domingo, 17 de novembro de 2013

As pesquisas e os eus

A pesquisa é um traço da condição humana. Por ela em parte nos tornamos humanos. Quando começamos a desconfiar de que não éramos meramente humanoides, que tínhamos pensamento ascético, começamos a questionar e a utilizar as mãos como ferramentas, a registrar nosso dia a dia desenhando nas cavernas, tudo a nossa volta passou a ser objeto de pesquisa, de busca e de descoberta. 

Depois apareceu a pesquisa sistematizada, a epistemologia do conhecimento, os estudos sobre a linguagem, o conceito de ciência. À medida que descobríamos coisas novas nossas mentes se ampliavam no desiderato de perscrutar o indelével, o não-dito, o não revelado.

As pesquisas se ramificaram em mil subdivisões, classificações, possibilidades interpretativas do mundo. Todas válidas no exercício de ampliação sobre o enigma da existência. Também foi objeto de disputa, de relação de poder, afinal, como bem afirmou Francis Bacon: “Saber é poder”.

Se tornou algo tão poderoso que foi instrumento de validação de postulados, de hierarquização de princípios e de concepção de cultura. Aliás, a conjugação entre saber científico-verdade-poder foi e é até os dias atuais um elemento da conotação empiricista, pragmática, neopositivista da cultura. Não ser um operador de certos saberes é colocar-se no patamar das restrições burocráticas e pragmáticas de instâncias e instituições.

Não há como negar os avanços que a pesquisa, as pesquisas, em seus mais diversos ramos trouxeram a nós. A cada nova descoberta a alimentação do desejo por mais novas descobertas. Ela possui pelo menos dois vórtices: um social, outro subjetivo.

O caráter social da pesquisa consiste na publicização dos seus resultados, na aplicação prática de suas descobertas, no acúmulo de informações e conhecimentos colocados a serviço da comunidade, quer seja acadêmica ou não. O conhecimento avançou porque novas teorias, novos postulados, novos questionamentos ocupam as mentes de pesquisadores espalhados mundo afora.

Há também o caráter subjetivo da pesquisa. Há um conceito utilizado pela escritora argentina Josefina Ludmer, o de narratário. Narratária é a condição da existência da escrita em si mesma, a vontade da palavra de ser e de conotar para além de suas interpretações.

A questão é que o narratário pré-existe à condição do escritor e da recepção. Ele, que também pode ser chamado de vontade, insight, busca aquelas pessoas conectados com o universo em busca de respostas. Ao encontrar essas pessoas, o narratário sopra informações, intuições e começa um processo de elaboração de um tipo de questionamento, uma pesquisa.

Acontece que as pesquisas estão intrinsecamente relacionadas com seus pesquisadores. Toda pesquisa é em última instância uma resposta pessoal sobre si mesmo que os pesquisadores querem solucionar. Toda problemática, por mais abrangente que seja numa pesquisa, contém um elemento subjetivo da condição ontológica de cada um.

Os temas e problemáticas não nos aparecem aleatoriamente. Por vezes, desistimos de uma temática porque inconscientemente a resposta já foi alcançada; neste instante, aparecem novas indagações. Também acontece de desenvolvermos certas pesquisas por influências e/ou forças das circunstâncias: um convite de um professor, uma oportunidade de bolsa, um financiamento. Mas quando percebemos que tais pesquisas nos dizem muito pouco, ficamos com a sensação de que algo nos falta, não nos envolve por completo.

Nas Universidades pouco se fala das relações entre pesquisa e subjetividade. O caráter social ocupa o imaginário do universo acadêmico; em parte isso é fruto do iluminismo empirista que abnega a intuição, a sensibilidade e privilegia a pragmática dos resultados. Nem todo resultado tem que necessariamente ter uma aplicação imediata. Por vezes, passam anos e aquela indagação enfim encontra seu significado.

As pesquisas são de várias formas e sentidos. Uma pergunta que não quer calar em nossas mentes, uma curiosidade é uma indagação a ser perscrutada.

Estamos aqui para descobrirmos quem somos, às vezes, quase sempre, o passado ajuda a esclarecer. Feita uma descoberta, partimos para outra. O milagre é a pesquisa ainda não elucidada, depois de revelada, vira ciência.




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