sábado, 9 de agosto de 2014

As Emoções e a Filosofia



                                                                  Adonay Ramos Moreira


   Cairemos sempre num grande engano se encararmos o pensamento filosófico como algo genuinamente racional, produto de um esforço intelectual sobre-humano, do qual os sentimentos, as emoções mais simples passam por longe, como se ele fosse qualquer coisa assim como uma pirâmide, cuja construção exige somente cálculo e força.

   Ao contrário do que somos ingenuamente levados a pensar, estamos mais distantes da racionalidade do que pressupomos. Os jornais, os programas de TV, o computador, toda sorte de bugigangas modernas prova-nos apenas que nosso século é qualquer coisa, menos racional.

   A História nos mostra que nem sempre se gozou dessa deusa Razão. Em todos os povos, de todas as épocas, a racionalidade e o tão sonhado “homem racional” não foram senão exceção, quando muito fantasmas ou encenadores menores, para os quais a palavra “razão” ou é algo sobrenatural (para a classe dos fantasmas) ou algo fictício (para a classe dos atores).

   Os homens de nosso tempo incluem-se nessa segunda categoria. O conhecimento não lhes é senão encenação: quando um erudito de nossa época não se encontra diante de uma plateia; quando após um comentário seu ou algum discurso ele não ouve nenhum aplauso, nem mesmo um “Viva!”, ele frustra-se de tal maneira que a primeira coisa em que pensa é no suicídio.

   O conhecimento em si, aquela atração pelas coisas do mundo, por sua grandeza e espetacularidade, o qual pela primeira vez foi visto sobre a face da terra entre o povo grego, isso é algo de todo desconhecido de nosso tempo. O homem moderno tem desejo sim, mas não de conhecimento. Interessa-lhe antes o quanto em moedas ele pode ganhar por segundo, o que pode lucrar em termos financeiros lendo este ou aquele livro, e quando menciona algo tido como “sábio”, como “erudito”, é apenas como um acessório, uma máscara ou algo desse gênero: o conhecimento verdadeiro daquilo que diz jamais penetra sua alma.

   E é nisso que consiste a falha do homem moderno: o que ele pensa está totalmente distante do que sente, como se seu coração e seu cérebro fossem duas ilhas distantes, separadas por um oceano de mistérios e incertezas. Dito de outra forma: o homem moderno, o “sábio contemporâneo”, deixou de sentir, tornou-se somente uma máquina de pensar, para a qual as emoções são sonhos distantes e sem significado. Interessam-lhe antes as suas proposições: “Se elas estão corretas,” – pensa ele – “então estamos diante de uma verdade”. Ante isso, não nos resta outra alternativa senão lamentar, pois cremos em profundidade em algo bastante simples: quando um homem nega seus sentimentos, ele também nega, embora não o perceba, a sua humanidade.

   O que levou os homens a pensar não foi sua razão, mas seu sentimento. O homem primitivo não se expressava através de cálculos matemáticos, mas por desenhos. Seguramente, ele não estava interessado em quais proposições lógicas o mundo se baseia, mas afligia-o antes esse desejo tão terrível (e ao mesmo tempo tão belo) que é saber o que nos torna vivos, qual sentido há em nossa existência sobre a face da terra, o que são os fenômenos naturais. Primeiro vieram-lhe as emoções, para que em seguida (e compreenda-se esse “em seguida” como uma soma nada desprezível de anos) surgisse em seu íntimo, no seu espírito, qualquer coisa parecida com a racionalidade.

   Os mitos são a prova mais “concreta” disso. Longe de serem criaturas inferiores, eles constituem uma vitória de nossa sensibilidade. Interpretar o trovão e o raio como a fúria de um deus não é prova de ingenuidade, mas de sabedoria. É preciso estar em contato profundo com a Natureza para se poder criar algo parecido. É preciso, antes de tudo, sentir, compreender que se é parte do mundo e que este é parte de nós, e que uma separação entre o Homem e a Natureza é algo impossível, diríamos mesmo inadmissível, e por mais que ele tente se afastar dela sob a égide da racionalidade, da sua tão sonhada “razão”, suas tentativas não resultam senão em fracasso, pois ele empreende uma aventura que se encontra muito além de suas forças. O homem tem seu limite. Tentar ultrapassá-lo será sempre motivo de fracasso. Aqui repetimos a fala de Macbeth: “Atrevo-me a fazer tudo o que é próprio de um homem. Quem se atreve a mais, homem não é”. Com esse pensamento, Shakespeare abarca um mundo.

