quinta-feira, 5 de setembro de 2013

JUVENTUDE, ARTE E POLITICA.


Para o povo de Picos, Piaui

A juventude nem sempre foi a mesma, conforme a sociedade, a época, foi mudando a concepção sobre esta etapa da vida. Nas primeiras sociedades ocupava uma posição secundária, a de destaque estava reservada aos mais velhos, os guardiões da sabedoria. A juventude era destacada como elemento de vitalidade, sobretudo para os trabalhos braçais e para a guerra.

A hierarquização social era elemento que dificultava a possibilidade de mobilização ou mudança do status quo, nem por isso passava despercebido rapsódias de rebelião, rebeldia, futuramente associada à ideia de juventude, como por exemplo, a revolta dos plebeus na Roma antiga (497 a.c) pelo direito do casamento entre estes e os patrícios.

A construção de uma noção de juventude, tal como se concebe atualmente, surge segundo Philipe Áries, na época moderna e por uma mudança na redefinição dos papéis sociais. Pela primeira vez fica mais nítido a diferença entre as três fases: infância, maturidade e velhice. Durante o período medieval a criança era concebida como um adulto em miniatura, não havia o olhar especial sobre este segmento.  A concepção de proteção, de um olhar específico surge com a redefinição do papel da educação.

O conceito de modernidade - trazer o novo - se associou a uma pletora sensação de realização pessoal ligado à satisfação, realização; o velho, incorporado como antiquado, aquilo que deveria ser ultrapassado cada vez segmentava a relação entre novo e antigo. A modernidade foi ao mesmo tempo uma dimensão espiritual, como bem disse Norbert Elias (O processo civilizador), sensação, desejo de pulsão, fruto de seu aspecto ideológico, moderno enquanto necessário, o novo - o capitalismo - sobretudo, e o que havia ficado para trás. 
Toda sociedade é moderna a sua época, mas somente nesta fase a diferença entre o hoje e o ontem atingiu um patamar tão radical. Shakespeare e a invenção do amor moderno contribuíram para isso, afinal, com o processo de obsolescência da transcendência, restava a imanência, o amor entre os jovens Romeu e Julieta.

A dinâmica da vida se coadunou com a velocidade, a possibilidade de renovação das ideias de revigoramento. A mudança dos paradigmas se atrelou à transformação da política, da percepção do espaço, até os limites da metamorfose dos corpos. Um exemplo clássico disso é a invenção da festa de debutante. A sociedade de corte exibe a filha virgem propicia ao casamento.

Com o desenvolvimento da sociedade industrial a noção de juventude fica mais nítida e evidenciada. Passa a ser correlacionada a dimensão produtiva, sendo demasiadamente valorizada, coexistindo também uma positivação desta fase, coadnuda pela reverberação da longevidade.

O corpo, antes rechonchudo, sinônimo de saúde, beleza, foi paulatinamente substituído pelo corpo viril, consequência de horas de trabalho, da substituição das anáguas pelo macacão.

Aparecem a moda, a fotografia, o cinema, a propaganda. A agressividade do consumo tem como eixo essa faixa etária. Até chegarmos ao século XX e a desconfiança dos princípios balizadores da felicidade, do capital e da seguridade a partir do paradigma iluminista moderno. Contra o desencantamento do mundo a arte aparece como salvação da vida.
A arte moderna é extremamente jovem enquanto paradigma. Na literatura: Mallarmé, Victor Hugo, Rimbaud, Edgar Allan Poe; a literatura russa com Dostoievski, Maiakovski, Gogol, celebravam a pletora condição de anunciar um mundo novo.

Nas artes plásticas Camile Claudel, na pintura Renoir, o surgimento da arte modernista como ativação de um elemento politico. Não há dissociação entre arte e politica, toda ação artística é em última estância uma ação politica, porque toda arte é um manifesto da vida. Vide novamente os casos dos escritores russos perseguidos pelo czarismo enviados para a prisão da Sibéria.

