sábado, 19 de janeiro de 2013

A diacronia da repetição

Há pássaros que se desfalecem ao pôr-do-sol
e ao amanhecer, percebendo que estão vivos, cantam a mais fina sintonia da manhã,
os filmes repetem histórias de amor, às vezes as frases se repetem, tantos amores desfeitos, tantos reavistos quando amanhece o dia,
as músicas também possuem o mesmo repertório: o amor encena, em cena: a voz, os instrumentos, as melodias, o timbre, o motivo para cantar,
é um ciclo interminável esse de viver, todos os dias as coisas se repetem, só que nunca da mesma forma,
ontem a reclamação pela desmesura da atitude e da palavra, hoje, a esperança de que a desmesura vire a medida certa do afeto, do toque, do olhar,
a escrita segue a mesma lógica: parece uma sensação eterna de déja vù, pois já vimos mesmo, só que outra forma, com outras pessoas, e quando acontece com a gente é como se fosse a primeira vez,
e de fato é sempre a primeira vez, mesmo quando a gente reescreve a palavra nunca dita e quando pronunciada deixa de ser nosso repertório para tornar-se lugar no universo, aí, quando alguém a reencontra e a reusa para expressar uma sensação parecida, é como se aquilo que fosse nosso fosse do outro também,
por isso nunca se diz a mesma coisa da mesma forma,
tal como o pássaro, mesmo repetindo o mesmo timbre de canto, nunca consegue imitá-lo,
o sol não é mesmo, tampouco o amanhecer,
sabe-se lá o que o espera nesse novo dia, quantas árvores encontrará, se algum parceiro para acasalar,
se algum ninho por fazer, até o que pôr-do-sol, o ocaso de cada dia, desfecha a cena de um turno para que a lua a partir daquele instante seja a escuridão da luz dos que a buscam,
diferentemente do sol que irradia luz por onde passa, a lua para percebermos sua luminosidade por vezes é preciso olhar para ela, sempre ela, está sempre lá, mas nunca é da mesma forma,
há sempre um detalhe do dragão de seu Jorge que a gente nunca observou,
da mesma forma que o mesmo canto do pássaro repetindo-se todos os dias é sempre melodioso, gracioso de se ouvir, se confundindo com o farfalhar das árvores,
movimento diacrônico de ir para lá e para cá, todos os dias,
tal como as histórias de amor dos filmes, nas músicas, nos textos, que sempre continuarão a existir porque o que há está em todos os lugares, assim como nós,
inseridos num movimento cíclico, nos repetindo porque ninguém pode deter a vida,
muito menos a capacidade de sentir
sempre as mesmas sensações
só que de forma diferente










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