terça-feira, 29 de maio de 2012

1ª Marcha das vadias em São Luis

Aconteceu ontem, dia 26 de maio, na avenida Litorânea, a primeira versão da marcha das vadias em São Luis, acontecimento que surgiu no Canadá após sucessivos casos de estupros, outros tipos de violência física e simbólica, que mulheres foram submetidas sob a alegação de que, as roupas que usavam eram o mote justificador para qualquer tipo de agressão. Ou seja, ao se vestirem como "vadias", estavam sim alimentando a sana, a verve, o paladino agressivo dos homens, autorizados a desrespeitaram as mulheres sob tal pretexto. 

A marcha, que foi um sucesso, contou com a participação de várias entidades de classes, partidos políticos, ong's, movimentos sociais e políticos, imprensa, estudantes, intelectuais, e, claro, muitas mulheres e homens, "vestidos" a caráter, panfletando na avenida, discursando em carro de som, chamando a atenção dos transeuntes. 

Fiquei me quedando pasmo como em pleno século XXI ainda é necessário fazer uma manifestação política para que as condições subjetivas e objetivas das mulheres sejam minimante respeitadas, e isso porque considero "respeito" tão somente a condição sine-qua-non para qualquer perspectiva de convivência social, respeito é concessão, o que almejo é alteridade, se colocar na condição do outro.  

Como historiador não consigo refletir sem analisar o processo histórico que culminou na criminalização do comportamento feminino. E isso nasceu na supremacia física dos homens, depois econômica. Eu explico. Frederich Engels, parceiro de Karl Marx, explica em "O nascimento do Estado" como nas primeiras civilizações, Acadiana e Sumeriana, 6.000 anos a.c, a partir do desenvolvimento das técnicas agrícolas, a produtividade deixou de ser distribuída equitativamente para ser apropriada pelos homens mais fortes de tais sociedades, exatamente pelo fato de que o desenvolvimento técnico gerou o excedente agrícola, que foi apropriado pela força, exatamente pelos homens. Estavam criadas as condições para o surgimento do direito, da propriedade privada, do exército, do estado. Segundo Karl Marx, o estado nasceu para garantir a propriedade privada, o exército para garantir tal usurpação.

Com a supremacia da força física, agora institucionalizada no estado, nascera também a condição de gênero em considerar a mulher inferior, vide que elas estavam excluídas pela força dos rumos das sociedades nascentes. Coube a mulher o papel de esposa, mãe, sua primeira profissão, a segunda foi ser puta, prostituta, a outra, já que alijada dos rumos econômicos da sociedade, quando não escolhida para casar, não havia outro papel a não ser puta. E isso foi se corporificando à medida que o numero demográfico de mulheres acrescia o dos homens, ou seja, por uma questão de demanda, quando a oferta de mulheres sobrepujou dos homens, o olhar sobre elas também mudou, vide que, em tempos de quantidade efetiva de homens acima de mulheres, eles eram obrigados a se adornarem, usando brincos, colares, tudo para chamarem a atenção de possíveis pretendentes para esposas, eram elas que escolhiam seus parceiros. Quem primeiro usou brincos foram os homens. 

As sociedades africanas, sub-sarianas, pré-colonização européia, eram comandadas pelas mulheres, matriarcais. Como os homens ocupavam-se demais com as guerras, cabia às mulheres o papel da economia doméstica, da criação dos filhos, tal como a condição de escolha do futuro rei, pois como não existia teste de DNA e havia a poligamia, era impossível determinar a paternidade do futuro líder, mas a barriga da mãe era o único critério de escolha. A poligamia era tanta masculina quanto feminina, esse processo só se inverteu com a islamização da África; a poligamia feminina passou a ser criminalizada, ademais, no islamismo o homem pode ter várias mulheres, desde que sustente todas com as mesmas condições, de novo o elemento econômico como fator de diferenciação social.  

Um exemplo claro da condição econômica enquanto diferencial social foi a da Grécia clássica. Nesta sociedade, mulheres, estrangeiros, pobres, sequer eram cidadãos. Como diria Chico Buarque em "Mulheres de Atenas": Mirem-se no exemplo daquelas mulheres de Atenas/geram pros seus maridos orgulho e raça de Atenas. Às mulheres cabia o papel de gerarem guerreiros para o estado. 

Na sociedade européia medieval, em virtude de uma leitura enviesada, machista e equivocada da Bíblia, a mulher foi considerada a responsável pelo pecado original, logo, pela perdição, associada à astúcia, maledicência, à sedução, tudo porque a tradição católica tomou a passagem do gênesis ao pé da letra quando Deus condenou a mulher por ter incentivado Adão a comer da maça, além é claro, do equívoco de tomar a criação do homem, e da mulher pela costela de Adão de forma mais que deturpada. Pronto. As condições de demonização da condição feminina estavam criadas, por isso as que se envolviam com alquimia foram consideradas bruxas e queimadas na fogueira, além de tantas outras assassinadas sob a acusação de serem lascivas, perniciosas, más, sedutoras. Os homens nunca conseguiram lidar com a sedução feminina, sempre lhe causou torpor e perplexidade. 

No entanto, a posição da igreja católica era dúbia, posto que até o século XIII o prostíbulo ficava ao lado da igreja, exatamente. Como o sexo era apenas para procriação, não era permitido aos homens "usarem" dos corpos femininos para outra prática que não o da procriação, então, estava liberado com a prostituta sob os auspícios da santa igreja a prática sexual dos homens após a missa como forma de extravasar seu libido sexual. Depois do século XIII a igreja católica baniu os prostíbulos para os arredores das cidades medievais. 

