terça-feira, 1 de novembro de 2011

UM SONHO DE LIBERDADE

UM SONHO DE LIBERDADE

Por Claudio Zannoni

Peço licença aos leitores para prestar uma homenagem a Dennis Hopper, ator e diretor de Easy Rider. A razão porque o faço é que, a meu ver, esse filme é uma síntese que melhor representa o sonho de liberdade da geração paz e amor. E, antes que me tomem por saudosista, o faço para que nunca esqueçamos o preço que a busca desse sonho custou, cujos resultados na atualidade tornam-se cada vez mais rarefeitos.

A liberdade é o ponto culminante da Contracultura dos anos de 1960 expressa por um grupo social que se sentia oprimido por uma sociedade capitalista em expansão.

Essa procura situava-se em contraste com uma sociedade que pousava como paradigma do ocidente, como exemplo do liberalismo econômico, político e social. Uma sociedade que, em nome desses valores e, após a vitória na Segunda Guerra Mundial, agora se colocava como “paladino” da divulgação e expansão do capitalismo no mundo inteiro. Uma sociedade que assumiu a guerra do Vietnã em nome do liberalismo democrático, que estava em ampla “guerra fria” contra o comunismo. Uma sociedade, enfim, que enviava seus jovens filhos para morrer nos campos de batalha, drogados, inebriados por um sonho irrealizável.

Estes mesmos jovens, que voltavam feridos ou destruídos psicologicamente pelas atrocidades que viam e às quais tiveram que assistir e, muitas vezes delas participar, são o estopim para um grupo social entre 16 e 28 anos que passa a lutar contra estes “valores” e a almejar uma sociedade sem barreiras sociais, igual para todos em condições sociais, econômicas e políticas, uma sociedade do amor, a sociedade de “Aquários”. Essa sociedade da contracultura que surgiu na década de 1960 representava um sonho e uma esperança almejada por muitos jovens no mundo inteiro: a da liberdade verdadeira, a da condivisão de bens, a da partilha.

Recusava uma vida na cidade em favor de uma vida em contato direto com a natureza, com a terra, com as águas, com tudo que representava liberdade.

É tudo isto que o filme Easy Rider, dirigido por Dennis Hopper, que faleceu no dia 29 de maio deste ano, queria apresentar aos jovens americanos. Um filme que celebrava a liberdade e o amor.

O rio corre
Ele corre para o mar
Onde quer que o rio vai
É onde eu quero estar
(.....)
Tudo que ele queria
Era ser livre
E esse é o caminho
Se despejar no mar
(…..)
(The ballad of Easy Rider: Roger McGuinn e Bob Dylan)

Mas esta liberdade e este amor, expresso pelas roupas, pelos cabelos compridos, pelas motos que conduziam no “redescobrimento” da América, do oeste para o leste, é ceifada por uma sociedade que se dizia liberal e da igualdade.

Essa sociedade matou a esperança desses jovens, dessa geração, desse amor lindo. Nas palavras de Jack Nicholson, que representava George Hanson no filme, “há uma diferença entre falar de liberdade e viver a liberdade. Eles falam sobre ela mas não gostam de quem a vive. Por isto, quem deve ter medo deles são vocês”.

Com estas palavras dormiu ao relento, acalentado pelo fogo, para despertar pela manhã e retomar a caminhada rumo à liberdade. No entanto, um golpe certeiro na cabeça, pelos mesmos que temiam a liberdade, não o deixou sentir novamente a liberdade de rever o sol nascer e a natureza regozijar de alegria com ele.

Esse mesmo sonho foi ceifado no final trágico do filme quando os dois personagens principais são mortos como se fossem pequenos animais de caça, por brincadeira de dois fazendeiros que representavam o poder, a sociedade do “bem estar social”, a sociedade das “liberdades individuais”. Essa cena, indiretamente, evocava as atrocidades cometidas no Vietnã por essa mesma sociedade.

Mas o sonho de liberdade não acabou aí. A sociedade da juventude e da liberdade sempre continuará procurando caminhos para manifestar seu desejo de vida, de amor, de justiça.

E a Universidade sempre teve um papel importante enquanto lugar de “fermentação” de novas idéias e de movimentos em defesa de grandes bandeiras. A liberdade foi uma das maiores de todas. Digo isso num momento em que o cerceamento dela, por um crescente autoritarismo no campo social, vem ganhando paulatinamente mais espaço.

Claudio Zannoni
Editorial publicado na revista
Cadernos de Pesquisa Vol. 17, n. 1
janeiro-abril de 2010

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