quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

cabeça, coração e estômago

No processo de constituição do mundo ocidental, sobretudo a partir da idealização do mundo grego-romano, elemento de distinção social em relação a outras sociedades que lhe eram paralelas, a razão e seu elemento de comutação, o pensamento, paulatinamente começaram a substituir o sentimento, a intuição como formas de aprendizagem e compreensão da vida. 

Desta feita, o intelecto comutou a simbologia da predominância do saber em relação a qualquer outra possibilidade de apreensão sobre o mundo, e o referente, a cabeça, o guia e instrumento idealizador da busca do homem.

Durante o período moderno, à medida que a autópsia-dissecação dos corpos se constituía como instrumento de conhecimento do corpo humano, descobriu-se que as pessoas não possuíam apenas coração, pulmão e estômago, bem como os demais órgãos, ainda que não se soubesse de suas funções.

Na escatologia cristã, notadamente a católica, o coração passou a simbolizar o centro das emoções, iconização e preconização catalizador do centro da vida. Com o passar do tempo, os órgãos adquiriram funções dísticas enquanto funcionalidade biológica, bem como atribuições metafísicas. No fundo, o que estava em xeque era o processo de atomização do conhecimento transferido também para os órgãos humanos. 

Com o avançar do sistema capitalista e a predominância econômica e técnica da Europa sobre as demais regiões, construiu-se um aparato ideológico desta como superior às demais, acarretando na visibilidade do pensamento, leia-se, da mente sobre qualquer forma apriorística de saber, sobretudo, os sentimentos. 

A África, associada ideologicamente ao atraso em decorrência da invenção do racismo pela cor, via escravidão, cada vez mais estava atrelada a uma imagem de sentimentalismo que atrapalhava o desenvolvimento do progresso, ou seja, o coração africano era símbolo de um tipo de existência e sociabilidade incompatíveis com o desenvolvimento intelectual dos europeus.

Da mesma forma a Ásia não escapou do estereótipo de tirania, de governos teocráticos e atrasados e de região atrasada. O desconhecimento das ciências asiáticas, bem como do grau de desenvolvimento africano, abastardou a noção de holismo que estas duas regiões havia séculos vinham desenvolvendo.

Conquanto, os asiáticos já haviam desenvolvido uma compreensão de medicina holística, inclusive apregoando que o estômago era quem catalizava e canalizava todas as formas de sentimento e não o cérebro. Tratava-se de uma concepção ampliada de integração corpo-natureza que o desenvolvimento racional europeu perdera ao longo do tempo.

O que a escatologia católica fez ao separar cabeça, do coração e estômago, que o protestantismo agravou, foi segmentar a compreensão entre Kronos e Kairos, ou seja, tempo e tempo, um tempo linear, objetivo e sincrônico, e um tempo do aqui e agora, da captação da energia do cosmos, dos quais os órgãos humanos são receptáculos.

Desta feita, os órgãos humanos são ao mesmo tempo testemunhas da vida cósmica e divulgadores dos mistérios da vida através de teorias, teoremas, dogmas, religiões, bem como a negação dos mistérios do próprio cosmos, quer dizer, por sua condição limitante e limitadora, tudo o que os humanos falam sobre a existência são esclarecedores e não-esclarecedores ao mesmo tempo, por isso Sócrates havia preconizado na Grécia clássica a célebre frase: “só sei que nada sei”, bem como Descartes afirmou que os órgãos humanos falhavam, não era possível crer-se naquilo que víamos.

Estamos de fato muito longe de compreendermos os mistérios da vida e a própria separação entre os órgãos ou a construção e associação de órgãos às regiões (cabeça, Europa; coração; África, estômago, Ásia) são formas estereotipadas e excludentes de não entender o outro, no caso, o modelo antitético do que cada região é. 

Com o avanço do transumanismo e a paulatina substituição de órgãos humanos, o debate torna-se cada vez mais moral e menos holístico, afinal, órgãos geneticamente ou biomecanicamente alterados não mudam a percepção sobre o que vem a ser a humanidade, afinal, tais transformações vêm se dando ao longo da história. No entanto, do ponto de vista holístico afeta sim, afinal, o homem ultramoderno é cada vez menos integrado à natureza que nossos ancestrais, logo, nossa percepção sensitiva tem sido radicalmente afetada. 

Afinal, o que somos? Mente ou corpo? Mente e corpo são a mesma coisa? O que de fato mais importa, a mente ou a existência material? Se a existência material não tem tanta importância assim, por que ainda damos tanto valor a tal existência?

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

ciume e propriedade

Uma garrafa de cachaça do interior do Maranhão sobre a mesa. Uma mariscada preparada pelo Flavio. Legítimos queijo parmesão e salame italianos. Chocolate. Um terraço aprazível: brisa do mar, cheiro de orvalho, três amigos reunidos, afetos recobrados, Lucía e Milene fazendo algazarra.

É sempre sublime a passagem de Cesare Paltrinieri pelo Brasil, ocasião para nos reunir e colocarmos os papos em dia; a situação da Itália; a perspectiva sobre o Brasil; a situação fundiária – Flavio é da CPT (Comissão Pastoral da Terra) –, filosofia, literatura e.... Tá faltando alguma coisa? Claro, a questão política. Mentira, mulheres... 

