segunda-feira, 21 de maio de 2012

cinema e psicanálise: um debate entre Freud e Yung a partir do filme "um método perigoso"

David Cronenberg, diretor de uma lista imensa de filmes antológicos como: ExistenZ, Scanner, Videodrome, dirigiu o excelente longa metragem: "Um método perigoso", 2011, acerca do nascimento da psicoanálise, os embates entre Sigmund Freud e Carl Gustav Yung e todas as circunstancias que possibilitaram o surgimento dessa técnica de auto-conhecimento e terapia na Áustria do inicio do século XX.

O filme começa com uma cena chocante da internação da paciente Sabina Spielrein e seu tratamento pelo respeitável médico Carl Yung. O jovem médico era até então discípulo de Freud e emprega a técnica da cura, do conhecimento e tratamento de problemas psíquicos a partir da palavra, sempre ela, uma porta de entrada para o subconsciente, descoberta revolucionária de Freud. 

Freud havia descoberto o mecanismo de acesso a essa zona obscura que todos nós seres humanos possuímos e que por razões difusas escondemo-nos como forma de defesa do ego. 

A paciente tratada por Yung apresenta um quadro de distúrbio emocional seríssimo, manifestando colapsos nervosos ante às situações de humilhação. Pelo tratamento Yung descobre que esse quadro foi gerado na infância pelas sucessivas humilhações submetidas pelo pai, violência física e simbólica, provocando na paciente um desejo pulsante de ser humilhada, gerando inclusive um desejo sexual em situações análogas. 

No tratamento da jovem Sabina, Yung aos poucos percebe a relação fria e de zona de conforto com sua esposa; rica, bonita, mas que não apresenta pulsão de vida para o médico, relação essa que passará a ser instável à medida que o envolvimento do médico com a paciente se agudiza. 

Nos sucessivos encontros com Freud, no tratamento do também psicanalista Otto Gross e no envolvimento emocional  e sexual de Yung com a jovem russa Sabina Spielrein é que a trama se desenvolve construindo um percepção de suspensão do ar, do tempo, uma das grandes sacadas de Cronenberg, levando o telespectador a não perceber a forma como as pessoas envolvidas lidam com suas dores na linha do tempo, ou seja, os cortes cronológicos na trama conferem uma leveza, quando na verdade mostra que o tempo não passa, tudo tudo passa, só o tempo não. E disso trata a psicanálise: nos ensina a lidarmos com nossas dores e nossa condição existencial. 

Não à-toa que a psicanálise surge no inicio do século XX, ou seja, fim da belle époque e da era vitoriana. A psicanalise nada mais é do que a certificação de que a nova condição existencial, emblematizada na verticalização da subjetividade, legou a humanidade a ter que lidar com o fim dos projetos utópicos, da magia e desencantamento do mundo. 

Hannah Arendt, filosofa alemã, havia predito que a modernidade é o momento de transição do homem enquanto criatura para a condição de criador, ou seja, não apenas repetia, recriava as condições naturais, passava a fabricá-los. Um olhar mais atento a essa reflexão mostra o grau de radicalidade que a  modernidade condiciou o novo homem. Fim da magia significou que as antigas civilizações, até a idade média, viviam sob o espectro da transcendência, ou seja, sob a mística da proteção divina, do encantamento do sobrenatural, protegendo os homens de si mesmos. Com a modernidade, esse invólucro de proteção desaparece paulatinamente fazendo com o que os homens sejam jogados na arena da existência, aprendendo a ter que lidar com suas dores, sozinhos, sem culpa ou subterfúgio. Assim surge a psicanálise.

O fim da belle époque significa o fim de um projeto civilizacional, pautado na razão, no esquema de confiabilidade do lógus, logo, sem a segurança da razão, não há outra saída a não ser admitir a condição bárbara, brutal, complexa, caótica da existência. 

Essa constatação está muito bem representada no conflito crescente entre mestre e discípulo, Freud e Yung. Potencializando a questão sexual, Freud tenta mostrar que parte dos nossos problemas nascem na infância, período de afirmação do ego, de recepção e captação de valores e sentidos da vida, por vezes, para ele sempre, emblematizados na repressão sexual. 

Já Yung, legitimo representante do arianismo, rico, classista, conservador, crente na civilização, seu deslocamento para o misticismo e esoterismo sinaliza a incapacidade de lidar com o fracasso civilizacional, com a esperança crescente de uma potencia salvação da vida a partir da espiritualidade, modelo de superação do ego. Ai nasceu o rompimento brusco e definitivo entre os dois. Freud não admitia misticismo enquanto laboratório de experiência do ego, para ele, isso não era psicanálise, aliás, para muitos psicanalistas. 

