quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Frustração ou revolução

FRUSTRAÇÃO OU REVOLUÇÃO

Por Cláudio Zannoni

Meninos calados, doentes, de olhos fundos. Era a precocidade. Era a opressão da pedagogia sádica, exercendo-se sobre o órfão, sobre o enjeitado, sobre o aluno com o pai vivo mas aliado do mestre, no esforço de oprimir a criança.[...] É bem expressiva a alcunha que o povo do Rio de Janeiro pôs nos meninos de São Joaquim: carneiros. Carneirinhos. Calados, olhos tristes, sem vontade própria, eram mesmo uns carneiros (FREYRE, 1990, p.81)[1]

Há cerca de um ano uma mãe me dizia estarrecida que, ao matricular um filho adolescente ouviu da diretora o seguinte: pode esquecer o cineminha aos sábados e domingos, pois aluno dessa escola não tem fim de semana.
Achei absurdo, e ao mesmo tempo fui ingênuo ao pensar que aquele era um caso isolado. Por isso,  em homenagem aos estudantes de modo geral elaborei esse editorial.
Primeira cena: embalados pelo som doce dos acordes de um violão ouvi que a educação é um processo em construção. Nesse momento entram em cena diversos personagens: o professor, o aluno, o faxineiro, o carpinteiro, a secretária e muitos outros profissionais. Era o compartilhar silencioso da ideia de que a educação era como aquele pão ali, dividido entre todos de forma igualitária, simbolizando que a educação é algo que se aprende no dia a dia, que os alunos constroem junto com o professor, que é vivida por todos. Na plateia, havia muitos pais e mães espectadores. Ouvi alguém dizer: “Já ouvi isso inúmeras vezes, quero algo concreto para o meu filho”.
Segunda cena: retira-se a música, retira-se a mesa da comunhão. Mudança de cenário. Agora o som estridente de um microfone saúda a todos. Uma voz firme apresenta, para os pais e mães ali presentes qual será o futuro para seus filhos:
- Nossa escola tem como princípio educar o homem na sua integralidade, numa educação interdisciplinar e transdisciplinar completa que envolva as diferentes áreas do conhecimento. No entanto, para o Ensino Médio o aluno deverá ser acompanhado. Por isso, ele terá aulas pela manhã, a tarde, e para alguns, à noite também. Nosso Ensino Médio prepara o aluno para concursos, essa é a nossa meta final, porque essa sociedade exige que ele seja um aluno preparado para se sair bem na vida.
A plateia aplaude fragorosamente. Olho em volta e me sinto só. Sinto um profundo pesar pela morte da educação.
Terceira cena: todos saem, aparentemente alegres e contentes, mas no fundo angustiados, alguns procurando saber se a educação será a da primeira ou da segunda cena. Afinal, meu filho em que série está?
Parece uma peça de teatro, mas é a realidade que vivenciei num colégio da capital. Uma grande frustração tomou conta de mim. Imagens de um passado recente me vieram à memória naquele momento, imagens de uma educação que eu sonhava para os nossos filhos e filhas. De uma educação em que o professor é apenas o facilitador. Dizia-se naquele tempo: o professor não tem respostas prontas, ele indica caminhos para que os alunos procurem encontrar suas respostas sozinhos. Isso é educação. E nós lutamos por isso: pela liberdade de expressão, pela arte de construir, pela alegria de estar juntos, pelo amor á vida, pelo respeito á natureza.
Será que todos esses valores foram suplantados pela ideologia capitalista, pela concorrência , pelo desejo de ser e ter mais, de ser o primeiro, o melhor, o mais bonito, o mais inteligente? Dos milhares que fazem concurso para algumas míseras vagas só alguns conseguem passar, porque todos não podem. E o que dizer dos que não conseguem?
- Que são inferiores?- Que são incapazes?
O que sentem os reprovados?
- Frustração?
- Sentimento de incompetência?
- Sensação de derrota?
Será que esses não eram tão capazes quanto os outros? Não eram tão humanos quanto os outros?
Saber fundamental á prática educativa do professor ou da professora é o que diz respeito à força, as vezes maior do que pensamos, da ideologia. É o que nos adverte de suas manhas, das armadilhas em que nos faz cair. É que a ideologia tem que ver diretamente com a ocultação da verdade dos fatos, com o uso da linguagem para penumbrar ou opacizar a realidade ao mesmo tempo em que nos torna “míopes” (FREIRE, 2008, p.125)