Na idade moderna, os corpos já domesticados, chegou-se ao ponto de filósofos como Montesquieu, dentre  outros, defenderem a condição inferior das mulheres. O ápice da "subjugação feminina" eram as festas de debutantes. De branco, quer dizer, virgens e castas, aos 15 anos, as meninas eram exibidas num baile de gala a corte, leia-se, aos supostos pretendentes verem suas pretensas esposas. As festas de debutantes eram uma exposição, uma oferta para futuros casamentos. Quem não se casava até os 25 anos virava freira ou encarregava-se de cuidar dos pais. 

Somente no século XX as mulheres ocuparam postos de trabalho, após o terrível massacre de Boston que resultou no dia internacional da mulher. Foi também nesse século que passaram a votar, serem eleitas, queimaram os sutiãs, usaram pilulas anti-concepcionais, passaram a fazer sexo livre, se divorciaram, passaram a serem arrimos de famílias.   

Então por que persistem práticas de violência contra as mulheres, por que chamá-las de vadias, só porque usam roupas decotadas? Somente pela permanência do machismo? Não, porque machismo não é uma condição de gênero, é uma prática cultural exercida por homens e mulheres. Há vários condicionantes para a perpetuação da violência contra mulher, alguns apontados aqui, mas a novidade é que chamar mulheres de vadias em pleno século XXI está relacionado muito contemporaneamente à forma como as mulheres passaram a exercer práticas masculinas, ou seja, quando um homem chama uma mulher de vadia, subrepticiamente está dizendo: "não queira ser como nós homens, teu lugar é de mulher". E quais práticas são essas que as mulheres passaram a praticar sem culpa? Trair fisicamente, transar sem amor, ficar na night, pegar, "dar para quem elas quiserem", trabalhar, consumir e não querer casar, viajarem sozinhas, saírem sozinhas, criarem filhos sozinhas, etc. A violência masculina é uma incapacidade de lidar com essa nova mulher que assume abertamente seus desejos. A verdade é que os homens passaram a assumir comportamentos femininos e estão assustados com esse novo quadro, estão atordoados, sem saber o que fazer, ficaram sensíveis, emotivos, apaixonados muito rapidamente. 

Ainda assim, marchas como as de ontem são necessárias porque os dados mostram que a cada 5 minutos uma mulher é assassinada no Brasil vitima de violência masculina. O Maranhão apresenta os piores dados quando o assunto é violência doméstica, ocupamos os lastimáveis quadros. 

Sonho com o dia em que marchas das vadias não sejam necessárias, que os homens entendam que as mulheres podem usarem seus corpos como quiserem, afinal, os corpos são as únicas coisas que efetivamente nos pertence. Até lá, é preciso ficar alerta e atento. 

Parabéns aos organizadores e aos que estiveram presentes. Foi uma linda manifestação, de verdade, vontade de mudança e esperança.   

segunda-feira, 21 de maio de 2012

cinema e psicanálise: um debate entre Freud e Yung a partir do filme "um método perigoso"

David Cronenberg, diretor de uma lista imensa de filmes antológicos como: ExistenZ, Scanner, Videodrome, dirigiu o excelente longa metragem: "Um método perigoso", 2011, acerca do nascimento da psicoanálise, os embates entre Sigmund Freud e Carl Gustav Yung e todas as circunstancias que possibilitaram o surgimento dessa técnica de auto-conhecimento e terapia na Áustria do inicio do século XX.

O filme começa com uma cena chocante da internação da paciente Sabina Spielrein e seu tratamento pelo respeitável médico Carl Yung. O jovem médico era até então discípulo de Freud e emprega a técnica da cura, do conhecimento e tratamento de problemas psíquicos a partir da palavra, sempre ela, uma porta de entrada para o subconsciente, descoberta revolucionária de Freud. 

Freud havia descoberto o mecanismo de acesso a essa zona obscura que todos nós seres humanos possuímos e que por razões difusas escondemo-nos como forma de defesa do ego. 

A paciente tratada por Yung apresenta um quadro de distúrbio emocional seríssimo, manifestando colapsos nervosos ante às situações de humilhação. Pelo tratamento Yung descobre que esse quadro foi gerado na infância pelas sucessivas humilhações submetidas pelo pai, violência física e simbólica, provocando na paciente um desejo pulsante de ser humilhada, gerando inclusive um desejo sexual em situações análogas. 

No tratamento da jovem Sabina, Yung aos poucos percebe a relação fria e de zona de conforto com sua esposa; rica, bonita, mas que não apresenta pulsão de vida para o médico, relação essa que passará a ser instável à medida que o envolvimento do médico com a paciente se agudiza. 

Nos sucessivos encontros com Freud, no tratamento do também psicanalista Otto Gross e no envolvimento emocional  e sexual de Yung com a jovem russa Sabina Spielrein é que a trama se desenvolve construindo um percepção de suspensão do ar, do tempo, uma das grandes sacadas de Cronenberg, levando o telespectador a não perceber a forma como as pessoas envolvidas lidam com suas dores na linha do tempo, ou seja, os cortes cronológicos na trama conferem uma leveza, quando na verdade mostra que o tempo não passa, tudo tudo passa, só o tempo não. E disso trata a psicanálise: nos ensina a lidarmos com nossas dores e nossa condição existencial. 

Não à-toa que a psicanálise surge no inicio do século XX, ou seja, fim da belle époque e da era vitoriana. A psicanalise nada mais é do que a certificação de que a nova condição existencial, emblematizada na verticalização da subjetividade, legou a humanidade a ter que lidar com o fim dos projetos utópicos, da magia e desencantamento do mundo. 

