sábado, 3 de dezembro de 2011

Rock e Juventude


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ROCK E JUVENTUDE
Por Claudio Zannoni
135 milhões de reais, dos quais 100 milhões em investimentos e 35 milhões com mídia; um impacto na ordem de 880 milhões de reais na economia da cidade do Rio de Janeiro. Ocupação hoteleira na ordem de 90% durante os cinco dias. 700.000 ingressos vendidos para 300 a 350 mil pessoas que transitaram na Cidade do Rock no mês de setembro deste ano.
Durante o evento, houve cerca de 240 ocorrências policiais entre furtos, venda de ingressos falsos, sequestro de armas, tentativas de invasão e expulsão de pessoas do recinto. Cerca de 10.000 atendimentos médicos nos cinco dias. Cerca de 200 toneladas de lixo foram recolhidas pela Conlurb. O mau cheiro tomou conta da “cidade do rock” quando o sistema de esgoto dos banheiros estourou, houve protestos resultando em quebra-quebra. Os serviços de alimentação foram precários e insuficientes para as pessoas que apareceram durante os cinco dias de show. Faltou também organização e preparação. A insegurança, em alguns momentos, tomou conta da população que ali estava.
Na medida em que o Rock in Rio se sucede, sempre mais pessoas afluem, o marqueting aumenta e os problemas são projetados de maneira exorbitante. Este ano os dados superaram em muito o primeiro Rock in Rio de 1985 que durou 10 dias apresentando ao público brasileiro bandas novas e ainda desconhecidas. Superou o de 1985 até na desqualificação do rock como um todo. A maioria das apresentações deste ano foi de artistas pop, axé, dance etc..., não de bandas de rock, as quais representaram a minoria. No primeiro Rock in Rio houve a preocupação dos organizadores em apresentarem um bom e atual rock incluindo bandas nacionais e internacionais.
O Rock in Rio deste ano mostrou a verdadeira cara do investimento capitalista. Salas Vip para mais de 2.000 convidados, dois palcos enormes dividindo os interesses das pessoas. Uma rua com lojas, restaurantes e bares. Desfiles de moda, shopping. Uma roda gigante, uma tirolesa, um free fall, uma montanha russa. Vale a pena se perguntar: houve, afinal, espaço para o rock? Um repórter, que dava cobertura ao festival, disse inconscientemente: “hoje haverá também um pouco de rock”. O negócio foi tão proveitoso para os bolsos que agora estão querendo realizar o Rock in Rio a cada dois anos.
Afinal, o rock, que surgiu como movimento de contestação musical e, sobretudo, social, que representou o desejo de mudanças de toda uma geração de jovens dos anos de 1960 em diante, hoje está sendo apropriado pela indústria capitalista que tanto foi contestada no seu surgimento. O que mudou de lá para cá?
Estou escrevendo olhando e ouvindo pela enésima vez o show de George Harrison em favor da população do Bangla Desh que estava morrendo de fome em 1968. Os valores que o rock apresentava se baseavam na justiça social, no respeito pelo diferente (Ravi Shanka tocando músicas indianas na sua citar), contra uma sociedade que oprimia os mais pobres, que explorava os últimos, que estava preocupada somente com seu próprio bolso. A partir deste show, podemos dizer, vários outros se sucederam em favor das populações da África morrendo de fome: Biafra, Etiópia etc... Os shows políticos: em favor de Mandella, pela liberdade da África do Sul; os live AID; contra o G7 e a política econômica; pelo respeito dos direitos humanos e assim por diante. Havia, sim, uma preocupação com o outro, com os que mais sofriam. Georger Harrison, Bob Dylan, Joan Baez, Eric Clapton estavam sempre à frente destes movimentos, mais tarde Bono do U2 e tantos outros.
