terça-feira, 31 de julho de 2012

Sobre pessoas e lugares

Ítalo Calvino em As cidades invisíveis fala dos múltiplos lugares imperceptíveis dentro das próprias cidades, e de outras que construímos dentro de nós. Assim, um turista ou viajante pode avistar e perceber coisas que os moradores apressados muitas das vezes não se dão conta. 

Fazer a travessia de barca Rio-Niterói é um desses exercícios para mim de revisitar a memória e de busca de novos olhares. Esse percurso trilho desde 1995, e é comovente refazê-lo. 

Em 2004, quando vim fazer a prova do doutorado, a travessia foi carregada de tensão, mas não menos de desejo de que aquela paisagem se repetisse em minha retina por um ano. Após o resultado, foi isso que se comprovou: acompanhado dos meus amigos Agenor Júnior, do Ceará, e Márcio Both, do Rio Grande do Sul, tais viagens, sempre na frente da barca, tendo o vento por companhia, constituíram-se num exercício do olhar à procura de novas facetas ao longo da travessia. 

Nossas retinas buscavam tudo: dos transeuntes apressados à procura do melhor lugar na barca, da silhueta de Niterói, do Pão de Açúcar no Rio, da grandiosidade da Ponte (Rio-Niterói – obra da ditadura militar), dos aviões que passavam por nossas cabeças como se nos escalpelassem e causassem a sensação de que iriam pousar no mar, do avistar do Cristo distante, sempre de braços abertos, da poluição da Baía de Guanabara, a mesma que Claude Levi-Strauss achou feia pois lhe pareceu uma boca banguela. 

Ontem, fui visitar minha amiga Lícia Cristina da Hora, que faz mestrado em Educação na UFF em Niterói. Conversarmos horas sobre política, o cenário eleitoral de São Luís, por sinal, empobrecedor, política universitária e nossas velhas trincheiras marxistas. Queríamos tê-lo feito na praia de Icaraí, mas o tempo nublado não permitiu. Não faltou, claro, o significado de novas paisagens na vida dela, morar em outro lugar, revisitar o seu lugar sobre outra ótica. 

Quando atravessei ainda do Rio para Niterói à tarde, levei minha câmera no afã de revisitar minhas imagens – memórias, fui surpreendido por uma nova barca; mais moderna; mais luxuosa – e que impede os usuários de viajarem na proa –, na parte de fora. Foi broxante. Depois fiquei sabendo que o preço da passagem subiu de R$ 2,35 para R$ 4,15. Houve manifestação, piquete e muito protesto. É um absurdo privar as pessoas menos aquinhoadas financeiramente de ir e vir pelo abusivo aumento de preço. Se eu estivesse lá fatalmente também protestaria. 

Na volta, já de noite, tive a sorte de pegar uma barca “velha”: a mesma que eu, Agenor Junior e Márcio Both pegávamos em 2005. Claro, fui para a frente pegar o vento, vendo as luzes de Niterói, do Rio, dos carros sobre a ponte, a baía poluída da Guanabara, o Cristo distante. Imaginei Agenor e Márcio ao meu lado e pensei no que falaríamos 7 anos depois, qual cidade invisível contemplaríamos nessa noite. Uma melancolia tomou conta de mim. Peguei o telefone e mandei mensagens para alguns amigos. Aquele momento era meu, mas eu queria compartilhá-lo. Dei-me conta quando cheguei ao Rio que estava me despedindo da cidade. Era hora de voltar para casa. Nesse exato instante, um avião passou sobre minha cabeça me escalpelando o couro cabeludo e me dando a sensação de que iria cair no mar. Sorri.  

Peguei um 415 Usina direto para Tijuca para a casa de minhas primas Eliane e Ellen. Motorista apressado, como sempre. Meus olhos buscavam a cidade: a Candelária com seus meninos mortos na calçada, o Centro Cultural Banco do Brasil, a Avenida Getúlio Vargas, as luzes, a pobreza, os contrastes, os mendigos e pedintes, “as meninas da noite”, as favelas, o camelódromo, a Marquês de Sapucaí, mesmo sem carnaval, iluminada, o Comando Geral do Exército. Transportei-me para 31 de março de 1964, golpe militar, exatamente durante o comício da Central do Brasil, do lado do Comando Geral.

Cheguei à Tijuca. Chovia. Era minha melancolia se despedindo da cidade. 

Qualquer dia eu volto. Até lá, vou enxergar outros Rios invisíveis dentro de mim.                          












         

6 comentários:

  1. Sou simplesmente apaixonada por seus textos, sua forma de escrever! Parabéns...

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    1. Flavinha. Obrigado pelos comentários. Teu incentivo me impulsiona a continuar escrevendo

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  2. A forma como tu expressas tuas emoções é fascinante, e não há como ser indiferente àquilo que escreves. Simplesmente, fantástico. Parabéns! Margô

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    1. mana, não sei o que te dizer. Obrigado. Te amo.

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  3. Querido amigo Henrique,

    foi muito bom vê-lo, reencontrá-lo, nunca a mesma pessoa, agora com sonhos diferentes, um olhar fascinante pela vida, espírito de aventureiro, cheio de dúvidas, exalando mais arte do que ciência, mas sem perder a capacidade de reflexão sobre o mundo, agora com a leveza da literatura e da poesia, antes presas nas teias da lógica produtivista da academia. Gostei mais do que vi do Henrique no Rio do que daquele Henrique que conheci em São Luís, acho que prefiro o primeiro ao segundo. Ele é mais leve com a vida e torna a vida mais leve.

    Muito bom vê-lo e saber que estás bem.

    beijo grande,

    Lícia Cristina da Hora.

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    1. minha querida amiga Licia. quanto tempo nos conhecemos e como nossa amizade amadurece como um bom vinho. como é bom saber de ti que hoje sou melhor que antes, acho que sim, ao menos essa é minha busca, nem por isso fácil. lá se vão anos de reflexão, angustias e muitos erros no caminho. sou um viajante, não um turista. não quero chegar, quero caminhar. me orgulho de nossa amizade e foi muito bom te reencontrar na cidade que tanto amo. também estais mais madura, mais calma e plácida, sem perder o sendo de justiça da vida, por isso te admiro tanto.

      beijos grande do amigo henrique

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