Hannah Arendt, filosofa alemã, havia predito que a modernidade é o momento de transição do homem enquanto criatura para a condição de criador, ou seja, não apenas repetia, recriava as condições naturais, passava a fabricá-los. Um olhar mais atento a essa reflexão mostra o grau de radicalidade que a  modernidade condiciou o novo homem. Fim da magia significou que as antigas civilizações, até a idade média, viviam sob o espectro da transcendência, ou seja, sob a mística da proteção divina, do encantamento do sobrenatural, protegendo os homens de si mesmos. Com a modernidade, esse invólucro de proteção desaparece paulatinamente fazendo com o que os homens sejam jogados na arena da existência, aprendendo a ter que lidar com suas dores, sozinhos, sem culpa ou subterfúgio. Assim surge a psicanálise.

O fim da belle époque significa o fim de um projeto civilizacional, pautado na razão, no esquema de confiabilidade do lógus, logo, sem a segurança da razão, não há outra saída a não ser admitir a condição bárbara, brutal, complexa, caótica da existência. 

Essa constatação está muito bem representada no conflito crescente entre mestre e discípulo, Freud e Yung. Potencializando a questão sexual, Freud tenta mostrar que parte dos nossos problemas nascem na infância, período de afirmação do ego, de recepção e captação de valores e sentidos da vida, por vezes, para ele sempre, emblematizados na repressão sexual. 

Já Yung, legitimo representante do arianismo, rico, classista, conservador, crente na civilização, seu deslocamento para o misticismo e esoterismo sinaliza a incapacidade de lidar com o fracasso civilizacional, com a esperança crescente de uma potencia salvação da vida a partir da espiritualidade, modelo de superação do ego. Ai nasceu o rompimento brusco e definitivo entre os dois. Freud não admitia misticismo enquanto laboratório de experiência do ego, para ele, isso não era psicanálise, aliás, para muitos psicanalistas. 

No entanto, a questão não é tão simples assim. Não se trata apenas de uma redução da psicanalise pela incursão de uma perspectiva nova em Yung, mas sim, de sua incapacidade de entender que a sublimação (sublime - ação) de deslocamento do ego para o campo espiritual esconde as artimanhas do próprio ego, por vezes fazendo do espiritualismo um placebo, um falseamento das questões do ego, egoismo. E nisso Freud foi mais perspicaz que Yung. Afora sua extrema obsessão pela questão sexual, Freud queria mostrar para o seu ex-discípulo que a única possibilidade de transcendência era reconhecer primeiro nossa condição brutal, primeva, bárbara, sexual, para somente depois ambicionarmos uma suspensão do ego. 

E nisso Freud de novo foi mais arguto que Yung. Ao enviar o psicanalista Otto Gross para ser tratado por Yung, Freud mostra o quanto de falseamento do ego havia no seu ex-discípulo. Durante as sessões Otto Gross assume que mantem relações sexuais com suas pacientes sob o argumento que desejos não podem ser reprimidos, que o hospital estava cheio de doentes exatamente pelo alto grau de repressão da sociedade vitoriana. Durante a analise Yung se sente ameaçado pelas provocações do seu paciente que o questiona acerca do desejo sexual reprimido pela jovem russa Sabina. Pronto. Yung e Sabina passaram a ser amantes. A sublimação espiritualista de Yung rendeu-se aos seus desejos sexuais, embora mantendo essa posição ao longo da vida. Era disso que Freud o alertava. Depois de Sabina, Yung teve outra amante.

A psicanálise tem o grande mérito de nos mostrar que no plano existencial todos somos egoístas, essa é a condição do ego, defender-se, proteger-se, lutar por si mesmos. Não tem jeito, só quem pode nos proteger do outro, cuidar de si, somos nos mesmos. Negar isso é falseamento da condição humana. 

Todo movimento de busca, de entrega, de doação é feito em última instancia por nossos desejos. O outro é uma ponte para essa descoberta. Foi por isso que quando a jovem russa Sabina, já psicóloga, clinicando,   casada e grávida, visita o ex-professor, mestre, amante e inspiração Yung, triste, melancólico, soturno, pergunta se um dia ele o amou de verdade, ele responde: "para o bem ou para o mal esse amor foi a coisa mais importante da minha vida, porque me perdendo eu permiti me conhecer". 

O que Yung estava se referindo é que mesmo casado, com três filhos, bem-sucedido, famoso, respeitado, somente quando se destitui de sua carapaça, do seu ego, se tornou fraco, excessivamente dependente emocionalmente, libertou-se de um ego para a constituição de um outro, melhor. 

O ato potencial de amar alguém incondicionalmente, se entregar sem reservas, sem limites, é ao mesmo tempo a demonstração de fraqueza, de extrema carência, das sombras, da incapacidade de lidar com suas deficiências e, ao mesmo tempo, um ato revolucionário de emancipação de um tipo de ego para a constituição de outro. Quando se deposita sua vida aos pés do outro, quando refletindo sobre esse movimento, a libertação desse ego dependente se converterá na sua recomposição em outras bases. Sozinho é muito difícil, por isso dependemos uns dos outros. O outro, se protegendo da dependência, não é obrigado a segurar a carência do próximo porque tem que lidar com as suas. Por isso só quem ama incondicionalmente vivi duas vezes; morre ao se entregar, perde sua vida, e renasce depois da entrega.  

Outra grande característica da psicanálise é se libertar da culpa. No jogo da existência não há culpa, há sujeitos no processo de auto-descoberta, por vezes de forma tortuosa, mas as pessoas agem com o que tem, com o que podem oferecer, com o que é possível.

Um dos grandes equívocos de Freud, corrigido depois por Lacan, foi a supressão das questões sociais, como se existisse ego, sujeito independente de suas condições sociais, dos processos culturais que ajudam na definição das subjetividades. Ora, foram essas condições sociais que possibilitaram o nascimento da psicanálise, o desencantamento do mundo levou para a extrema intersubjetividade. As condições sociais continuam exercendo um papel de definição dos projetos de vida, da ideia de felicidade, de prazer, de ambivalência. Por isso Freud suprimiu os embates de classes, as questões econômicas, na indefinição do que é social só era possível falar do sujeito.     

