quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Todo carnaval tem seu fim

Está encerrada mais uma festividade de Momo. Que pena!!! Carnaval vem do latim arcaico e quer dizer: festa da carne. Era um período em que os romanos se permitiam ainda mais aos prazeres e vícios que normalmente não poderiam realizar durante o restante do ano, uma espécie de válvula de escape dos controles sociais. Quase tudo era permitido. 

Quando da cristianização do império romano, ou seja, quando Roma sucumbiu ao cristianismo, no processo de sincretização cultural, a nova religião, a católica, em latim, universal, incorporou velhas práticas pagãs como culto às pessoas e o carnaval também. Quem estabelece a data do carnaval todos os anos é a igreja católica.

Durante muito tempo e até os dias de hoje tal manifestação sempre foi permeada de preconceitos e perseguições de toda ordem, sobretudo religiosa. Associada ao diabo o carnaval sempre foi visto como uma ameaça aos bons costumes - forma de expiação da culpa cristã. 

Talvez nenhuma outra festa existente no mundo esteja tão ligada à antítese da moralidade. O que as pessoas deveriam se perguntar é porque tanta gente espera essa festa para extravasar tantos sentimentos compungidos. Aliás, como diria Chico Buarque: "tô me guardando para quando o carnaval chegar".

Um dos tantos teóricos que se debruçaram sobre o caráter da festa foi Mikhail Bakhtin. Para ele, toda festa encerra pelo menos três princípios; o da conservação, vide que no carnaval, por exemplo, as representações de classe estão muito bem guardadas (no carnaval de São Luis ridiculamente fizeram um área VIP [camarote]- que quer dizer very important people na praça Deodoro para resguardar os "mais importantes da ralé"); o da contravenção: homens se vestem de mulher, mulher de homem; e o da conservação e transgressão, quando por exemplo numa festa há elementos de agregação e segregação ao mesmo tempo. 

Esse conceito se aplica muito bem ao carnaval. É de espantar o caráter da denúncia de questões políticas estampadas em fantasias, alegorias por pessoas que cotidianamente não se importam com politica, bem como ao mesmo tempo as mesmas questões politicas que tanto indignam são levadas em tom jocoso e de brincadeira perdendo seu caráter de indignação.

O Brasil é por excelência o país do carnaval. Me lembro do saudoso João Trinta ainda na Escola de Samba Beija-Flor com um carro alegórico para lá de polêmico, o Cristo Redentor coberto por um pano preto com uma faixa escrito: MESMO CENSURADO ROGAI POR NÓS.

Esse país é mesmo uma alegoria de carnaval. O Presidente do Senado é Renan Calheiros: envolto em uma série de denúncias por falta de decoro parlamentar. Corre uma lista (abaixo-assinado) para tirá-lo do cargo pela internet. 

Somente no Brasil veríamos tamanha contradição e falso moralismo. Homens e mulheres andam seminus em desfiles pelas ruas do pais, mas se uma mulher fizer topless é presa por atentado violento ao pudor. Eu nunca entendi bem isso!!!! Orgulhamos de nossa "suposta liberdade sexual", mas fomos um dos últimos países a conceder divórcio, até hoje casamento homoafetivo não está regulamentado, apenas a união estável, mulheres ganham menos que os homens, embora seja 51% da população arrimo de família. 

Eu preferiria que o carnaval durasse o ato inteiro, assim veríamos nossa genialidade estampada na passarela, aliás, o maior espetáculo da terra, todas as nossas tristezas e contradições desapareceriam, imperaria a felicidade, seriamos mais leves e livres e as contradições sociais não nos afetaria tanto. 

Talvez por isso só dure três dias. Aliás, bem disse o gênio da música Tom Jobim: "tristeza não tem fim, felicidade sim". Ninguém suporta tanta tristeza, por isso existe o carnaval, assim como ninguém suporta tanta alegria, por isso dura tão pouco tempo. 

