domingo, 4 de setembro de 2011

Coisa que Nunca Disse


Coisa que Nunca Disse

Por Cesar Borralho


Poesia é a parte exuberante da vida, tão exuberante que quase sempre parece não fazer parte dela. É uma atmosfera da arte ou a arte de uma atmosfera íntima. Poesia é o vento que leva o barco quando barco não há. É uma caravela dentro da gente. Poesia é a ilusão de que há uma beleza maior na vida ou a certeza dela. É uma coisa bela que dá na gente quando a gente tá contente e uma coisa boa que dá quando uma coisa ruim tá corroendo tudo por dentro, impacientemente, como quem quer nos matar.
Eu queria saber pintar. Eu queria saber compor música, cantar. Isso só sei tentar fazer com a palavra. Mas é tão difícil conseguir. Há um sopro que passa por dentro e precisa pousar ali no papel para continuar dançando. É como se não houvesse opção. Ocorre que preciso escrever! De todas as coisas importantes que já desisti na vida, esta é a única que não está entre elas. Quando algo dá certo, ela está ali por perto. Quando a gente fracassa, ela mesma cansada está lá. Quando não há nada, ela ali parada não deixa a gente cessar. A poesia nunca se cala em alguma palavra e nunca se farta. O poeta é o homem que não concreta a leveza do que ela não precisa, cai em sua asa, voa, desliza com as coisas. Um dia eu serei poeta, talvez!
Há alguns anos atrás, participei de um concurso literário chamado Festival de Poesia Falada, do Departamento de Assuntos Culturais (DAC) da UFMA. Penso que se tratava do mais importante festival de poesia do Maranhão na categoria de um único poema – tamanha é a escassez de eventos desta natureza. Eu era uns 10 anos mais jovem e para minha alegria, venci-o. Festival a gente não ganha, vence. O prêmio conferido ao 1º lugar era de uma importância pecuniária de R$ 600,00. Quem vence colhe certo louro e a vaidade mesmo que minimamente agradece. Drummond aconselha a quem participa de festivais de poesia: “Participe, o máximo que pode acontecer é receber um prêmio de um júri que sua consciência crítica não premiaria.” Ou quase isto. Tratei de criar um poema para o ano seguinte. Deixei na gaveta e o lapidava de tempos em tempos, com paciência, cuidado, cinzel e nuvem. Um dia não consegui mais mexer nele, fiquei satisfeito com o poema e o que consegui fazer estava feito. O festival chegou novamente e tratei de me inscrever, certo de que por se tratar de um trabalho que julguei melhor que o anterior, abocanharia pelo menos o 3º lugar. O festival era composto por várias eliminatórias. A queda veio antes do fim ou o fim veio antes da guerra. A primeira eliminatória foi fulminante: Desclassificado. Fiquei sem entender aquilo, achei injusto e por fim acatei, pois nada se pode fazer face ao resultado. Porém, não mais participei. Embora não tenha desacreditado de mim, desacreditei do festival. 
O tempo passou e morando em outro Estado, de posse do jornal local verifiquei um festival de poesia cujo prêmio era Francisco Igreja. Por achar que se tratava de algo paroquial, ignorei. Ano seguinte novamente a notícia veio ter comigo sobre o festival. Superei minha ignorância e li com atenção. O nome do prêmio se tratava de um nome próprio, uma homenagem póstuma e vitalícia ao idealizador da associação de poetas, o poeta luso-brasileiro Francisco Igreja. Inscrevi-me. O regulamento rezava que haveria apenas uma eliminatória selecionando os 20 melhores poemas e uma final na Biblioteca Nacional. Os dias passaram e de repente estava eu na final.
O dia chegara e quando abri a porta do salão percebi o quanto estava mal vestido O ambiente era suntuoso, o frio que fazia escondia as mulheres sobre belos casacos comprados para momentos como aquele e os homens vestiam ternos impecáveis ou charmosas jaquetas de couro. Saí imediatamente, fumei um cigarro, tentei administrar o súbito constrangimento e retornei. Afinal, não havia espaço para covardia.
Os poemas foram defendidos e um curto e aflito intervalo precedia o resultado. É sempre muito tenso o momento dos resultados, os nervos ficam agitados, a boca seca, um silêncio interior se confunde com um medo que não dá para controlar, até que o júri anuncia finalmente a decisão e não há mais nada há fazer. Em 3º lugar: Renata Paccola: Paulista, autora dos livros de poemas De Vulto A Volta (Ed. Mirante, 1983), Tempo (Ed. Scortecci, 2003) e Grilhões de Vidro (Ed. Scortecci, 2003). Renata Paccola é Presidente Estadual da Sociedade de Cultura Latina do Brasil (SP) e 1ª Secretária da União Brasileira de Trovadores (UBT), seção São Paulo. Premiada em centenas de concursos literários no Brasil e em Portugal. Com o auxílio da web é fácil verificar, tá lá.
Em 2º lugar foi premiado Aníbal Albuquerque. Mineiro, pertencente à União Brasileira de Escritores, a Arcádia Brasílica de Artes e Ciências Estéticas, do Rio de Janeiro, a Academia Tricordiana de Letras e Artes, a Academia Varginhense de Letras, Artes e Ciências e a Academia de Letras do Brasil — Mariana. Embaixador Universal da Paz do Cercle Universel des Ambasseurs de la Paix (Genebra – Suíça). Condecorado com a “Medalha Olavo Bilac”, concedida pelo Cenáculo Brasileiro de Letras e Artes (1998). Foi eleito “Príncipe dos Escritores Brasileiros”, em Concurso Nacional promovido pela ALECI-SL.
A esta altura a expectativa está ao lado da derrota. Quando só falta o 1º lugar e não se está em 3º ou 2º, só resta tudo ou nada. A tensão chegava ao ponto máximo. Eu não tinha a menor chance, pensei, mas não dei crédito ao pensamento. E o júri anuncia o poema O Carteiro, de César Borralho em 1º lugar. Demorei alguns segundos para acreditar. Maranhense, natural de Codó, nada nunca publicado, não tem nem currículo Lattes online. A vida tem maneiras estranhas de nos convocar a auto-estima. Fiquei muito feliz e isto me sublimou. Em pouquíssimo grau e de curtíssima duração senti um desgosto, amargor, decepção com a ingrata(?) Ilha de São Luís e seus mentores da cultura. Explico imediatamente. O poema premiado, O Carteiro, foi exatamente o mesmo que fora antes em São Luís d-e-s-c-l-a-s-s-i-f-i-c-a-d-o. Não modifiquei, oclui, ou acrescentei uma só vírgula. Do jeito que estava ficou. Como disse antes, na web a gente pode constatar mais rápido as coisas: http://www.apperj.com.br/festival_poesia_faladarj.htm. O site da APPERJ – Associação Profissional de Poetas no Estado do Rio de Janeiro é referendado no Diretório Mundial de Poesia da UNESCO. Este acontecimento me fez seriamente repensar minha cidade neste quesito, mas tratei de ficar em silêncio até agora.
Algumas coisas em São Luís pecam contra a sensibilidade, mas a sensibilidade é um dom que a gente descobre quando ela nos beija a boca como quem ama ou com quem morde. Para guiá-la é necessário ser conduzido por ela e para tanto, é preciso mais que técnica, é obrigatório uma vontade gratuita. A técnica é um acidente da razão, a última a ser convidada para a festa, é tão modesta que não sabe dançar, tem nada a ver com isso mas faz questãozinha imensa de estar lá.
Eu nunca sei se insistir é a coisa certa a fazer ou burrice mesmo. Com muitos conflitos internos decidi que pior do que reclamar dos espaços conquistados é não tentar conquistá-los. Ano passado encontrei um amigo no bar e me falou que no dia seguinte se encerrariam as inscrições do Festival de Poesia do DAC. O prêmio havia melhorado consideravelmente. 1º Lugar R$ 1.600,00. 2º R$ Mil e alguma coisa, 3º Mil reais. O resultado chegou rápido pra mim, desta vez fiquei em 3º lugar. Bom, isto já vai fazer aniversário de um ano, mas não há bolo nem vela, pois o DAC ainda não pagou o prêmio. Por vários motivos é difícil ser poeta em São Luís, além de tudo, agora precisa de advogado também?

