terça-feira, 30 de agosto de 2011

A Fisica Quântica e o desvelamento de um novo paradigma de pensamento

Desde o início do processo de humanização dos homens e das mulheres, nem sempre fomos humanos, que a luta pelo desvelamento do mundo, a criação de simbologias, mitos e ritos encampam uma espécie de descoberta do cosmos, do mundo, dos sistemas de compreensão da existência sobre a face da terra. Vieram depois as civilizações, a criação das cosmogonias, da astrologia, os pré-socráticos, os sábios, magos, as religiões, a filosofia, sacerdotes em várias culturas no intento de entender os significados das existências humanas.

As primeiras teorias interpretativas sobre a condição humana, a terra, tateavam em busca de algum sentido sobre o porquê da nossa existência. De onde viemos? Quem somos? Para onde vamos? Eram alguns dos inquietantes e insolúveis debates cerrando fileiras na tentativa de monopolização de qualquer resposta, por vezes antagonizando sociedades que se julgavam superioras às outras. Em nome da verdade instituem-se religiões que passaram a ser salvaguardas dos mistérios do mundo, da mesma forma que a ciência, nascida do iluminismo como decurso distorcido dos princípios socráticos, tornou-se tão dogmática quanto as religiões.

A terra não era mais quadrada, não era mais o centro do universo, Kepler descobrira o sistema de circulação sanguínea, Descartes existira porque pensara, Maquiavel desnudava a política, a modernidade dava cabo de desencantar o mundo. No dizer de Hannah Arendt: deixávamos de ser criaturas para sermos criadores de processos naturais. O Ocidente nunca mais seria o mesmo.

Veio o século XIX como desdobramento do iluminismo e prometeu via ciência a felicidade, o progresso pela razão, pelo menos na acepção do positivismo, foi o século do darwinismo social e biológico, do nascimento da história enquanto ciência, da antropologia e sociologia. Eram os tempos da Belle Époque e da esperança de que as trevas do “obscurantismo sensista” jamais retornariam, até as trincheiras da I Guerra entulharem de sangue!!!

Na virada do XIX para o XX acreditava-se que a Física newtoniana estava morta. Era uma ciência sem grandes perspectivas, pois não havia mais nada a ser dito sobre a matéria, até aparecer Heisenberg com sua formulação da mecânica matricial mostrando que os operados dependentes do espaço e estado quântico são independentes do tempo. Ele havia chegado a essa conclusão a partir de uma experiência de deslocamento de partículas, elétrons, que, de forma acelerada, surpreendentemente não saíam do Ponto A para o B, eles saltavam. Depois vieram Max Planck e Einstein e a física nunca mais seria a mesma. Na verdade, a história do pensamento....

Decorridos 100 anos daquela descoberta de Heisenberg, o mundo mudou muito: duas guerras, nazi-fascismo, contracultura, movimento beat, rock and roll, ditaduras militares e civis mundo afora, fome, miséria aumentando em escala vertiginosa, desigualdade social, aceleração do tempo, e uma dependência alucinógena da tecnologia. O que mudou pouco foi a nossa forma de conceber a vida, a relação com a matéria, o papel da razão, embora pululem sinais de que nossa concepção ocidental de existência esteja no limiar; crise das instituições políticas; da democracia; do papel do estado; etc., até da razão.

O que a Física Quântica pode oferecer de novo? Que fique claro que existe uma parte da Física Quântica que é física pura, ou seja, detém-se sobre os quantos de energia, portanto, não se apresenta como nenhuma novidade no plano do pensamento, nem é sua pretensão. No entanto, de uma forma nada cientifica, as teorias de Heisenberg, Max Planck, Einstein e outros foram apropriadas por vários ramos do pensamento correlacionando à ideia, baseada na pergunta sobre para onde teriam idos os elétrons ou porque eles dão saltos, de que teriam ido para o mundo paralelo, ou seja, iniciava-se uma série de especulações acerca da existência de outras formas de energia para além do núcleo do átomo. Foi a porta de entrada para o surgimento de uma nova neuropsicologia, afinal, o pensamento é feito de pulsões elétricas, para o surgimento da física do impensável, para a revisão da história do pensamento ocidental, para insurgência de autores como Fritjof Capra e sua nova compreensão científica dos sistemas vivos.

