domingo, 5 de agosto de 2012

Gare de São Luis

Fui visitar minha amiga Edna, minha ex-professora de francês, moradora da Vila Isabel, bairro sorridente, de uma atmosfera que muito me apraz. Além do reencontro, dos afetos recobrados, das boas lembranças de quando íamos impreterivelmente toda semana ao teatro, sempre por incentivo dela, trouxe na bagagem de presente gentilmente dado por ela a obra do francês Gilles Lapouge: Dictionnaire amoureux du Brésil (Dicionário amoroso do Brasil). 

Gilles Lapouge, jornalista do Estado de São Paulo, fez uma série de viagens pelo Brasil desde que aqui chegou. Essa obra acima citada trata-se de uma incursão por vários lugares do país, notadamente o Nordeste brasileiro. 

Ao folhear o livro, encontrei um capítulo dedicado à minha cidade intitulado: Gare de São Luis (estação de trem de São Luis). Entendi o presente singelo de Edna. Não havia me dito nada. O capitulo é singular, pequeno, mas profundo.   

Por que alguém escrevia sobre a estação de trem de São Luis? Quem conhece a cidade e a estação entenderia o olhar arguto do jornalista. 

Diferente dos viajantes do século XIX que passaram pelo Brasil, muito deles franceses, Lapouge não se coloca numa condição de colonizador, como quem visita o estrangeiro com ar de superioridade, tão bem representada na obra do memorável Prof. José de Ribamar Caldeira sobre os relatos dos viajantes que passaram pelo Maranhão no século XIX. 

O livro é um dicionário amoroso, logo, não se trata de comparações culturais entre este ou aquele país, mas uma forma singela de olhar para o Brasil num momento em que o próprio país não se reconhecia. No entanto, mesmo se tratando de uma admiração, a descrição do autor sobre a estação de trem é subliminar, subjaz uma crítica que talvez nem ele mesmo se deu conta.

Construção arquitetônica meio nababesca, a estação de trem de São Luís, hoje uma delegacia de Polícia, foi erguida numa fase já de decadência econômica do Estado. Antiga estação São Luís-Teresina, Lapouge queria ir de São Luís a Fortaleza de trem, mas questiona a falta de infraestrutura da malha ferroviária do país numa época em que ainda se viaja de cavalos, burros e de barco, logo depois, de carro e ônibus. 

A questão subliminar colocada é: por que aquela construção numa cidade de pouca movimentação ferroviária?  Lapouge sem se dar conta estava criticando a opulência da elite maranhense, os jeitos soberbos de uma sociedade que de forma imperiosa se recusa a olhar para frente e se engrandece do passado. Pura melancolia.

A viagem seguiu e a opulência da estação ficou para trás como um quadro de uma sociedade ensimesmada, autorreferenciada, entrópica. À frente, a paisagem do Nordeste; a beleza do relevo, morros, vegetação, gente, animais e o olhar apaixonado por um estrangeiro pela terra brasilis.   



2 comentários:

  1. Eu fico todas as semanas, aguardando tuas belas crônicas e, confesso, a espera sempre é brindada com uma leitura gostosa, aprazível. Parabéns e, que venham as outras!

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    1. querido (a) anonima. como é bom saber que aquilo que a gente escreve é esperado por outras pessoas. obrigado pelo incentivo. vou continuar escrevendo na esperança de que possas continuar a lê-lo.

      abraços do henrique

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