Ano passado, quando a corriola n² se reuniu (Wagner Cabral, me permita o empréstimo de corriola, afinal, a verdadeira corriola é Flavio, Wagner, Marcelo Carneiro e Claudio), levei para o bar do Léo, na ocasião o grupo estava completo: eu, Flavio, Cesare, Mario. Três italianos e um brasileiro. Discutíamos sobre neo-liberalismo, especulação imobiliária, a possível queda de Berlusconi, música brasileira, quando mais que de repente surgiu o papo freudiano que incomoda 99,9% dos homens: o tamanho do pênis. Confesso que aquela conversa estava se alargando por demais, então, tomei a decisão de fazer uma pesquisa de campo. Olhei para os lados e vi uma linda jovem sozinha tomando cerveja e não me fiz de rogado, mesmo com o risco de tomar um tapa na cara, fui até ela e disse: 

 – “Boa noite, perdoe-me a intromissão, mas por obséquio, estou reunido com 3 amigos, três anjinhos barrocos (risos) naquela mesa e uma dúvida atroz tomou conta de todos nós: o tamanho do pênis do homem interfere no prazer e performance sexual?”

Ela não se fez de rogada também, educadamente se levantou, foi até a nossa mesa e disse:

– “Olha, não é porque a varinha é pequena que não faz mágica”... Gargalhadas. 

A italianada não sabia onde enfiar a cara, ficaram ruborizados, perplexos, não acreditando na situação. Fui até ao banheiro porque não me segurava de tanto rir. A bela jovem na verdade era uma amiga minha que entendo a situação, mesmo não combinando nada antes, entrou na brincadeira e fingiu não me conhecer. 

Esse assunto voltou à baila semana passada. Flavio virou para mim e disse: – “Aquela jovem do bar do Léo ano passado estava mentindo... O tamanho do pênis interfere sim. Risos... De novo não... Foi aí que surgiu mais uma polêmica: ciúme e propriedade.

Eu e Flávio defendemos a tese de que o princípio do ciúme é a noção de propriedade. Cesare concorda, mas peremptoriamente discorda ao afirmar que não são a mesma coisa. Lá se vão horas a fio de debate. 

Depois de tanto tentar explicar seu ponto de vista, Cesare olhou para minhas filhas, já dormindo no meu colo, e disse: – “Quando elas começarem a namorar você sentirá ciúmes, mas sabe que não são sua propriedade”. Pronto. Convenceu-nos. 

Então, Flavio, versado e doutor na questão agrária, usou seu repertório sobre o tema e começou a dissecar sobre os tipos de propriedades do amor, usando sempre como metáfora a questão da terra. Existe amor, quer dizer, terra, propriedade, que é de grilagem, latifúndio, usucapião, arrendada, meeiro, posseiro, terra quilombola, indígena, por adiante. Ou seja, quem se sente dono de alguém, mesmo não o querendo mais, se enfurece ao perceber algum invasor ocupando terras ociosas dantes de outro domínio.

Segundo Flávio, é impressionante como a gente sempre quer se sentir dono de tudo. Assim nascem os conflitos agrários, assim nascem as disputas por propriedade sobre alguém.        
















sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

A indústria narcotraficante de coisas ruins

Meus amigos Cesare Paltrinieri e Flavio Lazzarin saíram com uma pérola: _ "via de regra, os vinhos que se tomam no Brasil são muito ruins. Enviam para cá o que de pior existe, mas não podem abrir mão do grande mercado chamado Brasil consumidor". 

Segundo eles, isso faz parte de uma lógica de incorporação dos brasileiros ao consumo de vinho - ainda é baixo em relação aos países vizinhos -, sobretudo considerando seu potencial. Pronto!! O debate esquentou. A questão adentrou na relação de quanto o capital é antitético à beleza. 

Senão vejamos, ainda segundo eles. A indústria editorial só relança livros se forem clássicos, Best Sellers, não há espaço para autores não conhecidos, a não ser pequenas editoras fora do grande mercado de distribuição ou outras alternativas de publicação. Quando se chega num aeroporto e se entra numa livraria onde estão os grandes escritores de nossa literatura? Da literatura latino-americana? Africana? Os destaques são dados aos mais vendidos, grosso modo, sucessos relacionados a auto-ajuda ou da incorporação do mundo empresarial à vida pessoal, do tipo: "como fazer seu filho ficar rico", técnicas de guerra na arte da conquista", e por ai adiante...

As livrarias fecham porque são solapadas pela ideia enganosa de que tudo pode ser comprado pela internet. Estamos perdendo o hábito de ir às livrarias, selecionar o que queremos, folhear, tomar café, etc. As livrarias que sobrevivem são quase todas de grande porte, um conglomerado nacional, às vezes internacional que abocanham boa parte da fatia do mercado.

A mesma coisa acontece com os restaurantes. Tentam a todo custo nos convencer de que comida fast food é melhor do que a nossa boa e velha picanha, feijoada, mocotó, etc, feito em restaurantes populares. Tudo em nome da praticidade, rapidez e pausterização dos costumes.

Já perceberam como os shopping centers acabaram com os antigos centros comerciais? É a lógica do modelo vitrine que iguala tudo, para fugir disso o capital inventou a tal de costumização, quer dizer, fazer a mercadoria, o consumidor, sentir-se único na sua condição de mercadoria.  

E quanto a música? Engraçado que o Brasil fora conhecido mundo afora pela sua grande riqueza musical, inconfundível, singular, claro que as coisas mudam, mas é impressionante como os hits não se sustentam, ficam no hit parade duas ou três semanas e necessitam logo serem substituídas por novos hits, pois que no fundo não foram feitos para serem lembrados, absorvidos na sua inteireza, e sim, sorvidos dentro da lógica da indústria cultural. 