Em suma, parte de teorias como as de Fritjof Capra sustentam que o grande problema se concentra na forma como concebemos a vida, o pensamento, as relações sociais dicotomizando homem-natureza, desprezando a intuição, a sensibilidade, a espiritualidade, limitando a possibilidade de mudança da realidade a partir da força da evocação de energias boas e transformadoras. Em livros como Ponto de Mutação, Capra afirma que a história da humanidade poderia e pode ser outra se concebermos o real a partir de vários ângulos e perspectivas existenciais e que o sistema cartesiano não poderia ser a matriz e a base de nossa forma de concebermos o mundo. No fundo, o paradigma ocidental tolheu a capacidade ocular de enxergarmos outros mundos pela força da cultura. Quem vê é o olho ou a cultura? A cultura baseada em uma matriz meramente materialista minimizou a própria matéria e sua zona de intercessão com os mundos paralelos.

A experiência de Masaru Emoto com as moléculas da água parece-me que explana bem esse ponto de vista. Dentro de vários recipientes com água ele colocou frases distintas que evocam sentidos diferentes: de ódio até o amor e fotografou com uma câmara especial as moléculas. Dias depois ele retirou as frases colocadas nos recipientes e voltou a fotografar a composição molecular da água. Nos vasos onde estavam as frases: ódio, raiva, desgraça, as moléculas estavam disformes, descompactas e alteradas, onde estavam as frases positivas as moléculas estavam perfeitas e integras. O princípio era o seguinte: o corpo humano é composto de 70% de liquido e, se se evocam pensamentos negativos o tempo todo a força de tal premissa altera substancialmente a saúde, o estado mental e emocional das pessoas.

Se isso vale para o corpo humano, para os indivíduos, que dirá para as sociedades!!! Se o que constitui a história é a forma como homens e mulheres concebem as relações sociais, travam suas disputas, se veem e são vistos, não está na hora de mudarmos o paradigma referencial do pensamento?                        



sexta-feira, 26 de agosto de 2011

A literatura, a história e a infância


A literatura, a história e a infância.

Ontem, dia 25 de agosto, data em que se comemora o Dia do Soldado, ministrei uma palestra na cidade balneária de São José de Ribamar, que dista 19 km de São Luís, na escola Liceu Ribamarense, durante o festival de literatura daquela cidade, sobre literatura e história. Acostumado a ministrar palestras e conferências para um público acadêmico especializado, estava eu diante de uma plateia inusitada e ávida por saber o que aquele grandão de 1,83 m de altura, meio gorducho, tinha a dizer sobre esse tema. A plateia eram os alunos das escolas de ensino fundamental da cidade que tomavam por completo o pátio.

Desacostumado a falar numa linguagem mais acessível e de fácil entendimento, típico da vaidade acadêmica, me vi no desafio de tentar seduzir aqueles meninos e meninas que estavam sedentos pela história e pela literatura, e também pela possível relação entre esses dois conhecimentos. Comecei meio travado, super temeroso, com medo, receoso de ser reprovado por aqueles que poderiam ser meus alunos. Discussão teórica nem pensar; que fazer então? Como “soldado” em seu “dia” de missão, taquei um Monteiro Lobato com seu inconfundível Sítio do pica-pau amarelo e as circunstâncias que fizeram o escritor de Taubaté lançar mão das relações sociais de seu tempo na urdidura e confecção de sua obra. A barreira foi quebrada. Depois parti para análise de poemas e pedi que os alunos espontaneamente viessem à frente declamá-los e analisá-los. De cara, soltaram Gonçalves Dias com “Canção do Exílio”. Eu estava em casa.

À medida que a palestra, conversa seguia, comecei a pensar na capacidade que a literatura tem não só de nos transportar e imaginar outros mundos, sua imensa potência de vivificar a sensibilidade das pessoas, como também ao lado da história, de posicionar-nos no mundo, decodificarmos sentidos e tomarmos partido. Eu sou um historiador, foi ela que me deu régua e compasso, meço o mundo a partir das metrificações de Clio.

