sábado, 16 de agosto de 2014

Sobre os benefícios da solidão contemporanea



Começo a me quedar na história da literatura contemporânea os conotativos, as semelhanças e similitudes da acepção agambeniana de superação e potência e vejo como em autores como Fernando Pessoa, Camus, Kakfa, Virginia Woolf, Clarice Lispector, Florbela Espanca, Drummond, Gullar, dentre tantos outros, há um preludio da desconfiança dos dispositivos contemporâneos e uma aposta na busca do eu-coletivo.

Por dispositivo, Agambem toma a conotação linguística que se refere aos conceitos operantes dos sentidos na construção de logicidades, emanações sociais, uma ponte entre uma concepção para se chegar à elaboração de conjunções sociais. Por exemplo: um dispositivo eletrônico é um aporte, uma ferramenta para se processar algo, atingir um fim a que se quer chegar. Um dispositivo jurídico é uma ferramenta administrativa que dá sentido e concatenação à semântica jurídica, ao ordenamento da lei. Um dispositivo linguístico é uma operação semântica, uma artimanha do conceito para estruturar um ordenamento mental, visando à compreensão de uma dada condição social.

Pois bem. Os dispositivos contemporâneos norteadores de uma ideia de equilíbrio social, de felicidade, de segurança, de bem-estar, fracassaram e com isso todos os apetrechos contemporâneos que prometeram dar subsídio ao vazio humano também, como consumo, interatividade, interconectividade, agilidade, simultaneidade, equilíbrio, dentre outros.

Todos esses elementos não estão desconectados de sua referencialidade política, ou seja, das instituições, dos discursos, das instâncias consagradoras e legitimadoras da ideia de modernidade e contemporaneidade. Quando tais instâncias e instituições não conseguem mais alavancar a perspectiva de bem-estar e procuram fazer arranjos, consertos e não substituição dos dispositivos contemporâneos aumentam consequentemente o vazio e a solidão das pessoas.

É como se os dispositivos enchessem as pessoas de penduricalhos, cada vez aumentando a dependência dos dispositivos, inclusive os eletrônicos, reverberando e criando uma dependência autorreferenciada, um ciclo vicioso de difícil desdobramento.

Somente enxergando a sombra da contemporaneidade é possível sair deste labirinto. O problema é que as pessoas, embora advoguem a noção de independência, de autonomia individual, de descrenças na política e nas instituições, muitas não conseguem se livrar dos dispositivos eletrônicos e institucionais, tais como celular, facebook, democracia, sucesso, fama, e estes instrumentos, por sua vez, não conseguem suprir o descolamento do efêmero, do esvaecente, como diria Kierkegaard, em que viver, ousar, ser um indivíduo no mundo, ser a si próprio, experimentar o deserto, é necessário.

Ser sozinho não é desprezar e desconsiderar o outro, é compreender que os dispositivos não interligam, que as redes sociais conectam desconectando o eu de mim mesmo, que a saída não é dependência do outro, a dependência doentia, qual propugna a noção de popularidade, de sucesso, causando ainda mais estrago quando a popularidade e o sucesso não chegam ou vão embora.

No entanto, como tudo na vida, existem dois ou mais lados, a crise dos dispositivos abre um flanco, uma porta para suas superações, ou seja, a solidão contemporânea é ao mesmo tempo sintoma e uma oportunidade de emancipação dos dispositivos e uma grande chance de nos conectarmos conosco.       
        


Um comentário:

  1. As vezes essa modernidade me faz lembrar um grande túnel onde muitos carros com grandes luzes e efeitos se destacam na escuridão. Não há salvação no final, existe apenas grandes xenon's que se apresenta por toda lataria,em cima embaixo , por dentro , por fora do carro há luz, um farol que não norteia a si próprio.Lá dentro quase que imperceptível é possível enxergar um olhar cansado e frio . Destruído pelo estress dos canhões de luz, cansado do ritmo frenético do freio, embreagem, a aceleração, da embreagem, a aceleração e o freio, em um ritmo continuo, mortífero e taciturno. Acelerar é preciso, porem é um suicídio. Afinal de contas, do que vale a vela se não o fogo, do que vale o fogo se não o calor, do que vale o calor se não a vida. Que haja vida.

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