segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Feliz Aniversário Versura: 2 anos de ventura

É como escolher a melhor taboca para fazer a armação. Nem sempre o bambu é ideal, ainda assim a vontade de empinar suplanta a debilidade da feitura. Depois procura-se o papel colorido para destacar quando estiver no ar. Ai vem a linha, a rabiola de algodão ou de plástico a procura do vento. Às vezes o vento não vem. Sai correndo e o empuxo empina voo, mas logo cai. Quando vem, altaneiro colore o céu como um pássaro, sem liberdade, já que está preso às mãos que o conduz. É como estar numa gaiola gigante, mais espaço, amplitude, ainda assim, preso. Mas nem isso tira o gozo dos primeiros vôos. E cada empinada é como um primeiro voo. As direções mudam com os ventos, espaços, nuvens, pipas coloridas, e a vontade de estar é o que move a corrida em busca da pipa caída após uma lanceada, cortada por uma manobra fulminante, daquelas que por cima do cabresto aproveita-se do fluxo da corrente que arrasta a linha com força cortando-a deixando ao leu, desmilinguido-se, caindo como uma folha seca. Muda-se a pipa, escolhe-se outro cenário e lá vai outra, depois outra, e mais outra. 

Escrever é como empinar pipas. A gente escolhe a melhor armação, o papel, a linha, os ventos, o céu azulado. A gente não dá conta dos riscos de se olhar para cima muitas das vezes se esquecendo do que nos cerca; da linha tocar num fio de alta tensão; de ser lanceado e cortado, como muitas das vezes nos chegam as criticas ferinas, sem piedade e sem chance de fazer outra manobra. A vontade de voar é igual a sensação de desenhar palavras ao vento levada pela sensação da liberdade de dar vida àquilo que se esconde nas mentes e nos corações. Nem sempre os vôos são belos, são truncados por vezes, atrapalhados por muito do que se interpõe à palavra; presa, oculta, escondida, não encontrada. 

Outras vezes não somos nós quem decidimos escrever, as palavras nos procuram e tudo se transforma num cenário propicio a empinar: ventos, inspirações, desejo, sol, pipas como textos pintando os céus como metáforas numa grafofagia às vezes tão absurda como os desenhos que mentes imaginadas veem sob o formato das nuvens. Se vê de tudo em formato de algodão: navios, carros, rostos, São Pedro, Deus. O olhar transforma o céu. 

Para escrever é preciso olhar para cima e depois para baixo. Para empinar é preciso primeiro olhar para baixo e depois para cima. Às vezes essa ordem se inverte: o desejo de empinar é vetado pelo mal tempo, portanto, olhando-se para cima é possível saber que a pipa ainda em baixo não levantará voo. Para escrever as vezes as condições estão dadas: papel, caneta, mesa, vontade, mas as palavras não vem, ai, olha-se para cima, em busca do texto, da poesia, da escrita, da trama, de algo que alavanque o irrefreável desejo de sair do chão. É o que a escrita faz com quem escreve: retira do solo, quebrando as amarras de uma vida presa como uma raiz, mesmo que seja a de uma árvore, como o bambu, cujos filamentos são retiradas as talas finas, longas e estreitas; armação de qualquer pipa. 

Hoje, o Versura faz dois anos. Agradeço a todos que me acompanharam nesse tempo de voo: raso ou alto, bonito ou feio, com ou sem lanceada, como vento ou sem ele. A todos que assistiram a pipa empinar nos céus, os que seguraram na linha, aos que esperaram e esperam ela aparecer no céu todos os dias. Nem sempre é possível. Ficou um tempo apagada do ar, guardada, esperando o inverno passar. Agradeço aos que também tomam a decisão de colocá-la no ar: literal e figuradamente.  

A todos que sempre, de vez em quando, quando em vez, quando dá, quando bate aquela vontade de vê-la aparecida, meu muito obrigado. Vocês são como ventos versando o desdobramento das palavras.                                  

2 comentários:

  1. Faço parte desses dois anos de vida, obrigado por não tira-lo do do ar, falo em nome dos estudantes de História do polo de Rosário. PS, estamos com muito saudades de você Henrique.

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    1. Que bom fico feliz que faças parte dessa história. Também sinto saudades de voces. quem sabe uma disciplina antes do fim do curso. abraços

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