segunda-feira, 22 de agosto de 2011

São Luis 400 anos são outros quinhões

É sempre assim quando se aproxima uma data festiva: ufanismo, exacerbações, exaltações, exageros, por vezes utilizando-se da história, afinal, como diria Le Goff: "tornar-se senhor da memória é ser dono da história". O francês Le Goff não conhece a "francesa São Luis", mas se por aqui passasse concordaria que por detrás das festividades dos 400 anos da cidade escondem-se outras vozes, outros olhares e abunda uma falta de criticidade em torno da festa.

Não vou aqui enumerar os infindáveis epítetos de São Luis: Athenas Brasileira, Manchester do Norte, Petit Paris, Ilha dos amores, Ilha Rebelde, Jamaica Brasileira, vixe, já enumerei, e suas idiossincrasias, mas confesso que até a festa dos 300 anos comemorada em 1912 foi mais coerente do que as dos 400 anos por uma simples razão: a ideia de uma cidade com e suas configurações no inicio do século XX estava bem mais delimitada que a atual São Luis. Não estou propondo uma visão monolítica da cidade, as cidades são múltiplas, por vezes invisíveis, já dizia Italo Calvino, mas a  profusão de não-sentido atualmente em São Luis é no minimo emblemático.

Na antiga ilha Rebelde Roseana ganha para governadora, o ex-governador biônico João Castelo vence para prefeito, a cidade é suja, cheia de buraco, feiras horríveis, violenta, mas orgulha-se de ter o maior percentual de carros novos dentre todas as capitais. Não somos grande, mas temos os mesmos problemas de grandes cidades, vide os engarrafamentos, não temos parque, jardim botânico, shows gratuitos, jardinagem, canteiros decentes, transporte público que preste, temos cartel nos combustíveis, custa de vida altíssimo, especulação imobiliária de saltar os olhos, mas nos orgulhamos de ser uma ilha cercada de condomínios fechados por todos os lados. Aqui nessa quatrocentona cidade os carros circulam pelas praias, as pessoas jogam lixo dos carros, coloca-se som automotivo em lugares públicos, não há arborização, pouco saneamento básico, a Praia Grande morre à míngua, os novos ricos se orgulham do que existe do outro lado da ponte. É uma ilha, mas não há sequer uma volta de barco, transporte marítimo só se for para Alcantara, o aeroporto é uma vergonha, mesmo antes de ter caído o teto [ o Japão reconstruiu um aeroporto em 30 dias, aqui....]

Mas o maior problema é a disputa entre as elites econômicas e a concepção de cidade encetada pela população. A população, o povo ludovicense, sempre fez dessa cidade uma urbe cuja vida palpitava em cada canto, onde ouvia-se os sons dos tambores, aliás, parafraseando Josué Montello: "São Luis é uma cidade que dorme aos sons dos tambores", hoje não pode mais, a elite econômica precisa dormir cedo e faz de tudo para transformá-la numa cidade como outra qualquer negligenciando a principal riqueza: a característica cultural de seu povo, seu passado indígena, africano e lusitano com todas as suas nuances.

A diferença de São Luis não está na Lagoa, peninsula da Ponta D'areia, Litorânea e alhures, isso tem em qualquer cidade de médio e grande porte, mas na sua raiz cujos traços são extremamente peculiares. Um dos meus problemas com a festa dos 400 anos, além de seu caráter panfletário, é a omissão dos históricos dos conflitos que se travaram nessa cidade e quais projetos políticos de poder sobre a identidade prevalecentes, olvidando outros bem mais interessantes que estes que se apresentam hoje.

Deem uma circulada pela periferia!!!! Vejam a extrema miséria, pobreza, violência que nos circunda, quais são os projetos de transformação disso na festa dos 400 anos? Não temos uma universidade municipal, uma escola municipal de referencia, hospital, o socorrão, coitado, faz o que pode, estádio de futebol decente, nem mesmo biblioteca. Os donos do poder conseguiram a proeza de acabar com a segunda biblioteca mais antiga do país, data de 1829 seu funcionamento efetivo, embora sua fundação é bem anterior. As fontes de água são um lixo literalmente: do ribeirão, esgoto, sujeira e gente banhando, a das pedras está escondida atrás daquela bagunça daquele setor, e as outras... bem.. vocês sabiam que São Luis já teve 25 fontes de água no centro da cidade e que os chafarizes eram belíssimos? Afora os rios, eram 15, hoje......

Se é para comemorar os 400 anos ou 397 da cidade, coloquemos na pauta do dia os problemas existentes e as soluções para que para os próximos 400 sejam bem melhores para o seu povo que estes até aqui...

Eu não vou soprar as velinhas!!!                                

6 comentários:

  1. São Luís comemora seu aniversário, e nós sempre nos vestindo de palhaços!!
    Parece que é a sina do cidadão brasileiro...

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  2. são luis tem se tornado pra mim uma cidade imaginária. Com mais de tres anos longe da minha querida ilha não restará com o passar do tempo nada além de saudades e o pesar pelas gerações futuras que conhecerão uma cidade tão diferente daquela que queriamos construir.