Foi inevitável não sentir raiva do meu estado, o Maranhão, miserável, pobre, oligárquico, que tantas vidas perdeu e desperdiçou no lamaçal da corrupção, da ingerência administrativa, na falta de compromisso, levando milhares de crianças, jovens e adultos a não terem oportunidade de, pelo saber, optarem por um vida melhor. Muitas dessas vidas dilaceradas pela pobreza jamais tiveram a oportunidade de conhecer um Monteiro Lobato, jamais sentaram num banco da escola, nunca foram incluídos na cognominada sociedade civil ou foram cidadãos, exatamente porque a possibilidade de perceberem seu estado de opressão e dominação lhes foi suprimida.   

Concomitantemente à raiva, me veio à profusa alegria quando começaram a me encher de perguntas, difíceis e espinhosas. – Quem foi o escritor no século XIX que mais publicou? ... [Isso lá é pergunta que se faça?? Risos...]. – Qual o poeta que mais te toca, te sensibiliza?  – Qual o escritor brasileiro de que mais gosta? – Por que poetas e escritores foram exilados durante a ditadura militar? – Qual o escritor maranhense é mais conhecido? Eu estava quase pedindo arrego!!!!... Levei-me pela emoção e comecei a falar de Dostoievski, Maiakovski, Malarmé, Baudelaire, Eça de Queiroz, Fernando Pessoa, Gonçalves Dias, Ferreira Gullar, Bandeira Tribuzi, Manuel Bandeira, Rachel de Queiroz, Carlos Drummond de Andrade, Nauro Machado e tantos outros. A emoção já havia contagiado aquele ambiente. Foi uma manhã inesquecível. Se eu pudesse, como escritor da vida, reescreveria a história do Maranhão para que eles soubessem que os autores de nossa história até o presente momento têm sido péssimos escritores, mas nutro o desejo de que esses meninos e meninas possam no futuro escrever uma nova história, no estado e na vida deles. 

A última pergunta me tocou profundamente. – Até quando pretende escrever?, perguntou Danilo. – Se depender de encontros como este, respondi, enquanto Deus me der força, vontade e saúde. Há muito para se contar e se recontar, meu caro!!!!

Agradeço do fundo do coração aos Danilos, Joãos, Paulos, Thyagos, Taynaras, Cecílias, Marias, todos os alunos, professores que os acompanhavam, a diretora da escola Liceu Ribamarense, professores de lá, funcionários, monitores, por me proporcionarem uma manhã de esperança. Saí renovado.

De lá, fui ver o mar, bem perto. A imagem dos alunos se confundiu com a grandeza do mar de Ribamar, acima do mar e de qualquer auguro dessa vida às vezes antipoética. Mas tudo se renova!!!    













segunda-feira, 22 de agosto de 2011

São Luis 400 anos são outros quinhões

É sempre assim quando se aproxima uma data festiva: ufanismo, exacerbações, exaltações, exageros, por vezes utilizando-se da história, afinal, como diria Le Goff: "tornar-se senhor da memória é ser dono da história". O francês Le Goff não conhece a "francesa São Luis", mas se por aqui passasse concordaria que por detrás das festividades dos 400 anos da cidade escondem-se outras vozes, outros olhares e abunda uma falta de criticidade em torno da festa.

Não vou aqui enumerar os infindáveis epítetos de São Luis: Athenas Brasileira, Manchester do Norte, Petit Paris, Ilha dos amores, Ilha Rebelde, Jamaica Brasileira, vixe, já enumerei, e suas idiossincrasias, mas confesso que até a festa dos 300 anos comemorada em 1912 foi mais coerente do que as dos 400 anos por uma simples razão: a ideia de uma cidade com e suas configurações no inicio do século XX estava bem mais delimitada que a atual São Luis. Não estou propondo uma visão monolítica da cidade, as cidades são múltiplas, por vezes invisíveis, já dizia Italo Calvino, mas a  profusão de não-sentido atualmente em São Luis é no minimo emblemático.

Na antiga ilha Rebelde Roseana ganha para governadora, o ex-governador biônico João Castelo vence para prefeito, a cidade é suja, cheia de buraco, feiras horríveis, violenta, mas orgulha-se de ter o maior percentual de carros novos dentre todas as capitais. Não somos grande, mas temos os mesmos problemas de grandes cidades, vide os engarrafamentos, não temos parque, jardim botânico, shows gratuitos, jardinagem, canteiros decentes, transporte público que preste, temos cartel nos combustíveis, custa de vida altíssimo, especulação imobiliária de saltar os olhos, mas nos orgulhamos de ser uma ilha cercada de condomínios fechados por todos os lados. Aqui nessa quatrocentona cidade os carros circulam pelas praias, as pessoas jogam lixo dos carros, coloca-se som automotivo em lugares públicos, não há arborização, pouco saneamento básico, a Praia Grande morre à míngua, os novos ricos se orgulham do que existe do outro lado da ponte. É uma ilha, mas não há sequer uma volta de barco, transporte marítimo só se for para Alcantara, o aeroporto é uma vergonha, mesmo antes de ter caído o teto [ o Japão reconstruiu um aeroporto em 30 dias, aqui....]

