quinta-feira, 25 de outubro de 2012

História e Memória nº 2


Não se afobe, não
Que nada é pra já
O amor não tem pressa
Ele pode esperar em silêncio
No fundo do armário
Na posta-restante
Milênios, milênios no ar

E quem sabe então
O Rio será
Alguma cidade submersa
Os historiadores - escafandristas virão
Explorar sua casa
Seu quarto, suas coisas
Sua alma, desvãos
Sábios em vão
Tentarão decifrar
O eco de antigas palavras
Fragmentos de cartas, poemas
Mentiras, retratos
Vestígios de estranha civilização

Não se afobe não
Que nada é pra já
Amores serão sempre amáveis
Futuros amantes, quiçá
Se amarão sem saber
Com o amor que um dia
Deixei pra você.

(Futuros amantes, Chico Buarque. 1993. Paratodos)

Imaginem a seguinte situação: num futuro inexato a cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro foi inundada por uma razão desconhecida. Muito milênios depois mergulhadores de uma civilização que não teve contato com o Brasil, muito menos com o estilo de vida dos moradores do Rio de Janeiro ou de Niterói, exploram as profundezas no intuito de tentar entender o modo de vida dos moradores destas cidades. Como não há sobreviventes, precisam tentar recompor cenários a partir de fragmentos. Eles recolhem cartas, retratos, armários, posta-restante e se perguntam quem eram aqueles moradores, como pensavam, como se amavam, por que poetizam, como viviam, etc ?

Usei a música do cantor e compositor Chico Buarque como analogia para tratar de algo tão caro aos historiadores: a tentativa de resgate do passado. Assim como os sábios da canção em vão tentarão decifrar os ecos de antigas palavras, fragmentos de cartas, é o ofício do historiador que utiliza os documentos na tentativa de resgate de um modo de vida que se perdeu para sempre. Os que os historiadores fazem é a partir da composição de documentos, lançar perguntas ao passado, tentando recriar cenas e interpretar o estilo de vida de nossos antepassados. Às vezes é em vão. A falta de documentos, de esclarecimentos sobre o período, de compreensão sobre a época, mais nos afasta do que nos aproxima do passado. Portanto, aquilo que se diz sobre o passado não é a exatidão sobre ele, é uma aproximação, uma representação de como possivelmente viveram os nossos ancestrais. Aproximação e representação que pode ser refletida por todos aqueles que se debruçam sobre a difícil tarefa de vasculhar o passado de qualquer civilização, cultura, povo, grupo étnico, aglomeração humana, classe social, entre outros, distante ou próxima, ontem ou hoje.

Para Eric Hobsbawn, historiador social inglês, a história não pode resolver os problemas que a humanidade enfrentou no fim do milênio e enfrenta neste início. A história não faz previsões e nem sabemos para onde estamos indo. Só sabemos que a história nos trouxe até este ponto.

O tempo é elemento fundamental ao estudo da história. Norbert Elias afirma: o tempo não se deixa ver, tocar, ouvir, saborear, nem respirar como um odor. Mas, apesar de aparentemente abstrato, o tempo é uma vivência concreta e se apresenta como categoria central da dinâmica da história.

A história trabalha com a sucessão linear de fatos e simultaneidade social. O passado apresenta-se como vidro estilhaçado de um vitral antes composto por inúmeras cores e partes. Buscar recompô-lo em sua integridade é tarefa impossível. Buscar compreendê-lo através de análises dos fragmentos é desafio possível de ser enfrentado. É função da história e da memória tal tarefa.

Para Boaventura de Sousa Santos afirma que a função da história e da memória é evitar que o ser humano perca referências fundamentais à construção das identidades coletivas que ajudam o homem no auto-reconhecimento como sujeito de sua história.

Para o poeta Poulet, graças à memória, o tempo não está perdido, e se não está perdido, também o espaço não está.

Mas história e memória não são a mesma coisa.

Toda a consciência do passado está fundada na memória. Através das lembranças recuperamos consciência dos acontecimentos anteriores, distinguimos ontem e hoje e confirmamos que já vivemos um passado.
O ato de lembrar consiste em:
-     reacender e reviver sonhos e utopias;
-    reconstruir atmosferas de outros tempos;
-    relembrar hábitos, valores e práticas;
-    reacender emoções de diferentes naturezas individuais, sociais, políticas, culturais;
-    relembrar convivências mútuas;
-    representar e reativar correntes de pensamento;
-   reconstruir climas de religiosidade, de lazer, de companheirismo, de lutas.

Memória é evocação do passado, estabelecimento de nexos, afirmação de identidades, atualização do passado no presente, enquanto história é produção intelectual do saber, práxis interpretativa da realidade, reflexão sobre si mesma, área do conhecimento sujeito à verificação, espaço institucional do saber, produto social, conjunto organizado de produção de memória, narrativas que se contrapõe ao efêmero.

Para Pierre Nora o criticismo da história destrói a memória. No entanto, ambas são antídotos do esquecimento e também espaços de poder, ser portador de um tipo de memória é ser senhor da história, conforme Jacques Le Goff. A história tanto pode ser destruidora da memória quando reguladora desta, quando retira o caráter espontâneo e a transforma em história institucional, quando cientificiza a espontaneidade. Mas também a alimenta; quando enriquece as representações possíveis da memória; fornece símbolos e conceitos para que a sociedade pense sobre si mesma; recupera e difunde a memória; reativa as lembranças através da narrativa.

História e memória se nutrem, mutuamente, ou como diria Eric Hobsbawn: o ofício do historiador consiste em lembrar às pessoas aquilo que elas já esqueceram.                   

   

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