quinta-feira, 16 de agosto de 2012

O papel dos intelectuais

O conceito de intelectual, com a proporção que concebemos atualmente, foi cunhado na França do século XIX no conhecido caso Dreyfus. De lá pra cá, o papel dos intelectuais tem sido controverso, ora de admiração, ora de espanto, ora de silêncio. 

Gramsci se tornou figura de proa na critica à política italiana e um dos grandes pensadores sobre o papel dos intelectuais. A Escola de Frankfurt (Adorno, Benjamim, Marcuse e Horkheimer) figuraram como peças importantes na critica da indústria cultural, da politica, do pensamento ocidental e da função da filosofia. Hannah Arendt versou sobre as origens do totalitarismo, da concepção de história, entre outras questões. Foucault revolucionou o mundo com sua concepção de microfisica do poder. Tantos outros deram contribuições importantes no desvelamento das questões sociais. 

Mas a questão é: Porque hoje os intelectuais não ocupam mais o mesmo espaço que antes? Intelectuais continuam existindo e dizendo coisas interessantes, tais como: Marilena Chaui, Bauman, Zizek, Lipovetsky, Todorov, Agambem, dentre outros, no entanto, a ressonância e a reverberação mudaram de lugar e de tonicidade. A falência de uma concepção ocidental de politica, de democracia, portanto, de politica, o avanço rápido do capital para todas as áreas das atividades humanas, a velocidade da informação compõem esse cenário de aparente silencio dos intelectuais.

A forma como consumimos tudo, sobretudo informação, e a necessidade mercadológica de processar sem defletir sobre o que estamos fazendo no afã de consumir algo novo, são um dos elementos de difícil escuta sobre o que os intelectuais estão falando. Há também a própria dificuldade destes em acompanhar na mesma velocidade toda aceleração do tempo.

Entretanto, o que considero perverso mesmo é a estratégia de esvaziamento do espaço público, do debate, do controle do grande capital sobre a imprensa, e, pasmem, da lógica de produtividade que se abateu sobre a academia como forma de tornar obsoleta, chata, demodé, qualquer tentativa de reflexão. Paira no ar uma letargia, uma contramarcha do pensamento. A academia, lugar de excelência dos intelectuais, hoje é um espaço onde cada vez de discute menos, para um número menor de pessoas. 

Há uma espécie de saturação da reflexão. Tudo que exige leitura, tempo, amadurecimento, é logo associado a algo desinteressante. 

Cabe também uma critica aos intelectuais, na verdade, várias. Eles também se afastaram da vida, das questões sociais, ficaram cada vez mais encastelados nos seus birôs tentando decifrar o mundo longe dos movimentos sociais, culturais, enfim, de onde de fato deveriam estar, auscultando as ruas, de onde brota a informação, onde pulsa a contradição entre o teórico e o prático. 

Neste novo milênio, seguindo as sugestões de Ítalo Calvino (Seis propostas para o próximo milênio), há o desafio de continuar a exercer-se a prática intelectual aliada à outras vozes, linguagens, que também pensam a vida de sua maneira, nem melhor, nem pior, diferente. 

O novo intelectual tem que ser sensível, integrado a questões sociais, aberto, inquieto, holístico, se quiser se comunicar com a sociedade, caso contrário, será apenas uma figura tão absorta em si mesma que perderá a capacidade até mesmo de fazer uma leitura do mundo. 

Do outro lado, também é preciso desconfiar de todo discurso anti-critico, anti-intelectualizado que tenta fazer tábula rasa de tudo, banalizando tudo. Fatalmente isso é uma estratégia ideológica de combate ao exercício da crítica, do livre pensar, logo, serve a interesses mui específicos. A quem interessa essa postura? 

Foi por causa da atividade intelectual na França do XIX que se provou que Dreyfus nunca fora um traidor. 

Os intelectuais possuem um papel importante na sociedade, ainda.                                

6 comentários:

  1. Henrique, penso que há um grande problema quando tratamos dos intelectuais no Brasil. Muitos estão atrelados à política partidária, o que acaba por distorcer um discurso sobre "as questões sociais" por exemplo, como você colocou. O geógrafo Milton Santos já afirmou que os intelectuais são cada vez mais exíguos, enquanto o número de letrado só cresce; disse ainda que o papel dos intelectuais é o compromisso com a verdade. Mas eu pergunto , onde está a verdade no Brasil? A democracia está ferida por todos os lados; O Marxismo e o pensamento crítico perdem terreno a cada dia no mundo e os estudiosos estão cada vez mais a serviço do poder. Por isso corroboram com o chamado "discurso único do mundo" e não param de olhar para o próprio umbigo!!! Os intelectuais, ao antigo e bom modo Sartre por exemplo, infelizmente, são seres à beira da extinção!!!

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    1. Eduardo, eu pensei em citar o sérgio miceli(os intelectuais e a classe dirigente no Brasil) sobre a relação entre os intelectuais e a politica, mas ai vi que iria enveredar por um outro caminho. Porém, concordo plenamente com tua avaliação sobre a relação dos intelectuais brasileiros e a política. Náo acho porém que os intelectuais estejam a beira da extinção, só penso que precisam se reinventar

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  2. otimo pensamento, esse blog é uma ferramenta mesmo que limitada a um numero de leitores a reflexoes, nas palavras de Abjujamra "um periscopio sobre o oceano do social", nao existe conhecimento sem duvida, angustia e inquietaçao, espero a posteriori contribuir bem mais para espaços como esse.

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    1. querido alvaro,. obrigado por suas palavras de incentivo, nao sabia que o versura era uma periscopio sobre o oceano do social. que lindo isso. conto com sua colaboração sim. beijos na alma

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  3. Durante a construção da história da humanidade, podemos perceber inúmeros momentos nos quais a presença dos pensamentos dos intelectuais tornou-se de suma importância para a mesma, seus pensamentos diferentemente dos dias de hoje, em sua grande maioria, ajudavam e colaboravam para uma evolução das sociedades de uma maneira aberta e aparentemente sem medo.
    A exposição de tais pensamentos causaram grandes revoluções, com ou sem sucesso, mas que de uma forma ou de outra fizeram a diferença nessa construção...
    E Hoje? Onde estão as inquietações dos intelectuais? Onde está aquela exposição com intuito de revolução? Torna-se complicado responder...
    Vivemos em um país onde se diz não haver mais censura, mas basta alguém expor suas inquietações e opiniões opositoras que vem um e manda matar... É difícil assim né...
    A “censura foi embora”, mas a ditadura continua... Em um país que os meios de comunicações obedecem aos que se dizem “superiores” e com pessoas que fingem não ver, por medo de tornarem-se alvos de ataques diretos ou indiretos...

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    1. flavia, os intelectuais continuam se inquietando, mas a questão é a reverberação dos seus reclames

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