sexta-feira, 18 de julho de 2014

Afinal, o que é a existência?

Vindo do latim EXISTERE, EXSISTERE, desde quando a humanidade começou a indagar o sentido da existência, mais os desdobramentos dela se verteram em significados cada vez mais elaborados em que a própria palavra “existir” passou a definir um sentido em si mesmo. Existir é verbo (in) transitivo.

Intransitivo, porque não precisa de complemento, não requere objeto, existe por si só. Transitivo porque a própria ideia de existência não comporta uma definição sem prerrogativas. Como assim? Simplesmente SER, EMERGIR, SENTIR, ESTAR? É isso, não há muita compreensão ou explicação.

Existe uma corrente filosófica derivada dessa palavra. O movimento se cognomina de existencialismo, usualmente atribuído a Jean-Paul Sartre enquanto pilar de tal corrente surgida na França do século XX, mas que perfeitamente pode ser encontrado em várias passagens, citações, movimentos religiosos, políticos ao longo da humanidade. Modernamente teve como precursores um dinamarquês por nome Sören Kierkegaard, depois Nietzsche, Gabriel Marcel, Heidegger, até o famoso francês e sua não menos importante companheira Simone de Beauvoir.

A ideia central de tal corrente é a preconização de que nós, os humanos, somos os únicos responsáveis pelas conduções de nossas vidas e os desdobramentos do que tudo isso implica, ou seja, compete a nós única e exclusivamente a responsabilidade pela própria ideia de existência que assumimos. Para alguns isso cria um alívio e um peso. O alívio se dá pelo fato de que não é infortúnio do destino a consequência pela nossa infelicidade. O peso reside exatamente nisso, se somos infelizes, somos os condutores de nossas próprias decisões.

Certa vez, um escritor chamado Samuel Beckett afirmou saber a verdade sobre a existência. Claro, dentro da literatura qualquer verdade é aceitável, qualquer definição pode ser a palavra final sobre qualquer coisa, inclusive porque expressar as angústias acerca da própria existência é uma característica literária. Ali, nos sentimos representados em cada lágrima, amores correspondidos ou não, dramas, vicissitudes, mortes, apegos, ilusões, decepções.

A literatura, assim como a arte possui a capacidade de externar a assinatura de seus autores. Se quisermos saber como um escritor ou artista enceta o drama da vida basta olharmos suas assinaturas, suas obras. Muitas vezes não as compreendemos, nem eles. É que depois de existente – de novo a acepção latina –, as obras ganham vida própria como se elas mesmas possuíssem existências em si mesmas? Sim e não. Sim, posto que as obras sejam manifestações do narratário, a vontade de potência daquilo que é, necessitando de um meio, um meneio para se expressar; pode ser um livro, um poema, uma crônica, um objeto, uma peça teatral, etc. Não, porque o existente necessita tergiversar, dialogar, ilar. É como se cada fundamento que existe só compreendesse sua própria existência quando deparado com outra existência, com o outro. Não é que não seja necessária outra existência, e sim, que para compreender a dimensão de uma, é necessária a outra.

Tudo ao nosso redor é demonstração de existência, mesmo aquilo que muitas vezes desprezamos ou achamos sem sentido, nem por isso aquilo que desprezamos ou achamos sem sentido deixa de ter existência. Aliás, “qual a palavra que nunca foi dita”, trecho da música “Paula e Bebeto”, de autoria de Milton Nascimento?  Isso é sinfônico... Nós, que um dia fomos criados, também temos o poder de criar e de destruir, que por sua vez é apenas o reverso da medalha da criação, portanto, outra criação. Desfazer o que foi feito é também fazer desfazendo.

Os percursos escolhidos designam as concepções de existências. Nisso reside um labirinto. Por que esse roteiro e não outro? O que vocês que estão lendo agora estão pensando? O que se passa na cabeça do leitor? 

Não parece ironia escrever um texto cujo tema é Existência e não chegar a conclusão nenhuma? Seria pretensão e presunção definir algo tão caro e tão subjetivo a cada pessoa. Nisso se esconde mais um labirinto polissêmico de tal conceito.

Cada um é convidado a construir uma teia de significado de sua existência, embora a de todos esteja irmanada, iliçada, associada. Se dependemos uns dos outros para construir uma rede de significações de existências, ainda que a condição ontológica de existir seja ser, mesmo que Heidegger não tenha definido o que vem a ser o ser, então somos corresponsáveis, copartícipes no processo de elaboração, reelaboração, significação, ressignificação que cada ser humano elabora sobre a existência. E isso aumenta nossa responsabilidade.

