quinta-feira, 4 de outubro de 2012

A disritmia do mundo




A aceleração das relações sociais, a pressa nas cidades, o conturbado movimento de trabalhar cada vez mais, aumentando a mais-valia relativa ao trazermos trabalho para casa, a necessidade de respostas para tudo full time, projetou-nos para o hiperespaço em que somente a velocidade da informação é capaz de suportar tanta ferocidade. 

O tempo virou um espectro simbólico apenas demarcatório dos objetivos a serem alcançados, não mais uma suspensão, uma aprendizagem e ensinamentos da vida. Até a história sucumbiu à centrifugação dos fatos; é impossível refletir sobre o que nos acomete.

A nossa aceleração precipitou a terra também num processo acentuado de seu movimento, mais rápido, segundo o físico alemão W. O. Schumann (a metodologia que aplicou sobre a aceleração da terra se chama ressonância Schumann).  A terra passou a movimentar-se mais rapidamente, portanto, não é apenas uma percepção sensitiva, é real, hoje, começa a movimentar-se mais lentamente.

Movimentos como slow food, slow science, e outros congêneres, apontam no horizonte a preocupação com a nossa capacidade de produzir, produzir, cada vez mais ao ponto que o nosso corpo precisa ser automatizado para suportar a densidade das transformações e da velocidade.

A pergunta que não quer calar? Para que mesmo a aceleração do tempo? Conquistas? E depois das conquistas, faz-se o que com elas? Sorve-se, aprende-se ou vai-se em busca de mais conquistas, vide que nada nos preenche? 

A nossa percepção sensorial foi afetada, fazemos várias coisas ao mesmo tempo, mas me questiono se temos de fato a capacidade de selecionar o que de fato é importante para nós. Aliás, ainda é possível julgar o que é importante e/ou supérfluo?

Por essas e outras razões que a poesia perdeu parte do seu sentido enquanto consumação, não enquanto significação. Não há mais tempo para ler, sobretudo, poesias. O tempo urge. Para ler poesia é preciso ter tempo, não ter pressa, é preciso ser sensível. Não dá para ser sensível num mundo acelerado e altamente competitivo. É preciso romper com esse tempo.   



Cortar o tempo



Quem teve a ideia de cortar o tempo em fatias,

a que se deu o nome de ano,
foi um indivíduo genial.

Industrializou a esperança, fazendo-a funcionar no limite da exaustão.

Doze meses dão para qualquer ser humano se cansar e entregar os pontos.
Aí entra o milagre da renovação e tudo começa outra vez, com outro número e outra vontade de acreditar que daqui pra diante vai ser diferente

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