A máquia construtora e destruidora de sonhos chamada "contemporaneidade' continua seivando vidas com o seu projeto de liberdade, de prazer extremo, de novas possibilidades, ainda que muitas pessoas ao conquistarem tudo isso não saibam exatamente o que fazer. A experiencia faz-se no fazer-se, portanto, as pessoas precisam passar pela existência para adquirirem sentido próprio, para depois exprimirem isso na literatura, lugar onde não se mente, os personagens é que são a realidade, não o paciente no divã. 

O que vai para a literatura é que se viveu, não há como falsear, mesmo quando os personagens "mentem". A mentira, a desonestidade, são as mais puras verdades daquilo que não se quis dizer, pronunciar. 

A psicanálise nasceu naquela ambiência da Viena de inicio do século XX para auto-tratamento da sociedade de então, um circulo de judeus, arianos às portas da primeira grande guerra mundial. Era uma catarse, ainda que individual e com muita resistência. Hoje, sem muita perspectiva social, sem grandes projetos utópicos, pululam as noções de que não há outra saída a não ser cuidar de si mesmos. Somos uma sociedade egoísta, narcisista, auto-referenciada, auto-centrada, doente, triste e sem esperança.     

O ego engana muito, falseia, menti, oblitera, esconde. Temos a doce ilusão de fazermos afirmações contundentes na esperança de crermos no que estamos falando, é uma auto-sabotagem. Mas..... não tem saída, é preciso viver, é preciso estar no palco da existência. Essa busca é infinita. Como é bom viver, só assim é possível descobrirmos quem nós somos.      

   

terça-feira, 15 de maio de 2012

A história enquanto síntese

Estamos numa fase de difícil compreensão sobre os desdobramentos sociais e a aplicabilidade de uma teoria, ou teorias, de uma metanarrativa que explique a totalidade social, a bem da verdade, propaga-se muito a morte das metanarrativas. 

O capital muda seu eixo de direção e aponta suas perspectivas de regeneração para mares dantes nunca tão bem navegados, o chamado BRIC (Brasil, Rússia, India e China), o que não exclui também a África, mesmo pobre e miserável. É que não tardará para essa região pobre ser foco, já é, de interesses do grande capital, África do Sul e as regiões da África Central que a China comprou para extração de commodities, além da recuperação econômica de Angola. 

Do ponto de vista político, quem na década de 80 falava na morte do estado, dos nacionalismos, do protecionismo fiscal, tem agora que rever suas concepções desde a ascensão do governo Bush, sua política pós-neo-imperialista, a invasão ao Iraque, Afeganistão, o avanço da extrema direita na Europa, da esquerda na América Latina, das vitórias de Lula, agora Dilma, Evo Morales, Hugo Chaves, da crise e falência do modelo de desenvolvimento europeu, da eleição de Obama, dentre outras questões. 

A democracia, grande bandeira liberal dos Estados Unidos no século XIX e da Europa pós-primeira guerra mundial, já não é mais o encantamento do modelo civilizacional moderno, vide a descoberta das intrínsecas relações entre discurso democrático, o controle do aparato burocrático do estado pela classe dominante, o capital econômico e simbólico no controle das eleições majoritárias, a dependência e corrupção do judiciário, a falência do modelo representativo de estancias como congressos e senados, o avanço da monetarização do espaço político, o controle midiático por grandes corporações, enfim, de todas as instituições que sob o discurso da modernidade dão sinais claros da falência de suas políticas. 

Soma-se a tudo isso, também enquanto consequência disso, a hiper individuação dos sujeitos que, descrentes de qualquer projeto coletivo, não enxergam outra saída a não ser a busca pela felicidade no consumo, qualquer que seja a natureza desse consumo. 

Por que não somos capazes de aprender com o passado? Por que a história não nos ensina nada, uma vez que repetimos sempre os mesmos erros? Para autores como Henri Carr, isso se deve ao fato de que cada fenômeno histórico é singular, logo, como a experiencia faz no fazer-se, as futuras gerações ainda que tenham ciência do que se passou, jamais podem sentir o que se passou, precisam de suas próprias experiencias para tirarem suas conclusões. 

Isso é um desvirtuamento do sentido pedagógico da história. A história é sim a repetição do mesmo, só que em épocas, lugares e pessoas distintas, causando a sensação de que a cada nova experiencia abstrai-se uma nova percepção. De fato é uma nova percepção, porém daquilo já vivido em outras épocas. Sendo assim, a cada nova situação histórica as novas gerações ampliam a compreensão do real vivido a partir de suas experiencias, alargando a compreensão sobre a existência, logo, o nômeno é o mesmo, quando repetido transforma-se em fenômeno, dai porque quando o nômeno se repete temos a sensação de ser novo, pois as pessoas em lugares e posições distintas enxergam o mesmo acontecimento distintamente. Para cada época histórica singularizamos discursivamente todos os fenômenos. 

Isso explica em parte o porque de tantas teorias da história digladiando-se entre si, cada qual mais convicta de sua verdade. Todas elas falam do nômeno, só que de forma diferente. Ao falarem de formas diferentes   ampliam a percepção sobre o passado, sobre a condição humana, alargando a perspectiva analítica, no entanto, muitas das teorias negam contributo de suas apreensões nascidas em correntes antagônicas, como se falassem a partir do nada, algo absurdamente novo, inédito. Todas as correntes filosóficas, históricas ou de qualquer área, falam coisas distintas porque observam de ângulos distintos o fenômeno. O que move o mundo não são as respostas, e sim as perguntas, sendo assim, as teorias são antagônicas porque pautam suas problemáticas a partir de questões especificas, daquilo que as importam, interessam, chamam suas intenções e necessidades. O sentido da história é síntese.  

