domingo, 9 de fevereiro de 2014

Desatando os nós

Com o tempo a gente já não precisa mais ouvir o zunido da chaleira para perceber a temperatura ideal da fervura do café. Se aprende que a temperatura ideal são 90º, antes do ponto de ebulição, assim se evita que o café passe do ponto de fusão ideal. 

Com o tempo também se descobre que às vezes é melhor não ter guarda-chuva, aliás, como se perde tal objeto!!! Exatamente porque sua função é específica e é muito bom se molhar, deixar-se lavar a cara, ficar ensopado, pois sentir a água vez por outra é mais tocante que certos compromissos, absurdamente desnecessários.

Somente com o tempo descobrimos que certas necessidades e vontades não são importantes e nem vitais, e que certas atitudes não passam de falseamento do ego numa sanha frenética de salva-guarda, de proteção, de auto-referenciação, como se nossas necessidades e vontades fossem as mais importantes do mundo.

É com o tempo que se aprende que tudo passa, que nenhuma dor dura para sempre, que o que era vital no passado, no presente passa a ser contingencial, circunstancial. Que os sonhos não morrem, mas deixam de ser urgentes, que caminhar é melhor que chegar, que não existem relações perfeitas e ideais, existem as que a gente constrói.

Somente com o passar dos anos se aprende que não temos muitos amigos, e que cada um é importante, mas tem-se certos amigos para situações específicas e que é muito difícil um único amigo entender todas as nossas complexas mutações. 

A gente aprende a ter paciência à medida que envelhece, entende que certas coisas simplesmente não podem ser. Aceitar não é desistir, esperar não é perder, mudar não é abandonar. Para muitos isso é a morte, ou seja, quando começamos a desistir de certos desejos, para outros, é sabedoria. Agradecer à vida é um bom sinal de maturação.

Entende-se que nunca devamos deixar de lutar, mas passa-se a escolher certas lutas, pois nem todas são nossas, aliás, todo mundo tem a sua. Que dá muito trabalho e é o pior caminho viver a partir da resposta e aprovação do outro, em função do outro. Isso gasta muita energia e é sempre fonte de frustração, pois todas às vezes que a aceitação não vem o resultado é um profundo descontentamento.

Aceitar que não somos bonzinhos é outra marca do amadurecimento. Abandonar a dependência de ser amado sempre, querido sempre, acolhido toda vida é outro sintoma da aprendizagem. Viver bem consigo é mais doloroso, mas é sempre a melhor opção. Ouvir a voz interna é uma tarefa diária que todo mundo deveria fazer. Fazer as coisas despretensiosamente, sem expectativa, mas convicto de que fizemos aquilo que o coração pede leva tempo. 

Abandonar a vaidade, o egocentrismo dá trabalho, afinal, são anos e anos de uma prática e um modus vivendis que nossos cérebros estão mais que condicionados a fazer, desligar as pulsões elétricas que ligam certos peptídeos a outros peptídeos estabelecendo conexões é quase como refazer toda a fiação elétrica de uma casa. Durante um tempo fica descoberta, exposta, mas enquanto não aprendemos a refazer a instalação e mudar nosso padrão mental, vamos continuar percorrendo o mesmo caminho da corrente continua, quando poderia ser a alternada. Isso é o mesmo que dizer para um obeso que precisa fazer uma reeducação alimentar e que não vai ser doloroso. 

A gente aprende a viver reclamando o tempo todo, mas só com tempo se percebe que fizemos certas escolhas para que as coisas chegassem aonde chegaram, que somos os únicos responsáveis pelas nossas felicidades e infelicidades, e que existe um preço para tudo na vida: mudar e/ou não mudar. Nietzsche disse que só podemos escolher trilhar por um rua ou por outra, mas que não sabemos o que existe em cada uma delas. A escolha é nossa. 

Somente com o tempo pelo cheiro já dá para saber o aroma do café antes mesmo que nosso paladar o saboreie.

Os primeiros quarenta anos a gente ficando desatando certos nós. Os quarenta restantes, tecendo novos fios.        



                

      

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