quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Trieste-Veneza

Para Marcelo Cheche, Anna Casella, Frederico Lazzari, Alan Kardec, Helidacy Muniz e para o povo de Trieste. 


Esta é uma carta. Diferente. É uma carta aberta. Não é para falar de minhas aventuras pela Europa, mais precisamente pela Itália, e sim, da questão da sociedade decetiva, um conceito de Gilles Lipovetsky para designar a relação entre consumo e frustração coletiva, sobretudo em países em crise como Portugal, Espanha, Itália e Grécia.

Ontem pela manhã, ministrei em Brescia a primeira das três conferências que farei na Itália (Brescia, Trieste e Gênova) sobre o crescimento econômico brasileiro, para ser mais preciso a relação entre crescimento econômico e contradições sociais no meu país. Os italianos demonstraram muito interesse sobre o que vem acontecendo com o “gigante latino-americano”.

Depois da conferência, eu e minha amiga Anna Casella, antropóloga, Professora da Universidade Católica de Brescia, pegamos um trem até Trieste, extremo leste da Itália, divisa com a Eslovênia, cuja história é simplesmente fascinante.

Trieste pertencia ao império austro-húngaro, depois passou a ser italiana no final da Primeira Guerra Mundial (1918), durante a Segunda Guerra se tornou independente e só voltou ao domínio italiano dez anos depois do grande conflito. Cidade à beira do majestoso e imponente Mar Adriático, possui uma arquitetura austríaca, o famoso castelo de Miramar onde viveu Maximiliano antes de ir para o México, uma culinária peculiar, ruínas romanas, características multiculturais e, nela viveram simplesmente James Joyce, Umberto Saba e Italo Svevo, grandes escritores, romancistas, apaixonados pela cidade.

Ela guarda outra peculiaridade: é possivelmente a cidade mais fria da Itália e por lá costuma passar um vento por nome Bora, absurdamente forte, frio, gelado na verdade. Tive o “prazer” de ser apresentado a ele, na verdade tratava-se do “Borino”, filho ilustre.

Fomos recebidos pelo Prof. Francesco Lazarri, sociólogo da Universidade de Triste, que já morou no Brasil e nos apresentou a cidade. Foi uma noite agradabilíssima. 

Pela manhã, ministrei a conferência novamente sobre o crescimento econômico brasileiro e o paralelo com a crise econômica por que passa a Itália. E aí a questão da sociedade decetiva, ou da deceção entrou em questão.

No que constitui a sociedade da deceção? No mal-estar existencial, no vazio ultramoderno. E por quê? A moda, o hedonismo, o modismo tecnológico e afetivo, o individualismo triunfante passaram a ser responsáveis pela nossa felicidade.

Até a democracia virou objeto de consumo. Quanto maior for a probabilidade de aquisição material, maior será a insatisfação ao ver o que o outro tem o que nós não temos. Por contradição, a aquisição material não aumenta a felicidade, e sim, a frustração.

Até mesmo as relações afetivas foram tomadas pelo princípio decetivo, procuramos quantidade de relacionamentos, não qualidade como singularização da subjetividade em meio a uma sociedade de anônimos e cambiáveis.

Essa crise econômica europeia revela os limites do consumo como meneio de valorização do prazer e de busca pela felicidade. O problema é que o capitalismo é cíclico, portanto, a bola da vez é a América Latina.

Foi aí que o debate esquentou e a emoção tomou conta do auditório. Fiz minha crítica ao modelo de crescimento econômico brasileiro. Estamos fazendo uma reforma econômica, mas não a social. Se compararmos os dados entre crescimento econômico e índices sociais no Brasil, veremos que as coisas andam muito lentas. O brasileiro se pragmatizou e se inseriu na lógica do consumo; bom por um lado, péssimo por outro.

A emoção ficou por conta dos limites e impasses que o consumo implica, quer no Brasil, quer em qualquer lugar do mundo. Será que é esse modelo de hiperindividualismo, trazido pelos ventos do hiperconsumo, o que o mundo precisa? Penso que não. 

O debate foi conduzido para a questão da solidariedade entre os povos, pela integração cultural, pelo fim das barreiras econômicas e sociais, pela justiça social e igualdade.

Terminei olhando para o Mar Adriático, me enchendo de esperança, nessa cidade linda, fantástica, exuberante, cuja história é marcada por guerras e conflitos, deixada como marcas por suas ruas e vielas em homenagem aos sujeitos históricos combalidos historicamente ali. Por toda a cidade existem nomes de pessoas que lutaram por Trieste.

Ali está enterrado o arqueólogo Winkelmann, por ela passaram Joyce, Saba e Svevo, por ela também passa o Bora, cuja força não é capaz de destruir a cidade, muito menos a esperança de superação desta ou de qualquer crise.

Obrigado Trieste, deste-me uma das minhas melhores experiências da minha vida. Nunca vou esquecer!!!! Estou absurdamente feliz.  

De lá, eu e Casella tomamos um trem até Veneza, La Sereníssima, e vimos o que o homem é capaz de fazer com sua capacidade de superação e criação. 

Ps: Marcelo, Alan e Lila, dessa vez eu não paguei multa por tomar o vagão errado indo para Veneza. Risos...

Marcelo, obrigado por tudo, sem você essa viagem não existiria.

Monica, o jornal de Triste se chama Il Piccollo.  


   

   


               



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