   Os gregos, que temos como os pais da filosofia, também chegaram a ela por meio dos seus sentimentos. A sua mitologia já constitui em si um pensamento filosófico, e o próprio Aristóteles confirma isso em sua “Metafísica”: “Ora, quem indaga e está perplexo sente-se ignorante (assim quem gosta de mitologia é em certo sentido um filósofo, uma vez que os mitos se compõem de indagações)”; é preciso ter a clareza de pensamento de um homem como esse para se chegar a tal conclusão.

   Pensar, viver, ser feliz, tudo isso são coisas que, para nós “modernos”, “homens evoluídos”, que com tanta ciência não somos capazes de enxergar um palmo sequer além de nosso nariz, parecem completamente impossíveis. O homem moderno tem uma máxima: ou pensa ou vive, uma conciliação entre esses dois estados é-lhe qualquer coisa de inconcebível. Ele sente que, ao se afastar da razão, qualquer evento monstruoso poderá ocorrer. Certamente, um erudito de nosso tempo, um “sábio”, esse tipo de indivíduo provavelmente foge das emoções como o Diabo foge da cruz: para ele, emocionar-se é um ato nocivo, diríamos mesmo “primitivo”.

   Por mais que pensemos (e – de fato – a história da filosofia no ocidente está repleta desse tipo de reflexão, de Platão a Nietzsche), jamais chegamos à certeza sobre de onde nos provém o conhecimento. Se ele está em nós ou fora, se é capaz ou não de ser abarcado por nossos sentidos, isso é coisa que ainda não sabemos. Alguns otimistas (que de tão otimistas beiram a decadência intelectual) põem na ciência moderna certa confiança no que se refere a isso. Mas, quanto a esse assunto, permanecemos céticos.

   O que pretendemos abordar (e não convencer, é preciso esclarecer isso) é que nenhum filósofo se furta a suas emoções quando se propõe a pensar. Os próprios gregos falavam em “melancolia”. De fato, um homem feliz dificilmente chegará com algum sucesso ao pensamento. Para se chegar a ele, é preciso perder qualquer coisa, ainda que mínima. E, em matéria de perda, a razão passa sempre longe. Ser racional em campo subjetivo equivale voltar à animalidade.

   Elogia-se muito a postura do velho Sócrates ante a morte. Quem quer que se digne ler o “Fédon” poderá concluir: “Sim, estamos diante de um homem racional!” Esse tipo de conclusão é-nos totalmente absurdo. É preciso se ter uma certeza muito grande para abandonar a vida com tanta facilidade. É preciso sentir (e que se dê a este verbo a força e a tônica que lhe são devidas) que algo há além; que esse mundo é fruto de uma certa transitoriedade; que em algum lugar há algo mais agradável, onde um espírito possa repousar. Sim, é necessário tudo isso, e não é pela razão que se chega a esse “bosque encantado”. A morte de Sócrates foi tão romântica quanto a de Cristo e a do jovem Werther: nos três, há qualquer coisa de extremamente meloso e ridículo. Não é por silogismos que um homem se encaminha à morte. E nem mesmo o bom Sócrates foge a isso. Em casos assim, a razão é a última a participar.

   Conta-se que Empédocles saltou à cratera do Etna para provar que era um deus, e nunca mais foi visto: dificilmente alguém será estúpido o suficiente para atribuir tal ação a um argumento racional. Isso nos prova que nossos estimáveis filósofos nem sempre agem segundo critérios de racionalidade (em relação a isso, os pensadores modernos são mais práticos: Deleuze, por exemplo, provavelmente para evitar a fadiga, dignou-se apenas a pular pela janela. Subir à cratera de um vulcão para em seguida jogar-se nela devia-lhe constituir um argumento tipicamente “irracional”).