Quando os hominídeos começaram a fazer desenhos, rabiscos, pinturas rupestres no interior das cavernas, esse movimento foi ao mesmo tempo o nascimento do registro de suas atividades cotidianas, necessidade de controle do que se passava ao redor, o nascimento da arte enquanto sublimação e ascensão sensível e, do pensamento ascético. Nascia a partir daquele momento a humanidade, pois começavam a enxergar sua condição existencial, não apenas biológica. Ser humano é pensar sua condição ontológica e ôntica. 

Quando Heródoto, alavancado como pai da história, enquanto estratégia subrepticia da Europa em inventar o mundo ocidental a partir dos gregos, viaja até o Egito para descobrir o modus vivendis daquela civilização, sua preocupação não era apenas entender o diferente, o outro, como também, constatar em que medida os gregos eram superiores aos egípcios. A identidade é um processo que se faz a partir de si em comparação com o outro. 

Na época moderna, seus impactos radicais na concepção sobre o que era o homem trouxe mudanças sensíveis na forma de enxergar a vida e o passado. Grandes navegações, universidades, epicurismo, estoicismo, hedonismo, capitalismo comercial, burguesia, revolução científica, renascimento, reforma protestante, contra-reforma, imprensa, revoluções, guerras, descoberta da América, teorias filosóficas, Iluminismo, enfim, a cada novo acontecimento histórico diminuía-se a compreensão existente até então sobre a vida e postulava-se uma nova verdade, basta relembrar as teorias existentes até o século XIX; História Narrativa com Heródoto; História Pragmática com Tucídides e a escola romana; História Pedagógica com Santo Agostinho; História Evolutiva com Bossuet, Herder, Vico; História Sociológica com o positivismo.

No século XIX pulularam teorias interpretativas advindas de várias acepções; do romantismo desembocando em Humboldt e Ranke, a escola alemã, em contraposição à concepção francesa, oriunda do radicalismo empiricista e cientifico do iluminismo, além do idealismo, do marxismo, do positivismo e do anarquismo. 

Ranke, romântico e idealista, foi duramente criticado por considerarem seus críticos enquanto ingênuo, infantil, apenas um colecionador de fatos. Ledo engano. Ranke era sim um idealista, portanto, acreditava numa historia fruto de uma composição cosmológica cuja a história era apenas a substanciação, comprovação da existência de um sentido para a vida. Seus críticos, obviamente, por não concordarem com essas postulações, negam seu contributo, invalidaram sua tentativa de explicação sobre a história. Assim avança o conhecimento, negando as perspectivas anteriores e "criando" algo supostamente novo, como se no fundo todas as correntes não transitassem entre si.

Depois no século XX vieram a Escola dos Annales, o neo-positivismo, o estruturalismo, o pós-estruturalismo, a pós-modernidade, o neo-marxismo, esse último calcado na escola russa em meados do século XX, nos trabalhos de Gramsci, da escola de Frankfurt, Rosa Luxemburgo, na escola histórica inglesa, Thompson, por exemplo, em Ginzburg, Chartier, Bourdieu, e que ganha agora novo folego ante o fracasso de premissas como as de Francis Fukuyama e o seu "fim da história", além é claro, na reordenação geopolítica do mundo com o gigante chamado China e no avanço do neo-militarismo estadunidense na era Bush.

Estamos muito longe de entendermos quem somos, o que nos move, para onde vamos. Desde a primeira humanidade, já que alteramos radicalmente a condição humana segundo Hannah Arendt, a busca por sentido  tem sido nosso mote. Essa busca não vai cessar, essa é a nossa condição, premissa existencial. A história  auxilia entendermos como nossos antepassados tomaram determinadas decisões em situações análogas ao presente. 

Não estamos sós, o primeiro homem está em nós.     



                             
                                      

terça-feira, 8 de maio de 2012

sobre as distopias dos não-lugares

O filme “O Terminal” (2004), dirigido por Steven Spielberg, com parceira de Tom Hanks, e estrelado por esse último, narra a história de Viktor Navorski, um viajante do leste europeu que, ao adentrar nos Estados Unidos, aeroporto John Kennedy, New York, é tomado de surpresa por um golpe de estado em seu país natal, impossibilitando-o obviamente de sair do aeroporto. Isto porque com um golpe de estado os países não são obrigados a receberem os cidadãos de tais lugares, posto que as relações diplomáticas são cortadas. 

O que o filme de uma forma ingênua não explora é que no fundo os aeroportos constituem-se como não-lugares na contemporaneidade para os viajantes, não para quem trabalha nele. O conceito de não-lugar denota espaços de dispersão social sem agregação afetiva, de construção de relação política, da ideia clássica de pólis, urbe, pois os transeuntes não são daquele lugar, estão sempre de passagem, de forma apressada em busca de novas rotas. Como diria Marc Augé, antropólogo francês, autor do conceito, não-lugar é um espaço de passagem incapaz de dar forma a qualquer forma de identidade. 

A questão é que os não-lugares são cada vez mais comuns na ultramodernidade, já que o termo pós-modernidade não se aplicaria bem. Com o avanço rápido do capital, alterando substancialmente a percepção de tempo, espaço, coisificando os sentimentos, viver passou a ser referente de remir o tempo, lastreado pela concepção mais que voraz de consumo. O consumo é quem estabelece as bases da cidadania, logo, o preposto clássico de participação do sujeito cidadão enquanto premissa da política, forjada no classicismo grego, foi substituído pela potência do ato revolucionário de consumir, qualquer que seja a coisa: afetos, desejos, festas, situações. 

