domingo, 1 de abril de 2012

CRIAR É RESISTIR, RESISTIR É CRIAR


Por Claudio Zanonni


Com estas palavras Stéphane Hessel, político francês que participou da resistência ao nazismo de 1940 a 1945 e da redação da “Declaração Universal dos Direitos Humanos” em 1948; embaixador francês na ONU; aos 95 anos de idade redigiu o que podemos chamar de manifesto à “insurreição pacífica” através do livro: Indignai-vos[1] que, em poucos meses, tornou-se um Best-sellers da literatura política mundial.

Inspirado em Sartre, do qual foi discípulo na juventude, e em Walter Benjamin, o autor traça um perfil do mundo contemporâneo conclamando a juventude a deixar a indiferença de lado e engajar-se[2] na luta contra as injustiças que a sociedade atual e a economia mundial provocam a cada dia. Isto é, dar respostas a um mundo que não nos agrada do jeito que está, um mundo onde as diferenças entre ricos e pobres se agravam sempre mais e onde a competição se sobrepõe à justiça, à paz e à democracia.

Indignação não significa emoção nem inércia, mas militância, força, engajamento, isto é, participarmos da história. Parafraseando Hegel, o autor contrapõe a história do progresso, da competição, do ter sempre mais à história da liberdade e da democracia: A história é feita de choques sucessivos, levam-se em conta os desafios. Segundo ele, a história das sociedades progride e, no fim, depois de atingir sua liberdade completa, o ser humano tem no Estado democrático sua forma ideal (Hegel, apud Hessel, 2011a, p. 14).

A pior das atitudes é a indiferença ou, como costumamos dizer: “não posso fazer nada”, ou “Deus quis assim”, etc. Mas se olharmos ao nosso lado encontraremos sempre algo injusto, algo pelo qual podemos nos engajar.

Assim o autor faz uma breve análise da situação palestina que viu de perto na Faixa de Gaza que considera uma prisão a céu aberto. Por isso, diz ele, a exasperação pode levar à violência como uma lamentável conclusão de situações inaceitáveis para quem as sofre. No entanto, a exasperação é uma negação da esperança.

Se olharmos a humanidade poderemos ver como o caminho da não violência foi trilhado por inúmeras pessoas que deram seu exemplo: Mandela, Martin Luther King e eu diria Sepé Tiaraju, Marçal Tupã-i e muitos desconhecidos que mostraram este caminho. A não violência é o único meio para que a violência possa cessar. A ameaça da barbárie fascista não desapareceu totalmente. O autor apela, nas palavras dos veteranos da Resistência por uma França Livre, para: Uma verdadeira insurreição pacífica contra os meios de comunicação de massa, que, como horizonte para os nossos jovens, só sabem propor o consumo de massa, o desprezo aos mais fracos e à cultura, a amnésia generalizada e a competição desenfreada de todos contra todos (Hessel, 2011a, p. 26).

A obra de Stéphane Hessel inspirou indignações pelo mundo inteiro no ano de 2011. Dos jovens espanhóis indignados contra a corrupção, aos gregos que manifestam contra as imposições econômicas de cortes de gastos públicos, e assim por diante na Islândia, em Portugal, em Israel, na Índia, na Itália e, não podemos deixar de fora as revoltas da primavera árabe, tão importantes para a democracia e os protestos em Wall Street.

Os indignados do Movimento 15 de maio (M15), que se reuniram na Praça Puerta del Sol em Madrid, se revoltaram contra a corrupção da política e dos políticos, contra a economia predatória e injusta, contra o desemprego dos jovens e contra a manipulação do governo da crise econômica.

Nos protestos de Wall Street milhares de norte-americanos ocuparam a praça em frente ao centro financeiro global para protestar contra a corrupção, contra um sistema financeiro único e impositivo e pela justiça social. Esses protestos mostram como uma parte da sociedade não aceita mais uma lógica capitalista perversa, uma ditadura econômica que submete, especialmente os países mais pobres, a seus interesses.

A primavera árabe mostrou como a organização via redes sociais está sendo importante para uma luta globalizada contra a corrupção, pela democracia, pelos direitos humanos, para diminuir a distância que sempre mais separa ricos e pobres, para derrubar políticos corruptos, etc.

Os jovens são o ponto principal que movimenta todas estas revoltas. Estão cansados de esperar por um futuro que não apresenta nenhuma luz no fim do túnel. Estão cansados de ser instrumentalizados por uma economia de massa. Estão cansados da corrupção que se espalha na política. Por isto então indignados e procurando, como exorta Hessel, os motivos reais dessa indignação. Em 1968 o movimento operário e, especialmente, estudantil provocaram uma reviravolta no mundo ocidental. Estamos perto dessa mudança histórica no começo do século XXI ou devemos esperar ainda mais para que as gerações jovens encontrem seu caminho? No entanto, não podemos ficar indiferentes, mas engajar-nos para uma sociedade mais justa e que, em nome dessa justiça, procure diminuir sempre mais as diferenças sociais e repartir mais entre todos.

Claudio Zannoni
Editor chefe do Caderno de Pesquisas da UFMA




[1] HESSEL, Stéphane. Indignai-vos. Trad. Marly Peres. São Paulo: Leya Brasil, 2011a
[2] HESSEL, Stéphane. Empenhai-vos: conversas com Gilles Vanderpooten. Lisboa: Ed. Planeta, 2011b.


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