sexta-feira, 19 de julho de 2013

Olhos e barba

É assim. Um olhar lânguido em busca de um horizonte; claros, instigantes, misteriosos, como quem ao repuxar os fios da barba completa o cenário de uma visão. Mais lembra a posse clássica do pensador de Rodin, mas, em vez de cotovelos no joelho, são mãos no rosto. 

Discussão acalorada à flor da pele, militância no peito em busca da igualdade, radicalidade por vezes acompanhada de uma pequena impaciência, típica dos gênios que não se conformam com o pouco, com o raso, com o mesmo. Há sim uma altivez, mas sempre em busca da ultrapassagem, da transmutação, da aliteração, da razão.

É porta-voz de um mundo novo, pelo menos para aqueles que nunca tiveram contato com essa forma de encarar a vida. Indiferente a ele, jamais. É perturbador demais para passar despercebido. Alguns desdéns sempre o acompanharam, diatribes, incompreensões, nunca se importou. Não se enxerga como superior, e sim, que cada um ao seu tempo de descoberta. As entranhas de outros pensadores se ligam às dele pela boca e pelos olhos de ver. Cada passada de mãos na barba um novo enovelar das entranhas somadas.

Aos poucos, as palavras de Platão saem por sua boca, as de Sócrates também. Começam como uma sinfonia ruim de ouvir, como um fel duro de amargar. As sombras da caverna cedem espaço a uma luz tangente como as dos seus olhos cor de ardósia; são visões obnubiladas turvando-se a clareza de seu entendimento, como um bálsamo trazido por uma musa grega. Palas Athena sorri. 

Os que tem olhos para ver, enxergam, ouvidos para ouvir, ouvem. A marcha de Sofia passara a ser acompanhada de Clio. Já não está mais sozinho, aliás, tempo atrás Cupido flechara uma de suas séquitas aprendizes que ao seu lado caminham, aprendendo e ensinando velhas e novas lições de Gaia. 

Aquele encontro não era fortuito, o sábio de olhos cor de ardósia e a jovem agora musa e mulher era o desiderato da vontade de potência explanado por Nietzsche, mas que só com o sentido do amor e tremor de Kierkegaard faz eco. Eros, enfim, fez as pazes definitiva com Anteros; sua porção mulher, sua parte outrora obliterada, amor sem tanatós, entrância e reentrância, morros de planície, rio de mar.

É uma longa marcha sempre a procura dos sentidos da existência. Da desconfiança dos fios de Descartes fez-se um novelo saltitante de Eisenberg. Um outro mundo, duplas visões, paralelas que se entrecruzam, uma vida por sobre a outra. Era a caverna tendo seu teto desabando e abrindo um clarão quântico, energias sinestésicas e terapêuticas saindo de suas mãos, quentes, impostas, transfiguradas. Oriente e Ocidente não mais antitéticos, agora ilados, era a razão buscando seu grande sentido. O holismo grego encarnado em toda a dimensão corporal, não apenas na mente, cabeça, onde supostamente sairia todo o devir do logos, era a plenitude querendo ser plena.

A poesis de mãos com filosofia, a tradição no pensamento diante de um mestre que ensinou gerações a enxergarem para além do horizonte. A razão nele se reconhece, o devir incontinente todos os dias bate sua porta, o afeto transborda por seus dedos anelados de mistérios que adentram por sua cabeça e sai pelas entranhas, as mesmas enoveladas nas dos pensadores que o antecederam e que continuam a existir, sobretudo os que são despertados por ele. Essa é sua missão: inquietar, instigar, lutar...

Lutar pelos seus e pelos dos outros, pelas árvores que se deitam pedindo socorro quando ele passa, são agonias em busca de proteção contra a deterioração, desmatamento, matança, aberração dos homens obliterados de si mesmos, alienados de sua condição ôntica e ontológica de serem felizes, absortos, pusilânimes na tarefa de lutar pela superação de si, trôpegos, cambaios, cambiantes de lugar em lugar, cidade em cidade, vestal em vestal.

Hoje a vida celebra mais um dia de teu nascimento e tem agenda lotada de reflexão. É um dia comum: trabalhos, estudos, deslocamentos, reuniões, nascimentos, mortes em várias partes do mundo, mas aqui, nesse recanto escondido do mundo, cercado de árvores e rios, as voltas com poucos amigos e parentes, vamos parar para celebrar teu dia, teu natalício dia, jornada que Gaia reservou para comemorarmos alguém especial, cuja presença nos enche de inquietação, angústia, sabedoria, amizade, esperança e amor.

Parabéns ao meu mestre, amigo, cunhado, Marcos Antonio Macêdo Muniz.        



           
















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