sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Césaria Évora: a doce voz de Cabo Verde

Para Minha irmã Bete


Regresso

(Poema de Amilcar Cabral, música de José Agostinho)

Mama velha vem ouvir comigo

O bater da chuva lá no seu portão
É um bater de amigo
Que vibra dentro do meu coração

Venha mamãe velha vem ouvir comigo
Recobre as forças e chegue-se ao portão
Que a chuva amiga já falou mantenha
E bate dentro do meu coração

A chuva amiga mamãe velha
A chuva que há tanto tempo não batia assim
Ouvi dizer que a cidade velha
A ilha toda em poucos dias já virou jardim

Dizem que o campo se cobriu de verde
Da cor mais bela porque é a cor da esperança
Que a terra agora é mesmo o Cabo Verde
É tempestade que virou bonança

A música nos adentra e nas nossas lembranças faz morada. Tem algo de sinestésico nas canções; nos reporta a sensações e episódios já vividos, nos retira de nosso estado de espírito, nos arrebata e nos joga para uma outra dimensão. 

Eu cresci ouvindo “Regresso”, na voz de Alcione. Quem sempre cantarolava era minha irmã Bete, a mais velha. Não entendia bem a letra, mas gostava muito da sonoridade. 

Muitos anos depois, morando no Rio de Janeiro, aquecendo para uma apresentação de tambor-de-crioula da Companhia de danças Mariocas, os irmãos gêmeos Rômulo e Ramon colocaram um dvd sobre Cesária Évora. Automaticamente me lembrei de minha irmã, de Alcione e de minha infância. 

O que era ainda mais curioso é que a apresentação aconteceria na Faculdade Santa Úrsula  no Rio de Janeiro – que contem um contingente razoável de estudantes caboverdianos –, para o presidente daquele país. 

Após a apresentação, tive o deleite de conversar com os caboverdianos e aprender mais sobre sua cultura. Não faltou, claro, nas conversas a figura de Cesária Évora, minha porta de entrada sobre aquele país composto de 10 ilhas.  

A letra da música, poema do fantástico Amilcar Cabral e música de José Agostinho, foi uma das portas de entrada de Cesária Évora no Brasil, pela voz de uma também negra, na verdade marrom, Alcione. Essa música é uma das responsáveis pelo conhecimento da sonoridade da voz mais conhecida de Cabo Verde. 

Cesária faleceu em 17 de dezembro de 2011 em Mindelo, Cabo Verde, seu local também de nascimento, tendo seu corpo enterrado ali, onde a chuva após lavar a terra verde cobriu os caboverdianos de esperança, afinal, tal cor está no nome de seu país, e o túmulo de Cesária Évora virou um imenso jardim, vibrando os corações, leia-se, o centro das 10 ilhas caboverdianas.

















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