Ao se tratar da literatura uma grande expressão foi sem dúvida Baudelaire, conotando o amor da juventude como encantamento trazido pelos ventos da vida moderna, desejosa de suas paixões ao ar livre, encantada pelo belo, abertura dos Boulevards.

Depois da grande crise geradora do fim da Belle époque o movimento musical associado à contestação politica: o rock enquanto critica ao american way of life. Elvis Presley, Beatles, Woodstock, movimento beat, são das expressões disso e da contracultura.

No Brasil a Bossa nova, a jovem guarda, a tropicália, a música de protesto, Geraldo Vandré, Chico Buarque, são alguns dos exemplos da conotação entre juventude, arte e politica.

Arte passou a estar vinculada ao ato politico, as letras de protesto no Brasil, o Movimento Parangolé, o Rock Brasileiro dos anos 80: Legião Urbana, Plebe Rude, Ultraje a Rigor, todos os filhos da geração de oprimidos da ditadura militar que viram na reabertura politica um moto, um viés de contestação social. Mangue Beat em Recife, Movimento Hip Hop, grafitagem em grandes centros urbanos são alguns desses exemplos.

As jornadas de junho e julho deste ano, qual cognominei de Primavera brasileira, são a máxima expressão da dissociação entre uma forma de fazer politica e a capacidade de dialogar com a sociedade, notadamente a juventude. O movimento que nasceu em 2006 em São Paulo, Movimento Pelo Passe Livre, conclamou pelas redes sociais uma multidão insatisfeita não só com o aumento das passagens, mas, sobretudo com as formas de representação politica.

A falência do modelo politico-partidário, corroborado pela crise da direita brasileira, deram mote a uma forma de manifestação que dizia nitidamente que as estâncias burocráticas perderam a capacidade de dialogar e até mesmo entender os anseios das novas configurações sociais, expressas, por exemplo, nas redes sociais, apanágio das novas sociabilidades.

A rápida comunicação via facebook possibilitou uma nova organização e forma de convocação antes feita pelos partidos e sindicatos, quando não pelos movimentos sociais. Além disso, a arte colocada nas ruas durante os protestos também sinalizaram que o modelo de controle de financiamento deste setor precisa ser revisto. O processo de burocratização, de exercício de poder do estado sobre as artes não atende a necessidade comunicativa que se faz a todo o momento em vários lugares e partes do país. A democratização da informação operada pelas redes sociais é um processo verdadeiramente inovador e revolucionário e obriga as velhas instituições democráticas a repensarem suas formas de atuação.   
   
É necessário repensar o conceito de juventude, não se trata de uma faixa etária, é um estado de espirito, por isso ao longo da história todas as transformações estavam associadas a um grupo contestador das condições sociais.

Por que a dimensão da mudança se traveste em arte? Por que a vida prosaica em sua dimensão isolada é insuportável. A arte é o que escapa ao rodo opressor cotidiano.

Por que a relação entre juventude, arte e politica? Porque a mudança, operada pelo espirito brota a arte. Ela recoloca aquilo que foi retirado do mundo e devolve de outra forma.


É inescapável uma mudança não operar transformações no campo politico. A arte é a capacidade de enxergar, antecipar um mundo ainda não visualizado. Ela suspende a vida obnubilando pela capacidade de ver o belo onde este não mais existe.

3 comentários:

  1. HENRIQUE AINDA ESTOU ESPERANDO A LISTA DOS LIVROS, NÃO ME LEVE A MAL.

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  2. Meu caro amigo,
    A cidade Picos e a organização do FECULT ficou lisonjeada com a sua presença. Não é todos os dias que temos a oportunidade de assistir conferências tão esclarecedoras e revolucionárias! OBRIGADO!

    Abraço,
    Agostinho Coe

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    1. Querido Agostinho. sou eu quem agradeço. foram dias maravilhosos. obrigado, do fundo do coração

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