domingo, 4 de agosto de 2013

Dentro da Matrix


Quando o ex-agente da C.I.A. (Companhia de Inteligência Estadunidense), Edward Snowden, revelou, momentos antes de ter seu visto de entrada na Rússia autorizado por um ano, desde que não faça mais revelações sobre o governo dos Estados Unidos, de que tal país possui uma máquina capaz de rastrear qualquer troca de informações entre e-mails e celulares em qualquer lugar do mundo, a percepção de que vivemos numa matrix deixou de ser uma mera alegoria cinemática para ser realidade.


O filme Matrix, dirigido pelos irmãos Wachowski, de 1999, correlato de outra película, Avalon, de 2001, do diretor Mamoru Oshii, depois influenciando o anime Animatrix, 2003, tendo como mentor os textos de Jean Baudrillard (embora tenha dito que o que mais se aproximava de seu pensamento tenha sido o filme Show de Truman, de 1998, de Peter Weir), narra a saga humana encapsulada pelo controle ciberpanóptico contado em três perspectivas: a ilusão, a descoberta e a redenção, a partir de metáforas como os arquétipos humanos, também encontradas no cristianismo e em obras como de Lewis Carrol, Alice no país das maravilhas


O filme conta como a terra foi sucumbida pela disputa entre máquinas e homens, tendo sido derrotados esses últimos, sendo escravizados desde então, servindo como fonte de energia para as primeiras. O elemento ficcional, ou seja, a criação de um mundo virtual onde as pessoas vivem nas sombras não sabendo da realidade para além da escuridão, não é em nenhuma instância mais um elemento de verossimilhança. 


O que distinguia o elemento da ficcionalidade da cognominada realidade era exatamente a inverossimilhança. As pessoas diante das telonas sabiam, elemento da reflexividade, que somente através dos pixels poderia se criar um mundo absurdamente distante e diferente do real. Não mais, aliás, esse é um dos componentes da difícil conjugação e composição do que vem a ser literatura nos dias de hoje. 


Noam Chomski, em recente entrevista, bradou que as pessoas estão sendo enganadas o tempo todo e nem sequer sabem que estão. As estratégias da mídia de entretenimento e convencimento criaram elementos de dispersão e alienação cujos expectadores vivem as sensações apreendidas pela mídia de forma mais real que as representações de suas próprias vidas. Esse elemento já havia sido denunciado por Walter Benjamin em A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica


Que a distância e os interesses pela vida já de algum tempo têm sido solapadas pelas estratégias de persuasão do capital, via os seus componentes de alienação e entretenimento investidos na cultura massificada, quer na arte visual, pictórica, literária e afins desde o início do século XX, inclusive apropriadas por governos autoritários, não é nenhuma novidade. Agora, controle sobre aquilo que de mais íntimo um ser humano pode ter, do ponto de vista da privacidade, ao controlar o que as pessoas falam, ouvem e escrevem em suas caixas postais, celulares, é a própria confirmação do desejo do controle panóptico do estado sobre a vida, engabelada e ultrajada pela falsidade democrática de uma nação que, se julgando a polícia do mundo, fere os princípios irredutíveis e alienáveis da defesa da vida.


Aliás, sob esse aspecto, a democracia dos Estados Unidos é a máxima expressão perversa da tirania, pois que sob os auspícios de defesa de sua liberdade fere todas as outras. O pior, com a anuência da sociedade civil estadunidense absorta e alienada na sua cegueira em considerar legítima a tirania de seu país. 


Quando as coisas atingem esse patamar nada é verdadeiro, legítimo, justificado. Tudo é matéria da cegueira insana da tentativa de controle político, já que a própria política virou simulacro da desfaçatez democrática, do combinado binário Republicanos X Democratas, em que os presidentes desse país são meros fantoches da política de segurança pré-estabelecida independentemente de quem vencer as eleições para a Casa Branca. Isso explica por que todo ex-presidente dos Estados Unidos tem o direito de ter acesso a informações secretas, corroborando a ideia de que são apenas peças de um imenso quebra-cabeças.


O ex-agente aceitou um acordo mesmo sabendo da condição de sua vida, não poderia passar o resto da sua vida encarcerado num aeroporto. Aliás, dias antes da concessão de seu visto, E.U.A. e Rússia assinaram um acordo de livre cooperação sobre informações sigilosas, antecipando e anunciando o que aconteceria com o ex-agente. Não nos enganemos, ele corre risco de vida. 


Dessa forma, a maior democracia do mundo trata a todos que interpelam seus propósitos; Julian Assange, do Wikileaks; vigiando a América do Sul, em especial o Brasil; proibindo o jatinho do presidente da Bolívia, Evo Morales, de pousar em Portugal, Espanha, Itália e França. 


O que é real nesse mundo de ilusões? Não queremos a tirania, tampouco o autoritarismo, como também a pseudoliberdade de se viver controlado pelo aparato do estado, quer dentro de seu próprio país, quer por outro. Sob esse aspecto, viver enganado pelas instituições democráticas ressoando a barbárie é tão ruim como acordar todos os dias sabendo da existência de restrição de sua liberdade. Aliás, o que é liberdade? Quais os limites dela?


Snowden tomou a pílula azul, entendeu a matrix, abandonou-a, luta contra ela, abriu mão de um salário e uma vida mais que confortável em nome da verdade, da esposa, ele é o nosso Neo e sofre as consequências disso enquanto boa parte do planeta permanece na ilusão de viver... Na mais pura ilusão.


O que é verdade e ilusão?          




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