No entanto, a questão não é tão simples assim. Não se trata apenas de uma redução da psicanalise pela incursão de uma perspectiva nova em Yung, mas sim, de sua incapacidade de entender que a sublimação (sublime - ação) de deslocamento do ego para o campo espiritual esconde as artimanhas do próprio ego, por vezes fazendo do espiritualismo um placebo, um falseamento das questões do ego, egoismo. E nisso Freud foi mais perspicaz que Yung. Afora sua extrema obsessão pela questão sexual, Freud queria mostrar para o seu ex-discípulo que a única possibilidade de transcendência era reconhecer primeiro nossa condição brutal, primeva, bárbara, sexual, para somente depois ambicionarmos uma suspensão do ego. 

E nisso Freud de novo foi mais arguto que Yung. Ao enviar o psicanalista Otto Gross para ser tratado por Yung, Freud mostra o quanto de falseamento do ego havia no seu ex-discípulo. Durante as sessões Otto Gross assume que mantem relações sexuais com suas pacientes sob o argumento que desejos não podem ser reprimidos, que o hospital estava cheio de doentes exatamente pelo alto grau de repressão da sociedade vitoriana. Durante a analise Yung se sente ameaçado pelas provocações do seu paciente que o questiona acerca do desejo sexual reprimido pela jovem russa Sabina. Pronto. Yung e Sabina passaram a ser amantes. A sublimação espiritualista de Yung rendeu-se aos seus desejos sexuais, embora mantendo essa posição ao longo da vida. Era disso que Freud o alertava. Depois de Sabina, Yung teve outra amante.

A psicanálise tem o grande mérito de nos mostrar que no plano existencial todos somos egoístas, essa é a condição do ego, defender-se, proteger-se, lutar por si mesmos. Não tem jeito, só quem pode nos proteger do outro, cuidar de si, somos nos mesmos. Negar isso é falseamento da condição humana. 

Todo movimento de busca, de entrega, de doação é feito em última instancia por nossos desejos. O outro é uma ponte para essa descoberta. Foi por isso que quando a jovem russa Sabina, já psicóloga, clinicando,   casada e grávida, visita o ex-professor, mestre, amante e inspiração Yung, triste, melancólico, soturno, pergunta se um dia ele o amou de verdade, ele responde: "para o bem ou para o mal esse amor foi a coisa mais importante da minha vida, porque me perdendo eu permiti me conhecer". 

O que Yung estava se referindo é que mesmo casado, com três filhos, bem-sucedido, famoso, respeitado, somente quando se destitui de sua carapaça, do seu ego, se tornou fraco, excessivamente dependente emocionalmente, libertou-se de um ego para a constituição de um outro, melhor. 

O ato potencial de amar alguém incondicionalmente, se entregar sem reservas, sem limites, é ao mesmo tempo a demonstração de fraqueza, de extrema carência, das sombras, da incapacidade de lidar com suas deficiências e, ao mesmo tempo, um ato revolucionário de emancipação de um tipo de ego para a constituição de outro. Quando se deposita sua vida aos pés do outro, quando refletindo sobre esse movimento, a libertação desse ego dependente se converterá na sua recomposição em outras bases. Sozinho é muito difícil, por isso dependemos uns dos outros. O outro, se protegendo da dependência, não é obrigado a segurar a carência do próximo porque tem que lidar com as suas. Por isso só quem ama incondicionalmente vivi duas vezes; morre ao se entregar, perde sua vida, e renasce depois da entrega.  

Outra grande característica da psicanálise é se libertar da culpa. No jogo da existência não há culpa, há sujeitos no processo de auto-descoberta, por vezes de forma tortuosa, mas as pessoas agem com o que tem, com o que podem oferecer, com o que é possível.

Um dos grandes equívocos de Freud, corrigido depois por Lacan, foi a supressão das questões sociais, como se existisse ego, sujeito independente de suas condições sociais, dos processos culturais que ajudam na definição das subjetividades. Ora, foram essas condições sociais que possibilitaram o nascimento da psicanálise, o desencantamento do mundo levou para a extrema intersubjetividade. As condições sociais continuam exercendo um papel de definição dos projetos de vida, da ideia de felicidade, de prazer, de ambivalência. Por isso Freud suprimiu os embates de classes, as questões econômicas, na indefinição do que é social só era possível falar do sujeito.     