Mas o maior problema é a disputa entre as elites econômicas e a concepção de cidade encetada pela população. A população, o povo ludovicense, sempre fez dessa cidade uma urbe cuja vida palpitava em cada canto, onde ouvia-se os sons dos tambores, aliás, parafraseando Josué Montello: "São Luis é uma cidade que dorme aos sons dos tambores", hoje não pode mais, a elite econômica precisa dormir cedo e faz de tudo para transformá-la numa cidade como outra qualquer negligenciando a principal riqueza: a característica cultural de seu povo, seu passado indígena, africano e lusitano com todas as suas nuances.

A diferença de São Luis não está na Lagoa, peninsula da Ponta D'areia, Litorânea e alhures, isso tem em qualquer cidade de médio e grande porte, mas na sua raiz cujos traços são extremamente peculiares. Um dos meus problemas com a festa dos 400 anos, além de seu caráter panfletário, é a omissão dos históricos dos conflitos que se travaram nessa cidade e quais projetos políticos de poder sobre a identidade prevalecentes, olvidando outros bem mais interessantes que estes que se apresentam hoje.

Deem uma circulada pela periferia!!!! Vejam a extrema miséria, pobreza, violência que nos circunda, quais são os projetos de transformação disso na festa dos 400 anos? Não temos uma universidade municipal, uma escola municipal de referencia, hospital, o socorrão, coitado, faz o que pode, estádio de futebol decente, nem mesmo biblioteca. Os donos do poder conseguiram a proeza de acabar com a segunda biblioteca mais antiga do país, data de 1829 seu funcionamento efetivo, embora sua fundação é bem anterior. As fontes de água são um lixo literalmente: do ribeirão, esgoto, sujeira e gente banhando, a das pedras está escondida atrás daquela bagunça daquele setor, e as outras... bem.. vocês sabiam que São Luis já teve 25 fontes de água no centro da cidade e que os chafarizes eram belíssimos? Afora os rios, eram 15, hoje......

Se é para comemorar os 400 anos ou 397 da cidade, coloquemos na pauta do dia os problemas existentes e as soluções para que para os próximos 400 sejam bem melhores para o seu povo que estes até aqui...

Eu não vou soprar as velinhas!!!                                

terça-feira, 16 de agosto de 2011

O jeito Dilma de trumbicar

Quando a então ministra da Casa Civil apontava como possível sucessora de Lula, setores do fragmentadíssimo Partido dos Trabalhadores em suas tantas correntes, torceu o nariz por não ser ela uma "petista histórica", e ter "passado" a frente de tantas presidenciáveis que almejavam sentar na cadeira de presidente do Palácio do Planalto. O jeito "durão" da presidenciável Dilma, herança da militância de esquerda e do radicalismo dos movimentos revolucionários, por um lado apontava a possibilidade de resgaste de um PT desgastado pela busca insana pelo poder e pelo abandono de velhas bandeiras, como a ética na política, que o bom e velho Lula não enxergava em alguns dos seus colegas correligionários. Sob essa ótica Dilma representava uma mudança, uma novidade no jeito petista de governar, já desgastado por escândalos, como o Mensalão, o caso Celso Daniel, a morte suspeita e nunca revelada de Toninho do PT em Campinas, entre tantos outros.

Dilma inexoravelmente simbolizava uma tática, uma possibilidade de "resgaste" da alma do Lula, vendida ao diabo por ter como parceiro e articulador politico principal José Dirceu, rifado das lides políticas por ter enfrentado uma cobra pior do que ele, Roberto Jefferson. Há quem pense que a escolha de Dilma deveu-se somente pela proximidade entre Lula e ela, ledo engano. Dilma era a simbolização de que Lula tinha sido "traido" por antigos companheiros que enlamearam-se de corrupção, a companheira Dilma não se permitiria isso.