Mas o que, a meu ver, deixou a grande marca do começo do rock foi o festival de música e arte de Woodstock de 1969. As gerações de hoje dificilmente poderão recuperar esse grande momento da vida no planeta. Digo isto porque sua repercussão em nível mundial não se deu por causa de um marqueting publicitário, mas pelo sentido que representou para uma geração jovem e esperançosa de mudanças. O lema do festival: three days of peace and music (três dias de paz e musica), como expressão da primeira exposição aquariana da história, representava o que de mais inovador e revolucionário havia surgido na sociedade americana: o movimento hippie. 500.000 jovens afluíram à pequena cidade de Bethel, a 150 Km de Nova York, como por um instinto e um desejo primordial de se encontrar e estar juntos. Ninguém esperava tanta gente e nem estava preparado para tanto. As estradas de acesso ficaram bloqueadas. Médicos, enfermeiros, freiras e muitos outros se ofereceram como voluntários para ajudar essa multidão de jovens e oferecer uma hospitalidade decente com a rala sopa oferecida. Ninguém, ou pouquíssimos jovens, tinham dinheiro para pagar o ingresso. Afinal, para que o ingresso se a motivação que eles tinham dentro de si era a de se encontrarem e vivenciarem uma experiência nova e despojada de paz, amor e música? Os organizadores, de fato, liberaram a entrada.
Comparados com os números do Rock in Rio, os de Woodstock foram bem diferentes. Os organizadores, para pagarem as dívidas do festival, tiveram que vender os direitos autorais sobre as produções relativas ao festival para as gravadoras: filmes, discos, logomarca e assim por diante. Mas dentro de si, nas palavras de Elliot Tiber, um dos organizadores do festival, “pode não ter mudado o mundo por completo, mas mudou drasticamente minha vida. E até hoje, toda vez que vejo uma camisa tié-dye ou ouço a música de uma das bandas do Woodstock, é impossível não sorrir” (TIBER, 2009, p. 292)[1].
Uma geração que proclamou o direito à “objeção de consciência” contra a participação na Guerra do Vietnam; uma geração que proclamava a igualdade entre todos os cidadãos; uma geração que se colocava em oposição à subida ao poder de Richard M. Nixon em janeiro daquele ano; uma geração que buscava liberdade, paz e amor. Tudo isto pode ser bem representado numa das músicas tocadas por Jimi Henderix como encerramento do festival quando entoou o Hino Nacional americano, entrecortado pelo som das bombas que caíam no Vietnam, nos efeitos de sua guitarra Fender Stratocaster. No dia 24 de abril de 1969, no ataque mais pesado da Guerra do Vietnam, haviam sido lançadas 3.000 toneladas de bombas atingindo a população desesperada. A foto representativa disto mostra uma menina de uns dez anos nua, ferida e ensanguentada correndo com os braços abertos quase a pedir o fim de tudo aquilo.
Não houve crime nem violência no festival. Não houve tumultos, nem estupros, nem ataques aos moradores. [...] Um espírito verdadeiro de generosidade, colaboração e comunidade tomou de conta das pessoas na fazenda do Yasgur. Dava para ver nos sorrisos largos, nos sinais de paz constantemente mostrados e na ajuda que ofereciam a desconhecidos. Mesmo as condições difíceis não diminuíram o clima festivo nem o amor e o carinho que as pessoas demonstraram umas às outras. (TIBER, 2009, 279-280).
Com estas palavras significativas quero encerrar esse editorial e colocar uns questionamentos no ar: esse espírito morreu? Onde está a geração jovem, cheia de esperanças e de desejos de igualdade e liberdade lutando por mudanças? Será essa a juventude que encheu os bolsos dos organizadores do Rock in Rio? As gerações de 1968 e 1969 exigiam mudanças significativas para uma nova ordem mundial e os estudantes foram a voz desse movimento. Hoje, a primavera árabe e o movimento por uma nova ordem econômica mundial podem ser as esperanças para o início do século XXI. Os jovens estão tendo, novamente, e terão, certamente, um papel primordial nas mudanças sociais.
Claudio Zannoni
Editorial publicado na revista
Cadernos de Pesquisa Vol. 18, n. 3
setembro-dezembro de 2011




[1] TIBER, Elliot. Aconteceu em Woodstock. Trad. Mariana Lopes. Rio de Janeiro: BestSeller, 2009.

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