   Mas tais exemplos são cômicos, e servem antes para comédias do que para um ensaio. Verdade que de modo algum me proponho ser o autor de um texto excessivamente acadêmico. Seria de todo curioso um sujeito defender certa ênfase às emoções no processo de filosofar com um tom acadêmico e burocrático. Não. Tais tipos de texto são para os “sábios”, os “eruditos”, e eu me encontro a uma distância de anos-luzes dessas duas classes.

   Em todo pensamento filosófico há sempre uma parcela de vida, e a vida (precisamos admiti-lo) não é algo extremamente racional. Os pensamentos mais profundos, assim como a obra de arte, provêm da necessidade; da necessidade de se reconhecer no mundo. Se um homem não se incomoda com a realidade; se a existência (esse “vale de lágrimas”, para usarmos uma expressão familiar aos cristãos) não lhe é qualquer coisa de demasiadamente excessiva; se ele não se sente de alguma forma angustiado, “melancólico”, é preciso que reconheçamos que não estamos diante de uma reflexão filosófica. Estamos, antes, perante um ator: por alguns segundos (ou durante o tempo que durar o espetáculo), ele põe a sua máscara e dramatiza. Mas, caídas as cortinas, ele volta à sua vida de mediocridade. Um homem assim exibido assemelha-se mais a um pavão do que a um filósofo: falta-lhe a essência daquilo que é verdadeiro, daquilo que é vivo.

   Costumamos chamar o senhor Platão de um homem racional. Somente quem nunca leu nenhuma de suas obras poderá concordar com esse juízo. Tomemos um exemplo clássico: a sua “República”. Nessa construção absurda, há uma verdadeira sociedade entre o coração e o cérebro: se há a racionalidade, também há de igual modo o desejo, o sonho. E este segundo ponto é bem evidente no que se refere ao seu modo de lidar com os artistas: “Quando um desses senhores pantomímicos, tão vivos que sabem imitar tudo, nos visitar, propondo-nos uma exibição de si próprio e de sua poesia, cairemos de joelhos e o adoraremos como algo sagrado, doce e maravilhoso; mas devemos também informá-lo de que, em nosso Estado, não se permite, por lei, a existência de semelhantes criaturas. E, depois de untar-lhe o corpo de mirra e colocar-lhe à cabeça uma coroa de lã, mandá-lo-emos a outra cidade”. Por mais que se negue (e a tendência geral é negar), uma atitude assim não se trata de razão, mas de afinidade: no fundo, resulta apenas do fato de se gostar ou não de alguém ou de algo, e em vão procuramos um argumento para se justificar a presença de uma possível razão em tudo isso.  
       
   A “República” platônica é um artefato romântico. Um homem tem que estar terrivelmente decepcionado com a vida para criar algo parecido. Em certos termos, a fuga para a república platônica é uma antecipação do espírito de inconformismo que se revelou aos homens do século XIX quando se deu início ao movimento Romântico. A diferença é que Platão, em sua época, tratou de mascarar isso com algum toque de racionalidade. O homem da utopia do velho grego assemelha-se em muito ao personagem Glahn, do romance “Pan”, do escritor norueguês Knut Hamsun: em ambos há a fuga para um lugar ideal, com a única diferença de que, na república platônica, o homem não se vê tão atraído pela caça. Isso é uma distinção cômica, confessamos, mas extremamente precisa.

   Essas afirmações nos provam que até mesmo o pensamento socrático-platônico estava eivado de certo sentimentalismo, certa angústia. E essa visão se nos torna mais surpreendente (e também encantadora) quando nos lembramos que foi justamente a esse pensamento, a esse tipo de comportamento reflexivo, que Nietzsche atribuiu o início de uma “racionalidade” entre os gregos: “Para demonstrar também no tocante a Sócrates a dignidade de tal posição de condutor, basta reconhecer nele o tipo de uma forma de existência antes dele inaudita, o tipo do ‘homem teórico’, cuja significação e cuja meta é nosso dever agora chegar a compreender”. Assim, chegamos sem nenhum problema à conclusão de que a boa e sábia razão grega não era tão racional: havia algo de enfermo em seu corpo.