Há quem diga que o Brasil é país do carnaval porque aqui existem mais contradições do que qualquer outro lugar do mundo. Somos potencialmente riquíssimos, mas socialmente pobres, somos cordiais, abertos, e ao mesmo tempo altamente preconceituosos, somos liberais em tudo, mas não temos acesso a quase nada: justiça, imprensa, equidade social, educação de qualidade, saúde, habitação, transporte público decente, segurança pública. Por isso o carnaval tão bem calhou aqui e não apenas pela mistura das três raças: caucasoide, negroide e mongoloide (branco, negro e índio), e sim, porque usamos da abertura, da janela de oportunidades que o carnaval proporciona para mostrarmos nossas caras, dizermos quem somos, termos acesso a uma gota de alegria e felicidade, mostrar nossa indignação, debocharmos de tudo, rirmos da cara dos poderosos, sermos considerados elementos de integração da cultura nacional, visto que o restante do ano a porrada come e é frouxa. 

Há quem não entenda o carnaval e acho que nunca vai entender. Para entender o carnaval é necessário ser um carnavalesco da vida: ter em mente o samba-enredo da esperança quando a realidade é lancinante, se vestir como uma rainha durante três dias, pois o resto do ano as vezes só sobra aquele vestido de chita, ser aplaudido de pé na avenida porque quando as luzes se apagam muitos desses anônimos passam à condição de invisíveis. 

Se o carnaval é a festa do diabo então Deus a abençoou.           

4 comentários:

  1. Henrique gostaria que me respondesse uma curiosidade: depois de todos os escândalos de corrupção que já assistir, que ouço falar, todos sem punição enfim, lendo uma revista de veja uma fotografia chamou minha atenção, a imagem de um politico dos Estados unidos, depois de uma entrevista se suicidou, apos ser acusado de desvios de verbas e favorecer uma empresa de tecnologia, bom, se o brasil tivesse sido colonia da Inglaterra não seriamos um país com maior rigor em crimes ṕoliticos ou seriamos mais revolucionários a ponto de irmos para a rua pedi o afastamento de Renan calheiros imediatamente do cargo que ocupa, Henrique já fiz essa pergunta antes mas todos não me responderam ou simplesmente me ignoraram, ou será erro em achar que Portugal não foi uma metrópole que deixou pelos menos um legado de punição em crimes, ou deixou só uma cultura de corrupção nas nossas instituições. POR FAVOR RESPONDI-ME. só para se ter uma ideia 90 por cento da população da Europa tem um dinheiro em conta corrente enquanto no brasil menos da metade. não conseguimos nem manter uma preocupação futura,.

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    1. bem, essa resposta merece uma artigo a parte, mas vou tentar sinteticamente te responder dizendo o seguinte: é um equivoco achar que se fossemos colonizados pela Inglaterra seriamos melhores, vide os exemplo da colonia inglesa latino-americanas, guiana inglesa, muito mais pobre que o Brasil e os tantos países africanos que só libertaram na década de 60 do século XX. Estados Unidos são um caso a parte porque lá os colonos estavam em busca de terras fugindo das guerras religiosas europeias, ou seja, fixaram residência e para evitar confrontos entre si estabelecerem o minifundio. O caso estadunidenses é um caso de união das 13 colonias para evitar maior exploração da coroa britânica e para salvaguardar a liberdade religiosa. toda colonia é de exploração, ainda que tenha como objetivo a colonização. o problema brasileiro é o patrimonialismo, ou seja, a concepção de estado favorecendo uma minoria. só que já superamos a fase colonial, os erros do presente são absolutamente nossos. A população não vai as ruas porque não acredita em política, na nossa formação política. o caminho é a mobilização, sei que é demorado, mas não há outro caminho. é pressionar sempre. acredito muito na exposição midiática, nas redes sociais.

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    2. fico feliz só em responder a pergunta, vou esperar pelo artigo, PS vc não sabe quais professores que estão selecionados para o quinto período do curso de historia no pólo de Rosário

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    3. O césar tá montando os horários. abraços

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