segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Uma promessa não cumprida


Para a cidade de Primeira Cruz e para o amigo Sérgio, onde quer que ele esteja  


 Quando eu era mais jovem, costumava ir para a entrada da cidade de São Luís e pegar o primeiro ônibus que passasse para comemorar meu aniversário. Talvez a proximidade de mais uma data natalícia me tenha feito reviver meus tempos de aventura.

Eu estava lendo em casa quando de repente me bateu aquela vontade de viajar rumo ao desconhecido. Peguei o telefone, liguei para Lúcia e disse: – Arrume as meninas, vou viajar com elas. 

– Para onde, ela perguntou? 
– Eu ainda não sei, respondi. Ela sorriu. 

Arrumei umas trouxas de roupa, peguei meu bloco de anotações, toda a poesia reunida de Alberto Pucheu e minha boa e velha câmera fotográfica. 

Cadeirinhas de crianças devidamente arrumadas nos bancos de trás, lá fomos eu, minhas filhas Lucía e Milene rumo ao desconhecido. 

– Papai, a gente vai para onde?, perguntou Lucía.
– Ainda não sei, respondi. Ela sorriu. 

Carro na estrada, cantigas de roda, brincadeiras e sorriso marotos, perguntas sobre números e palavras em outras línguas e o básico: – Tá longe, papai?

Na passagem, encostei na cidade de Morros, na esperança de que meu cunhado Marcos Muniz nos acompanhasse. Não foi possível, ela já tinha outro compromisso.

Voltamos à estrada. 

No fundo, eu já sabia para onde iríamos. Meu ímpeto me levava de volta para onde havia feito uma promessa havia 8 anos, quando comemorei meu aniversário no ano de 2001.

Quando eu estava na entrada da cidade de São Luís, ou saída, passou um ônibus Barreirinhas via Humberto de Campos. Dentro do ônibus, decidi conhecer os Lençóis Maranhenses, mas por Santo Amaro, não por Barreirinhas. Desci em Humberto de Campos, antiga Miritiua, me hospedei num hotel e à noite fui a um reggae chamado “Pé Trocado”. 

No outro dia, descobri que não havia embarcação para Primeira Cruz pela manhã, decidi ir andando 14 km até a entrada de Humberto de Campos na esperança de encontrar transporte até Sangue, entrada de Santo Amaro. Em vão. Voltei de carona numa moto de volta a Humberto de Campos e esperei o primeiro barco até Primeira Cruz.

Ao chegar nesta cidade, desci no porto e encostei no primeiro bar. Quem me atendeu foi um homem de estatura mediana chamado Sérgio. Passamos a noite conversando. Sem ter para onde ir, me hospedei na casa dele. Ao amanhecer, peguei um trator, pula-pula, e fui até Santo Amaro, meu destino final. 

Três anos depois, já casado, voltei a Primeira Cruz com a então minha esposa Lúcia. Eram dias antes de minha seleção para doutorado na Universidade Federal Fluminense. De novo Sérgio abriu as portas de sua casa. Foram dois dias maravilhosos. 

Primeira Cruz foi o primeiro lugar onde os portugueses atracaram no Maranhão para expulsarem os franceses em 1615. Ali chantaram uma Primeira Cruz, simbolicamente existente até hoje no cais do porto. 

Conheci então de fato a cidade; linda, maravilhosa, uma cidade de boneca, ruas limpas, arborizada, de frente a um braço de mar, casas de muros baixos, sem violência, bucólica, pacata, singela, ventilada, suspensa no tempo. Era a cidade que meu pai tanto falava quando viveu ali ainda adolescente. 

Prometi que se fosse aprovado na seleção de doutorado alugaria uma casa e escreveria pelo menos um capítulo de minha tese. Nunca o fiz.

Oito anos depois dessa promessa, agora na companhia de minhas filhas, pegamos um barco ao encontro da cidade que eu adoro e de meu amigo Sérgio.

Vento nos rostos, barco na água, voadeira com asas, cabelos esvoaçantes, o sorriso de minhas filhas alegres pelos animais na margem do braço de mar, mangue alto e a sensação de que a vida nos beijava a face.  

De longe eu avistei o velho cais. Está diferente: maior, tal como a cidade, ela mudou muito. Devidamente instalados, fomos à noite de volta ao cais na esperança de que Sérgio abrisse as portas do seu bar. Foram horas de espera. Por companhia, minhas filhas e a lua cheia. Ele não apareceu. Voltei triste ao hotel. 

Pela manhã, fiz uma peregrinação em busca dele, fui em várias casas e nada. Nenhum sinal de vida de Sérgio.

Triste, pegamos uma voadeira de volta a Humberto de Campos. O piloto da embarcação me informou que Sérgio não mora mais em Primeira Cruz, habita agora em São Luís. 

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Na noite anterior, quando minhas filhas dormiam, peguei meu bloco de anotações e escrevi esta crônica. Não é um capitulo de tese, mas é minha tentativa de pagar minha promessa, não cumprida.           






      

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