   Mas não é somente entre os gregos que floresceu a melancolia. Onde quer que o pensamento filosófico penetre, lá também se encontra a emoção. A filosofia medieval (bem como o pensamento helenístico) não se furtou a ela. Os Padres da Igreja são ainda mais sensíveis no que se refere aos sentimentos do que os gregos. Não se pode chegar a Deus somente pela razão. Caso contrário, não se estaria ante Deus, mas ante um teorema de Pitágoras.

   Não pretendemos traçar um painel histórico descrevendo a relação emoção versus filosofia. Faltam-nos tempo e conhecimento para isso. Um tal tipo de tarefa, por enquanto, excede em muito as nossas forças (talvez no futuro possamos fazê-lo); o que por ora nos é possível é apontar para o fato de que a verdadeira filosofia, esse ato genuinamente humano, é uma conjugação dos verbos sentir e pensar. Nenhum filósofo verdadeiro pode se esquivar disso, e os que traçam metas de pensamento como se este fosse uma receita para bolo caem sempre no abismo do fracasso (um bom exemplo desse tipo “filosófico” se encontra no personagem Memnon, do senhor Voltaire, um verdadeiro símbolo do malogro intelectual).   
       
   Não sou devidamente competente em matéria de Lógica para afirmar até que ponto a emoção pode participar nesse tipo de jogo. Porém recuso-me a aceitar a ideia de que homens como Bertrand Russell e Wittgenstein tenham construído suas obras com a mesma indiferença emocional com que um homem com dor de barriga redige uma carta de amor. Não me parece sob nenhum aspecto que um ser humano, por mais que seja sábio, possa ser capaz disso.

   Formulamos juízos sobre o mundo quando “estamos conscientes” (é preciso ter sempre certo cuidado quando se escreve esse tipo de afirmação) da realidade em que vivemos. Um indivíduo que não chegue a esse ponto jamais será capaz de pensar. É por uma tal inércia intelectual, por esse mesmo tipo de alheamento existencial, que devemos o fato de vacas e porcos não redigirem tratados de metafísica. E estar consciente significa sentir. Significa compreender que não estamos “no melhor dos mundos possíveis”. Homens como Kierkegaard, Nietzsche, Sartre e Camus são a prova de que a emoção sempre participa do jogo.  Somente à medida que fomos “evoluindo”, tornando-    -nos “científicos”, mais “modernos”; somente agora que exibimos sobre o peito uma faixa com o nome “pós-contemporâneo”, é que os homens do conhecimento (não a Filosofia) pretendem levar sua “racionalidade” ao extremo, e com isso eles não fazem senão enganar a si mesmos. São como os indivíduos que, tentando fugir de seus pensamentos, empreendem peregrinações pelo mundo: tais homens sempre se frustram, pois não percebem que jamais poderão fugir de si mesmos. “Toda consciência é enfermidade” – disse certa vez Dostoievski, e é inútil tentar fugir: a miséria, a “doença” sempre irá conosco.

   E o que é mais trágico em tudo isso é que, de todas as épocas, é justamente a nossa que mais tem necessidade de sentir, de pensar, de uma filosofia que una razão e sensibilidade. Para falarmos de maneira alegórica, assemelhamo-     -nos a Ícaro: chegamos tão alto que agora nossas asas começam a não mais resistir, e não é o sol que as corrói, mas a ignorância e a mediocridade que o nosso século entre fios e máquinas nos proporciona.   
        
   Talvez seja esse milênio o momento oportuno para se fazer renascer a Filosofia como sensação humana, como capacidade de tornar-se melancólico para assim poder se pensar humanamente esse ser que há muito vem perdendo as características do que é humano. Talvez seja esse o momento para que a emoção volte a coabitar o mesmo corpo em que dormem o conhecimento e a razão, e assim evitar que nosso tempo caia em uma profunda miséria, e se concretize aquilo que um dia esboçou Carlos Drummond de Andrade em um de seus versos: “Chegou um tempo em que a vida é uma ordem/ A vida apenas, sem mistificação”.








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