Essa é uma das opções do labirinto, à medida que nos emancipamos, nos tornamos cada vez mais responsáveis, cônscios de nossos próprios destinos, aumenta consequentemente a responsabilidade para com o outro, afinal, uma existência isolada, absorta em si mesma definha. Isso é uma opção existencial: descobrir a luz e voltar para resgatar os que ainda estão nas trevas ou seguir um caminho por achar que aqueles que estão na escuridão não querem ou não tem condições de saber o que é a luz.

surgem todos os teoremas filosóficos existentes até hoje. O que é existência? O que é luz, o que é escuridão? Será que não é pretensão estender ao outro uma concepção que me é subjetiva, que vale para mim e não para o outro? Não é uma atitude etnocêntrica estabelecer qualquer parâmetro de julgamento a partir do que cada um estabelece como verdade? Sim, mas é possível estabelecer qualquer coisa sem parâmetro ou sem a percepção subjetiva sobre qualquer coisa?

Quando alguém escreve, ministra aula, dança, atua num filme, ama, chora, faz por si e para alguém. O nada inexiste em contraposição ao que é. Ninguém ama o vazio, se se ama o vazio ele já passa a ser pleno de amor. Quando se pensa sobre o nada, o nada se desnadifica e começa a receber significação de quem atribuiu sentido. Se inventamos culturalmente um sentido para existência a existência passou a ter existência, ainda que seja uma invenção.

Se estamos tanto tempo procurando respostas ou elaborando novas perguntas é porque existe algo de sentido em atribuir sentido para isso que foi construído. A pergunta é: por quê? Todos ao seu modo possuem respostas; conscientes ou inconscientes, claras ou obscuras, cheias de certezas ou dúvidas, movidas pela fé ou pela descrença, ideológicas ou alienadas, sinceras ou mentirosas. O que não cabe é um julgamento moral sobre as opções de cada indivíduo, caso tal decisão não implique violência física ou simbólica, no prejuízo de outrem.

O poeta Nauro Machado disse: “ser poeta é duro e dura uma existência”. Ao enunciar esse epitáfio existencial, coloca a urdidura da escrita se confundindo com a própria ideia de existir amalgamada pela capacidade poética de anunciar sua vida ao mundo. Sua poesia existencial, sua condição de poetar é dura, e tem durado toda a sua vida. Duro não significa não belo, não pleno de gozo /ou regozijo, ao contrário, o gozo em poetar, o regozijo de descobrir o sentido de sua existência é duro, difícil, como se andassem juntos o tempo todo mesclando dialeticamente angústia e prazer, eros e thanatos, “penicilina e dor”, encantamento e espasmo.

Cada um expressa de sua forma uma composição existencial e compete a cada um o recolhimento de tal construção. Não há um julgador, não há um tribunal, como se existisse uma única regra que todos deveriam seguir, um punidor esperando ao final da vida com uma régua, uma palmatória pronta para castigar aqueles que não conseguiram SER.

Dizer que não há um único caminho e que todos devem procurar os seus não implica afirmar que a existência não faz sentido e, portanto, que cada um pode elaborar a sua própria concepção de vida. Não se pode escolher qualquer elaboração existencial posto que, como vivemos interacionados, a escolha que fazemos repercute e tem consequências sobre os demais. Há sim uma perspectiva existencial que paira e deve nortear todas as pessoas: a felicidade, razão pelo qual existimos. Logo, não é qualquer escolha e caminho que devemos trilhar, afinal, se a escolha implicar prejuízo de outrem ou até mesmo da humanidade, não é o melhor percurso.

