quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

tróis couleurs

Sempre na mesma época do ano quando as chuvas já deixaram de verter suas águas há mais de 6 meses, já baixaram seu espelho, os campos estão mais secos, Damasceno aproveita para visitar as cidades dos campos baixos, carregado de bugigangas que compra de outros centros maiores, sempre trazendo novidades para os moradores da região. 

Numa dessas viagens tomou pé da morte de Francisco, jovem forte, alegre e sorridente, que numa tarde de pescaria caiu do barco e se enroscou numa rede de pescar sem conseguir se desvencilhar. Ao encontrar com Maria, mãe de Francisco, assídua compradora de panela, pano de prato, plásticos, todo tipo de tupperware, com rosto desfalecido, chorava copiosamente ao lamentar a perda do filho. Disse Maria que a perda do Francisco era uma dor lancinante, insuportável, que era uma injustiça da vida perder um filho tão jovem, afinal, quando um idoso morre é mais um barco que cumpre sua rota depois de muito ter navegado, mas quando isso acontece a um jovem é como se o mesmo barco aos poucos descrevesse um arco e evitasse atracar no cais. 

Depois de tomar uma xícara de café e de tanto ouvir os lamentos de Maria, Damasceno se surpreende com as lamentações incontidas e com a revelação de que a dor era tão insuportável que Maria pensara em se suicidar, afinal, a vida havia perdido o sentido. Foi aí que os anos como caixeiro viajante de Damasceno lhe serviriam para consolar alguém. Recolhendo durante anos histórias de superação como a morte, começa a narrar sobre como outras pessoas continuaram suas vidas, deram a volta por cima, encontram outros significados para além da dor. E disse mais. Francisco do outro lado da vida estava ouvindo aquela conversa, estava preocupado com a situação de tristeza da mãe, não era assim que gostaria de ser lembrado, que continuava amando sua mãe e que ela deveria recobrar suas forças, afinal, sua irmãzinha, Mundiquinha, precisava muito do apoio, presença e força de Maria. Enxugando as lágrimas Maria agradece as palavras de Damasceno, disse ter sido providencial sua passagem por ali e que faria de tudo para seguir em frente. Com um sorriso contido Damasceno se levanta, devolve a xícara de café, beija Mundiquinha, abraça Maria e vai visitar outras casas.

Antes, porém, de visitar Curió, hábil sapateiro da cidade, sem competidor na arte de fazer sandálias de couro e solado de borracha de pneu, avista ao longe os campos. Como dista mais ou menos uns 3 km até os bares à beira do lago, toma uma moto-táxi e pede para ir até um desses bares. Logo na chegada, encontram Tonico, cunhado do moto-taxista que o levara ao bar, sozinho e choroso, ouvindo música a toda altura, sonoridade ruim, letra idem, amargando a separação da mulher. Tonico só conseguia expressar a dor de ser abandonado, dizia não entender por que Doralice o havia deixado, se por influência de sua mãe, se no fundo usara tal pretexto para se desfazer do casamento, ou, se ainda havia outro homem na jogada. O certo que o pedreiro que passava tempos na construção de uma barragem que dista uns 700 km das cidades dos campos baixos lamentava o esforço em vão, noites e noites de horas extras para erguer a casinha. Nos planos a prestação do bólido, na casa, a ideia de uma churrasqueira no quintal. Tudo perdido. Pensava em vender a casa do jeito que estava. Estava completamente perdido, sem rumo e saber o que fazer. De novo o acúmulo de experiências de traições, abandonos e vidas recomeçadas recolhidas por Damasceno serviu para consolo de Tonico. Foram horas de conversa regada a cerveja, música alta e ruim, e os lindos campos baixos no horizonte. Depois de tanto ouvir os conselhos de Damasceno, Tonico pede a conta, toma a decisão de voltar ao canteiro de obra da barragem, fazer mais hora extra e continuar sua vida. Aliviado, Damasceno toma a moto-táxi de volta à cidade. 

Dois dias depois de apurar a venda, era hora de levantar o acampamento e rumar para outra cidade. Decide viajar de noite para no amanhecer dar tempo de chegar ainda na feira de Baixão, cidade também da região dos campos baixos. Quando ainda arrumava as coisas, vê um jovem se aproximar lentamente, preocupado, pensa se tratar de um assaltante. – Tem R$ 1,00 aí? disse o jovem. Abrindo a carteira Damasceno retirou o dinheiro e deu ao jovem. Foi aí exatamente que o jovem fez um movimento supostamente errático, colocando a mão direita para trás, sacando algo, Damasceno pensou ser uma arma e ficou ruborizado de medo, esquivo. Era a carteira de identidade. O nome era Tomás. Ligeiramente alcoolizado, Tómas disse ser aquele dia o seu aniversário, mostrando a data de nascimento. Seus amigos depois que acabou a cerveja foram embora. Damasceno o cumprimentou e felicitou pelos seu dia. É a primeira pessoa que me dá os parabéns hoje!! É um dia triste para mim, sem sentido, por isso estou vagando pela noite. Tá vendo esse corte aqui? (mostrando uma cicatriz abaixo do queixo), foi um cara que três anos atrás me furou nessa mesma praça aqui e agora à noite eu tô indo atrás dele para matar... Sabe o que todo dia ir ao espelho e ver essa cicatriz? Damasceno disse: Se você não me mostrasse, eu não notaria. E começaram a conversar. 

Tomás contou que tinha sido preso, morava com seus pais e era um inferno, adorava ir as festas para brigar, não tinha amigos e a vida não tinha sentido. Damasceno disse se valeria a pena ser preso por uma briga ocorrida três anos atrás, afinal, ele também estava armado e se em vez dele ter sido furado no queixo tivesse matado o outro rapaz da briga, ou mesmo o furado? Continuou explanado que a vida era maior que as brigas, os falsos amigos, que não valia a pena ser preso de novo, era muito jovem, apenas 21 anos de idade, e que no futuro Tomás se casaria e teria um filho. Ao ouvir isso desceu uma lágrima do rosto do jovem cicatrizado. Deram-se as mãos e Damasceno seguiu seu rumo. 

Ao cruzar a esquina reencontra Tonico subindo num ônibus rumo a cidade onde se construía uma barragem. Ao vê-lo Damasceno grita e acena para ele. Os dois dão-se as mãos. Tonico também estava um pouco bêbado e disse que não sabia o que fazer, mas ia seguir em frente. Iria voltar com mais dinheiro, erguer a casa para mostrar a Doralice que naquela cidade ninguém seria um melhor parceiro que ele. Foi a última vez que se viram.

Deixando o ônibus de Tonico ir embora, Damasceno olha para a cidade e se pergunta o que estava por detrás dessa viagem. Vê Tomás sozinho no banco da praça, olha para o ônibus e se lembra de Maria. Abaixa a cabeça, se sente feliz por ter ajudado três pessoas. 

Foi a melhor viagem de sua vida. Não ganhou tanto dinheiro, recolheu mais histórias e foi a primeira vez que deu conselhos a outras pessoas. Olhou suas bugigangas e pensou: ser caixeiro faz sentido, o que eu levo para mim é pouco da vida de cada um, não o que deixo de mim nas mercadorias.                                  
                                   

Um comentário:

  1. A crônica realmente é muito boa. Enquanto a lia, ia fazendo uma reflexão sobre o meu papel aqui na terra. Valeu!

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