Quando agora assiste-se pela televisão os sucessivos casos de demissão de Ministros, assessores, etc, às vezes de forma quase sumária, exceto Palocci, minando a base do governo, criando um problema político entre o PT e a base aliada, entre o Palácio do Planalto e o congresso, há quem pense no quanto o jeito Dilma de trumbicar é diferente da parcimônia, conivência de Lula com a corrupção. Devagar com a dor, não há tanta diferença assim.

As diferenças ficam por conta da falta de carisma de Dilma, ao contrário de Lula, da falta de articulação e capacidade de negociação dela, por vezes recorrendo ao velho barbudo para composição política, do momento econômico e político que o país vive, mas as diferenças não passam disso. Dilma está fazendo o que Lula em parte gostaria de fazer se não estourasse o escândalo do mensalão que quase lhe custou a presidência,  portanto, não restava a Lula outra coisa senão negociar, negociar, negociar e vender a alma ao oligarca Sarney, dono de parte considerável do PMDB e fiel da balança na tal governabilidade.

Ao mostrar uma suposta austeridade Dilma nesses primeiros 8 meses de mandato tentar evidenciar uma característica dística de Lula, conotando que não é tutelada pelo seu mestre e que irá impor moralidade na máquina pública. No entanto, nas ações de demissões quase sumárias dos casos de corrupção do governo há uma estratégia política por detrás disso. Ela tenta denotar que se faz isso, faz por que tem respaldo ao assumir o cargo deixado por um presidente que deixou a presidência com 80% de aprovação, faz porque assim é supostamente a forma petista de governar, ambicionando a perpetuação do projeto de poder desse partido para 40 anos, faz por que assim prepara terreno para um suposta retorno de Lula, desobrigado da função que remediar situação esdrúxulas, ou, cria lastro para se legitimar como candidata à reeleição.

Qualquer que seja o motivo das demissões quase sumárias o que se esconde é uma estratégia de alijamento de parte da base aliada do governo, ávida por cargo e que no governo Dilma está claro que não goza das mesmas condições que no governo anterior, portanto, nesse aspecto, não há diferença entre Dilma e Lula, Dilma está fazendo o que Lula gostaria de ter feito mas não pode, apesar de sua imensa popularidade. Tanto para Lula quanto para Dilma o que está em xeque é o projeto de poder do PT... foi por isso que Lula a escolheu...

Quer seriedade da máquina pública? Diminui a quantidade de cargos comissionados na estrutura de governo, muito deles ocupados por correligionários do PT, diminui a quantidade de ministérios, fiscaliza as obras da copa de 2014 sem a cretinice do caráter de urgência nas obras, cria critérios técnicos e não políticos para escolhas de determinados políticos... Quero ver!!   
         

domingo, 7 de agosto de 2011

Por uma ciência anti-produtivista

Meus Caros!

Acaba de ser publicado em francês o movimento chamado de Slow Sciencie, nos mesmos moldes dos movimentos slow food, slow city ou slow travel, todos contra a dinâmica do consumismo das relações sociais, das viagens, da cidade, da comida fast-food, que versam sobre a pressa, a velocidade e aceleração do tempo, a urgência de tudo como se tudo tivesse um tempo definido ou que não pudesse ser sorvido de outra forma.

Assinado por Joel Candau, escrito em 29 de outubro de 2010, mas só publicado em 17 de julho deste ano, o movimento trata do produtivismo academicista, dessa insanidade de tratar o pensamento e a produção cientifica como consumo de qualquer outra coisa. É claro que a alta tecnologia e a ciência de ponta de fato estão nas mãos do capital privado, as grandes pesquisas são financiadas por órgãos e empresas que despejam vultosos capitais para seus interesses, no entanto, o manifesto não trata apenas da questão do financiamento privado em ciência, mas do que aconteceu com o capital intelectual mesmo em universidades públicas em várias partes do mundo que se renderam à escala de produção cientifica aos moldes industriais.

Essa lógica de tratar os pesquisadores por um "ranqueamento" (vou aportuguesar a palavra) a partir dos seus currículos deita raízes no sistema de produção fordista e no modelo americano de produção cientifica. Isso reforça uma cultura do imediatismo, de produção de textos científicos que não dizem nada de novo, são meras repetições do que já foi dito e pesquisado, requentado em congressos que servem muitas das vezes como caça-certificados.

