quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Tempo e espaço: fronteiras do imaginário

Os antigos romanos chamavam o atual Portugal de finisterra (fim da terra), posto ser a última guarnição, o último quinhão de espaço, depois dele, o mar tenebroso – o perigoso Atlântico –, com o ideário de seus monstros e seus medos por ele atinados.

Os portugueses sempre viveram entre a ameaça, primeiro dos romanos, depois dos sarracenos e, por último, dos espanhóis. Isso, a ameaça constante, marcou todo o ideário de navegação, possivelmente, o responsável pela criação da Escola de Sagres (navegar é preciso, viver não). O mar era a vastidão a ser domada. 

Surge Camões com todo o lirismo bravante de uma língua que nascia pari passu à necessidade de desbravar o desconhecido, tal como o sentimento incontido de sentir o indelével: “para passar pelo Cabo Bojador é preciso passar além da dor”. Nascia uma língua extremamente romântica, aliás, como todas as neolatinas. 

Érico Veríssimo, em O tempo e o vento explora a vastidão dos pampas, de uma terra a ser domada, conquistada, e a literatura também nesse caso esmiúça o sentimento de pertencimento em relação à terra-terra, a bravura e o que a fronteira constitui dentro do homem necessitado de transpô-la.

O cognominado Regionalismo Nordestino também possui as mesmas características: de novo a questão da terra, só que desta feita marcada pela seca causticante do Nordeste brasileiro. O imaginário da seca foi o combustível fértil para a criação das imagens dessa região a povoar o espaço das letras, recriação do espaço físico.

A relação que estabelecemos com o tempo e o espaço demarcam a forma como nos relacionamos socialmente. O tempo sempre foi uma ampulheta a nos vigiar com seu relógio móvel, que não para a nos mostrar nossa finitude, despertando nossos desejos de o dobramos. Basta olhar a disputa entre pai e filho na mitologia grega: Zeus e Cronos. Mesmo derrotado temporariamente, Cronos venceu Zeus definitivamente.

O espaço, essa dimensão corporal a desafiar nosso imaginário, sempre nos impulsionou ao desconhecido. A vastidão do espaço demarca a limitação do nosso corpo. Não estamos em todos os lugares fisicamente ao mesmo tempo, ao não ser no pensamento, logo, a limitação física só pode ser suplantada pela doce noção de tudo pertencer pelo pensamento. Por isso, sempre nos imaginamos em lugares que nunca estivemos. 

Foi por isso que Fernand Braudel conceituou a noção de múltiplos tempos: curta, média, longa e longuíssima duração, afinal, somente na dimensão espaço temporal podemos enfim sentirmo-nos eternos, impávidos, colossais. Se não podemos domar o tempo, nem estarmos em todos os lugares ao mesmo tempo, deixemos que a literatura nos leve a todos os espaços ao mesmo tempo.      







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