quarta-feira, 3 de julho de 2013

O facebook e as manifestações no Brasil

O mês de junho já se foi. Não podemos falar em rescaldo porque as possibilidades de desdobramentos das passeatas ainda estão em aberto, e vão ficar por muito tempo. Pelo menos uma coisa já é certa: o pedido de encaminhamento de plebiscito do palácio do planalto para o congresso nacional já é, sem sombra de dúvida, uma das maiores vitórias do movimento.

Movimento esse que se articula a um mal-estar global por conta dos desdobramentos do capital. A panaceia de um mundo estagnado, sem grandes perspectivas de mudança, escondia sub-repticiamente uma insatisfação generalizada ante a falência da politica, a crise do humanismo, a barbárie do estado, a indicação de que os modelos democráticos tangenciavam cada vez mais uma opressão da máquina trituradora de sonhos, limitadora da liberdade de expressão!! Isso mesmo!! Os aparelhos midiáticos reduzidos cada vez mais a pequenos grupos econômicos tangenciavam um modelo de vida como se qualquer outra possibilidade  de sociabilidade, de critica ao modelo imposto, era automaticamente encarado como ultrapassado, démodé.

O facebook foi uma dessas ferramentas midiáticas de expressão da ditadura do belo, do bem viver, dos arquétipos de vida feliz. Não é difícil entender seu sucesso. Ante a velocidade das informações, a incapacidade de incorporar milhões de anônimos ao grande estrelado, ter uma página pessoal de grande circulação imediata foi uma arma eficientíssima de simulacro dos encontros, das possibilidades de ser aceito, visto, cultuado, ainda que por apenas lapsos de segundo. 

Na outra ponta, a grande mídia, aparelhada pelo grande capital, por grupos políticos, já temiam desde os anos 2000 o avanço das redes sociais e por razões obvias: não há controle de seu conteúdo, elas representam a verdadeira expressão democrática de liberdade, possuem a capacidade de comunicabilidade instantânea, dentre tantas outras coisas, agora acrescida de um fenômeno nem tão novo, mas profundamente assustador: a capacidade de mobilização política.

O mês de junho no Brasil revelou uma nova forma de articulação politica: o facebook e as ruas, as duas conjugadas simultaneamente na velocidade de não-entendimento do corpo politico partidário brasileiro e das demais instituições. 

Mas, nem tudo são flores. Se por um lado as passeatas conotaram a falência de uma forma de fazer politica, do modelo representativo, indicaram a participação direta, cognominada de democracia direta, a capacidade de mobilização sem lideranças, a revelação de golpes, de tramoias, do movimento das elites brasileiras, por outro, revelou pelo seu aliado, o facebook, exatamente a multiplicidade do que fazer e como, só sobrou o porque. O porque está claro: crise das instituições democráticas, no entanto, o que constituir pós-crise ainda está em construção. 

Além disso, o facebook revelou também uma das poucas "fragilidades/forças" das passeatas: a compósita forma de fazer politica, do que expressar, como fazer. O que está claro é que daqui para frente o Brasil será sacudido por grandes manifestações, já descobrimos o poder de mobilização e seus efeitos imediatos no palácio do planalto e congresso, mas as divergências e a direção do que queremos não está. 

Como o facebook se transformou num instrumento politico contra a grande mídia, era consultado imediatamente após grandes passeatas para saber de suas extensões. Foi ai que as contradições emergiram. Face"s pagos por instituições politicas serviram e ainda estão servindo para dissuadir, enganar as pessoas reverberando e plantando noticias falsas, caluniosas e catastróficas. Como é um instrumento de rápida circulação, em questões de segundos uma mentira se espalha feito rastilho de pólvora.

Esse é um dos problemas do face, na verdade de muitos dos seus usuários. Sem leitura, sem criticidade, sem a devida calma e atenção, muitas pessoas curtem e compartilham informações que poderiam ser evitadas apenas com uma maior acuidade. 

Estamos reabilitando uma velha tática de grupos e pessoas do século XIX, quando ofensas, mentiras, blagues, chistes e ironias eram publicadas em jornais, jornalecos, folhetins todos os dias, a cognominada troca de ofensas, a diferença é que no XIX o estado tinha o poder de fechar uma tipografia, com o facebook não. Esse é seu poder discricionário. Mas não só. 

Desmentir uma informação da grande mídia, revelar bastidores da politica, contra-atacar uma ideologia, são algumas de suas características revolucionárias. O mundo mudou. Por outro lado, denota a fragilidade politica das pessoas por compartilharem informações de forma simultânea sem grande reflexão, esse um  dos problemas da instantaneidade. Isso sinaliza a esquizofrenia contemporânea em se fazer presente, mostrar sua cara de qualquer jeito, forma e com o velho problema da repetição: basta uma figura de expressão publicar algo no seu face e rapidamente centenas de pessoas curtem e compartilham. 

O face expressa o problema da falta de criatividade e profundidade das informações. A questão é que tudo é muito novo e estamos experimentando novas formas de fazer a cena politica. Há um modelo em xeque da politica e outro sendo construído. 

Seus benefícios, contudo, são imensuráveis. A primavera árabe não aconteceria sem as redes sociais, ou até aconteceria sem sua grande expansão, da mesma forma com os desdobramentos da crise politica na Turquia e, mais recentemente no Brasil. 

A midia falou em confronto entre manifestantes e policia militar em São Paulo e chamou de vândalos os que quebraram as estações de metrô, mas quem postou as fotos e videos da truculência da policia foram os usuários do face. A dimensão da violência só foi percebida pela circulação das imagens não exibidas na televisão. 

Já no Maranhão, mais especificamente em são Luis, terra distante de tudo, os desdobramentos da primavera brasileira ainda estão por serem melhor entendidos. Passado o mês de junho, a força das mobilizações perde seu impeto a cada dia cedendo espaço para reivindicações localizadas de moradores que descobrem o poder de mobilização e reivindicação perante a prefeitura. Perdemos o foco do movimento nacional e não estabelecemos uma agenda de reivindicação. Os grupos que ainda persistem terão uma árdua tarefa de remobilizar. 

Parabenizo a atitude de fazer ressurgir o Movimento Passe Livre em São Luis e a convocatória para uma Assembléia Popular para o próximo sábado. São tentativas de arregimentar aqueles que estavam nas ruas e não se sentem mais representados.

Que engraçado!! O movimento nasceu contestando a representação da classe politica e agora as pessoas em sua grande maioria não querem sair às ruas porque desconfiam dos rumos do movimento, exatamente pela forma como os lideres das convocações se comportam no face e nas ruas.   .            


    
             

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