Eu entendo o que Cesare e Flavio quiseram me explicar. Claro também que o novo sempre vem, as novas gerações produzem sempre coisas diferentes de gerações anteriores, a questão é o quanto o capital é antitético à beleza. Beleza é singularidade, singeleza, impacto, estranheza, impavidez, solipsismo, e, dentro de um esquema de auto-reprodução não é possível pensar numa estrutura que demande tempo, sensibilidade, calma, singularidade. O capitalismo trabalha com a perspectiva da reprodução, já disse Walter Benjamim. 

Segundo Flavio, o capitalismo é cronológico, a beleza é Kairos. Embora Kairos seja filho de Cronos, na tradução e tradição ocidental, o tempo cronológico passou a ser a da demanda da vida ordinária, o controle, o tempo marcado, datado, existencial do ponto de vista da concretude, do objeto. Kairos é também tempo, mas um outro tempo, o tempo da oportunidade, não a oportunidade de se conquistar alguma coisa, e sim, o tempo de viver o aqui e agora deslocado da própria concepção temporal de cronos, ou seja, o tempo de sentir, chorar, alegrar, vide que a relação entre viver e tempo está conectada ao tempo que nos permite sentir o que é viver.

O capitalismo nos roubou a possibilidade de sentirmos o aqui e agora independentemente de termos que tirar proveito de tudo, de tudo termos que ter algum lucro. Kairos não é lucro, vide que a vida não é mercantilizada. O capitalismo transforma tudo em mercadoria, se é mercadoria, possui sua lógica dentro de um esquema de uso, troca e venda, e existe uma conotação do Kairos que não pode ser dimensionada a partir dessa lógica.

A psicanálise lacaniana na década de 60 explicou como isso se dá. O capitalismo estimula e supre as carências do ego via consumo, ou seja, estimula a capacidade fetichizante da mercadoria levando as pessoas a uma sensação plenipotente de tudo realizar e consumir: arte, conhecimento, comida, viagens, drogas, sexo, pessoas, entretenimento, moda, bebidas, roupas, esportes. O problema é que na ultramodernidade me parece que o consumo não está mais conseguindo suprir as demandas do ego, ai, vem o vazio constante.

E, por último, um espaço importante chamado facebook. Facebook é vala, ou seja, espaço de reprodução de ideias, de fluxos de mensagens auto-reproduzidas que se realimentam. Pouca coisa nova de fato circula, criada, quero dizer, a gente repassa o que já outra pessoa disse. Menos mal!!! É melhor reproduzir o que é bom.     

É claro que há ressalvas, avanços e coisas boas no capitalismo, mas as denúncias e criticas de Cesare e Flavio repousam sobre a necessidade de não singularizar nada, mas transformar tudo ou pensar tudo a partir da concepção de largo consumo. Foi por isso que ao tomarem o vinho eles petardaram: " _tem conservante demais, isso não é vinho".

         




           

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

A pobreza política no Maranhão

Acredito que em vários estados brasileiros também seja assim, só não consigo dimensionar a extensão. Morei 3 anos em São Paulo e 1 no Rio de Janeiro, em época de campanha eleitoral, ano que antecede as eleições, o clima de disputa se acirra, os ânimos afloram. Não deu para dimensionar muito nesses estados essa questão, mas no Maranhão...

Peço aos leitores deste blog em outros estados que compartilhem aqui as experiências nos municípios logo depois do escrutino eleitoral e como ficam os rearranjos por cargos e pastas. Aqui a coisa é braba, com características de guerra civil. 

As coisas no Maranhão ganham sempre dimensões estratosféricas devido ao alto grau de pobreza do estado, logo, de dependência da máquina pública para a existência e manutenção de várias famílias. No continente, digo, para além da ilha de São Luis, praticamente não há indústria, raras exceções, via de regra as cidades no Maranhão vivem do comércio e do funcionalismo público municipal. Ai que a coisa pega. 

O prefeito possui na manga um instrumento de barganha politica, cooptação, coerção, capitulação, enfim, ele é Deus, mas um deus ruim, pode tudo. Se alguém é oposição, subiu no palanque do candidato adversário, caso perca as eleições, o grupo vencedor fatalmente fará uma caça às bruxas; pedirá cargos, demitirá, quando não transfere o funcionário da sede do município para a zona rural, forma de punição.

Aqui meus caros leitores a coisa é tão séria que dá até morte, inimizade, divide família, dá mal querencia,  enfim, acontece de tudo. Quando existe uma extrema dependência do funcionalismo publico municipal é isso que dá, ou seja, tudo gira em torno da politica, quer dizer, da politicagem. 

Ai é que se revela a extrema pobreza deste estado. O grupo vencedor tão pouco importa se o grupo adversário possui quadros competentes na estrutura administrativa, se existem projetos interessantes sendo executados, não, rifa, pune, ameaça da forma mais vil e sanguinária, tudo em nome do "poder" exercido a partir da máquina pública.

É a velha estrutura colonial patrimonialista imperando em pleno século XXI. No Maranhão acontecem coisas que até Deus duvida. As estranhas da pobreza e da concepção do que vem a ser publico aqui ficam mais expostos, mais visíveis, mais aflorados. O racismo, o mandonismo local, o patriarcalismo, o autoritarismo, são práticas comuns. 

Como Bourdieu mui bem definiu o conceito de habitus, essas práticas de tão corriqueiras se tornam  irretorquíveis. Não se consegue sequer discutir com pessoas ligadas aos prefeitos o porquê da torpeza dessas praticas, consideram mais que naturais.