A máquia construtora e destruidora de sonhos chamada "contemporaneidade' continua seivando vidas com o seu projeto de liberdade, de prazer extremo, de novas possibilidades, ainda que muitas pessoas ao conquistarem tudo isso não saibam exatamente o que fazer. A experiencia faz-se no fazer-se, portanto, as pessoas precisam passar pela existência para adquirirem sentido próprio, para depois exprimirem isso na literatura, lugar onde não se mente, os personagens é que são a realidade, não o paciente no divã. 

O que vai para a literatura é que se viveu, não há como falsear, mesmo quando os personagens "mentem". A mentira, a desonestidade, são as mais puras verdades daquilo que não se quis dizer, pronunciar. 

A psicanálise nasceu naquela ambiência da Viena de inicio do século XX para auto-tratamento da sociedade de então, um circulo de judeus, arianos às portas da primeira grande guerra mundial. Era uma catarse, ainda que individual e com muita resistência. Hoje, sem muita perspectiva social, sem grandes projetos utópicos, pululam as noções de que não há outra saída a não ser cuidar de si mesmos. Somos uma sociedade egoísta, narcisista, auto-referenciada, auto-centrada, doente, triste e sem esperança.     

O ego engana muito, falseia, menti, oblitera, esconde. Temos a doce ilusão de fazermos afirmações contundentes na esperança de crermos no que estamos falando, é uma auto-sabotagem. Mas..... não tem saída, é preciso viver, é preciso estar no palco da existência. Essa busca é infinita. Como é bom viver, só assim é possível descobrirmos quem nós somos.      

   

13 comentários:

  1. Ótimo post, Henrique, Assisti "UM MÈTODO PERIGOSO" há poucos dias e senti qe havia algo ainda a se dizer (para mim mesmo)sobre o sentido da obra. Foste de uma profundidade relevante para mim. Abraços e obrigado por oferecer aqui na blogosfera comentários sobre o filme.

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  2. meu caro sebastião ribeiro. que bom que gostaste do meu post, fico feliz em saber disso. vamos discutindo, trocando idéias porque é só nisso que acredito. abraços do henrique

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  3. Este comentário foi removido pelo autor.

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  4. obrigada pelo detalhamento, vc ajudou mto a entender o filme

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    1. que bom Cida Macedo. o filme nos ajuda a entendermos quem somos. abraços

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  5. Muito bom este artigo. Linguagem leve e clara. O mundo literário ganha com as publicações de Henrique. Parabéns (Margô Maia)

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    1. obrigado Mana. fazes parte desse meu processo de descoberta do mundo. te amo

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  6. então, como havia te falado, não gostei muito do filme não, acho que o texto tem alguns problemas, os diálogos são diretivos e meio óbvios , ele entrega muito fácil o que quer dizer e não sei se cai bem. a maior sacação do filme, é que o Jung discorda de Freud na etiologia sexual das neuroses, e acha que a psicanálise é reducionista quanto à sexualidade, contudo em seu trabalho acaba tendo relações com suas pacientes comprovando a questão da sexualidade no tratamento das neuroses, principalmente da histeria que é por si a estrutura do sujeito desejante, a histérica deseja o desejo e Jung cai onde o analista deveria não estar, toma para si o desejo da histérica quando não é com o analista, ele apenas está lá. A origem da psicanálise remonta a constatação do desejo da histérica, que nada mais é do que a mulher vitoriana, a mulher castrada que oferece seu corpo como pagamento para a culpa do desejo incestuoso.
    O filme não põe o desejo em questão, põe a repetição e o sintoma do Jung como uma fronte discursiva. Acaba oferecendo diálogos pobres para questões muito ricas.

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    1. Este comentário foi removido pelo autor.

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    2. então, depois que me falaste de "Freud - além da alma", me dei conta dos equivocos de Cronenberg, enfim, valeu pela dica. abraços

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  7. Comecei a ler o artigo e parei... primeiro vou assisti-lo (já o estou baixando). Mas li os comentários. Vi há algum tempo, "Freud além da alma" e só entenderei tudo isto depois que assistir o filme e vir aqui terminar de ler o artigo.

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  8. Henricão: gostei muito do post, uma interessante perspectiva de Freud e Yung. Viva a intersubjetividade!!! Um abraço grande.

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    1. veio. saudades meu querido. continuo na lida.

      abraços do irmão henrique

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