 César Borralho

2 comentários:

  1. Caro Cesar,
    Felicitações pelo seu texto e desde já creio que compactuo com algumas de suas angústias, mesmo não sendo poeta. A poesia para mim as vezes funciona como uma contra-resposta, um incômo efêmero que provoca tantas coisas que não podem ser caladas, têm-se de escrevê-las. Seria umas daquelas quase infinitas vozes que passavam, as vezes mudas e outras proibidas, por dentro de Whitman. O próprio em Folhas de Relva acabava por dizer que “o dito e o escrito não provam quem sou” e disso acabo a crer que essas angústias talvez nem sejam nossas. O que atesto está para o acaso e para o mundo das amorfas ideias de tal forma que têm-se de estar quase em um estado especial para ler poesia. Essa, ao meu ver, nem poderia ser enquadrada, julgada, valorada e muito menos qualificada oficialmente. Assim como todas as traduções são imperfeitas, todos os julgamentos o são e todas as nossas impressões sobre isso tudo é senao resultado de angustias. Em “ V de Vingança”, uma frase me chama a atenção: “O artista mente para contar a verdade”... a mentira ( ou a arte ) é sinuosa, intencional e perspicaz, por isso mesmo “indecifrável” e todas as interpretações são , também, imperfeitas.
    Acabei a fugir do foco, mas poderias publicar aqui em Versura o todo ou parte de sua poesia, ‘O Carteiro’.
    Abraço.

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  2. Caríssimo Romario Basilio,

    Agradeço pelo comentário. E que comentário! Você não fugiu do foco, pelo contrário, ampliou a questão e tocou na origem, tanto que neste nível torna minha questão irrelevante, pois ela se encontra em uma esfera superficial nas duas instâncias. Mas a gente caminha na superfície também. Em uma instância, há uma racionalidade para o indecifrável. Decisões são tomadas e obedecem a uma lógica. Na superfície a arte está sob julgamento, valoração, enquadramento. Recebe etiqueta, carimbo, preço. É terrível, mas é a moeda da nossa contradição. Em outra instância, somos pequenos e mesmo os grandes poetas não estão fora desta contradição. Criticaram festivais, evitaram festivais e os venceram. Os festivais consagram, dão visibilidade, incentivam a produção também. Creio que ao Chico Buarque os festivais da Record fizeram um bem danado. Idem o Jabuti hoje. Melhor seria se ninguém precisasse deles. Mas será que não é o festival que precisa do artista? Há uma questão que passa pelo reconhecimento, outra pela necessidade, outra pela vaidade. Noel vendia suas músicas por quase nada, Picasso vendia seus quadros por uma fortuna. Não se trata do valor, mas do mercado. Aí mora o “pecado”. Porém, ainda não estamos em estado de evolução social e espiritual tão elevados a ponto de não vendermos as coisas que não têm preço. Contudo, há riqueza na miséria humana.

    César Borralho.

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