Quando isso vai acabar? Quando o estado se desenvolver economicamente, quando as estruturas educacionais atingirem outros patamares, quando houver liberdade de imprensa, quando as pessoas não tiverem medo do judiciário, enfim, quando muita coisa por aqui mudar. Até lá, de quatro em quatro anos as famílias no interior do Maranhão sofreram a instabilidade da condição politica por conta dessa percepção sobre o que é o publico.

A bem da verdade, não existe o que é publico no Maranhão.                

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

A pressão



Thays Barbosa e Henrique Borralho


Poing, poing, poing... Lentamente as gotas caíam no receptáculo que leva o soro até as veias. Minhas pálpebras pesadas me impediam te ver onde me encontrava. Tudo estava mareado. Quando acordei, me dei conta de quanto tempo já estava naquele leito, na verdade era tempo demais. Homens de branco me olhavam apavorados, tais como os meus pais. Toda equipe médica estava de plantão para mais um surto daqueles. Disseram-me que tive 29 convulsões seguidas. Não me lembro como fui parar ali, na verdade só tenho rasgos de lembranças quando comecei a sentir fortes dores na coluna ainda dentro do ônibus quando voltava da escola para casa. O ano era 1998. A preocupação dos meus pais eram as sequelas. Estavam todos apavorados com a possibilidade de ser um grave caso neurológico, possivelmente cirúrgico.

Passado o susto, pediram que meus pais se retirassem do quarto. Queriam ficar a sós comigo. Eram dois médicos. Eu ainda estava muito dopada, afinal, tive várias sessões de convulsões. Ainda assim foram direto ao assunto e me disseram que meu caso não era neuropsiquiátrico e as convulsões eram de fundo psicológicas, eu não tinha absolutamente nada neurologicamente falando. 

Fui encaminhada a um hospital psiquiátrico, mas logo pela manhã iniciei outra série de convulsões. Fui levada de ambulância de volta ao hospital. Recebia a visita do psiquiatra todos os dias iniciando minha medicação com remédio controlado também. Mas ainda tinha várias crises durante o dia. Dopavam-me várias vezes. Fiquei 2 meses internada e cheguei a perder os movimentos da perna, essa foi a pior parte... Passei 1 mês e 3 dias sem esses movimentos, fiz os exames e novamente não deram nada, tive que fazer todo um tratamento para me conscientizar de que eu não tinha perdido os movimentos das minhas pernas, que elas estavam ali, foi muito difícil, mas eu consegui e elas voltaram novamente. 

Recebi alta. Meu namorado nunca foi me visitar no hospital, simplesmente disse que não iria conseguir aguentar o fardo, acho que era demais pra ele. Eu ainda tinha muitas crises por dias, horas seguidas. Desmaiava várias vezes, quando voltava, estava em estado vegetativo, depois recobrava a mim e começava a reconhecer quem estava a minha volta. Muitos médicos acreditavam que eu jamais voltaria ao normal, a ser quem eu era antes; eu cheguei a acreditar nisso também. Mas com o tempo as crises foram se tornando menos frequentes, consegui passar no segundo ano mesmo não cursando o segundo bimestre por meio do conselho de classe, visto que sempre fui uma boa aluna. Os médicos me proibiram de estudar durante um ano, mas não aceitei e consegui concluir meu terceiro ano na idade certa; tinha muitas crises em sala de aula.

Com o tempo as crises de desmaio e convulsão passaram, não fiquei com nenhuma sequela física, nem mental. Ainda me sinto angustiada, às vezes. Sou nervosa e me preocupo muito com pequenas coisas, essas foram minhas sequelas. Não vou dizer que minha luta interna acabou, porque estaria mentindo, ainda brigo muito comigo, ainda luto pra não cair em depressão novamente, mas isso é algo que só pertence a mim. 

Ainda tomo remédio controlado, mas já estou em processo de retirada, um processo muito difícil por sinal, pois como meu organismo está acostumado há anos com os remédios, com esse processo de retirada tenho tido umas pequenas crises, crises que as vezes me fazem pensar que tudo vai voltar. 

Hoje, faço sessões de terapia uma vez por semana. Meu psicanalista começou a me inquirir o porquê de tudo isso. Agora começo a ter noção de como começou. 

Cresci sendo muito cobrada por mim, sempre me cobrei em tudo, principalmente nos estudos. Só tenho uma irmã mais velha e desde pequena a tive como exemplo e minha meta era ser igual a ela, causar orgulho aos meus pais tanto quanto. Não é inveja, pois a amo e quando criança a venerava como ninguém. Minha irmã passou em 2.º lugar na prova do ensino médio do melhor colégio público federal da cidade. Quando isso aconteceu, meus pais me pressionaram bastante para que eu fizesse o mesmo, pois assim cursaria o técnico e entraria para a empresa de mineração como ela. Eu, consequentemente, me pressionei bastante até o dia da prova, mas não passei. Assim iniciou minha frustração. Consegui passar em uma outra escola de menor reputação, mas lá não teria a possibilidade de fazer o técnico e entrar para a grande empresa. Passar nesse seletivo pra mim não foi grande coisa. 

