sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

Perder e Ganhar



Como é difícil viver em tempos de acumulação consumista e abrir mão de certos “princípios” da propaganda capitalista, tais como: “acontecer”, “se dar bem”, “ser famoso”, “ter” (o que quer que seja), “esbanjar”, “ostentar”. 

Isso não nasceu agora, é fruto de um longo processo histórico de solapamento das antigas relações de sociabilidade; pautadas na confiança mútua, na credibilidade da palavra oral, substituídas pela crescente vitória da competitividade, da burocratização dos espaços e instituições sociais, calcadas na jurisdição da sociedade reflexiva burguesa. 

Os estandartes burgueses assumiram uma espécie de segunda natureza humana, tornando-se hoje, a primeira. É como se a cada nova geração, distante de antigos processos de lutas e sonhos, o único horizonte possível fosse acumular, se dar bem, não construir qualquer projeto de solidariedade ou mesmo utopias.

É cada vez mais comum a lógica do consumo espraiar-se a todos os segmentos humanos: do afetivo ao intelectual. Estamos perdendo a capacidade sensitiva de ter sensibilidade. Tudo se relaciona a uma ideia canhestra de que lutar é perda de tempo, de que as pessoas não mudam, de que qualquer sonho de igualdade é antiquado, que pessoas que ainda empunham bandeiras de fraternidade são chatas e ultrapassadas.

Construímos projetos de vida como se fossem nossos, ainda que muitos não saibam ao certo quando e como tais projetos nascem e como são reproduzidos de forma naturalizada, acreditando piamente que tais modelos são os únicos possíveis, de que não há outra saída.

Ainda assim, notícias e exemplos de angústias, depressões, neuroses, escleroses, obsessões, só se avolumam. O capitalismo, via consumo, não foi capaz de apascentar nossos espíritos, tampouco de nos tornar mais felizes, muito pelo contrário. O físico brasileiro Marcelo Gleiser disse que quando ele pensa na ultramodernidade (atual contemporaneidade) o que lhe vem à cabeça é: velocidade e dispersão. 

Velocidade para quê? Acumular mais para quê? A gente de fato precisa de tudo o que almeja ou que consome? Será mesmo que o volume crescente das demandas subjetivas em busca de mais dinheiro, fama, poder, etc., não são fugas para o vazio que, quando nos damos ao luxo de ouvir nossas vozes internas ao silenciarmos e pararmos de vez em quando, damos conta de que tanta correria não trouxe a felicidade?

Tudo bem que felicidade é um conceito subjetivo, cada um é feliz ao seu modo, no entanto, existem elementos que indicam que o caminho que estamos percorrendo, ao invés de nos levar à felicidade, ainda que seja individual e subjetiva, está nos levando para a infelicidade. Estes sinais são: angústia, depressão, irritabilidade, aceleração, dispersão, competitividade, egolatrismo, individualismo. 

Mas , como parar o projeto que levamos anos buscando e reconhecer que o caminho pode ter sido errado, diante de um mundo que nos cobra “sucesso” o tempo todo?  É preciso coragem para reconhecer que durante anos demos vozes e ouvidos aos outros e nos abandonamos, deixamos de lado o que de fato importava. É preciso coragem para reconhecer que um modelo, projeto de vida, pode ter dado certo até certo ponto, mas já não serve mais. 

Às vezes, perder é ganhar. Abandonar um modelo de vida que só traz infelicidade é o melhor caminho para uma nova trajetória. Viver um dia de cada vez é mais importante que idealizar uma vida inteira pela frente, sobretudo, quando o futuro não está sendo construído no agora. Se a gente não consegue desfrutar do agora, seremos capazes de aproveitar, viver no futuro?





Um comentário:

  1. Henrique não me leve a mal, mas com todo esse pandemônio ocorrendo em nossa Capital, seu comentário, sábio, seria útil.

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