Não existem limites para as percepções existenciais, mas existem para as escolhas e suas consequências. Cada ser humano possui uma capacidade inimaginada para fruições, sensações, construções discursivas, imaginação sobre a existência, inclusive sobre a questão da felicidade, porém, quando saltada do plano da imaginação para o da efetivação, as perspectivas e possibilidades de encetação no plano das condições objetivas de vida se reduzem. E por que isso? Para que a noção de felicidade, ainda que subjetiva, plural, polissêmica, cultural, individual, não ultrapasse, não despreze a dimensão do eu coletivo, do que existe de um em todas as pessoas, ainda que prefiguradamente e muitas das vezes não perceptível. Desprezar a dimensão coletiva, pensar apenas na condição subjetiva privada, individual e restrita é colocar em risco a própria existência humana, pois se cada um em busca de sua felicidade despreza as implicações de tal decisão e ação sobre o outro, a tal felicidade se tornaria uma disputa famigerada de egos insuflados autorreferenciada, autossuficiente, em que a condição axiológica do bem viver seria suplantada pela antiética. Por antiética entende-se qualquer ação desrespeitadora da condição ôntica dos indivíduos.

Ética é uma construção cultural? Vida? Felicidade? Coletivo? União? Solidariedade? Etc.? São dispositivos linguísticos constructos da linguagem com capacidade de dar sentido às coisas? Sim, mas, inventou-se algo até agora melhor que tais dispositivos em se tratando de viver coletivamente? Não, haja vista que toda a história da humanidade foi alicerçada na busca de tais princípios. Então, se são meras invenções da linguagem são o que de melhor nossa capacidade sensorial, ontológica inventou até o momento e são os elementos norteadores de nossa frágil existência.

A linguagem é ao mesmo tempo um dispositivo da existência e o princípio criador dela. Dispositivo porque a capacidade de compreensão sobre qualquer coisa só é possível mediante a linguagem, ou seja, o sentido sobre tudo o que é só é perceptível porque o meio, a linguagem, estabelece a relação entre o significante e o significado, entre a coisa que representa e a coisa que é representada, segundo Diderot. Princípio criador dela porque a linguagem tem a capacidade de enunciar algo novo, literalmente CRIARE, mesmo que ainda não exista entendimento total sobre aquilo que está sendo criado e as relações sígnicas não estejam estabelecidas. Cria porque o ato potencial presente em uma ideia sobre algo ainda não existente é decorrente do desejo, ou seja, algo que já passou a existir, mas necessita de um meio, um suporte, no caso, a linguagem para ser expressada, ganhar contornos reais. Por exemplo, quando Deus disse: Faça-se a luz! Fiat Lux, a luz foi criada por intermédio da vontade divina em existir a luz potencializada na conjugação do verbo fazer, criar, existir. Portanto, quem criou tudo o que existe foi a palavra, expressão de um desejo e possibilitadora da compreensão sobre o existir. A linguagem cria e dá suporte de entendimento sobre o que foi criado. 

Ao longo da história, dominar os códigos culturais, tal como as diversas linguagens, deu origem a tantas disputas, guerras, genocídios, assassinatos. Dominar, controlar os elementos de compreensão sobre a vida era como ter acesso ao Éden, ao Alfa, ao Santo Graal, à chave de compreensão sobre quem nós somos, de onde viemos, para onde vamos, qual o sentido da vida.

Em nome dessas respostas surgiram religiões, filosofias, teorias, epistemologias, etc., muitas vezes digladiando entre si advogando cada uma a legitimidade sobre a verdade, a última palavra, o ponto final, o ômega, todas, no entanto, sem uma clara posição quanto ao fato de serem a derradeira e definitiva posição sobre a existência. Qual a verdadeira? Qual a derradeira?

Isso é absolutamente pessoal, como todo esse texto, ainda que baseado em leituras e experiências, que a verdade sobre a existência não está fora do indivíduo, mas dentro dele. É como se fosse uma relação simbiótica: precisamos dos outros para a construção de sentidos existenciais ao mesmo tempo em que é necessário se afastar dos que os outros falam acerca do que vem a ser a verdade existencial para o recolhimento e construção do que cada um entende sobre ela. É um dentro e um fora, um ser e não ser, uma dialética. É como se só fosse possível testar uma percepção existencial existindo coletivamente ao mesmo tempo em que o indivíduo, ainda que integrado aos outros, necessite de uma particularidade privada, uma subjetividade suficiente para perceber em que medida o que os outros advogam enquanto verdade existencial não serve para si, tem que ser construído sozinho-coletivamente.

É como a relação entre Eros e Anteros na mitologia grega: todas as vezes que Anteros se afastava de Eros ele decrescia, todas as vezes que se aproximava, acontecia o contrário.