Iniciei meu ensino médio, tinha uma rotina frenética, pegava ônibus 5:30 da manhã e chegava 15 hs, o restante do meu tempo dedicava aos estudos. Sempre me cobrando muito, sempre achando que eu fazia pouco, conseguia pouco, nunca satisfeita comigo. Foi nessa época que eu conheci um rapaz e me apaixonei. Aliás, me agarrei! Ele era diferente, tinha uma rotina estranha ao nosso mundo, sumia e reaparecia, era mais velho do que eu e não assumia nosso namoro, não por ser casado ou ter namorada, mas por ser mais cômodo não me assumir. No segundo ano do ensino médio nosso namoro continuou, nesse ritmo eu adoecia e descarregava tudo nos estudos. Criei uma dificuldade de fazer amizades e com isso gerou uma rejeição da parte da sala comigo. Assim, me fechei completamente, embora eu sempre tenha sido muito comunicativa e brincalhona, nunca deixando transparecer minha luta interna. Fui criando um certo pavor a fazer coisas que antes nunca tinham me causado nervoso, como apresentar trabalho em público, apresentar peças teatrais (eu fazia teatro), me afastei dos meus amigos, me fechei no meu mundo.

Por muito tempo vivi lutando comigo, mas nunca deixando transparecer a ninguém, foi quando em 1998, voltando para casa depois da aula comecei a sentir as fortes dores nas costas. Foi assim que tudo começou.   









sábado, 19 de janeiro de 2013

A diacronia da repetição

Há pássaros que se desfalecem ao pôr-do-sol
e ao amanhecer, percebendo que estão vivos, cantam a mais fina sintonia da manhã,
os filmes repetem histórias de amor, às vezes as frases se repetem, tantos amores desfeitos, tantos reavistos quando amanhece o dia,
as músicas também possuem o mesmo repertório: o amor encena, em cena: a voz, os instrumentos, as melodias, o timbre, o motivo para cantar,
é um ciclo interminável esse de viver, todos os dias as coisas se repetem, só que nunca da mesma forma,
ontem a reclamação pela desmesura da atitude e da palavra, hoje, a esperança de que a desmesura vire a medida certa do afeto, do toque, do olhar,
a escrita segue a mesma lógica: parece uma sensação eterna de déja vù, pois já vimos mesmo, só que outra forma, com outras pessoas, e quando acontece com a gente é como se fosse a primeira vez,
e de fato é sempre a primeira vez, mesmo quando a gente reescreve a palavra nunca dita e quando pronunciada deixa de ser nosso repertório para tornar-se lugar no universo, aí, quando alguém a reencontra e a reusa para expressar uma sensação parecida, é como se aquilo que fosse nosso fosse do outro também,
por isso nunca se diz a mesma coisa da mesma forma,
tal como o pássaro, mesmo repetindo o mesmo timbre de canto, nunca consegue imitá-lo,
o sol não é mesmo, tampouco o amanhecer,
sabe-se lá o que o espera nesse novo dia, quantas árvores encontrará, se algum parceiro para acasalar,
se algum ninho por fazer, até o que pôr-do-sol, o ocaso de cada dia, desfecha a cena de um turno para que a lua a partir daquele instante seja a escuridão da luz dos que a buscam,
diferentemente do sol que irradia luz por onde passa, a lua para percebermos sua luminosidade por vezes é preciso olhar para ela, sempre ela, está sempre lá, mas nunca é da mesma forma,
há sempre um detalhe do dragão de seu Jorge que a gente nunca observou,
da mesma forma que o mesmo canto do pássaro repetindo-se todos os dias é sempre melodioso, gracioso de se ouvir, se confundindo com o farfalhar das árvores,
movimento diacrônico de ir para lá e para cá, todos os dias,
tal como as histórias de amor dos filmes, nas músicas, nos textos, que sempre continuarão a existir porque o que há está em todos os lugares, assim como nós,
inseridos num movimento cíclico, nos repetindo porque ninguém pode deter a vida,
muito menos a capacidade de sentir
sempre as mesmas sensações
só que de forma diferente










quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

Eu tenho uma teoria que é uma ideia boba

Eu tenho uma teoria que é uma ideia boa. É mais ou menos assim: a vida "brinca" selecionando gente que precisa evoluir, se emancipar, colocando-as em lugares bem difíceis de viver, que é para ver se elas vão desistir de estarem nesses lugares, se empenham em mudar tais ambientes, contagiar outras pessoas, contribuindo para o seu próprio crescimento e dos outros. 

Quanto mais difícil é o lugar maior o desafio de transformá-lo. Vejamos por exemplo os professores da rede estadual pública de qualquer estado brasileiro, sobretudo o Maranhão. Ganham pouco, são desrespeitados em suas condições de trabalho, são insultados, violentados física e simbolicamente pelos alunos e ainda assim amam o que fazem, não desistem, alguns, de suas tarefas de educar. 

Outras pessoas nascem ricas, ou vivem vidas muitas tranquilas, sem sobressaltos, sem grandes desafios de transformação da realidade. Pessoas com compromissos de transformação pessoal são sempre angustiadas, geralmente carregadas, as que apenas querem sorver a vida, não. 

Ai, a gente convive com pessoas de toda ordem, interesses e conflitos. As vezes no mesmo ambiente de trabalho tem sempre um grupo que carrega o piano e outro que senta nele para ser carregado, embora ambos tenham a mesma responsabilidade. 

É difícil a convivência humana, por isso ela é tão instigante, desafiadora. Desistir é pior porque ai a vida emperra. Enquanto a gente não entender o que no outro incomoda tanto em nós não vamos conseguir conviver conosco mesmo. 

Fico me perguntando como vim nascer e viver no Maranhão, um dos estados mais pobres da federação, um dos mais injustos e cruéis com seus habitantes. É rico potencialmente, pobre socialmente. Viver aqui é mágico pela riqueza da cultura e ao mesmo tempo angustiante pelas condições politicas. O correto é sair, não é? Sim e não, já que não há julgamento moral em tomar a decisão de sair e escolher outro lugar para viver, mas desistir de lutar e enfrentar as questões sociais deste estado e deste pais é como abandonar o posto da linha de combate que a vida te colocou. A gente só avança de posto quando cumprimos uma função anterior. 

