terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Balada do cânone privado




Por Tonny Araújo



Todos esperam a moral da história perfeita. Um final  tão sublime quanto as deliciosas palavras que o antecedem em uma narrativa. Por causa disso, vi tantos escritores matando e morrendo por dentro. É que a crítica e o público, eram feitas - e muitos hoje ainda são - de pessoas que reclamavam para as suas vidas mesquinhas a não-frustração, o passo a frente, o reencontro, a felicidade subjugada à humildade. Vi mais do que palavras mortas na cesta de lixo, vi possibilidades brotarem e simplesmente serem tratadas como fetos mal formados. E assim, o escritor se tornava escravo de seus leitores, em busca de míseros trocados. Era o triste cárcere em que se encontrava boa parte da Lost Generation. Se ela tinha seus motivos? Descubra.
A história que vou contar-vos não intenta sacrificar a sensaboria da vida, ou seu gozo abençoado pelo imprevisível. Aconteceu nem há tanto, nem a pouco tempo atrás.


Alemanha, 14 de Outubro de 1957.


Deitado sobre os papéis em posição fetal ele dormia tranquilo, pois já não se lembraria das horas que o sono ceifou.
Izan gostava muito de desenhar e o fazia bem, tal habilidade surgira quando jovem, na época o seu hobbyera representar através das formas suas emoções e todo espaço físico que o interessasse. Sua casa nova era repleta de imagens muito bem sombreadas por lápis e grafites compradas por seus filhos, estes eram cuidadosamente armazenadas numa escrivaninha ao lado de sua cama. Nem todos os dias eram propícios para se fugir da realidade caçando animais na floresta Odenwald, e escrever não era seu forte, preferia converter a realidade em sua mente em linhas e perspectivas.
O tédio era inevitável em dadas circunstâncias: não havia televisão, rádio, ou vizinhos a quem pudesse compartilhar informações. Apenas a presença de seu fiel companheiro Veloz, um velho Akita que o acompanhava há muitos anos e que pela velhice mal conseguia latir -  para Izan, talvez esse fosse o detalhe que mais lembrasse o desgaste de um cão.

Num dia desses de envolvimento total com seus desenhos algo estranho lhe aconteceu, não conseguia achá-los em lugar algum. Procurou arduamente por toda a casa, geralmente ficavam pelo chão da casa mesmo, mas não desta vez. Era importante que os achasse para recobrar a criatividade. Passou, então a procurar em lugares absurdos: no banheiro, de baixo do tapete...

- Onde diabos guardei os desenhos Veloz? Passou a mão na cabeça de seu amigo peludo para convencê-lo a ajudá-lo.

O cão balançava sua calda e farejava os cômodos, enquanto Izan com muito esforço se abaixava nos cantos mais inusitados de sua humilde casa.

O ano é 1960. Izan Freiheit sempre apreciava a chegada da Primavera sob sua cadeira de balanço da sacada de sua casa. Não pense em nada requintado, na verdade por escolha própria, tratava-se de um casebre de madeiras escuras e úmidas, com poucos cômodos: um sofá, uma cama, algumas cadeiras dequercus coccifera e uma mesa baixa de cedro. Adorava ver as folhas caindo ao chão da sacada, como se fossem caças atingidas em cheio pelo caçador aventureiro e se alegrava bastante com o cheiro nostálgico do solo molhado, indicando que havia passado mais um dia de chuva.

Quem é Izan Freiheit, afinal? Um homem de muitos princípios, que pela idade avançada  e por uma estranha doença resolvera se mudar da cidade para o campo em busca de paz de espírito e de algo que desse novo sentido a sua vida. É curioso como a área rural - para quase todo mundo - reúne algo de “paraíso reconquistado”, de excitante esconderijo e, de fato no fim das contas todo homem mais cedo ou, mais tarde sempre encontra seu lugar secreto. Uns o acham na infância, outros à beira da morte.

A antiga casa de Izan na cidade se localizava na cidade de Adorf – uma pequena aldeia fundada em 1200 – e o cuido da residência depois que resolvera abandoná-la ficara responsável por seus filhos, netos, empregados e amigos dos mais variados, embora apenas os filhos o visitassem, com pouca frequência e merecessem, segundo a conveniência, maiores direitos. A respeito deles, eram quatro: Fritz, Apolinne, Heike e Fernandino.

Izan adorava a visita deles e, ainda que estivesse em profundo estado antissocial, algo o fazia regurgitar a cada palavra bem escolhida, a cada discurso familiar caloroso em torno da mesa de jantar e quando batiam no peito, orgulhosos por serem cidadãos sempre muito empenhados com seus afazeres sociais. De fato, essa era sua maior alegria quando dos bastante raros momentos familiares.

- Pai, quantas saudades de você! Quando voltará para casa? Estamos todos esperando por esse dia, sabia? Declarava docilmente uma de suas filhas.

- Voltar? Para aquele barulho infernal? Jamais, Apolline. Jamais! Retrucava Izan.

