segunda-feira, 22 de outubro de 2012

O delicado equilibrio politico da América Latina: golpes, populismos e reeleições

O cantor brasileiro Caetano Veloso na sua música Podres Poderes disparou:

Enquanto os homens exercem seus podres poderes/matar de fome de raiva e de sede/são tantas vezes gestos naturais...... será que nunca faremos senão confirmar a incompetência da América Católica/ que sempre precisará de ridículos tiranos?  

No artigo intitulado Ser latinoamericano (publicado em 26 de junho de 2012 neste blog) acerca do golpe de estado que retirou o presidente Fernando Lugo do poder no Paraguai, dissertei acerca do que considero os três conceitos definidores do que vem a ser a América Latina: o etno-histórico, o geo-político e o cultural.

O conceito etno-histórico deita lógica na origem ibérico-católica, ou seja, os países que foram colonizados por Portugal e Espanha, excetuando-se Caribe, Guiana Francesa, Inglesa e Holandesa. 

O conceito geo-politico assenta-se na definição de todos os países da América, excetuando-se os do Norte, México, Estados Unidos e Canadá.

E o conceito Cultural, que leva em conta os países das três Américas, excetuando-se Caribe e Brasil. 

A questão acerca da problemática definidora do que vem ser a América Latina encontra-se na sua origem, o projeto pan-americano desenvolvido por José Marti e Simon Bolivar. Não tardou para tal projeto não lograr êxito em virtude da fragmentação politica do continente pós-emancipação das ex-colônias, corroborado pela intervenção inglesa, dos Estados Unidos e a formação do império brasileiro, caso único no continente.

Com a fragmentação política, oriunda das lideranças crioullas, o autoritarismo passou a ser uma marca da região. O modelo brasileiro de projeto de nação assentado na escravidão garantiu a unidade territorial, mas dificultou a integração da região, vide o lastimoso e lamentável episódio da tríplice aliança (Brasil, Argentina e Uruguai) massacrando o vizinho Paraguai na famigerada Guerra (1864-1870). 

A origem do autoritarismo está no processo de independência dos países da região assentada nas lideranças crioullas não alterando a ordem vigente de antes da emancipação política. O liberalismo na América Latina, ao contrário dos E.U.A, foi extremamente conservador. As elites locais temiam as revoluções e para agravar o caso de fragmentação politica o império brasileiro anexou o vizinho Uruguai. 

Destarte, predominou a partir de então oligarquias locais e o caudilhismo usou a violência como estratagema de manutenção do poder. No Brasil, prevaleceu o poder dos coronéis, nosso caudilhismo. 

A ausência de poderes institucionalizados constitucionalmente foi agravado com a implementação de projetos pré-capitalistas na região sob a alegação da organização econômica. As elites econômicas começavam a fragmentar o poder das lideranças locais, muitas vezes aliando-se a elas.

Aparecem os enclaves da região: Buenos Aires, Rio de Janeiro, La Paz, Santiago, Montevidéu, etc, com a estratégia de alijamento de determinados setores sociais: índios, negros e mestiços.  

Aliando projeto econômico de determinados setores e passado de lideranças locais sem poderes institucionalizados, o século XX assistiu o nascimento de um novo fenômeno politico: o populismo, caso emblemáticos como os da Argentina: Juan Péron e Evita, e Brasil: João Goulart. 

Como se constituíram enquanto obstáculos a grandes projetos oligopolistas internacionais, o populismo foi derrotado por sucessivas ditaduras, a da Argentina começa em 1963, quando os militares recusam a reconhecer a vitória dos peronistas nas eleições municipais. A ditadura Argentina só terminaria em 1982 com Raul Alfonsim, quando os militares são derrotados na Guerra das Malvinas contra a Inglaterra.

A ditadura se espalha pela região: Brasil, Peru, Uruguai e a mais sangrenta, Chile, com Pinochet, assassinando no palácio de La Moneda Salvador Allende. Cuba é exceção na região com uma revolução socialista liderada por Fidel Castro. 

Assistimos recentemente problemas com Hugo Chavez na Venezuela, problemas diplomáticas entre a Colômbia e a Venezuela, problemas em Honduras, com Evo Morales na Bolívia, com Cristina Kischiner na  Argentina, e agora com o Paraguai.  

Infelizmente, apesar do famigerado conceito de democracia, equivocado e distorcido, a América Latina ainda não é uma região que se possa afirmar peremptoriamente que a democracia está consolidada. Existe um delicado equilíbrio politico onde vez por outra ventila-se golpes, ressurgimento de populismos e problemas diplomáticos. 

A América Latina não precisa de ridículos tiranos, e sim, de uma unidade cultural, uma consciência de que somos uma única região, com suas peculiaridades       

                   

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