terça-feira, 29 de julho de 2014

Sobre o Sentido da Vida

Adonay Ramos Moreira


   Talvez, senhores, o maior desafio de estarmos vivos não seja somente viver, pois, além de nós, há outros seres que conosco compartilham esse grande Bem e essa grande Dádiva. Os pássaros, os animais, as flores, todos eles, na medida de sua existência, gozam a vida e, ao que parece, sabem viver.

   Respirar, movimentar-se ou sentir, nada disso responde ao grande apelo que é-nos colocado ante o fato de estarmos vivos. O amor, a falta, os sentidos, até mesmo o vazio, às vezes, comunica-nos que há sempre algo a mais, há sempre uma ausência, um apelo, algo a cumprir-se.

   Assim como as flores, além de belas, buscam perfume e revelam que, na vida, algo sempre além de nós mesmos deve ser buscado, vivido, assim também nós buscamos um sentido, uma razão, uma maneira de ser.

   Ainda que a busca seja, para alguns, árdua, ela é extremamente precisa, necessária, pois nos comunica com essa parte de nós que aspira à eternidade, ao infinito, que não se conforma com o fato de simplesmente existirmos, de vivermos passivos e entregues por entre as coisas.  

   Essa falta de sentido, esse medo, é justamente isso que deve ser superado, vencido, para depois ser esquecido, como uma sombra.

   E como, senhores, saber, em meio a esse grande turbilhão que é a vida, o que buscamos, o que nos é preciso, o que devemos ter? Embora o caminho seja longo e às vezes mesmo difícil, a resposta é simples: o que buscamos, o que dá sentido para nossa vida é o outro. O outro e o seu medo, a sua fraqueza, a sua culpa. O outro e o seu amor, sua compreensão, seu carinho, sua forma de ser. O outro e sua falta, a sua busca, o seu silêncio, o seu riso, a sua voz. Sim, é o outro que dá sentido às nossas vidas, pois, na nossa solidão de indivíduo, há sempre algo que deve ser preenchido, vencido, superado.

   Ter os outros como o sentido da vida não significa esquecermos de nós mesmos. Pelo contrário. O outro também nos ensina a nos querer a nós mesmos, a nos amar, pois é verdade que, quanto mais seguros estamos de nosso ser, mais rápido temos acesso ao outro, mais compreendemos, mais amamos, mais sentimos.

   E para aqueles que dizem que a verdadeira felicidade, o verdadeiro sentido da vida só é encontrado em nós mesmos, afirmando, assim, que só somos felizes na solidão, devemos dizer, com a mais plena certeza, que, em verdade, a solidão não existe, que é apenas uma ilusão de nosso ser, uma quimera.

   Para alguns, os mais incrédulos, isso pode parecer sem sentido, mas sabemos que, como homens, temos o direito de não compreender. Contudo, é preciso que se afirme: nunca, sob nenhuma hipótese, jamais estamos sozinhos, pois mesmo quando não há ninguém ao nosso lado, mesmo quando, trancados em um quarto escuro, exilados de todo e qualquer contato humano, mesmo assim a solidão não nos toma, pois sempre temos nós mesmos, os nossos sonhos, a nossa memória, os nossos desejos, a nossa fé. Sempre nos segredamos baixinho, em conversa com nossa alma. Onde, já então fracassados, vamos buscar forças para podermos continuar a viver? Em nós, é apenas em nós mesmos que se encontra esse manancial que, mesmo já vencidos, nos pega pela mão e nos coloca de volta à viagem. E como, então, podemos dizer que a solidão existe? Não, ela não é real, pois, mesmo exilados, ainda temos nossa alma para, junto conosco, continuar a seguir. Isso sobretudo, e, nessa relação, nada, nem mesmo a solidão, penetra. 

   Assim, percebemos que é no outro, em nossa relação com os outros seres, que vamos buscar sentido para nossas vidas, pois, como acontece a uma flor que, solitária, pode ainda ser bela, mas não gloriosa, por não ter jardim, assim acontece ao homem que, mesmo podendo viver afastado dos outros, é-lhe vedado desenvolver todo o seu ser, pois é somente em comunidade que pode dar tudo de si. Os artistas, os poetas, os homens comuns, todos eles só se tornam plenos quando convivem com os outros, quando aprendem que é no outro que preenchemos a nossa falta, é na alegria do outro que suportamos a nossa tristeza, é na vida do outro que ultrapassamos a nossa própria morte.  
   
   Quem quer que seja que nos tenha feito existir, se foi Deus ou o simples acaso, o fato é que, em nossa existência, lá no fundo, foi colocada essa grande necessidade de companhia, essa falta, essa vontade. 


   É apenas no outro que me afirmo. É por não ser ele que sei quem sou. É nele que vou buscar a palavra amiga, o abraço sincero, o conselho. É por ele que acordamos a cada manhã e cremos ser possível o dia, mesmo que a realidade nos maltrate. O outro continua a minha obra, me faz mais forte, me ensina a viver, me ensina a sofrer, me ensina a amar. O outro complementa a mim e ao mundo porque ele é capaz de fazer aquilo que não faço, é ele que sabe o que não sei, é ele que sente o que eu não sei sentir. E isso é recíproco, pois também o outro precisa de mim, é em mim que ele se afirma, é em mim que ele confia, sou eu quem ele espera.

   E essa relação nos fortalece, nos educa. Uma vida solitária não é de fato uma vida. É, no fundo, uma morte camuflada, pois, assim como os mortos, um homem solitário está sempre ausente, frio e incomunicável. E mesmo que digam que o contato com os outros nos corrompe, nos faz perder sempre alguma coisa, não é isso algo preciso, pois, depois dessa falha, não nos ergueremos ainda mais fortes?

   O outro é a medida de meu ser. É como um espelho que, mesmo sendo diferente, na sua observação formo uma imagem de mim. Eu sei que é difícil a tolerância, a compreensão, mas, como tudo na vida, a arte de compreender e tolerar é também um exercício e, como tal, só pode ser aperfeiçoada e chegar à excelência na prática, no cotidiano. No fundo, para chegar ao outro é preciso humildade, mas sobretudo sabedoria, calma e amor.

   Alguns poderiam dizer que, em nosso discurso, esquecemos a morte, e então nos lembrar que, mesmo amando o outro, dela jamais estaremos salvos; lembrando-nos que o outro da morte não nos livra. Ora, mas por que deveria fazê-lo? Assim como todas as coisas que existem, a morte é também necessária e nos impõe ainda mais a necessidade de saber viver.

   Talvez seja mesmo esta a função da morte: mostrar que estamos vivos, que necessitamos do outro, que devemos buscar nele, durante o pouco tempo que nos concederam existir, o verdadeiro amor, a verdadeira felicidade. Dizendo-        -nos que é o outro o sentido de nossa vida e que é com ele que encontramos uma significação para ela. Sim, senhores, são os outros o sentido de nossa vida e, junto com eles, formamos uma chama finita, mas poderosa, intensa, que deve ser consumida segundo a segundo, hora a hora, dia a dia, com amor, com fé e sem pressa.   



Adonay Ramos Moreira é estudante do Curso de Filosofia da Universidade Federal do Maranhão (UFMA) e autor dos livros Sentimentos e Poemas, ambos de poesia. 

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