional europeu perdera ao longo do tempo.

O que a escatologia católica fez ao separar cabeça, do coração e estômago, que o protestantismo agravou, foi segmentar a compreensão entre Kronos e Kairos, ou seja, tempo e tempo, um tempo linear, objetivo e sincrônico, e um tempo do aqui e agora, da captação da energia do cosmos, dos quais os órgãos humanos são receptáculos.

Desta feita, os órgãos humanos são ao mesmo tempo testemunhas da vida cósmica e divulgadores dos mistérios da vida através de teorias, teoremas, dogmas, religiões, bem como a negação dos mistérios do próprio cosmos, quer dizer, por sua condição limitante e limitadora, tudo o que os humanos falam sobre a existência são esclarecedores e não-esclarecedores ao mesmo tempo, por isso Sócrates havia preconizado na Grécia clássica a célebre frase: “só sei que nada sei”, bem como Descartes afirmou que os órgãos humanos falhavam, não era possível crer-se naquilo que víamos.

Estamos de fato muito longe de compreendermos os mistérios da vida e a própria separação entre os órgãos ou a construção e associação de órgãos às regiões (cabeça, Europa; coração; África, estômago, Ásia) são formas estereotipadas e excludentes de não entender o outro, no caso, o modelo antitético do que cada região é. 

Com o avanço do transumanismo e a paulatina substituição de órgãos humanos, o debate torna-se cada vez mais moral e menos holístico, afinal, órgãos geneticamente ou biomecanicamente alterados não mudam a percepção sobre o que vem a ser a humanidade, afinal, tais transformações vêm se dando ao longo da história. No entanto, do ponto de vista holístico afeta sim, afinal, o homem ultramoderno é cada vez menos integrado à natureza que nossos ancestrais, logo, nossa percepção sensitiva tem sido radicalmente afetada. 

Afinal, o que somos? Mente ou corpo? Mente e corpo são a mesma coisa? O que de fato mais importa, a mente ou a existência material? Se a existência material não tem tanta importância assim, por que ainda damos tanto valor a tal existência?

3 comentários:

  1. Ola grande Mestre Henrique.

    Me atrevendo a meter o bedelho no seu belo texto. Sinto que alguns colegas, filhos de Clio sentem uma imensa agonia pelo fato de a História bem como parte da Ciência clássica se encontrar em uma aporía alguns dizem pra quem quiser ouvir "que não aguentam mais discutir história", Não acho que a saída para essa aporía seja a física quântica nem aguçarmos nossos sentidos no intuito de se chegar a uma verdade COMPLETA. Digo verdade a cerca do que somos. Essa busca ontológica de entendermos por completo a realidade humana é de fato a pior herança dos gregos "só sei que nada sei" e assim buscar desvendar entender a tudo mesmo o que não se é para entender.

    PS: Seu texto não necessariamente tratava disso foi foram as angustias que me causaram ao Le – lo.

    Gledson Silva Brito. Seu fã.
    @Gledson_ma

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  2. Artigo muito bom Henrique, poxa muito bacana, ainda não havia me tocado sobre essa divisão da forma de perceber os orgãos além de suas funções naturais... Poxa, muito legal, fiquei curiosa e pensativa a respeito da questão!
    Acho muito interessante suas criticas e explanações a respeito dos relacionados a metafísica (que ouvimos tanto falar no meio acadêmico que vimemos, e que a meu ver são poucos os que verdadeiramente sabem abardo-la)!
    Muito bom, parabéns!

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