quinta-feira, 27 de junho de 2013

O Pathos Brasileiro

O PATHOS BRASILEIRO
* Marcos Antônio Macêdo Muniz

A liberdade democrática é uma das conquistas mais excelentes da vida política. Ninguém, exceto os amantes da tirania, ousaria dizer que não gosta da livre expressão, da mobilidade, da vivência dos credos e do exercício crítico da cidadania como efetiva participação em seu país e no mundo.

Um povo pode até passar dificuldades, viver desigualdades e experimentar dores em suas entranhas; pode suportar muitas contingências e toda sorte de contradições, pode até mesmo sacrificar-se para salvar uma nação, quase tudo pode suportar, menos perder sua liberdade. Afinal, a liberdade é a dimensão que possibilita os homens, como seres históricos, a lutarem para superar suas menores e maiores necessidades. Sobre a liberdade, Kierkegaard, Sartre e outros pensadores, afirmaram em seus escritos, ser ela a possibilidade que nos permite escolher e escolher, entre várias alternativas.

Nos últimos dias, os jovens, em especial, mas também adultos e idosos movimentaram, de forma espetacular e emocionante, as ruas e praças do Brasil, de São Luís a São Paulo, para evidenciar as gangrenas brasileiras e, em tom brasileiro, de forma comovente, reivindicar soluções para estes problemas históricos.

A expressão em massa nos mais diversos pontos do país revelaram e revelam as mudanças que precisam ser efetivadas. Na pauta constavam e ainda constam tópicos como: contra corrupção, melhoria considerável do ensino público, contra PEC 37, melhoria nos transportes, na saúde, reforma política e outras bandeiras de lutas. A geração que estava recolhida dos movimentos sociais e da política, a geração que aparentava apatia e desinteresse causou uma surpresa dando um golpe na lógica da necessidade moderna. 

Contrariando as análises acadêmicas de cunho racionalista e cientificista, os jovens voltaram às ruas surpreendendo, não somente o governo, mas outros segmentos da sociedade. Num instante, aquele êxtase, como diz Kierkegaard, quando no horizonte das múltiplas possibilidades, “o tempo tange a eternidade e a eternidade visita o tempo num phatos social extraordinário”. Aconteceu e está acontecendo a maior expressão política, o maior clamor com efeito cascata que já aconteceu no Brasil. “Verás que um filho teu não foge à luta”, trecho do Hino Nacional Brasileiro pulsando no coração dos jovens.

Essa comoção política, essas atitudes transformadoras, mostram, como diz Marx, nosso caráter de “sujeitos da História”, agentes transformadores, cidadãos em efetivos exercícios políticos por uma sociedade emancipada. As ondas recolhem-se depois de espraiar nas margens das praias e espraiam novamente após dobrarem-se para novos avanços. Esse movimento existirá enquanto existir História.

Muito embora essas movimentações sociais reluzam os anseios justos dos brasileiros, muito embora o dinamismo das diversas expressões contra um conjunto de “velhacarias” venham com força desobstruir práticas viciadas e cretinas, é preciso estar vigilante contra as atividades vândalas e sociopatas que penetram no movimento colocando em perigo nossas liberdades e o desenvolvimento da consolidação democrática no país.          


VIVA O MOVIMENTO DE LUTA DOS BRASILEIROS; FORA AS MANOBRAS REACIONÁRIAS DA REDE GLOBO.

A Rede Globo não mostrou, não deu destaque, por exemplo, ao movimento grevista de mais de três meses de luta dos professores, alunos e técnicos administrativos ocorridos em todas as Universidades e Institutos Federais de Educação Tecnológicas em 2011/2012, respectivamente. Porquê? Fora este movimento de luta, outros tantos estiveram longe das telas sem destaque ou, quando muito, apenas lances tênues de filmagens sem maiores repercussões. Quando os holofotes da Globo miram insistentemente nas lutas sociais é preciso, no mínimo, desconfiar. Dificilmente será uma postura por sentimentos substancialmente democráticos ou por valorização das lutas dos trabalhadores contra situações anti-burguesas. Com a mesma vigilância, é preciso proceder em relação as diarreias ocorridas no grandioso movimento social. Grupos infiltrados, personagens mascaradas e outros agentes com rostos velados vão se aproveitando das marchas para gerarem desarranjos na contramão dos verdadeiros propósitos dos manifestantes pacíficos. 


Exatamente aí que moram as ameaças à democracia. Para fundamentar esta tesa exemplifica-se o fato das queimas de bandeiras de Partidos Políticos durante os cortejos. A democracia é feita por manifestações de toda ordem, desde às minorias às maiorias, dos estamentos às classes sociais, das categorias simples às mais complexas, dos gêneros, dos negros, das domésticas, enfim de todos os cidadãos. Incluir é uma das palavras de ordem ética e excluir é discriminatório e antiético. Exceder-se com este comportamento é cultuar, ainda que inconscientemente, o fascismo. 

Além de tudo, abrem-se as portas para essas forças antidemocráticas se instalarem e agirem, muitas vezes de forma vândala, para passar a imagem de que o caos impera no país. Como bem diz Platão, na República, “a tirania se instala quando a licença exagerada decompõe a democracia”, não é à-toa que nas redes sociais algumas pessoas emitem palavras de ordem pela instauração da ordem e outras vezes pelo retorno do Regime Militar. Diga-se de passagem, as ditaduras tem outros modos de se instalar no poder para conter os passos avançado do Gigante rumo a excelência mundial, reimplantando seu rotineiro entreguismo e nutrição de práticas degenerativas ou corruptas de alas burguesas decadentes.

Para ser mais sintético se faz necessário dizer que é fundamental avançar com a pauta nacional estabelecendo os canais para encaminhamento sem, contudo, renunciar às pressões, claro! Todavia, é importante armar uma barreira para que grupos fascistas e oportunistas não coloquem a democracia em risco.

VAMOS CONTINUAR A LUTA, VAMOS AVANÇAR!


* Profº Ms. de Filosofia Política da UFMA e IFMA.

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