Chega um momento, para muitos nunca chega porque não querem enfrentar esse diálogo consigo mesmo, que é necessário deixar de lado vozes, cascas, gorduras de investidura afastando nós de nós mesmos, para sabermos afinal o que caracteriza nossa existência, qual o sentido de nossas vidas, fazer um balanço de tudo o que temos vivido e obtermos alguma resposta, qualquer que seja ela.

Se algo incomoda, se tem alguma coisa sensível que nos indica de que o percurso não foi o melhor, uma inquietude aplacando o espírito, é momento de reflexão, de sondar o porquê de tal sensação. Não necessariamente eliminar a angústia existencial, caso contrário vamos acabar com a literatura, as artes em geral, os compêndios filosóficos, as religiões, a psicanálise, enfim, tudo derivado dela, porém, nenhuma angústia deveria se perpetuar ao longo de uma vida, afinal, a angústia em vez de ser um meio para se chegar a certos questionamentos e descobertas, passar a ser o fim em si mesmo. A vida fica insuportável e insustentável.

Por outro lado, temos construído culturalmente um olhar extremamente pessimista sobre os problemas, as dificuldades da vida, os sofrimentos, numa espécie de cissiparidade sobre a vida, quer dizer, como se somente os chamados momentos bons, felizes, fossem o cômputo geral do sentido de viver. A nossa visão atomística, especializada, segmentada sobre tudo também confere presença na sensação de bem-estar, como se os momentos pelos quais estamos imersos nessas circunstâncias não compusessem o quadro amplo da existência. A sociedade contemporânea refuta as dificuldades, não nos depararmos com a dor e sofrimento, e isso não é apologia ao estoicismo e crítica descontextualizada do hedonismo, e sim, um olhar sobre a sociedade narcísica signatária de valores como o da ostentação, opulência, riqueza a todo o momento e custo. Demonstrar qualquer sinal de fraqueza ou mesmo de sofrimento está automaticamente associado ao fracasso pessoal, quando é a face da mesma moeda, ou seja, só é possível perceber um referente quanto contraposto ao outro, como afirmou Kant.

Resignação, resiliência, foram termos e conceitos desgastados pelo uso às vezes irracional das religiões que verteram o signo do prazer e do bem-estar como algo marcado por um sinal negativo, uma espécie de culpa e expiação por conseguirmos ser felizes em meio ao mundo de pecados e horrores. Resignação não é conformismo, é compreender a dialética dos sentidos opostos da vivência num movimento por vezes sincrônico e diacrônico, como a própria dinâmica da vida. Resignação não é automutilação, castração, pietismo, alienação, é sabedoria por entender que certas coisas simplesmente não podem ser simplesmente porque não podem, não está no nosso alcance ou compreensão, não depende de nossa ação ou vontade. Certas coisas dependem de nós, outras não. Às que dependem são de nossas responsabilidades, outras são dos outros. Parece contraditório com o conteúdo desse texto inicial quando mencionado o existencialismo sartreano, mas não é. É reconhecer que a minha existência depende de mim, outras existências, não. O homem não é a medida de todas as coisas, somos parte de uma complexa rede de significações do existir.

Enquanto não sabemos qual é a verdade, trata-se de uma busca contínua, o melhor percurso me parece ser viver da melhor forma possível. A melhor forma possível não é viver de qualquer jeito, mas de uma forma comprometida consigo em primeiro lugar, depois com o outro. Só é possível viver bem com o outro quando estamos bem conosco.

Sócrates, certa vez, antes de tomar cicuta, afirmou que se havia um lugar melhor que a terra seria para lá que ele iria, afinal, era um bom sujeito. Se não houvesse tal lugar ele estaria em paz consigo mesmo porque viveu a melhor vida possível.

É importante o papel dos outros no exercício de construção de uma ideia de existência? Sócrates não chegou a essa elaboração sozinho, tampouco suas palavras serviram apenas para ele. Ainda assim, a decisão de ser uma pessoa boa, com todas as implicações que tal conceito consiste, é absolutamente individual.



2 comentários:

  1. Henrique,
    li e li de novo e li mais uma vez! Existir é representar? O existir provém do significante ou do significado? A necessidade dele é antes ou depois da criação?
    É possível ter essa dimensão?

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    1. Bruno, existir é representar e apresentar, provém do significante e do significado, é uma necessidade antes e depois da criação, pois existir consistir em criar para sentir a criação, representar para apresentar o que foi representado, é do significante pois necessita daquilo que é representado. Existir é uma dissonância entre o ente e o ser

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