Assim é na vida. Não adianta reclamar que as coisas não acontecem, precisamos fazê-las acontecer. Não adianta reclamar e não mudar, precisamos nos perguntar que escolhas e caminhos traçamos para estarmos exatamente onde estamos. 

Esse papo aqui não é de auto-ajuda não e nem literatura de Poliana, é que se não entendermos as condições sociais de um lugar, suas condições históricas, não conseguiremos nos situar dentro desse universo. 

Acaba de ser divulgada pela internet a existência de um depósito de livros didáticos que estão mofando, não foram entregues aos alunos no Maranhão. Legal a divulgação da denúncia via facebook, mas me pergunto, nos vamos às ruas protestar? E quanto ao escândalo do abandono do hospital Socorrão em São Luis, o que fizemos? Quantas marchas contra corrupção acontecem todos os meses? Protestamos em frente ao Ministério Público quando ficamos sabendo de algum escândalo de desvio de verba, merenda escolar? 

O que impera nesse pais é um non sense, uma sensação de abandono, um desânimo por não acreditarmos em nossas instituições públicas, eivadas de corrupção. Corrupção existe em todo o lugar e aqui ela é endógena, produziu gerações inteiras de pessoas passivas que se acostumaram a ideia de que a desonestidade já vem com a chupeta, é normal, e quando as pessoas banalizam a anti-ética, somente um choque comportamental pode mudar, e choque comportamental só vem com a educação. 

O que fazer até a mudança chegar? Acordar todos os dias, brindar por estarmos vivos, fazer nosso papel individual, agir coletivamente, cobrarmos politicamente nossas instituições e sermos felizes!!!

Somos o que podemos ser!!                           

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Minha primeira critica ao prefeito de São Luis, Edivaldo Holanda Júnior

Ilmº Srº Prefeito Edivaldo Holanda Júnior,

Antes de qualquer coisa, gostaria de parabenizá-lo pela vitória nas eleições municipais para dirigir a cidade de São Luis. Não votei em vossa excelência no primeiro turno, e sim, no candidato do PSOL, Haroldo Saboia. Sua vitória representou o fim de um mandato desastroso, caótico, incompetente, irresponsável do então Prefeito João Castelo, do PSDB.

No segundo turno, no entanto, fiz campanha para vossa senhoria, quer no facebook, criticando as atitudes do então prefeito, quer publicando um artigo neste blog intitulado: la cencerrada e as eleições no 2º turno em São Luis, acerca da manobra de seu adversário quanto ao apoio dos policiais militares e bombeiros à sua campanha, quer votando.

Fiquei atento a todas as suas propostas e promessas. Não posso levianamente lhe cobrar por aquilo que o Srº não prometeu, mas posso por aquilo que prometeu. Por exemplo: em nenhum momento vossa senhoria disse que não aceitaria ajuda ou não sentaria com a Excelentíssima Senhora Governadora do Estado, Roseana Sarney Murad. Aliás, institucionalmente é sua obrigação, o Srº é prefeito da cidade de São Luis, louvo a atitude de buscar soluções para os problemas da cidade, que aliás, são gravíssimos. Sei que muitos estão lhe criticando por essa atitude acusando-o de traição a Flávio Dino. Considero essa critica torpe, estreita, afinal, quem responde pela gestão de uma cidade precisa buscar parcerias e soluções.

Eu, como critico ferrenho da oligarquia Sarney, opositor, sempre que sou chamado para representar minha instituição, UEMA, junto ao governado do Estado do Maranhão prontamente aceito, afinal, como educador é minha obrigação defender a educação desse estado e sobretudo a Universidade, órgão do qual faço parte.                  

Exemplo disso foi semana passada, quarta, quinta e sexta-feira, quando a convite do novo Secretário de Educação, Pedro Fernandes, na condição de observador da UEMA, estive durante três dias ouvindo os  problemas da Secretária. Aliás, vou fazer um elogio público a tal secretário.  

Quinto Secretário da pasta, o deputado federal Pedro Fernandes numa atitude louvável, honesta e transparente, convidou UEMA, UNIVIMA, SECTEC e FAPEMA para debater os problemas educacionais do Maranhão, mas não só. Teve a coragem de convidar professores da rede para um debate franco, honesto e transparente apresentando problemas e soluções para a questão educacional. Na semana que vem convocará pais de alunos e secretários municipais de educação.

Publicamente apontou as falhas do órgão, suas deficiências, fragilidades, carências, desafios, ouviu os professores, sindicato, adversários do sindicato dos professores, sem deixar de responder nenhuma das criticas, e, mostrou publicamente os gastos de tal órgão, as contas, os rombos, o orçamento, a aplicação errada em determinadas rubricas, como vai fazer para sanar e prometeu publicar tudo isso na internet. Mostrou quantos funcionários tem a Secretária, quantos faltam e prometeu fazer trabalhar todos que estão ociosos. Isso se chama transparência.

Isso Srº Prefeito podemos lhe cobrar. A partir de colocações feitas pelo Profº Wagner Cabral da Costa, do Departamento de História da UFMA, podemos argui-lo sobre a promessa de transparência nas contas públicas que até o presente não mostrou o rombo deixado pelo ex-prefeito João Castelo. Há perguntas que precisam ser respondidas, tais como: Por que o Socorrão está a míngua, qual o tamanho da divida? Quantos funcionários o ex-prefeito contratou? Quantos fornecedores foram pagos? Quais fornecedores não foram pagos? Por que não foram pagos? Existe alguma auditória em curso? O Srº pretende mostrar essas contas? Demitir funcionários fantasmas? Como pretende gastar o orçamento?