Quero com isso convidá-lo a refletir sobre a educação que queremos para os nossos filhos. A educação do vitorioso e do perdedor ou a educação para a vida, onde cada um encontre seu espaço? Afinal, marceneiro, médico, professor, músico, ator … são somente profissões, cuja razão maior de existir deve ser o serviço à população e não somente o bolso.
A vida de um ser humano varia muito. Hoje fala-se de uma expectativa de vida de mais de setenta anos para a população brasileira, mas nem todos conseguem chegar lá. Quantas vidas se perdem no caminho. Então, de que vale estudar...estudar...estudar se o estudo não for vivenciado com o lúdico, com a ternura, com o amor, com todas as belezas que a vida pode oferecer em tão pouco tempo?
O que será de nossos filhos que devem passar doze horas entre estudo e sala de aula, oito para dormir, quatro para os intervalos de café, almoço, janta, televisão e internet? Onde estão as horas em que passávamos brincando, embora jovens, com nossos companheiros da mesma idade? Hoje cada um vive isolado em sua casa. Cada família luta pelo “bem dos filhos” e muitas vezes esquecem que uma hora “perdida” por dia ajuda a construir o futuro deles. Será que um dia não nos dirão o que disseram nossos ídolos do passado?

Não precisamos de educação!
Não precisamos de controle mental!
Nada de sarcasmos na sala de aula!
Ei, professores, deixem as crianças em paz
Afinal, você é somente mais um tijolo no muro...
(Another Bringh in the wall – Pink Floyd)

Talvez coubesse dizer: nós não precisamos desse tipo de educação que privilegia o conteúdo em detrimento do desenvolvimento do sujeito educando tendo a clareza de que cada educador, em quaisquer dos níveis, é tão importante quanto um tijolo na parede e que “[...] quem ensina aprende ao ensinar e quem aprende ensina ao aprender. Quem ensina ensina alguma coisa a alguém. Por isso é que, do ponto de vista gramatical, o verbo ensinar é um verbo transitivo-relativo”.(FREIRE, 2008, p.23)[2]. Afinal “Ninguém é sujeito da autonomia de ninguém”[3].
Na década de 1960 essa frustração eclodiu para o “sessenta e oito estudantil” onde os alunos saíram às ruas para protestar contra essa sociedade opressora e em favor da liberdade. Essa revolução foi o eco de uma juventude que revolucionou os comportamentos sociais e propôs uma nova sociedade. A nova sociedade jovem pode se tornar a sociedade revolucionária dos valores da justiça, da liberdade, do amor, tão pregados pela sociedade jovem da década de sessenta. Uma sociedade que lute por uma educação libertadora, contra uma educação mecânica e conteudista.
Como a revista Cadernos de Pesquisa, volume 17 número 2, traz artigos sobre educação, essa é uma boa oportunidade para pensarmos sobre as inquietações aqui expostas, que, antes de serem minhas, podem ser de qualquer um, podem ser de todos nós.

Claudio Zannoni
Editorial publicado na revista
Cadernos de Pesquisa Vol. 17, n. 2
maio-agosto de 2010



[1]              FREYRE, Gilberto. Sobrados e mucambos: Introdução à história da sociedade matriarcal no Brasil. 8ª ed. - Rio de Janeiro: Record, 1990.
[2]              FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia. São Paulo: Paz e Terra, 2008.
[3]              Frase tirada da capa de um dos livros de Paulo Freire: Pedagogia da autonomia.

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