quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

New wave

Há autores, como Jean Delumeau (A civilização do Renascimento), que afirmaram ser os primórdios do capitalismo as fases de estabelecimento do monopólio comercial das cidades italianas, como Veneza, por exemplo, o princípio de uma concepção acumulativa protocapitalista, vez que, com a proibição da usura pela Igreja Católica, a prática de incutir nos contratos marítimos de navegação, o ágio, a sobretaxa, formas iniciais de acumulação primitiva. 

Tal prática derivou o surgimento das letras de câmbio, das notas promissórias e da escrita veneziana, conhecida hoje por contabilidade. Implica dizer que o capitalismo, do ponto de vista do imaginário e ideário social, surgiu antes mesmo de sua configuração econômica, permeada de uma atmosfera ainda medieval.

A onda de protestos ao redor do mundo: Argentina, Chile, Itália, Espanha, Grécia, Portugal, Eslovênia, quanto à crise econômica, indica não apenas que de fato ela é global, mas que tal onda sinaliza como o problema da circulação de mercadorias, serviços e acesso ao consumo é cada vez mais a pauta de sociedades que gozaram de um certo padrão de consumo, do quanto exigem dos seus estados nacionais medidas não apenas paliativas, mas sanadoras de tais questões, de como não admitem não fazerem parte de uma rede de benefícios e serviços, ao mesmo tempo, aponta uma certa ambiguidade quanto ao movimento sazonal do capitalismo.

O capitalismo é cíclico, uma vez estabelecido um alto padrão de consumo para países europeus, vai em busca de novos mercados com taxas de lucro ainda maiores ou constantes; agora é a vez da China. Além disso, tal sistema sempre esteve atrelado ao estado, vide os socorros constantes que recebeu, por exemplo, dos governos estadunidense depois do Crash de 1929, também após a Segunda Guerra Mundial quando os Estados Unidos salvaram da debaclê total Japão e Europa, depois, crise do petróleo na década de 70, e assim sucessivamente. 

Existe um certo paradoxo nessa nova onda global de protestos: as sociedades ao redor do mundo, grosso modo, são capitalistas, ou seja, suas relações estão pautadas no liberalismo, na livre concorrência, no entanto, os protestos quase sempre têm como alvo os governos de seus países e não o sistema financeiro e produtivo mundial, como se tais estados estivessem acima do mercado, responsáveis por uma crise setorizada, quando na verdade não estão. 

Os governos até podem minimizar uma crise de um setor, mas não darão conta do problema estrutural da produção e circulação de mercadorias. Em outras palavras, qual é o papel do estado ante a força do capital? Seu poder de manobra é muito pouco, cada vez menos. Os estados são espectros do grande sistema financeiro internacional.

Foi a circulação de mercadorias que propiciou a partir do imaginário o surgimento de práticas protocapitalistas em cidades italianas nos séculos XII, XIII e XIV, uma nova concepção social seria capaz de entender as novas dinâmicas econômicas. Até lá, não há outra saída a não ser ir às ruas.                     
            









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