- Mas, meu velho, já está aqui há quase dez anos... Se não, mais! Advertiu Fritz espantado com a resposta do pai.

- E ficarei o resto de minha vida aqui. Mantinha o tom ríspido em suas respostas.

- Mas você prometeu...

- Prometi voltar assim que estivesse melhor, mas... Hesitou.

- Você nunca disse a nós o que tem, nem o doutor Anselm. Vocês estão escondendo alguma coisa. 

Doutor Anselm era o psiquiatra da família, e cuidava de Izan desde que percebera alguns lapsos em sua memória não declarativa.

- Tenho a saúde instável, Fernandino, e você sabe muito bem disso. Agora vão. Deixem-me descansar. Amanhã é dia de caçar e quero estar disposto.

- Tudo bem, mas voltaremos qualquer dia papai.

Despediu-se Apolline, enquanto o mais novo Heike de apenas 10 anos abraçava o pai forte.

- Que isso garoto? Até parece que está me dando um adeus.

Ditas estas palavras, Izan se pegou novamente sozinho, como se sua vida funcionasse automaticamente e todas as cenas fossem rapidamente cortadas e selecionadas, similar a um filme do qual todo e qualquer ser humano sempre se acha pretensamente protagonista.
No carro a caminho de casa e quebrando aquele estranho silêncio que acomete pessoas que se conhecem com afinco, Fritz exclama:

- O tratamento tem dado efeito, ele não se lembra de nada que aconteceu.

Logo em seguida, recebeu consentimento dos demais com sinais de suas expressões faciais sérias e centradas.

- Onde diabos guardei os desenhos Veloz? Era fim de tarde, e a vontade de rabiscar se fazia latente.

De repente, Izan escutou latidos cansados vindos de fora da casa. Era Veloz perto de uma árvore velha a poucos metros da escada que dava acesso ao quintal. Ele se dirigiu lentamente, fazendo a insistência dos latidos fraquejantes de Veloz cessar.
O cão segurava os papéis babados com os desenhos dos quais ele precisava para tomar inspiração, tomou-lhes da boca do animal e empalideceu ao olhá-los. Seu corpo estremeceu e um arrepio abrupto percorreu lhe a espinha. "Estou tendo algum tipo de sonho, ou alucinação?" Surgia e desaparecia a mesma pergunta como um flash diante de seus olhos.
No exato instante cenas embaralhadas de luzes, e de pessoass estranhas circulavam sua cabeça, como se estivesse num carrossel vendo sua realidade se deformar pela velocidade. Havia pessoas. Havia berros. Sons ensurdecedores. Clarões. Sangue por sobre o chão cinza. Quanto às pessoas não conseguia reconhecer seus rostos, estava tudo muito embaçado. A confusão em sua mente o fez desmaiar por algumas horas, todavia em sua cabeça eram como se  houvessem passado apenas alguns segundos. Após acordar, percebera que já tinha caído a noite. Eram vinte e uma horas exatas. Sujo de areia e suado resolvera entrar e tomar um banho. Não lembrava de coisa alguma.

É quinta-feira, uma leve neblina recai sobre toda floresta, não era um dia oportuno para caçar, ou mesmo fazer caminhadas até o lago, só restava aos inseparáveis companheiros passar o dia em casa descansando e “planejando” o que fariam quando o tempo estivesse mais apropriado. O sono logo se apoderou de Izan, mas seu cão o observava atento. Algumas horas depois, um suor excessivo começou a jorrar de sua face ininterruptamente. Em seu rosto um semblante medonho se fazia presente. As mesmas imagens distorcidas uma vez mais agrediam seus neurônios, os choques de realidades múltiplas: dos latidos de Veloz, das cabeças solitárias, dos berros e dos homens estranhos de seu pesadelo pareciam comprimir seu cérebro sem misericórdia. Sobressaltou-se.

- Meu Deus! O cão se espantou com a atitude do dono.

- Meu Deus... Meu Deus.  Agora compreendo os desenhos. Os desenhos, Veloz. Onde estão campeão?

O cão permanecia inerte e com um comportamento indiferente.

- Vamos garoto! Venha.

De alguma forma aqueles repentinos e estranhos acontecimentos devolveram a vitalidade de Izan, não sabia se o prazer recém surgido agia ad hoc, apenas se sentia novamente jovem e tomado por uma adrenalina que há anos não percorria seus nervos. Internamente agradecia aos céus ao qual nem se importava tanto. O sentimento de gratidão foi em seu pico quando pôs as mãos em seus misteriosos desenhos, acariciava-os, admirava-os, amava-os, com certeza bem mais do que qualquer mulher,ou mesmo seus próprios filhos a quem dedicou todas as suas energias a vida toda. Contudo, novamente uma forte lembrança atacara seu cérebro, esbofeteando seus neurônios sem parar. Gemia com as mãos na cabeça se debatendo ao chão e a cada móvel quebrado, a cada som de destruição, seus olhos enchiam de lágrimas de felicidade. Eis o êxtase de juventude: a rebeldia, a vida fora da lei, o não importar-se, a suficiência dentro de si próprio. Izan sentia algo muito próximo enquanto lançanva seu corpo de encontro á parede. Finalmente estava salvo. Salvo da monotonia, da pena dos mais jovens, dos ossos fraquejantes, do estúpido desejo de aquietar-se em um canto.