É impossível se publicar tanto com qualidade e ao mesmo tempo dizer coisas novas e significativas. A academia que servia como contraponto à sociedade de consumo, era um lugar de reflexão e resistência à falta de criticidade, agora se tornou um lugar de inserção ao mercado, uma porta de entrada, um cartão de visita para angariar empregos e melhores salários, todo em nome do bem estar pessoal.

Karl Marx já havia dito que tudo no capitalismo pode virar mercadoria, até o pensamento intelectual, pois ele virou. No Brasil mede-se a capacidade e a condição dos professores pelo Curriculo Lattes, ou seja, o lattes é o habitus, no sentido "bourdieniano", a regra de jogo introjetada para demarcar a posição dos pesquisadores dentro do campo cientifico, tudo avaliado e balizado pela toda poderosa CAPES.

Quer financiamento para projeto? Passagem para congressos? Recursos para publicação? Vejamos primeiro o lattes. Se você for bolsista produtividade ou se tiver artigos com qualis A1, A2, A3, tudo bem, senão....

A Pós-Graduação, por excelência, virou lugar de encenação máxima dessa competitividade. O Homus Lattes passa a ser controlado e auferido por uma escala de produção que necessariamente não diz respeito a qualidade do que ele faz, produz, escreve, mas sim, por sua condição de inserção na escala produtivista academicista.

Não estou propondo o fim de critérios de avaliação, nem da meritocracia, em algum nível elas devem existir, mas o processo de classificação baseado nessa escala produtiva não pode ser a única de definição do que é bom ou ruim, ou quem pode estar ou não, contribuir ou não para o desenvolvimento da ciência e do pensamento. E mais, as universidades, quer dizer, os professores, alunos, etc, não podem perder de vista o perigo dessa lógica produtivista, encarar como se fosse um processo de seleção natural das espécies, no caso, os cientistas.

A explicação para isso, além é claro da interconexão entre capital financeiro e intelectual, para mim está relacionado ao fato de alguns professores que assumem lugares de mando e de definições em estancias de legitimação, como agencias de fomento, por exemplo, ao assumirem determinados cargos, envaidecem com a possibilidade do poder real e simbólico ao decidirem a vida de outras pessoas, no caso, seus pares, além de serem oriundos de extratos de classe média e baixa e vêem na escala e hierarquia acadêmica uma estancia de representação de poder social que no fundo gostariam de exercer na vida pública.

Que fique bem claro que aqui não assumo uma posição de outsider, estou enfiado até a jaca na vida acadêmica; sou professor de um mestrado e coordenador operacional de um doutorado interinstitucional, ambos financiado pela CAPES, mas isso não quer dizer que defendo a falta de criticidade a essa lógica produtivista. Participo da vida acadêmica, mesmo burocraticamente, pois acredito que seja um lugar de reflexão.

O movimento slow science propõe a redução e diminuição dos critérios de avaliação, a diminuição do número de projetos de pesquisa, muitos dos quais não dizem nada, a redução do número de publicação sem sentido. Publique-se com qualidade, tudo em nome do tempo que temos e que deveria ser aproveitado com mais qualidade.

O Brasil mais que quadruplicou o numero de doutores nos últimos 5 anos. Pergunto: quantas teses de fato são teses? Qual a lógica da aceleração da formação profissional acadêmica? Vem ai proposta de se acabar com mestrado, ou emendar com a graduação, retirar a pesquisa do mestrado e considerar apenas o trabalho de pesquisa bibliográfica, entre outras coisas.... Em algumas universidades já não existe mais monografia e o nível dos alunos só piora ano após ano...

Por essas e outras defendo o movimento slow science. Não se trata de se acabar com a pesquisa, com a pós-graduação, com critérios e méritos, mas com a lógica do produtivismo em escala industrial do pensamento, afinal, para que essa pressa toda mesmo??????