Nos aeroportos, em decorrência do avanço da tecnologia, é possível fazer o check-in de casa, ou de qualquer lugar que possua a portabilidade digital, então, se o sujeito não tiver bagagem para despachar, pode ir direto para a sala de embarque. Lá dentro com o seu laptop, iphone, ipad, não se comunica com ninguém, a virtualidade é o seu mote.

Esse é um dos problemas da tecnologia e da internet: conecta e desconecta as pessoas ao mesmo tempo. O italiano Giorgio Agamben, em sua obra O que é contemporâneo, faz uma dura crítica ao uso frenético do celular. Esse instrumento, cognominado por ele como utensílio, equipamento, dispositivo, leva as pessoas a um estado de não percepção de nada ao redor, ao não ser a suposta ligação sensorial com outra pessoa do outro lado da linha. O problema é que com o frenesi da vida moderna, passamos a falar muito mais com o outro distante do que com o próximo.

Uso dessa mesma prerrogativa para criticar determinados usos do facebook. Ferramenta poderosa de interação, algumas pessoas se dessujeitaram a tal ponto que, como não conseguem lidar com seu silêncio interno, necessitam o tempo todo consumir o que os outros fazem de forma instantânea ao mesmo tempo em que postam absolutamente tudo o que fazem, ou seja, ante a caoticidade da vida, a vitrina do face serve como elemento de consumação da vida, significação da vida, necessidade de estar e ser, ser visto e ver, consumir freneticamente. Já existe até a expressão: “essa foto é para o face”.

facebook, assim como o recente e já em desuso orkut, estabelecem novos padrões de sociabilidades impondo uma necessidade instantânea de comunicabilidade. A questão é se essa necessidade tão premente de se comunicar não se dá exatamente pela real falta dela. 

Isto explica em parte por que a chamada para questões políticas e sociais sempre perde em compartilhamento, curtição, etc., no ranking de popularidade do facebook. É como se a internet e suas ferramentas não fossem para coisas “sérias”, “cabeçudas”, posto que perdemos em grande parte a capacidade de reflexão, logo, facebook, orkut, são extensões do esvaziamento dos sentidos e tecidos sociais, e ao mesmo tempo, uma vontade de estabelecer nexos, laços.

A necessidade de aumento da velocidade da internet é proporcional à nossa voracidade de consumir as relações freneticamente, sem que necessariamente se estabeleçam vínculos sensoriais e sentimentais. É como se a tecnologia fosse extensiva ao nosso corpo, e de fato já é. O cinema e a literatura já abordaram isso.

O transumanismo advoga a imbricação entre vida biológica e tecnologia sob o argumento de que os homens sempre se serviram de ferramentas para a ampliação da concepção de vida e que, portanto, a resistência a essa tendência é antes de mais nada moral, religiosa. Sob esse aspecto, cabe questionar qual é o lugar do corpo na sociedade ultramoderna e se o corpo transumano não se constitui um não-lugar em si mesmo, absolutamente coerente com o avanço das relações aceleradas da sociedade ultracontemporânea. Aliás, somente um corpo transumano comporta a velocidade de uma sociedade hiperveloz, hiperreal, para usar uma expressão de Jean Beaudrillard.

Das vezes em que ando de ônibus fico observando as pessoas com fone de ouvido.  Questiono-me se o fone é para distrair ante o longo trajeto até o destino, se para não se perceber as condições de uso do coletivo, se para evitar qualquer contato com o usuário, ou se o somatório de todas essas acrescidas de tantas mais.

A questão é que as relações humanas estão mudando radicalmente e com elas a noção de identidade. O grande problema dos não-lugares é a impossibilidade de fixação de qualquer parâmetro indentitário. Os não-lugares sociais são em última instância os não-lugares de nós mesmos, ou seja, o que se estende aos espaços sociais são reverberações da amplitude da definição do sujeito, ao mesmo tempo, de sua redução, já que ele só se potencializa à medida que se expande, logo, se dessujeita, se estende a limites ultra-corporais. Qual é a capacidade de expansão sensorial humana? Quantas consciências cabem nos nossos múltiplos corpos, a que fala ao telefone ao mesmo tempo que tecla no chat, a que posta uma foto no face, a que come enquanto ouve televisão?

Por outro lado, com o avanço das tecnologias aumentou a percepção sensorial das novas gerações. Na condição de professor sei quão é difícil deter a atenção dos meus alunos por muito tempo, já que em suas mesas, com o serviço de wireless, seus laptopsiphonesipad’s, os ligam ao mundo de forma interativa, rápida e às vezes mais dinâmica. Eles executam várias tarefas ao mesmo tempo, o que eu por exemplo tenho muita dificuldade. A sala de aula em alguns momentos se torna um não-lugar, posto que após o término, os alunos correm para uma lan house ou suas casas para comentarem com seus colegas que passaram a manhã com eles o que acharam ou não acharam da aula que acabaram de assistir, ou qualquer outro assunto.

O que fazer diante de tais questões? A resposta é difícil, pois é igualmente difícil a sociedade definir o que quer; caímos num absoluto reducionismo individualista, subjetivista, relativista. 

Penso que isto se trata de uma estratégia subjacente e sub-reptícia do capital. Eu explico. A defesa de que a felicidade só pode ser adquirida individualmente deita raiz numa lógica de não organicidade coletiva, logo, de esmaecimento de qualquer luta social, ideológica, já que o indivíduo sozinho, longe de sua individuação coletiva, se sente desmotivado a qualquer mobilização política, portanto, o imaginário social está sendo cada vez mais alicerçado na ideia de que não há saída, não há mudança, não há sonhos, somente o imediatismo. Se não há saída, não resta outra coisa a fazer a não ser consumir tudo freneticamente, mas nem isso preenche o vazio, e, portanto, lá estamos nós em busca de mais divertimento, mais velocidade, só o imediatismo é capaz de preencher os não-lugares físicos e sentimentais.