Prefeito Edivaldo Holanda Junior, faça isso urgentemente pois que senão a população esquecerá dos malefícios que o ex-prefeito cometeu e não haverá cobrança por tais atitudes. Mostrar como está de fato a prefeitura é seu dever e nosso direito, a prefeitura é da população. 

Louvo a atitude de campanha de arrecadação de recursos e alimentos para o hospital Socorrão, mas gostaria que o Srº mostrasse como as coisas evoluíram a tal ponto.

 PS: Para quem não sabe, não mora em São Luis ou no Brasil, nosso principal hospital de atendimento emergencial teve que ser socorrido pela população local. Parece absurdo, surrealismo, mas é a pura verdade.                   

sábado, 12 de janeiro de 2013

Tudo é uma parte do todo


Para José, Mari e Andrés

O exercício de cronicar é o do olhar. Em italiano Cronaca. A Crônica é uma rapsódia, uma desventura da marcação, da pontuação de uma impressão ou de várias. Em italiano se diz cronaca para se diferenciar de crônica, em estado crônico, grave. A atividade da crônica é um estado crônico, terminal em olhar os lugares como textos. 

Em tudo o cronista olha um texto. Ao desembarcar em Caracas, subi num micro-ônibus da década de 70, todo acolchoado, reformado várias vezes, luzes internas verdes, som alto, malas entulhadas em todos os lugares, gente feliz, hospitaleira e o fundo musical de Michael Jackson. Melhor recepção impossível. 

À medida que o micro-ônibus subia a serra que separa o aeroporto da cidade de Caracas, vi as favelas, as gentes nas ruas, os carros antigos, as placas da revolução bolivariana, fotos de Hugo Chávez e embora não tenha tocado, tal cenário era compatível com a música de Michael Jackson: They Don't Care About Us, mas confesso que só me vinha à mente o grupo Calle13  - Latinoamerica, tal canção se adequava mais.

No outro dia ao andar lépido pelas ruas, vi uma frase poética: sólo los originales legan lejos. Todos os dias eu passava pelo mesmo lugar atinente às lindas venezuelanas com seus inconfundíveis e desejantes seios épicos turbinados – finalmente entendi por que a Venezuela possui tantas misses universo e o efeito que isso causou no imaginário feminino –, quando me dei conta de que tal frase não estava solta, fazia parte de uma campanha publicitária de peças de carro. Claro, somente as originais, as peças de carro, te levam mais longe. Para mim já pouco importava, já havia fixado a frase solta desprendida de seu sentido mercantil, do merchandising da loja de automóveis, enxerguei apenas o sentido poético. Percebi que o cronista lê o que o apraz.

Tanto assim, me chamaram atenção os inúmeros painéis nos muros da cidade sobre a história da Venezuela. Não conheço cidades que contam suas histórias nas paredes dos monumentos e casas, pelo menos daquela forma. Conta-se a vida das cidades sob outras formas e óticas, já que a história não é linear e existem múltiplas temporalidades e não apenas a cronológica. Um painel me chamou a atenção: não está apenas pintado como também desenhado em alto relevo. Que rico!!!!! Como diriam os venezuelanos!!!.

As outras formas de leitura estão na compreensão da doçura, sensibilidade e solidariedade daquele povo. A Venezuela guarda um Q de latinoamericanidade misturada com sua influência caribenha. Aquele povo é altamente musical e por toda parte ouve-se sua sonoridade sinestésica, rica, multifacetada com seus ritmos de rumba, merengue, salsa, lambada, todas guardadas de afetividade romântica. 

Além de musicais são altamente espirituosos. Tive o prazer de assistir em Ávila, montanha de onde pode se ver a cidade de Caracas, a um povoado indígena entre o mar do Caribe e a capital venezuelana, o grande artista de circo, malabarista e palhaço, Ernesto Alves, com sua maestria, destreza em levar sorrisos a todos que, mesmo espantados pela retumbante beleza do lugar, preferiam prestar atenção nele, levando as gargalhadas a partir de situações hilárias do cotidiano. Na verdade, ele compôs a beleza do cenário.

Um cena fílmica guardo no translado entre Puerto La Cruz e Caracas. Também num micro-ônibus da década de 70, depois de 3 horas de viagem, ainda faltavam 2 até Caracas, paramos num restaurante de beira de estrada pequeno. Ao descer, cenas parecidas com as do interior do Brasil, muita gentileza, sorriso fácil, gente alegre e a musicalidade inconfundível. Já era noite. A música me soprou tão ardentemente pelos ouvidos, de uma forma tão sonora, tão latina e caribenhamente que preferiria não seguir viagem e quedar-me ali mesmo, pedir uma cerveja e saborear aquela cena. Guardei-a comigo. Tenho saudades. 

Mas saudade é uma palavra que só existe em português, foi difícil explicar para Marlyus o que aquela cena significava, a extensão e por que sentiria falta. 

Tudo bem, pois lunar é uma expressão que só existe em espanhol e se refere a lua cheia, luna llena, exatamente como naquela noite em que no meio da viagem, num lugar desconhecido, singelo, bonito, pequeno, numa parada de ônibus, ouvindo música venezuelana, ao olhar para a lua cheia eu entendi por que sentiria saudade, como agora estou. 