                                  

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

O poder da comunicabilidade em ambiente virtual

Sempre fui contra as redes sociais virtuais. Nunca gostei do caráter invasivo da privacidade dos seus usuários - uma negação da construção da individualidade, da privacidade dos novos sujeitos atrelados ao nascimento da modernidade, coadnuda pelo afloramento do estado, do direito e da condição jurídica moderna. Espaços como Orkut, face's e congeneres, permitem uma vigilância dos comportamentos e ações no sentido da máquina panóptica explorada por Foucault. Além do caráter do simulacro dos não-lugares, como chat's, por exemplo, que, em tese, aproximam as pessoas em várias partes do mundo, ao mesmo tempo em que as distanciam pela possibilidade de dissimulação da identidade, acentuada pela ausência física, sem falar da procura por "amores líquidos", para usar uma expressão de Bauman, colocando todos ou quase todos usuários desse instrumento como simulacros de si mesmos.  

Há, além dessas questões, outros problemas como as novas sociabilidades encetadas pela ferramenta virtual; o apego à necessidade da velocidade do cyber espaço que nos lança numa atmosfera de consumação da tecnologia, das novidades desse instrumento, da insurgência de novos meneios da internet, da sensação de que a vida sem ela é impraticável, tornando inelutável qualquer possibilidade de resistência, do surgimento de novas linguagens afetando inclusive as línguas formais, do processo de exclusão social e digital de quem não usa ou domina esse instrumento, da aceleração do tempo e da história, da perda da memória, até a banalização do próprio espaço, perdendo de vista seu caráter revolucionário, inquietante do ponto de vista das múltiplas possibilidades de transformação social via informação e, sobretudo, da questão por vezes despolitizante da internet e dos interesses colocados por detrás dela.

Os "donos da web" preparam um instrumento de controle do conteúdo e uso, alegando supostos abusos cometidos nela. Ou seja, a internet que serviu e serve de propaganda consumista das grandes marcas é também usada para protestar contra as próprias grandes marcas, além do caráter político, vide os acontecimentos no Egito, Síria e alhures que assustam os donos do poder.

Mas a questão mesmo é que a internet escapa da forma de controle de mecanismos de comunicação como a televisão, a imprensa, ainda que o formato futuro da web integre todos os tipos de comunicabilidade. E nisso vejo grandes problemas: grandes conglomerados controlando a integração dos grandes meios de comunicação. Para isso o movimento cyberpunk já prepara uma nova plataforma fora de qualquer controle, nos mesmos moldes de quando surgiu o Linux antagonizando a poderosa Microsoft.

Então, porque resolvi aderir ao facebook e ao blog? As primeiras criticas e os primeiros questionamentos vieram dos meus alunos. Como pode um professor de Teorias da História, de História Moderna, que ministra cursos como História e Pós-modernidade, História e cinema, por exemplo, ser tão reticente à essas ferramentas? O sinal amarelo acendeu. Comecei a perceber que corria o sério risco de não mais me comunicar com os meus alunos. Que poderia inclusive falar de coisas que eles não queriam ouvir, ou de estabelecer uma relação de não dialogicidade com eles. Percebi também que eles são mais imagéticos do que eu, possuem múltiplas habilidades, fazem coisas ao mesmo tempo, dominam ferramentas das quais tenho muita dificuldade e que portanto, estamos efetivamente em uma nova etapa, história das relações interpessoais e que, longe de ficar retinente ou resistente a isso, preciso entender como se dá esse novo processo.  

Assim surgiu o blog VERSURA, um conceito utilizado pelos escritores Giorgio Agambem e Alberto Pucheu Neto, de quem tomo emprestado tal acepção, que significa o desdobramento da palavra, suas voltas e meneios, tudo a serviço da livre reflexão e do pensar, não apenas poético, sentido utilizado por Agambem.

Esse blog não é específico sobre algum tema, é livre para se discutir Filosofia, História, Artes, Política, Antropologia, Sociologia, Cinema, Literatura, Cultura, Religião, Espiritualidade. Gostaria que fosse um espaço de ilação, de fruição, poético, energético, vibrante.

Dessa feita, não me rendi às redes sociais virtuais, fui convencido, porque há aqui também espaço para a contraposição, para o embate, para a crítica, protesto, utilizando tal ferramenta em um sentido ideológico, concepção tão démodé nos dias de hoje.

Nem tudo são flores no espaço virtual: da falta de acesso a universalização da internet ao uso político como instrumento de dominação, ainda não sabemos ao certo o quanto poderoso e de potencial tem para ser explorado. Na verdade alguns já sabem e fazem isso e usam muito bem.

Espero que os usuários desse blog. Façam bom proveito.