Os não-lugares são a maior expressão das distopias, ou seja, da ideia de que nada tem profundidade, tudo é voraz, tudo é volátil, tudo é etéreo.      












terça-feira, 1 de maio de 2012

Eu quero "pepel'

_ “Papai, pepel!!.


É sempre dessa forma que minha filha caçula Milene me aborda pedindo para rabiscar grafos indecifráveis, por vezes as paredes, chão, quando não o próprio corpo. Eu, sempre sabendo que ela vai riscar tudo, cedo. Desse jeito de apreensão do mundo vou observando o desenvolvimento de minhas filhas. Minha caçula, ao espreitar sua irmã mais velha quando vai para escola, todas as vezes que começo a dar-lhe banho, escovar os dentes, arrumar o cabelo, sempre com briga a petiz brada: – “Eu, eu, eu, papai”, insistentemente, também querendo que eu a vista e a prepare. Não estuda ainda, só tem dois anos.

A insistência com o “pepel” deriva da observação atenta da irmã, que é dois anos mais velha. Sempre por imitação, repete tudo o que a irmã faz, é o xodó dela.

Outro dia, a mais velha, que se chama Lucía, com acento agudo no i, como em espanhol, uma homenagem à mãe, Lucía, e cuja inspiração para o nome veio do filme Lucía y el sexo, do diretor espanhol Julio Medem, o mesmo de “Os amantes do círculo polar”, me saiu com uma pérola. Eu a havia levado para exames de sangue, fezes e urina. No ambulatório, um escândalo de parar a rua, quem passasse por perto pensaria que alguém estava morrendo. Com dedo em riste, virou para a enfermeira e disse com muita autoridade:
 –  Não faça isso!!! Eu não quero ser furada!!! Não faça isso!!!”.
Lá se foram duas pessoas para segurar Lucía. Resultado do exame: colesterol alto. Foi então a pérola:
– Papai, o meu colesterol alto não é por causa de besteiras (leia-se: refrigerantes, bombons, congêneres).
– É por que então, filhota? perguntei.
– É por causa da macaxeira que eu comi (ela havia comido macaxeira na semana anterior na casa de minha mãe).
 – Filhota, os médicos disseram que é por conta do que você anda comendo, e ao que me consta, macaxeira não aumenta colesterol.
– Os médicos estão errados, papai. Meu colesterol é por conta da macaxeira!!!!

Esse diálogo durou todo o trajeto até a escola. Ouvi atentamente os argumentos, nenhum válido, mas por ela tudo bem... Para mim também. Ainda assim, a alimentação dela foi alterada.

Engana-se quem pensa que devemos educar os filhos da mesma forma, ou que se ama da mesma forma, não me refiro à intensidade ou dimensão, e sim, forma. Cada filho, filha, é de um jeito, porque cada um veio de um lugar diferente.  

Nas sociedades orientais, notadamente a japonesa, quando uma criança nasce é motivo de choro; no Ocidente, alegria. Para os orientais, o nascimento representa o aprisionamento do espírito num corpo encarnado; a morte é libertação. No Ocidente, a partir dos axiomas do cristianismo medieval, que advogava a existência somente de uma única vida, após a morte, o julgamento, e, acrescido da construção da modernidade, que mudou a percepção de tempo, de espaço, da concepção de vida, oriundo da concepção burguesa de viver, trabalhar e remir o tempo, “time is Money”, viver passou a significar a exploração plenipotente de todas as oportunidades num curto espaço de tempo; “é necessário viver tudo aqui e agora”. Daí por que no Ocidente morrer é motivo de choro, tristeza, representa um fim de um processo, não o recomeço.  
  
Para os orientais quando alguém morre, quando não jovem demais, é motivo de alegria, afinal, o espírito está livre de novo, para um dia mais uma vez ser aprisionado. Quando alguém jovem morre, os orientais consideram um pesar por acharem que é mais um barco que descreve o arco e evitou atracar no cais, ou seja, não cumpriu sua missão.

Partindo dessa premissa, dá para se entender porque cada filho é de um jeito, ainda que se eduquem todos da mesma forma. E aí está um equívoco. Com tendências, vícios e peculiaridades, cada filho traz uma personalidade, visto que no fundo ele não está vindo ao mundo pela primeira vez, já veio. 

Outro equívoco comum que considero dos pais é achar que os filhos são suas propriedades, não são. Filhos vêm, ou seja, nós mesmos, para aprendermos e avançarmos no sentido da existência. A função dos pais é educá-los, levá-los ao caminho da felicidade, corrigir tendências que notamos serem perniciosas e perversas, orientá-los, instruí-los e amá-los; o resto é com eles. Os filhos não são propriedades dos pais, são do plano maior. 

Por não atentarem para esses detalhes é que alguns pais acham que boa educação é colocá-los em escola cara, desde cedo inglês, muitos cursos, mil obrigações, sem a devida atenção do que de fato precisam: serem autônomos e suficientes, felizes. Mas, numa lógica de concepção burguesa, ser feliz é ter sucesso: ganhar bem, ser famoso, carro, casa, viagens, etc. Não sou hipócrita para descartar ou desprezar as questões materiais, somos matéria, é claro que é importante, mas felicidade não se resume a isso. 