Voltara a se sentir imortal.

Dentro de seu peito chacoalhavam ilusões febris, daquele tipo forjadas apenas quando se está descobrindo o desejo de crescer duma vez só. Do tipo que chegam sorrateiras junto com a sensação de perda do que nunca se teve. E ponderou por um instante: Os homens quando perdem seu mistério, já não precisam viver mais, nem perder seu precioso tempo desfalecendo em solidão fatal, posto que na repulsa de suas faculdades desconhecidas, tornam-se uns infames humanóides, filhos bastardos da Mãe Natureza. Caido ao chão, um sorriso estampava seu rosto.

A sexta-feira põe-se a desaflorar. Desde então, era comum depois de caçar a tarde, vê-lo experimentar da deliciosa sensação de morte que aquelas horrendas lembranças lhe traziam. Passados alguns meses até erguera um "altar" no meio do quarto. Achava que era hora de depositar suas esperanças naquilo que o fazia bem, então separou alguns desenhos, comprou um agradável incenso e algumas velas para dar uma estética abrilhantada ao seu abrigo espiritual e, claro para vê-los mais detalhadamente em meio a escuridão. Ora, se sentia egoísta por não prestar as devidas honras ao desconhecido motivo que o devolvera a felicidade juvenil.
Enquanto Izan saboreava os prazeres de sua mocidade mental, sua consciência permanecia eufórica, sua alma aparentemente mais forte e  seus olhos mais vívidos. No entanto, o tempo perseguia sua carne e massacrava lentamente seus órgãos. Tudo isso lhe passava despercebido porque inconscientemente se recusava a dar créditos àquela morte gradual.
A insanidade finalmente controlara cada pequeno pedaço de sua alma. Estava completamente embriagado e cego pelo prazer depositado naquelas criações medonhas. Não percebia que seu corpo envelhecia dia após dia, que era mortal, e que a fé enlouquecida surgida nalgo que o fazia esquecer de suas frustrações, de seu verdadeiro "eu", e parecia lhe oferecer uma nova vida, na verdade o assassinava violentamente, o fez perder o contato com as pessoas que amava e o lançou em um poço de horror e perdição. Escolheu esconder-se em si mesmo.

O Outono estava chegando e em uma visita aleatória depois de meses sem ver o pai, Apolline resolveu sair mais cedo do trabalho e ir até o casebre onde Izan residia para conversar e apreciar a vista de sua sacada. Ao cruzar a porta se deparou com uma visão medonha: Enrolado sobre os papéis estavam os corpos de Izan e seu cão rodeados de velas. Após uma crise de choro inconformado ligou para seus irmãos e para o doutor Anselm. Todos observavam estupefatos ao templo de papel estabelecido por Izan: haviam velas de diversas cores, folhas no teto, ao chão, nas paredes em todos os cantos do quarto. O cão estava magérrimo assim como seu dono.

- Nunca imaginei que isso fosse acontecer. Lamentou Doutor Anselm:

- Pela primeira vez em minha carreira dei um diagnóstico falido. Não previ nada disso. Izan possuia destúrbios sérios por causa das cenas brutais da Segunda Guerra, lembro bem de cada exame. Sua mente de alguma forma esquecera daqueles eventos de forma particular, de fato isso era muito estranho, mas não chega ao horror desta realidade. Mil perdões. Mil perdões. Dizia cabisbaixo o doutor de orgulho ferido.

- Não se culpe doutor, muito provavelmente foi falência múltipla. E além do mais nós escolhemos mantê-lo longe de tudo para que não lembrasse da Guerra de forma alguma. Veja só estes desenhos doutor! Veja! Na-na-da podíamos fazer, ele... com certeza faleceu por lembrar das pessoas que foram mortas em campo. Dizia com dificuldade Fritz.

Após todos saírem para respirar e chamar a ambulância para levar o corpo, Heike resolveu se despedir do pai. Um olhar de admiração e não de pena, ou remorso tomava o rosto do menino. Em sua mente inocente valia mais a pena saborear a saudade do que indagar se aquilo era justo ou não, bom, ou ruim.
A cena do garoto observando seu eterno herói faz lembrar que, de fato no fim das contas todo homem A cena do garoto observando seu eterno herói faz lembrar que, de fato no fim das contas todo homem mais cedo ou, mais tarde sempre encontra seu lugar secreto. Uns o acham na infância, outros à beira da morte...


Deitado sobre os papéis, em posição fetal ele dormia tranquilo, pois já não se lembraria das horas que o sono ceifou.

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