quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Peru: herança pré-colombiana

Todos os lugares do mundo são inusitados, cada qual com sua peculiaridade. Em cada região uma semiologia do lugar a ser feita, gostos a serem provados, paisagens a serem observadas, impressões a serem marcadas. 

Nenhum lugar me marcou tanto quanto o Peru. É simplesmente divinal. A chegada de avião sobrevoando os Andes com partes cobertas de gelo, a parte cinzenta já próxima da capital, Lima - por sinal, um lugar excitante à parte -, menos que o restante do país, claro. 

Lima possui 19 milhões de habitantes, muito parecida com São Paulo, pero no mucho. Peru é incaico, logo, seus habitantes são descendentes do povo imperialista pré-colombiano que deixou marcas indeléveis naquela fantástica gente. 

Seus distritos são muito característicos. Muito me apraz o de Barranco, local onde viveu Chabuca Granda (autora de Fina Estampa) e onde Mario Vargas Llosa escreveu La cuidad e los Peros. Ao lado do distrito de Miraflores, Barranco fica em frente ao Pacifico, majestoso, imponente, gelado. 

Nesse distrito guardo uma história triste. Certa noite quando sai para jantar, após ter bebido pisco em alguns bares, me dirigi aos restaurantes em frente ao mar. Deparei-me com Antonio, empregado encarregado de levar turistas para os seus devidos estabelecimentos. Convidei-o para jantar comigo, assim o fez. Foi quando me contou de sua triste história. No terrível terremoto de 2006, quando morreram cerca de 200.000 peruanos, sua mulher e seus dois filhos foram suas vítimas na cidade de Arequipa. Viúvo e completamente desamparado, mudou-se para Lima onde tenta convencer turistas a comerem no restaurante que trabalha. Depois fui a uma boate onde conheci Rogélio, peruano da gema e conversamos sobre politica. 

Em Miraflores há um conjunto piramidal no meio do distrito, se chama Huaca Pucllana, conjunto arquitetônico pré-incaico, construído pela cultura Wari.

Há 40 km do centro de Lima fica a cidade dos reis, Pachacamac, um conjunto arquitetônico colossal onde cultuavam o deus-sol, Inti.

Mas, nada se compara ao interior do Peru, inigualável. Só conheci o vale sagrado, as cidades de Machu Pichu, Ollantaytambo, Urubamba, Maras, Morai, Chincheiro, e Cuzco, umbigo do mundo.

Em Chincheiro tentei participar de um culto xamanico, as campônias que organizam o culto disseram ao meu guia falando em Quéchua que eu especificamente e especialmente não deveria e não poderia participar. Tentei argumentar, em vão.  

Peru está num processo de transição entre uma modernização acelerada e os conflitos acerca da preservação das tradições. O conflito entre essas questões estão latentes. O Brasil por exemplo, que para o bem e para o mal ingressou nessa lógica da modernização conservadora, parece ser uma sociedade mais amorfa que a peruana. Só não sei ao certo como os peruanos irão conduzir esse processo, quais as sequelas, consequências, rupturas e permanências.

Enquanto isso, vale a pena sentir-se latinoamericano dentre um dos povos mais fascinantes da terra, esquecer por alguns momentos a lógica acelerada do capital e voltar no tempo, no tempo dos descendentes dos povos pré-colombianos.

Eu vou voltar ao Peru.              

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