quinta-feira, 29 de novembro de 2012

O imperialismo brasileiro

Gaetano Mosca, Pareto e Gramsci, foram três teóricos que se debruçaram sobre o conceito de elite, embora este último se diferencie em muito da concepções dos dois primeiros. Não é difícil entender porque três italianos no inicio do século XX se debruçaram sobre o tema. A Itália era um país recém-unificado com vários problemas quanto à integração nacional, aliás, até hoje, fortemente marcado pelo poder da igreja católica, também até hoje.

Na Itália de então o problema nacional perpassava pelos projetos de poder. Gramsci, por exemplo, cunhou o conceito de sociedade ampliada: a junção entre poder de estado e sociedade civil, com vistas ao entendimento de como os italianos pensavam, como a elite orquestrava suas estrategias de dominação.

Guardadas às devidas proporções, Itália e Brasil no início do século XX se assemelhavam em dois aspectos: a questão da nacionalidade e o poder da igreja católica. Lá como aqui, a elite brasileira, a nova, oriunda da riqueza da cafeicultura, também desenhava seus projetos de poder.

O problema é que a elite brasileira desde o surgimento do estado nacional pós-emancipação política com Portugal em 1822 disse a que veio. No processo de ruptura política alijou os pobres, negros e índios e durante todo o século XIX usou de toda a força possível para debelar qualquer ato de insubordinação, as revoluções, tais como: Cabanagem, Sabinada, Balaiada, Farroupilha, antes disso, já havia sufocado a Confederação do Equador, atrasou o quanto pode a emancipação dos escravos e usou a força do estado para debelar Canudos, já em fins do XIX.

No inicio do século XIX anexou o Uruguai e todos os países vizinhos ao Brasil tinham uma relação de desdem e de desconfiança do império brasileiro, consideravam que a qualquer momento "o gigante pela própria natureza" pudesse invadir seus territórios, fazer o mesmo com eles o que havia feito com o Uruguai.   

A máxima expressão da força da elite brasileira, dependente do imperialismo britânico, foi demonstrada na Guerra do Paraguai, em que ao lado de Argentina e Uruguai massacram o vizinho exterminando homens em idade produtiva, sob o pretexto da ameaça Paraguai, leia-se "imperialismo guarani". 

Parece que os brasileiros se esqueceram dos 300 anos de colonização portuguesa, do imperialismo britânico ditando as regras da politica brasileira (1822 - 1889) e do imperialismo estadunidenses (1918 - 2001), vide as práticas econômicas exercidas na África e na América Latina. 

Na África, empresas brasileiras exploram as riquezas de Angola, constituindo Luanda enquanto economia de enclave. Em Moçambique, fazendeiros brasileiros compraram grandes extensões de terra para plantação de soja, tal como no Paraguai, afora o problema da falta de competitividade entre as indústrias brasileiras e as do resto do continente. Fogões, geladeiras, carros, postos de combustíveis dominam cidades latino americanas. A desproporção entre a riqueza brasileira e os demais países é grande demais.

Ainda assim, os índices sociais brasileiros são os piores da região, ou seja, possuímos uma das piores distribuições de riqueza do planeta. Nossa educação é uma piada, caso de polícia.  

Os brasileiros estão convencidos, orgulhosos do momento de crescimento econômico, mas se esquecem que reforma econômica sem reforma social é "programa para inglês ver" (expressão do século XIX) indicando apenas fachada, perfumaria, sem mudanças estruturais. 

Quando essa onde de crescimento passar, a próxima região de crescimento será a África, veremos o tamanho do rombo de nossas riquezas que singraram mar afora sem grandes retornos sociais.

Onde fica o papel da elite brasileira, aliás, a pior do mundo? Basta olhar a reclamação quanto aos programas sociais como "bolsa-família", "minha casa, minha vida", "prouni", "vale gás", além do impedimento da taxação das grandes fortunas, da taxação dos lucros dos bancos privados, e de qualquer coisa que atrapalhe seus planos. 

No Brasil as revoluções sempre foram sufocadas com muita violência, sem esquecer do apoio da elite brasileira a implementação da ditadura militar. 

Estamos perdendo um excelente momento de discutirmos os nossos grandes problemas nacionais: reforma agrária, distribuição de renda, educação ampliada, gratuita e de boa qualidade, saúde decente, segurança, habitação, reforma da justiça, distribuição de canais de televisão, reforma politica, fiscal. 

Se ao menos a elite brasileira fizesse investimento social, ou seja, devolvesse parte do que tirou do povo brasileiro, vá lá, mas os exemplos são muito poucos. 

A elite brasileira é autoritária, imperialista e anti-democrática.     

                      

2 comentários:

  1. Este comentário foi removido pelo autor.

    ResponderExcluir
  2. Concordo plenamente. Sou da opinião que toda vez que o Brasil encontrou um caminho de progresso com inclusão social, a elite brasileira reagiu e destruiu o processo.
    Isto aconteceu quando houve o golpe da proclamação da república, pondo fim à uma monarquia progressista, justamente quando começavam a ser postos em prática planos audaciosos de inclusão social, como a abolição da escravatura, seguida de uma reforma agrária, ambas inaceitáveis pela elite.
    Outro momento de golpe contra o desenvolvimento social deu-se em 1964, com a implantação da ditadura militar, interrompendo o ciclo de crescimento econômico com planos de implantação de políticas inclusivas.
    E agora, tudo pode estar pra se repetir. Pipocam manifestações num estilo diferente das anteriores, porém com semelhanças à marcha pela família, em apoio aos grupos que promoveriam o golpe de 1964. De uma hora pra outra a taxa de popularidade de 70% do atual governo sofreu queda de mais de 30%, com tendência a continuar caindo.

    ResponderExcluir