Quando se é pai, mãe, um conjunto de reflexões se coloca cotidianamente. Estamos o tempo todo nos revendo como pessoas, pensando na imagem construída perante os filhos, que valores passamos, que papéis vamos exercer, como, de que forma, porque. É um exercício de alteridade se colocar na condição de filho, aprender com ele. Daí a importância da família, independentemente do formato que possui hoje; se com pais juntos; separados; divorciados; se sem mãe; sem pai, etc. O conceito de família é mais abrangente, porém, independentemente do formato, conceito ou característica, porém, família existe para o exercício do amar o outro, primeiro mais próximo, depois, o outro desconhecido.
   
Filhos não significam apenas a perpetuação da espécie da qual foi oriunda, sua família, mas da humanidade, ou seja, do conjunto de significados prenhes na  ideia do que é ser humano. O desenvolvimento psicossocial de uma criança é em determinado grau o desenvolvimento da sociedade, com pitadas de subjetividade de cada ser, exatamente o que o diferencia de qualquer outro sujeito. 

Os especialistas na área da infância e juventude podem alegar que de tempos em tempos a concepção de paternidade e maternidade muda, portanto, trata-se de uma construção social. Para os gregos, as mães geravam filhos para o estado; na Idade Média, crianças eram adultos em miniaturas; no início da industrialização, filhos eram proles (proletariados), ou seja, força de trabalho; nos dias atuais, para muitas famílias, desejo de sucesso como forma de valorização e transferência afetiva dos pais. É possível separar sentido afetivo de construção social? Sim, esse é o exercício. Na verdade, separar não é o verbo adequado, e sim, entender como se dão as construções sociais, seus limites. As pessoas não são apenas aquilo que o social diz sobre elas. 

Quando penso em minhas filhas, sinto uma amor incontinente, inconteste. Lembro-me dos dias em que nasceram. Fiz um “curso” no Youtube sobre partos. É que eu queria assistir, mas não posso ver sangue. Filmei tudo e não desmaiei, consegui. Fiz um filme de curta metragem sobre as duas. Um dia elas vão assistir; na verdade, Lucía já assistiu ao dela. A trilha sonora é do compositor catalão Juan Manuel Serrat. Nome da música? Lucía, claro. Meu amigo uruguaio-catalão Enrique Padrós, o Lola, me disse que por conta dessa música uma  geração inteira de mulheres na Espanha se chamam Lucía. Foi ele quem me apresentou Juan Manuel Serrat. O nome de Milene foi dado pela mãe, uma antiga promessa à mãe de Lucía, Dona Cidália, falecida em 1992, de que quando tivesse uma filha poria o nome de Milene. 
          
Amor dos pais é amor que não se mede, amor filos. Quando Chico Buarque na canção As meninas embala: “As meninas são minhas/Só minhas na minha ilusão/Na canção cristalina Da minha imaginação/Pode o tempo Marcar seus caminhos Nas faces Com as linhas Das noites de não/E a solidão Maltratar as meninas/As minhas não...” Eu entendo perfeitamente. 

Entendo o sentido de proteção, de um amor inefável, que se pudéssemos protegê-los de tudo, faríamos. Outro equívoco. Filhos precisam de suas frustrações, restrições, problemas, adversidades, decepções, para a constituição de suas personalidades, seus posicionamentos perante o mundo. Quem muito protege perde a constituição da subjetividade de cada ser e como vai lidar com as contrariedades. Mas não é fácil. O instinto de proteção, que não é apenas materno, nos remete à nossa constituição primeva, originária, biológica, umbilical. Filho é uma questão quase instintiva, é o que coloca na outra ponta da balança: de filhos à compreensão do porquê de determinadas atitudes de nossos pais. Como diria Belchior: “ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais”. 

Ainda estamos longe de entender a relação pais e filhos. No mundo animal, os mamíferos são os que mais prolongam sua dependência paterna, grosso modo, no caso dos humanos, entre 20 e 27 anos, alguns a vida toda. Por que será? Será uma mera questão social, a da construção histórica do conceito de família ou porque existe um sentido de aprendizagem na relação pais e filhos, qualquer que seja ela?

Qualquer que seja a resposta, todas as vezes que minhas filhas me sorriem, me recebem com abraços, choram, esperneiam, resmungam, birram, dizem que me amam, entendo mais o sentido de viver, e todo o resto passa a ser pequeno. Só elas importam.  

Tenho aprendido a curtir cada fase, sorver cada instante, pois sei que são únicos, irrepetíveis. 

O que é uma parede riscada, um chão borrado, ou o próprio corpo rabiscado diante de um pedido solene?
– “Papai, pepel”... Eu sempre me aborreço, mas logo depois passa, afinal, quando elas crescerem nunca mais vou ouvir que macaxeira provoca colesterol alto, não vou ver Lucía imitando Angelina bailerina, personagem de desenho animado, nunca mais um choro por conta de uma queda, cabeçada, nunca mais pedidos para eu fazer chocolate, carregar para dentro de casa tirando do carro já dormindo, a alegria de deixar na porta da sala de aula e um abraço apertado repetido ad nausea para que eu não vá embora, nunca mais a petiz caçula vai dizer: “Eu, eu, eu”, para eu arrumá-la ao ver sua irmã se vestindo, nunca mais as fraldas, nunca mais músicas inventadas com letras indecifráveis...

Virão outras coisas, tão solenes quanto, tanto intensas quanto, tão umbilicais quanto... tudo passa, filhos não.

Quando me sinto triste, cabisbaixo, olho para elas e percebo que ser pai é um exercício profilático, é como uma terapia do AA (alcoólicos anônimos): uma coisa de cada vez, uma vitória por dia, não dá pra desistir. Quando tudo me falta, quando não vejo os meus pés no chão, lembro-me que elas existem e sigo em frente. 

Ontem minhas filhas me disseram, primeiro a Milene: – “Papai, te amo, GANDÃO!!!”, depois, Lucía: – “Papai, eu não sei o que seria de mim sem você”...