Assim como sinto saudades de José, Mari, Andrés, Jorge Palomo, Juan Berrizbeitia, Ingrid, Marlyus e a todos que deixavam seus afazeres para me levar educadamente a algum lugar, numa demonstração de solidariedade tão rara hoje em dia, isto quando não pagavam meus táxis, casos como os de Jorge e Juan. 

Assim, compreendi que tudo é uma parte do todo.                

















quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

Por que adiaram a posse de Hugo Chavez

Hoje, 10 de janeiro de 2013, constitucionalmente se daria a posse de um presidente eleito na Venezuela. Destarte, por conta do quadro de saúde do presidente, acertadamente a Suprema Corte decidiu adiar até segunda ordem tal ato, a despeito da constituição.

Ao contrário do Brasil em que o vice-presidente pode tomar posse em caso de vacância do cargo, na Venezuela é necessário a convocação de novas eleições presidenciais. Ai está o problema: o chavismo detém a maioria na Assembléia Nacional e o presidente desta casa, Diosdado Cabello, pertence ao partido do governo, é um chavista declarado.

Então, se a democracia foi desrespeitada a partir de sua constituição, por que o adiamento é uma decisão acertada? Por que a oposição é fraca? Não, para evitar maiores conflitos, o país está a beira de um colapso. Às vezes, é melhor o bom senso que o direito positivo.

A oposição constitui 40% da Assembléia Nacional Legislativa, apenas. O governo venceu em 20 dos 23 estados venezuelanos, os estados opositores são: Amazonas (Puerto Ayacucho), Lara (Barquisimeto) e Miranda (Los Teques).  Está no poder há 14 anos, controla todo o setor produtivo, é o maior empregador, possui uma ampla rede de assistência à população, tem o apoio de 55% dos venezuelanos, tem a confiança das forças armadas, de grupos radicais armados, e, em caso de convocação de novas eleições, doente, Hugo Chavez não poderia concorrer, logo, seu candidato, Nicolas Maduro, teria que enfrentar Henrique Capriles, principal adversário de Chavez.

Nas últimas eleições, vencidas por Chavez, exatamente quando ele descobriu o câncer, não pode parar a campanha eleitoral por medo de Capriles, a disputa foi acirrada. Resultado: a metástase do câncer de Chavez é em decorrência do adiamento da cirurgia. A vitória nas eleições pode resultar em sua morte.

Qual é o medo do chavismo e quem se opõe a tal regime? A igreja católica, a Globovision, o MUD (Mesa da unidade democrática), Henrique Capriles, setores médios, burguesia. Não é desprezível tal oposição. Nicolas Maduro não goza do carisma de Chavez, não é tão bom orador como ele e dificilmente venceria Capriles. 

O medo da direita e por isso a decisão da Suprema Corte, se dá em função de saber que, mesmo sendo essa sua grande chance de derrotar o chavismo, as consequências seriam desastrosas, derramamento de sangue. Os chavistas, que estão muito tempo no poder, sabem que em caso de derrota muitos avanços retroagiriam, seus cargos seriam tomados, haveria caça às bruxas e muita retaliação. Ademais, os chavistas são muito fanáticos, não aceitariam a derrota de Maduro. 

Então, a revolução proposta por Chavez não se implementou completamente? Primeiro, é preciso saber o que é revolução. Segundo Karl Marx, tal condição se dá quando há alternância de poder, ou seja, os setores dominados outrora passam a controlar as estruturas de mando, do aparato burocrático do estado, condição de dominação política e simbólica. 

Por exemplo: a revolução francesa foi uma revolução. Até 1789 os dois setores que controlavam a França eram o primeiro e segundo estados, Igreja católica e nobreza. Após a queda da Bastilha o terceiro setor, a camada pobre, assumiu o poder. Quando da instalação da Assembléia Nacional os mais radicais se sentavam a esquerda da direção da mesa, assim nasceu o conceito de esquerda, aqueles que defendem proposta mais ousadas e radicais.

Outros exemplos de revoluções: Bolivariana, na Venezuela, Mexicana, Russa, Cubana, etc. No Brasil em 1964 não houve revolução, e sim, golpe, haja vista que a direita permaneceu no poder, só que controlada  pelos militares. Aliás, o golpe foi militar-civil. 

E a Venezuelana de Chavez? Bem, ela se deu em parte, os pobres estão no poder, sobretudo Chavez, nascido paupérrimo, mas amplos setores sempre lhe ofereceram resistências, sobretudo a classe burguesa. Eu diria que a revolução, confusa, poderia se efetivar, mas o custo social, o preço, seria alto demais.  

Então, por que a decisão da Suprema Corte foi acertada? Para evitar maiores confrontos. Nicolas Maduro, provavelmente futuro presidente, tem uma árdua tarefa pela frente: estabelecer uma nova base de negociação com outros setores sociais, ou então, implementa de vez o socialismo, não existe outra possibilidade. 

Se Chavez estiver vivo será o último mandato dele, logo, terá que preparar seu sucessor, mas as bases do diálogo precisam mudar. Não existe uma terceira via na Venezuela, menos autoritária, mais democrática, nem populista, nem direitista? Existe sim, essa via chama-se Nicolas Maduro, ex-motorista de Chavez. 

A decisão do Supremo foi acertada porque adia o confronto, acalma os ânimos, arrefecem-se os ódios e dá tempo para que o Chavismo pense o que vai fazer. Maduro tem a capacidade de estabelecer novo diálogo, não é tão exaltado quanto Chavez e nem representa o fim do chavismo. O fim do chavismo teria que ser um processo, não uma ruptura, a sociedade venezuelana não está preparada para isso.