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  3. ai Henrique seu post está coberto de razao, é a mais pura constatacao do q a vista está enxergando, o sentimento é de penúria por Sao Luís, veja esse outro post q ilustra muito bem as suas palavras http://cidadeideia.com.br/2010/02/17/cidades-e-ideias/

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  4. Maravilha de texto. Além de exclamar nos faz pensar. O Aeroporto! O aeroporto é um lugar de partida em São Luís. Quem volta parece que “não quer chegar”. Quem vai embora nutre uma pequena esperança de nunca mais retornar. O mesmo aeroporto que perdeu o título de Internacional, já no desembarque demonstra que perdeu o título de aeroporto. Temos, pois uma pista clandestina! O aeroporto não é a maior referencia, mas é uma fotografia verossímil da cidade. Não é solução ir embora, mas este desejo oculto que aflora em segredo é o medo da decadência dos sonhos, de não chegarmos a ser aquilo que a gente sonhou que seria quando crescesse. Em qualquer lugar do mundo alguns sonhos não se realizam, mas aqui parece que há uma força que nos tira as tentativas, como um pesadelo que não quer que a gente acorde para que ele não fique sozinho. Em São Luís “a felicidade” parece sempre estar em outro lugar. Lá fora somos estrangeiros, cá dentro somos clandestinos. De quem é esta cidade que não nos pertence? Onde está a festa mesmo?

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  5. Deus me livra de odiar São Luís, mas não O diabo não me deixa morrer de amor por ela! Pode ser que seja extremamente necessário sair para retornar e ir Embora um ato duplo de covardia. Um por não suportar mais a alegoria de cidade cheia, vazia. O outro por depositar noutro lugar um sentido que ancore. Penso que quando “não queremos” viver mais em São Luís é porque não suportamos mais viver nela, sem ela. Sei quem é São Luís não! A pesar de tudo, há algo que faz bem, que beija e sai correndo e vai embora, que encosta na parede, na memória, no cheiro e gosto de ilha, seja lá ilha o que ilha for. Mas parece o apartamento aconchegante com todas as coisas que são nossas, mas que não podemos entrar. Seria interessante se isto não nos condenasse a sempre estar “na rua”. Às vezes, nesta cidade, parece que não foi desta vez nesta vida. Embora respeite muitíssimo a cidade, ela faz questão de não ser recíproca. Mas quando tudo quer estar fechado, a gente dá um jeito de comprar roupa na Mesbla e chocolate na Lobras. A gente só faz parte dela sem fazer. Há um pertencimento e não há como pertencer, sem nenhuma contradição. A noite, o São João, o céu, o Carnaval, o luar, só iluminam isto na ausência, na distância, na saudade.

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  6. postado por Felipe de Holanda

    Veio: entrei no www.Versura.blog.henricão.viche

    Vc tem escrito coisas bem legais. Quis colaborar com uma coluna sua, aquela sobre os 400 anos, mas não consegui estabelecer um perfil para adicionar o texto (não sei qual a minha URL...?).

    Anyway, o textículo que fiz foi o seguinte:


    Soprar velinhas pela efeméride dos 400 anos da cidade de São Luís, acho que sim. Mas com cuidado, sem muito alarido, que nossa cidade está doente:

    Padece a antiga urbe sob o peso das antigas mazelas: da precariedade das habitações dos mais pobres, da constante falta de água; da ausência de saneamento na maior parte dos bairros; do lixo a céu aberto; da insuficiência do sistema de transportes públicos; da violência, do racismo e da cultura de privilégios e mandonismo que se encontra incorporada à linguagem cotidiana;

    padece a antiga urbe das novas mazelas: da violência crescente (já entre as cinco capitais com mais homicídios por habitante no país); dos crescentes congestionamentos, derivados não do crescimento do no absoluto de veículos, mas da insuficiência do Planejamento, esmagado sob o curto-prazismo eleitoreiro e relacionado aos interesses imobiliários, do sutil mecanismo de aprisionamento financeiro dos novos proprietários dos caríssimos imóveis financiados na cidade; de nossas praias todas impróprias para o banho, da explosão do crack, da feminização do tráfico e das prisões.

    Um dado interessante, extraído da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios - Pnad (2009) e do sistema RAIS-CAGED (Ministério do Trabalho e Emprego - MTE:

    Em 2009, cerca de 52% da População em Idade Ativa no Estado do Maranhão não tinham o fundamental completo. Os dados do Censo Demográfico relativos a SLZ tem previsão de divulgação em novembro de 2012.

    No mesmo ano 88,6% dos empregos formais criados no município se São Luís (descontados os desligamentos) requeriam nível médio completo + superior incompleto (80,7%) ou Superior completo e acima (7,9%). E a galega com o fundamental incompleto!? Como é que está se virando!? Como é que vai ser quando as cotações das commodities minerais no mercado internacional desinflarem, assim como as perspectivas do mercado imobiliário na capital!?

    São séculos de exclusão, sendo reconfigurados por novos e mais sutis mecanismos de exclusão.

    Parabéns, urbe. shiiiit! Silêncio, a cidade está doente...

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