quarta-feira, 6 de março de 2013

Adeus Chorão, vocalista da Banda Charlie Brown Jr

O Brasil acordou mais triste, choroso. Morre o vocalista da banda de Rock: Charlie Brown Jr,  O Chorão. Nome sugestivo: Chorão, do verbo chorar, de quem sente, sofre, reclama, vive, verve. 

Nos Estados Unidos a cor azul indica tristeza, por isso Blues, quando os negros protestantes após os enterros dos seus entes queridos voltavam dos cemitérios tocando essa melodia. Mesmo quando acelerado o Blues guarda um Q de tristeza.  

No Brasil, o ritmo chorinho, nascido de nossa miscigenação cultural, da profusão de nossos sentimentos, é quase um lamento, uma declaração de amor lancinante, tocada por tons agudos, lembrando que a nossa alegria festiva também chora. 

A coincidência do apelido Chorão para um cantor e compositor de Rock guarda semelhanças com o sentido do rock e do próprio nome da Banda. Charlie Brown, ícone da cultura estadunidense, é apropriado no Brasil com o sobrenome Junior, ou seja, filho, como se essa banda resgatasse os sentidos iniciais de quando o rock iniciou. 

Nascido nos anos 50, oriundo de vários ritmos estadunidense, o rock nasceu como forma de protesto dentre outras coisas contra o american way of life. O ritmo agitado, controverso, era uma especie de manifestação e anuncio de um novo tempo. Quebrar os paradigmas musicais, usar roupas ousadas, jaqueta preta, calça jeans, cigarro na boca, uma moto potente e a estrada como destino, representavam o anuncio da emancipação cultural que as décadas de 60 e 70 gozariam como nunca dantes. 

Ultrapassando fronteiras, em parte por conta do sucesso dos Beatles, o rock chega ao Brasil e encontra solo fértil. De novo o problema do confronto entre uma sociedade conservadora e o choque cultural de novas gerações. O Rock Brasileiro ganhou uma cara nova com Mutantes, Secos e Molhados fazendo escola. 

Como sempre, os contra afirmaram que tal ritmo era a decadência da musicalidade brasileira. Estavam errados. Como seria o novo cenário musical brasileiro sem a Tropicália, Mutantes, Secos e Molhados, A Jovem Guarda, The Fevers, Renato e seus blue caps, Raul Seixas, depois, Barão Vermelho, Ultraje a Rigor, Capital Inicial, Ira, Legião Urbana, RPM, e toda a geração do rock nacional dos anos 80 que assistiu a passagem de uma sociedade marcada pelo autoritarismo da ditadura militar para a liberdade de imprensa e expressão, ou pelo menos a abertura dela?

Mais uma vez o rock era dissonante das mudanças porque o Brasil passava. E como ele novas gerações aprenderam a se manifestarem criticando comportamentos e situações sociais.

Charles Brown Jr compunha o novo cenário musical brasileiro. Oriundo da sociedade industrializada, urbana paulista, a banda era um MIX das influências do pop-rock, do rap e hip-hop. Estava ficando cada vez mais poética, sem abandonar a iconoclastia.  

Chorão, seu líder, sempre esteve imerso em confusões, brigas, polêmicas, controvérsias e suas composições são um retrato disso. A vida levada ao extremo são uma marca da autenticidade de como esses receptáculos da vida a encaram. Todas as vezes que acordamos com noticia de morte de lideres de banda, de cantores solo, enfim, independente da causa mortis, é como se uma parte de nós fosse arrancada enquanto a outra se questiona porque nosso ícones tem a coragem de fazer e viver que nós não temos. 

Janis Joplin, Jimi Hendrix, Kurt Cobain, Jim Morrison, Elis Regina, Chico Science, Cássia Eller, dentre outros, quando são arrancados deste plano, além do vazio, nos deixam o questionamento sobre o sentido da existência. Não cabe julgamento moral sobre a razão de terem morrido, o que nos inculca é porque não viveram mais. 

Chorão expressava cada vez mais de forma sublime a forma como ele encarava a evolução da vida. Acompanhar a trajetória da banda era perceber como os sentidos da existência estavam traduzidos em letra e ritmo. A banda já não era tão novidade, mas sempre nos surpreendia álbum a álbum. 

história, nossas histórias, dias de luta, dias de glória, é quase um prenuncio de sua própria trajetória. Cantar versos do cotidiano, falar de amores perdidos, de situações sociais revoltantes, fez da banda um ícone da nova geração que aprendeu a rimar ao ritmo da periferia das grandes cidades brasileiras. As letras sem grandes elaborações semânticas e sintagmáticas estavam nas bocas de novos atores sociais que viam em tal forma de manifestação sua nova poesia. Se não eu, quem vai fazer você feliz? É a própria cara do piropo moderno, das novas cantadas, da forma contemporânea de dizer a alguém o quanto é importante, sem se importar se nunca estará nas listas de uma antologia poética. 

Agora eu sei exatamente o que fazer
Bom recomeçar, poder contar com você
Pois eu me lembro de tudo irmão
Eu estava lá também
Um homem quando está em paz
Não quer guerra com ninguém
Eu segurei minhas lágrimas
Pois não queria demonstrar a emoção
Já que estava ali só pra observar
E aprender um pouco mais sobre a percepção
Eles dizem que é impossível encontrar o amor
Sem perder a razão
Mas pra quem tem pensamento forte
O impossível é só questão de opinião

Chorão, somente quem experimentou a sensação da paz sabe que ela é melhor que a guerra, não importa por quanto tempo a gozaste. Só quem vive intensamente é capaz de demostrá-la intensamente. 

Agora, tu imprimiste um novo bordão no cenário musical brasileiro: chorar também é coisa de homem, bruto, tatuado, acima do peso, brigão, controverso, roqueiro, skatista, poeta, afinal, somente os loucos como você sabem disso.

Você vai deixar saudades
você vai deixar saudades
queria te ver mais uma vez
queria te ver mais uma vez
você vai deixar saudades                                

4 comentários:

  1. lembro-me do meu primeiro CD do grupo, SE NAO E EU QUEM VAI FAZER VOCE FELIZ,SE NAO E EU QUEM VAI FAZER VOCE FELIZ. fui fa dom grupo aos 17 a 20 anos, saudades

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    1. tambem sentirei. assisti a um show deles em São Luis ao lado do meu amigo Raoni Pacheco, filho do meu grande amigo Alan Kardec Pacheco

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    2. Senti falta do posicionamento do versura, sobre a morte de Hugo chaves, Será que o chavismo permanecerá como outrora?

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    3. meu caro (a) . eu já havia escrito dois artigos sobre a morte do chaves em janeiro. dá uma passada lá.

      abraços do henrique

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