quinta-feira, 30 de agosto de 2012

A 7 graus

Um casaco de frio para uma noite igualmente gelada. Sapatos desconfortáveis e não adequados, nem mesmo o casaco o era. Mãos no bolso, respiração gelada, gelo nas narinas, nariz de pinguim. Muito, muito frio. Ninguém na rua. Quem se arriscaria naquela noite gelada sair de casa? Para ir aonde? Quiçá aquele horário!!!

O caminhar sozinho era tão insólito quanto a estranheza do lugar. Ninguém para cumprimentar. A língua não ajudava, bastava balbuciar para se reconhecer que se tratava de um estrangeiro. O frio apertava. Caminhar naquele instante já não era apenas um exercício de conhecer, era uma necessidade de não congelar. 

Olhar para baixo ajudava a evitar o corte do vento, aquela sensação de que o rosto iria queimar, mas também evitava de, pelas pupilas, fotografar na memória a paisagem urbana. O jeito era continuar caminhando e sentindo a atmosfera do lugar.

Ao cruzar todo o centro, atingiu o primeiro bairro. Uma cafeteria. Um café gostoso, quentinho, com uma pequena taça de água mineral, um pouco de suco de laranja e um profiterole. Tomar vagarosamente. Acabar logo significa fazer todo percurso de volta, enfrentar o frio de novo, corte gelado na cara, brisa de morrer, sapatos inadequados, casacos idem. 

Uma inscrição num monumento: "ensina-se português". Lembrar de falar na sua língua. Não, não havia ninguém ali por perto, o jeito é continuar caminhando. 

Hotel. Aquecedor nos pés não dá conta. Cobertores amontoados mais lembram um urso hibernando.

Se deu conta que estava sonhando. Com aquele frio ninguém jamais se meteria a sair de madrugada com sapatos inadequados, casacos idem, andando a esmo pela cidade afora sem rumo nem destino. Mesmo com o aquecedor sem dar conta do frio, era mais seguro ficar ali. Lá fora os termômetros marcavam 7 graus abaixo de zero.   




2 comentários:

  1. Porque será que isso é uma realidade apenas em sonho? Será que não é porque temos muitas vezes medo de arriscar? De viver o novo e o diferente?
    Muito bom! rsrsrsr

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    1. Acho que o personagem confunde realidade com sonho. Ele não sabe se de fato estava dormindo e queria caminhar ou se caminhava para não estar dormindo. sei lá... risos

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